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março 05, 2008
COM AÇÚCAR E SEM CANELA

Marcel Franquelin
Ele convidou-a para jantarem. Ela achou o acto íntimo em demasia. Um café, enfim, talvez, porque não? Ele cedeu. Atendendo ao fim em vista, sugeriu as nove da noite. Que sim, que estava bem, até lhe dava arranjo a hora por gostar de se deitar cedo. Aprazado o local, desligaram. A tarde dele correu devagar à revelia da adrenalina. Pelas sete, duche e perfume e traje de violino. Meia hora depois, uma sopa e uma sandocha; jantar leve mais pelo não do que pelo sim, à conta do recato que a pequena significara.
O encontro. O café com açúcar e sem canela. Podia ter sido zurrapa que ele tê-lo-ia bebericado conservando nos lábios o sorriso dos dias de engate. As achas que enviava para atear a conversa não logravam a fogueira, menos ainda o incêndio. Temendo a companhia desfeita após a ceia que o não fora, avança para toques subtis. Nada. “Está feito! É tempo de acabar com esta chatice e tratar de aviar sozinho o serviço.” Paga a despesa. Cavalheiro, propõe-se acompanhá-la ao carro dela. Que não, que viera de táxi. “Ora, que não seja por isso! Levo-te a casa.” “Casa? Sim, para a tua.” Ele, que na situação pouca clareza via, acedeu de pronto, não se arrependesse a criatura.
Portas adentro, “queres uma bebida”, “não, obrigada!”, a coisa não progredia. Pelas onze, ela afirma estar na hora de ir para a cama. Ele, maldizendo a vida, já se erguia para ir buscar a chave do carro, quando a ouve perguntar pelo quarto. Sem palavras que lhe saíssem do gorgomilo, indica-lho. Ela abre a mala; sim era volumosa, mas qual a mulher que não pendura ao ombro um cabaz? Sai a camisa e a escova de dentes, mais os preservativos e produtos de higiene. Despe-se. Sentada na beira da cama testa o colchão. Deve ter sido aprovado porque, função terminada, dormiu como uma justa toda a santa noite.
Publicado por Teresa C. às março 5, 2008 09:01 AM