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março 12, 2008
ANTES DE MODGLIANI

Antes de Modigliani, foi tempo de viagem. Ponte entre idear pernoita em comboio e, vindo o sono, abrir o dia centenas de quilómetros além. Luxo que os voos low cost não aniquilam por haver quem persevere no mito e na utopia; na irreverente dimensão conferida ao viver. E era noite em Santa Apolónia. O halogéneo não lograva empalidecer faces que a ilusão desenhava risonhas. (a)Ventura enrubescida. Desejo de beber a noite e apagar distâncias. Adiar o sono. Deslizar com luz pelo breu. Dos subterrâneos de Chamartin, partir de novo. O azul viria nas ruas desertas. Estremunhadas. Vazias. Molhadas, fosse pelo levantar da noite fria ou pelo asseio urbano. A bagagem rolando com tumulto na calçada. O barro cozido como limite vertical. O alcatrão do mapa quase vazio. Pouco a pouco, encaminhando destinos nativos para um dia igual.
Quando o sol acalorou a subida da Glorieta de Santa María de La Cabeza para o Reina Sofia sem de Ícaro lograr derreter as asas, evaporara-se o cansaço da vigília pela cama entalada. Mais à frente, esperava a temporária de Picasso. A transgressão na forma e na técnica. Telas fendidas ao meio por um traço ou por um ícone. Contorno a negro das figuras que, sem ele, à mesma saltariam do fundo. Omitidas regras e normas e o que outros estabeleceram como feridas mortais à nobre arte da pintura. Um esboço. À frente, a consumação da obra perfeita segundo os canônes tradicionais. Por último, a descontrução somente possível a quem do real entende as linhas primevas e com elas brinca até remanescer essência, espírito e cor. Sulfato mediterrânico na “Baía de Cannes”. Sangue negro, mão que floresce vida e empunha morte, o grito e a dor da “pietá” na “Guernica”. A luz trémula e o olhar de um Senhor distraído perante o sofrimento da Espanha. Força de touro na ressurreição de um povo e de um país. Que repetidamente amara e, entretanto, esquecera.
(continua)
Publicado por Teresa C. às março 12, 2008 07:41 AM