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março 01, 2008

ADORÁVEL FIGURA DE ESTILO!

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Will Kramer

O poder está nas sociedades como o branco na pintura. Sem o óleo mágico que reflecte por igual a luz, as obras dos grandes mestres não teriam nascido. Todos precisamos do poder, no mínimo, o poder pequenino dos pequeninos. Do mesmo modo, sem tinta branca, um amador de pintura estarrece e nenhuma forma «sai» da tela, subitamente triste e sem vida. Depois, o poder origina o perdão. Esse toque de simulada e inefável grandiosidade.

O “perdão” de hoje é forma de polidez que na bolsa de valores sociais vale tanto como um pedido de desculpa, o “faz favor” ou o “muito obrigado”. Usado após uma pisadela, deixar o automóvel quinze minutos a bloquear outro que precisa sair, um gesto brusco ou num atraso. Tudo muito light e inconsequente. O máximo que pode acontecer é o Outro dizer que não desculpa. Vai daí, é dito rezingão, intolerante, com mau feitio. Certo o desconforto da incompreensão alheia.

Quem se leva muito a sério, gosta de conceder o perdão – adorável figura de estilo! – em cenas de elevado tom dramático. Não dispensa lágrimas e garantias de arrependimento, gestos magnânimos, rancores e desdém que acentuam a assimetria do poder por parte de «juiz» e «réu». Delirantes são os jogos de perdão nas relações amorosas. Nas assimétricas, algumas encaixam este estilo retórico e apaixonado. O desenlace é o costumado quando as lágrimas secam. E há quem nele se vicie. Não eu.

Publicado por Teresa C. às março 1, 2008 02:36 PM