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março 22, 2008
ADÓNIS-COELHOS E OVOS DA PÁSCOA

Autor que não foi possível identificar
Pintar e enterrar ovos é tradição ancestral que simboliza a fertilidade prometida pelo equinócio da Primavera. Os povos pagãos celebravam-no glorificando Ostera, a deusa da estação por ora inaugurada. Como ícone, uma mulher com um ovo na mão, alegremente observada por um coelho do qual é sabida a inquestionável fertilidade. “Reproduz-se como coelha” é metáfora pouco elegante, conquanto expressiva, usada para mulheres que engravidam à menor provocação de espermatozóide despachado.
Devido à proverbial pelintrice lusitana, enterrar ovos não faz parte das nossas tradições pascais. Temos os folares - bolos em forma de ninho de onde espreitam ovos cozidos -, ofertados pelos padrinhos e presentes nas mesas cobertas por alvas toalhas, perfumadas por ramalhetes de açucenas, goivos e glicínias. Se noutros povos os usos de antanho e de hoje não contemplam comer os ovos-símbolo, salvo os confeccionados em chocolate, por cá marcha tudo para o gorgomilo consumidor: bolo, clara e gema. Há lá possibilidade de desperdiçar alimento quando a carestia e a penúria económica é comum denominador nacional?
Pelas mulheres atrevo a fala. Fossem esvaziados do conteúdo proteico os ovos da Páscoa, tenho por certo o que gostaríamos de saber como recheio do símbolo – saúde, trabalho e homens feitos à medida das nossas ilusões. Homens inteligentes, emocionalmente estáveis, com humor, cuidados – os embalados em traje assisado e apetecível, delicadamente cheirosos e bem calçados continuam em alta no mercado feminino. Se acrescerem modo de estar tolerante, leal, cúmplice, irreverente e carinhoso, diligência na cama e na profissão, está completo o retrato dos Adónis contemporâneos.
Dos ovos que entremeiam folares podemos duvidar do prazo de validade e hesitar em comê-los. Fossem estes novos Adónis o conteúdo da casca oval, o paraíso seria meta e partida de apetites insaciáveis, mesmo sabendo que enquanto ressonam ao nosso lado, fornicam com a Sandra do escritório.
Nota - crónica publicada no PNET Mulher
Publicado por Teresa C. às março 22, 2008 01:24 PM