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março 31, 2008
ANTES INFELIZ QUE IDIOTA

Tim O'Brien
Na estatística social é de louvar a tentativa da converter em números realidades, opções e sentimentos. O entendimento da felicidade é um deles. Doutos conceitos há muitos. O mais simples remete para a figura romântica do "bom selvagem", nascido no século XVIII pelo filosofar iluminado de Rousseau. Pertence-lhe o enunciado da bondade original do homem que a sociedade corrompe. Na vida privada, o pensador foi descrito como um malvado, hipócrita, conflituoso e arrogante. Um infeliz. Qual o enquadramento que o terá corrompido? A história não responde e vem, lesta, a conclusão do “bom selvagem” ser um mito.
Indagada a felicidade dos cidadãos de muitos países, a estatística definiu o ranking. Nos dez primeiros, o povo da Colômbia, conflagrado por uma guerra civil e pelo narcotráfico, e o de Cuba, oprimido pela herança da ditadura geriátrica de Fidel Castro. Elaborado, o perfil das pessoas felizes, concluiu: normalmente são casadas, cultivam muitas amizades e têm vida social atarefada. Como a maioria dos humanos não atende ao retrato, tem registo no catálogo da infelicidade do catálogo.
Não há números que contornem a abstracção do conceito. Viver isento de contratempos como sinónimo de felicidade adia o sentimento para o paraíso religioso. Para o Além das nuvens fofas onde S. Pedro apascenta os mortos bons. Quem o conceito entende como manta de momentos felizes, tem-nos por efeitos colaterais positivos da vida. Arrebanha os que pode. Deles cuida como bem mimoso que à mínima distracção definha. Existindo o sujeito descrito no perfil ideal dos manuais de busca da felicidade, quem o invejaria? Ninguém em lúcido estado de vigília. A estatística que me perdoe, mas antes infeliz que rematada idiota.
Publicado por Teresa C. às 08:35 AM
março 30, 2008
UMA PRETZEL E UM CAFÉ

Pino Angelico
(...),
A lesão no pé, a tal nascida no passo rápido e gingado durante a aula de dança, é mais teimosa que eu. Como desleixo poupar o corpo e dos saltos não prescindo, ouvi as queixas do músculo e encurtei o serão. Troquei-o pela fruição da macieza que forra os metros da cama. Bem-haja que prolonguei. Eu, a madrugadora, acordou ia a mais de meio a manhã. O tempo, meu – aceno com tanto de escasso como de libertador. Um duche, jeans e ténis, cabelo amarrado num gesto rápido e, a pé, gozei a hora em falta para o dia meio. Uma pretzel - gosto que enraizei na Big Apple - e um café . Descobri o novo "comércio tradicional" deste bairro de esperança. Gosto do lugar, da normalidade diferente deste novo estar. Sereno e simples. Liberto. Inebriado pela doçura dos dias. Já mal lembrava tempo assim. Delicioso, delirante, divertido. Definitivamente, este é o desejado ciclo dos três «D».
Até logo,
Teresa C.
Hoje:
”O Espectáculo da Vida de Cada Um” - "A morte senta-se sempre na primeira fila. Imóvel, impassível, impenetrável."
Blogosfera:
Publicado por Teresa C. às 11:24 AM
março 29, 2008
DOS «AJUNTADORES»

Kath Birch
Ouvir a mesma canção. No entendimento dos corpos que coreografam a melodia, são enlaçados espíritos. Entre as pontas da distância, firme o nó que a espinha de cimento, ribeirinha, testemunhou. Porque é favor do acaso cruzar geografias. Mapas de memórias. Cicatrizes. Projectos (sonhos?) intocados no tempo maduro. Olhando a sinuosa estrada percorrida, a parte melhor. O andado como aproximação do horizonte que as cinzas não toldaram. Invisível para os demais. Canção excelsa quando arrepia e comove e recolhe dois.
Colecções de medalhas. Há quem nelas empenhe bens, lazeres e entrega. As catalogue e arrume por data, autor e nobreza da matéria. Revele com indisfarçado orgulho. Da mostra, as peças menores amontoe num canto escuro - ocultas, não deslutrem ou questionem a sabedoria do coleccionador. As dores e alegrias, o passado e o presente, o excelso e o lodo constituem a numismática das vidas. Desprezar lances do histórico individual que não glorifiquem a persona exibida é fingimento. Medalha enferrujada sem préstimo ou valor, que, num descuido, cai do oculto para onde foi remetida pela arrogante banalidade do «ajuntador».
Publicado por Teresa C. às 10:00 AM
março 28, 2008
NA OBSCURIDADE DO CAMAROTE

Mark Keller
O dia era do Teatro e foi no São Luiz que a voz subiu ao palco. Com ela uma guitarra, a viola portuguesa e um baixo. Casa cheia de amigos e amigos dos amigos que amigos são. Mafalda Arnault, porque dona da voz, anfitriã. O fado. Lisboa, de novo, menina e moça. Sumidas as luzes e os flashes fotógrafos, o São Luiz foi templo de beleza que os veludos e dourados ofuscou. Na obscuridade do camarote central, foi tempo de arrepio emotivo determinado pelo exaltação estética. De harmonia com o trascendente ao alcance dos humanos. No caso, mulher. Corpo de junco, gestos em pas de deux com o etéreo. Primeiro, foram rainhas as costas desnudas pelo Nuno que, gentilmente, se lembra de mim. Após exclusivo e deleitoso conjugar dos músicos, resplandeceu o peito domado pela voz. Em fundo, tira esguia de ilusões floridas. Inesquecível, também, “La Boheme” em fado reolhido. Como a “Maria” rezada no encore. Foi o sublime que subiu ao palco do São Luiz. Da subjectiva apreciação, devo metade à companhia. E reconheço, amigo: o São Luiz peca pela ausência de cabides na antecâmara dos camarotes.
Publicado por Teresa C. às 08:35 AM
março 27, 2008
AMBIÇÃO SEM CAPACIDADE

Larche
Défice em vias de contenção, o IVA baixa 1%. Vitória dos portugueses, dizem os entendidos ou os politólogos de ocasião. Destes, todos temos um pouco, como de árbitros de sofá, moralistas de olho vazo para a conduta própria, ou pedagogos não praticantes. O senso comum ainda é referência. Filtro imprescindível à leitura do quotidiano. Sob esta perspectiva, Júlio Dinis terá sido o primeiro politólogo. O método biográfico como recurso - histórias de vida e memórias dos agentes importantes na vida pública do seu tempo. Sociologia do quotidiano que fornece impressões, factos, imagens. Para ir além da persona, são os pequenos incidentes da vida, no seu casualismo e contingência, os fragmentos do viver íntimo e das preocupações públicas que maior relevância têm. Talvez, alimentando este raciocínio, as revistas cor-de-rosa prestem, quem diria?, serviço público.
Após o massacre de YouTubes bufando peixeiradas, é a diminuição do IVA que capitaliza atenções. Brando indício de viver menos opressivo para os portugueses. Endividados. Infelizes. Fartos de mentiras na condução da polis pelos players do costume. Incapazes, que não à própria custa, de desocultarem o lugar da mentira na política. Já Chateaubriand dizia: “ambição sem capacidade é crime.”
Nota: crónica publicada no PNET Mulher
Publicado por Teresa C. às 09:45 AM
março 26, 2008
SHAKESPEARE JAMAIS ARRANJARIA EDITOR NOS DIAS DE HOJE


Archie Dickens e Amanda Besl
"Já sei que a educação não é o que era. Já sei que foi retirada aos professores toda e qualquer autoridade. Já sei que os miúdos de hoje são demasiado mimados. O que eu quero saber é o que pensariam se, em vez da professora ter tirado um telemóvel à rapariga, tivesse tirado uma carta de amor.
Os adultos morrem de vergonha de quem eram em adolescentes e de alguma forma reprimem essas memórias. Em vez de fazerem as pazes com o seu Eu adolescente e pedir-lhe a opinião, julgam os adolescentes como adultos com borbulhas a mais e rugas a menos. Julgam-nos do alto da sua experiência e hormonas controladas.
Eu fiz as pazes com o meu Eu adolescente. Perdoei-lhe que ela achasse que era imortal e ela perdoou-me o não ter ganho um Óscar antes dos trinta. Quando vi o vídeo da aluna a lutar com a professora pelo telemóvel, quis saber o que levaria uma adolescente a tanto, por isso coloquei-me algumas perguntas:
Joana, 28 anos: – Qual é o maior medo de uma adolescente?
Joana, 15 anos: – Ter um segredo revelado.
Joana, 28 anos: – O que é mais importante para uma adolescente?
Joana, 15 anos: – O amor.
Joana, 28 anos: – Adultos?
Joana, 15 anos: – Não são de confiança.
A minha conclusão? A aluna tinha no telemóvel um SMS do namorado e ficou cheia de medo que a professora o lesse. Era tão lógico, tão óbvio, que nem pensei mais no assunto.
Mas poucos pensaram como eu. E durante dias, em vez de se falar de questões como a permissividade e a falta de respeito por figuras de autoridade, vi especialistas a afirmarem na televisão que os jovens de hoje vivem em tal estado de hedonismo que não conseguem estar sozinhos com eles próprios sem terem de comunicar durante uma aula (sim, porque antes dos telemóveis ninguém trocava papéizinhos durante as aulas); espectadores a queixarem-se que para os jovens é mais importante um telemóvel que a educação; tiras de BD a falarem de telemóveis de última geração...
Tão importante que é o telemóvel!
Hoje, num jornal, li um artigo em que o conselho directivo da escola Carolina Michaelis tinha chegado à conclusão que o telemóvel continha provas duma relação escondida pela aluna e que ela tinha ficado aterrorizada com o perigo da professora as descobrir. Professora essa que, segundo alunos da escola citados pelo mesmo jornal, não será essa santa mártir com a qual todos se têm solidarizado.
A sério? A sério que demoraram tanto tempo a chegar a tal conclusão?
Mas foram tão rápidos a rotular aquela Julieta que defendia as cartas de amor do seu Romeu como ícone de uma geração superficial e sem valores. Como é que se pode pedir mais dos adolescentes, quando os doutos senhores são tão superficiais e tão sem valores, que automaticamente assumiram que o cerne da questão era o objecto e não o conteúdo?
Todas as SMS de amor são ridículas. Se não fossem ridículas não seriam SMS de amor. Só muda o suporte. O conteúdo continua a ser tão intemporal e fundamental como sempre foi e a modernidade nada tem a ver com isso."
Joana Eça de Queiroz, Cronista Convidada no PNET Mulher

Deborah Poynton
A meio da escrita de uma crónica sobre este (mal)tratado assunto, enche o monitor o magnífico texto acima transcrito. Detive-me pela convergência do meu ponto de vista com o da Joana Eça de Queiroz.
Não tenhamos dúvidas - somente a idiossincrasia nacional de chafurdar nas misérias até delas fazer monstro lodoso explica as proporções que o acontecimento gerou.
Como noutros, também neste triste caso erraram todos: a aluna pelo desrespeito e violência; a turma pela cumplicidade; a professora por falta de autoridade e de atitude pedagógica adequada; a escola pela complacência e ruidoso silêncio; a família pela demissão na tarefa de educar com responsabilidade; a comunicação social pelo ênfase (des)propositado e fácil.
A violência nas escolas é uma consequência da desestruturação social. Mal vamos se não fizermos mea culpa. E não fazemos. Preferimos remeter as insuficiências para fantasmas obscuros, agitados por vendavais de interesses fáceis de indentificar.
- Sobre este tema ler a "Ponta do Icebergue" escrito pela Marta Botelho e "Olha a Velha que vai cair!" do Rui Pelejão.
Publicado por Teresa C. às 08:43 AM | Comentários (5)
março 25, 2008
“CUÁNTO MÁS PELIGRO TIENE UM IMBÉCIL”

Jeffrey Isaac
Foi comovente o sorriso meigo de Bush ao lado de um Big Mac, sorry!, de um enorme Coelho da Páscoa. É de homem! Morreram quatro mil soldados americanos no Iraque, a economia vacila e persiste na ostentação de uma felicidade bovina. Aliás, reafirma o mundo mais seguro por via duma guerra sem tino e com demora maior que a 2ª Guerra Mundial.
É necessário acender a chama olímpica para o Ocidente volver o olhar na direcção do Tibete. Reprimido, o povo tibetano é vítima da conspiração do silêncio da China, comunista e selvaticamente capitalista, combinada com o dos grandes empórios sediados no ocidente democrata. Não fora a China um mercado de mão-cheia, há muito os íntegros líderes mundiais verberariam a opressão. O massacre da Sérvia pela Nato devido ao Kosovo problem prova que os grandes só dão “caldos” a quem é menor que eles.
Juntar trapinhos sem papel timbrado é o sub-reptício convite do fisco aos contribuintes. Os candidatos a parcerias afectivas estáveis podem arrebanhar uma dúzia de padrinhos, celebrar o compromisso num festão e voarem para a Polinésia Francesa. Garantia: não preenchem formulários burocratas ou ficam sujeitos a expor as minúcias e o montante da factura.
“Qué miedo me dais algunos. En serio. Cuánto más peligro tiene un imbécil que un malvado...”
Publicado por Teresa C. às 09:18 AM
março 24, 2008
MIUDEZAS DO NINGUÉM-SOCIAL

Jack Vettriano
O poder não é solitário. Solitárias são as decisões enerentes ao exercício do poder. Mesmo do poder pequenino do ninguém-social ao decidir miudezas do caminho que traça. “Nadas”, dirão os poderosos majestáticos, aqueles que tremem economias ou obliquam vidas com uma assinatura. Insignificâncias serão, mas que o decisor toma em coma de dúvidas e(ou) obstinado como um castor que afadiga troncos para conter águas, até ele, folgadas.
No recolhimento duma esquina aberta ao rio, vagueia olhar e pensamento. Interlúdio que aparta raciocínios sérios e graves. O método científico auxilia e estabelece a sequência do labor lógico – define o problema, recolhe dados, formula uma hipótese, testa-a e conclui. Em fundo, vaga de música e odor almiscarado. As palavras de Unamuno no “Solidão” pousado na mesa: “O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras.”
O amor é como milho de regadio (de todos os cereais o mais exigente). Para a excelência da broa são precisas sachas, regas, desbaste, apanha, malha e eira virada ao sol. Digo eu... Mote e tema para “Funduras Abertas e Húmidas” - “À masculinidade é atribuída a propensão sementeira. (...)
Publicado por Teresa C. às 09:28 AM
março 23, 2008
GESTOS COMO LINHOS

Alexandre Monntoya
Entrelaço nos lábios um beijo, desdobro gestos como linhos saídos da arca, escoo nos dedos afagos sabendo-os viciados em carícias. Vagas de ternura são marés nos meus olhos enovelados pelos sussurros do vento insurrecto que me sopra ao ouvido. Quero destes momentos o todo passado e futuro. Vem tempo! Chega-te a mim. Encosta o teu deslizar à memória do amanhã. Sabes-me mulher sem futuro. Que o dia esgota entre risos e paixões. Que destoa do convencionado como arara encarrapitada num pinheiro bravo. Que a mentira e a raiva e a inveja desdenha. Que do amanhecer tudo ignora e, por isso, escreve “Fim” no momento em que o corpo espreguiça nos lençóis.
- Obrigada, amigo, pelo seu carinho ao publicar o Monster in Law”. “Não o esqueço.
- “Lavar Culpas” mereceu recomendação ao Paulo e ao Zé. Honra-me o vosso gesto.
- Para ler e pensar: "Porque Hoje é Domingo” e “Encontros Acidentais”.
Publicado por Teresa C. às 10:00 AM
março 22, 2008
ADÓNIS-COELHOS E OVOS DA PÁSCOA

Autor que não foi possível identificar
Pintar e enterrar ovos é tradição ancestral que simboliza a fertilidade prometida pelo equinócio da Primavera. Os povos pagãos celebravam-no glorificando Ostera, a deusa da estação por ora inaugurada. Como ícone, uma mulher com um ovo na mão, alegremente observada por um coelho do qual é sabida a inquestionável fertilidade. “Reproduz-se como coelha” é metáfora pouco elegante, conquanto expressiva, usada para mulheres que engravidam à menor provocação de espermatozóide despachado.
Devido à proverbial pelintrice lusitana, enterrar ovos não faz parte das nossas tradições pascais. Temos os folares - bolos em forma de ninho de onde espreitam ovos cozidos -, ofertados pelos padrinhos e presentes nas mesas cobertas por alvas toalhas, perfumadas por ramalhetes de açucenas, goivos e glicínias. Se noutros povos os usos de antanho e de hoje não contemplam comer os ovos-símbolo, salvo os confeccionados em chocolate, por cá marcha tudo para o gorgomilo consumidor: bolo, clara e gema. Há lá possibilidade de desperdiçar alimento quando a carestia e a penúria económica é comum denominador nacional?
Pelas mulheres atrevo a fala. Fossem esvaziados do conteúdo proteico os ovos da Páscoa, tenho por certo o que gostaríamos de saber como recheio do símbolo – saúde, trabalho e homens feitos à medida das nossas ilusões. Homens inteligentes, emocionalmente estáveis, com humor, cuidados – os embalados em traje assisado e apetecível, delicadamente cheirosos e bem calçados continuam em alta no mercado feminino. Se acrescerem modo de estar tolerante, leal, cúmplice, irreverente e carinhoso, diligência na cama e na profissão, está completo o retrato dos Adónis contemporâneos.
Dos ovos que entremeiam folares podemos duvidar do prazo de validade e hesitar em comê-los. Fossem estes novos Adónis o conteúdo da casca oval, o paraíso seria meta e partida de apetites insaciáveis, mesmo sabendo que enquanto ressonam ao nosso lado, fornicam com a Sandra do escritório.
Nota - crónica publicada no PNET Mulher
Publicado por Teresa C. às 01:24 PM
março 21, 2008
LAVAR CULPAS

Autor que não foi possível identificar
Não é lícito comer carne. “Ao menos uma vez”, pela Páscoa, é obrigatória a confissão. A comparência nas celebrações penitenciais desta Sexta Santa dilui a culpa das infracções cometidas nos restantes dias do calendário gregoriano. Na paz de um templo católico, é certo o perdão colectivo; individual a todos aqueles que no genuflexório de um confessionário desfiarem pecados e pecadilhos. Do sacerdote embiocado por detrás de pesadas cortinas e locutório de madeira rendilhada, é quase certa a absolvição. Banho de almas que dali saem imaculadas se os cérebros à cata de redenção e os corpos ajoelhados cumprirem penitências – duas ou três Avé-Marias, o eventual Pai Nosso. As contas do rosário como lixívia para culpas maiores.
Neste dia, os cristãos lembram o julgamento, paixão, crucificação, morte e sepultura de Jesus Cristo. Pelo mundo, são diversos os ritos que o mesmo celebram. Nas Filipinas, conquanto o Vaticano condene, exaltados crentes recriam a crucificação de Cristo. Fazem-se pregar em cruzes erguidas no monte Cutud. Sangue, muito sangue e dor para gáudio da população. Espectáculo sem bilhete para um público mais ululante do que crente. Dos crucificados, alguns são repetentes - uma tal Amparo insistiu até à décima quinta crucificação. Os gritos “Dói, dói!” e “Perdoa-me senhor, perdoa-me senhor” são partilhados por aqueles que se chicoteiam ou cortam com vidros. Actos violentos e fanáticos julgados exclusivos do Islão.
Para quem da lavagem oficial das culpas não cuida, é fácil e não causa dano recitar o acto de contrição. Versão simples para os impacientes, completa para os minuciosos.
Acto de contrição (simples)
Meu Deus, porque sois tão bom,
tenho muita pena de Vos ter ofendido.
Ajudai-me a não tornar a pecar.
Acto de contrição (completo)
Meu Deus, porque sois infinitamente bom e Vos amo de todo o meu coração, pesa-me de Vos ter ofendido e, com o auxílio da Vossa divina graça, proponho firmemente emendar-me e nunca mais Vos tornar a ofender. Peço e espero o perdão das minhas culpas pela Vossa infinita misericórdia. Ámen.
Publicado por Teresa C. às 11:40 AM
março 20, 2008
ALFINETAR O OBTIDO

Antonella Cinelli
Especialistas defendem existir um amante de referência no psiquismo feminino. Alguém, convenientemente idealizado, que adivinha gostos, desejos, fantasias torcidas, sonhos e pulsar físico. Personagem que existiu de facto e foi depurada de mazelas, ou é mera elaboração psíquica. Em qualquer dos casos, competente na inspiração e no consolo. Porque virtual e realidade não combinam satisfatoriamente, sobrevem a inquietação. A dúvida. O desejo de alfinetar o obtido. A evocação recorrente do mesmo homem para a mesma coisa como pretexto para o dito cínico de ser precisamente essa a serventia dos maridos.
Estando a mulher em regime de facto ou de legítima parceria afectiva, é aconselhado como terapia para o terrível (tramado?) padecimento a escolha de um amante inábil e descartável. Dos argumentos razoavelmente convincentes, o primeiro é ético: quando comparado com o legítimo, este adquire fulgor dobrado. O segundo é conjuntural: os maus amantes abundam e são, paradoxalmente, muito bem sucedidos. Facto que por si catalisa positivamente a adrenalina e, por via dela, o desejo.
Descreio do remédio; porém, quando sexólogos credenciados o aconselham, quem aviar a receita pode sempre rebater - em vez de cometimento adúltero segue, à risca, uma terapia.
Publicado por Teresa C. às 09:13 AM
março 19, 2008
AMAR SEM CALENDÁRIO

Janice Huse
Nos calendários foram estabelecidos dias para solenizar isto e mais aquilo. Só em Março há catorze – a 8 foi dia da Mulher, no dia 15 o do Consumidor, 19 celebra a paternidade, a 20 dá o mote a Agricultura, a 21 a Floresta e a 22 a Água; o dia 23 é está por conta da Meteorologia, a 24 competem Estudantes e a Tuberculose; o Livro Português é lembrado a 26, no dia 27 foi acordado ir ao teatro e dar sangue, a 28 reverenciar a Juventude. Acrescendo Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa, quase metade do corrente mês está ocupado. E nem são contabilizadas efemérides do mundo ou nacionais – a 6 de Março de 1992 morreu Maria Helena Vieira da Silva, a 11 ocorreu o atentado na Atocha e engoliu a primeira golfada de ar Camilo Castelo Branco. No dia 14, o mesmo aconteceu com Einstein. “Arthur C. Clarke morreu ontem, dia 18, em Colombo, no Sri Lanka”. Bem contadas as comemorações, de Março não resta dia vago.
Salvo coleccionadores que trocam selos, moedas, pacotes de açúcar e caixas de fósforos por dias especiais, a poucos importa a entronização do amanhecer. É ainda e sempre a implacável rotina que espera as gentes ensonadas. Como soe dizer a vox populi, “É Natal quando o homem quiser”. Os sentimentos demarcam-se da rigidez dos calendários. Hoje, Dia do Pai, é exaltado o simbólico da paternidade. Desenhos infantis prenhes de ternura ou um beijo ou um sentido “amo-te, pai” são indiferentes ao dia estipulado no ano civil. E mal vão aqueles cuja necessidade de exprimir em gestos os amores e as emoções somente ocorre quando o alerta do telefone toca. Afectos assim, não obrigada.
Desde hoje, nas livrarias, o “Enigma da Praia da Luz” escrito pelo Frederico Duarte Carvalho. Cinco perguntas ao autor e outras tantas respostas.
O Enigma da Praia da Luz é uma ficção baseada no caso Madeleine McCann ou é o caso Madeleine McCann contado debaixo da capa da ficção?
Frederico Duarte Carvalho – Não posso negar uma evidência, mas esta é claramente uma ficção baseada em factos reais que, enquanto jornalista, tive a oportunidade de investigar durante o ano passado na Praia da Luz, Algarve. Não estou a criar nada de novo.
Como assim?
F.D.C. – Lembro-me, por exemplo, de António Tabucchi que ficcionou a história da morte na esquadra de Sacavém no livro A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro. É importante fixar certos casos mediáticos através de uma ficção e este livro preenche essa necessidade.
Porquê uma ficção em vez de um livro jornalístico?
F.D.C – Porque o caso ainda está aberto e não é possível chegar a uma conclusão. Mas, através de uma ficção, apresento uma história com princípio, meio e fim. Não posso adiantar muito sobre o enredo, mas revelo já que, no final, há uma criança que aparece.
Este caso é extremamente mediático e sensível. Está consciente dos riscos públicos de explorar o drama dos pais de Madeleine McCann?
F.D.C. – Como jornalista estou de consciência tranquila, pois sei que fiz o meu trabalho para que fosse encontrada uma solução em relação ao drama dos pais. Aliás, foi graças ao trabalho e ao esforço de jornalistas como eu que os pais puderam contar com a divulgação dos seus apelos em todo o mundo e beneficiar de avultados apoios financeiros para a busca da criança. E, obviamente, nunca me passou pela cabeça dizer que os McCann exploraram os jornalistas.
Teme poder vir a ser processado pelos pais de Madeleine?
F.D.C. – Sei que os pais decidiram processar alguns jornais ingleses e isso fez com que o caso perdesse impacto público. O livro é uma ficção e fala de factos que todos nós conhecemos dos jornais, mas apresenta uma história centrada na investigação de um jornalista e da sua companheira. Tenho a certeza que, tanto os leitores, como os pais de Madeleine McCann, irão perceber muito bem o que se passou.
Publicado por Teresa C. às 12:13 PM
março 18, 2008
APÓS-AQUILO-QUE-NOS-TRAZ-AQUI

Keith Garvey
Comovente iniciativa que me apresto a partilhar. Uma dúvida me inquieta: destina-se a fornecer-lhes os rudimentos para enfrentarem, destemidos, o dia-a-dia, ou corda sobresselente para o violino? Pela parte que às mulheres tocará das aprendizagens, julgo consensual, em qualquer dos casos, o agradecimento. Pelo sim, pelo não, e amestrados os futuros cozinheiros, às parceiras no género aconselharia dobradas cautelas. A primeira: jamais sobressaltar o palato na refeição inagural do par. O restaurante, um piquenique campestre preparado a meias, umas sandochas na praia são opções sensatas. Fazer perigar um potencial affair, namoro, ou destes qualquer variante à conta de engasgadelas, indigestões, azia, vómitos e quejandos é imprudente. Na fase das boquinhas encantadoras e dos olhos piscos, a incontinência de um esgar súbito pode ser fatal. Esvai-se o sorriso e fica torcida a boquinha em forma de beijo. Dos olhos piscos correm lágrimas, saltam dos míopes as lentes de contacto. Comprometer o antecipado gozo de futuras e suculentas refeições outras por uma espinha de bacalhau é risco ocioso.
O desfrute da gastronomia doméstica confeccionada por inábeis deve ficar remetido para o após-aquilo-que-nos-traz-aqui. Sendo de tarde, pela energia dispensada, para jantar qualquer coisa marcha. No depois dos amoráveis combates nocturnos, recomendo muita água, quiçá uma ceia de tabuleiro para os esfaimados. O pequeno-almoço almoçarado poderá constituir feliz oportunidade para demonstração de algumas (parcas?) habilidades culinárias. E antes do café que ergue, um a um, os sentidos estafados, nada do que importou fica obliterado se os ovos mexidos saírem papa viscosa.
- Um apelo do A. Costa Santos a precisar de resposta aqui: “Procuro senhora com piercing na língua para partilhar clandestinidade. Respostas a Pitbull Não Esterilizado”
- "Sete Anos de Mau Sexo", editado pela Guerra e Paz, está nas bancas. Prefaciado pelo João Pereira Coutinho e ilustrado pela Mónica Catalá, reune "crónicas constrangedoras" escritas pela Ana Anes."
- (...), não custa imaginar os milhares de adolescentes e strippers que nas próximas décadas terão que rumar a Espanha para poderem furar a língua e os genitais em condições de higiene e segurança.
Publicado por Teresa C. às 08:08 AM
março 17, 2008
MANIFESTO MASCULINISTA

Angelina Feldman
1.
Nas questões ligadas à discriminação e aos papéis sexuais, as mulheres já estão na sua, os homossexuais idem, os bi também, e até os machões se organizam e se solidarizam, como se viu no caso daquele cara que ferrou a mulher no rosto e teve apoio da Associação dos Maridos Traídos, fundada no Ceará. Todos os sectores se mobilizam. E como ficamos nós, que não somos mulheres, nem homossexuais, nem bi, e rejeitamos o modelo machista que nos é imposto desde criancinhas como a marca da masculinidade? A resposta está no masculinismo – uma movimentação crítico-autocrítica, reivindicativa, desfrutativa, solidarista e convivencial.
Sabendo que de carta de princípio e discursos generosos a humanidade já está de sacos e ovários repletíssimos, colocamos os dedos nas feridas através de um manifesto e proclamamos, indicativamente, o que rejeitamos e pretendemos transformar para viver melhor.
2.
MMN - Movimentação Masculina Nordestina.
Símbolo: um cacto erecto ou em repouso.
Observação: um cacto sem espinhos.
contra o terror machista.
contra a ditadura clitoriana.
contra o homosexualismo autoritário.
pela reconciliação do espermatozóide com o óvulo.
Renunciamos a todas as prerrogativas do poder machista.
Que omem seja escrito sem "H".
Não nos consideramos superiores nem inferiores às mulheres, aos homosexuais e aos bi: somos diferentes e iguais.
Rejeitamos todos os modelos pré-fabricados de sexualidade, caretosos ou vanguardeiros, partindo de três princípios: 1) carência não se inventa; 2) receita, somente de bolo; 3) vanguarda também é massa.
(...) Exigimos que se respeite a nossa opção fundamental: gostamos é de mulher.
3.
Abaixo o guarda-chuva preto. Não somos urubus.
Abaixo as exigências do paletó e da gravata.
Contra o relógio bolachão.
Pelo direito de mijar sentado.
Pelo respeito ao pudor masculino: mictórios privativos.
Pelo amparo aos pais solteiros e abandonados pelas mulheres amadas desalmadas: creches nos bares.
Queremos pensão por viuvez, auxílio alimentação e licença paternidade.
Não amamentamos, mas podemos trocar fraldinha.
Pela liberação da lágrima masculina.
Contra o fechamento do mercado de trabalho aos homens: queremos ser secretários, telefonistas, babás, etc.
Não queremos ser "chefes" de família nem regentes sexuais. Igualdade fora e em cima da cama.
Queremos trepar mais por baixo.
Queremos ser tirados pra dançar.
Queremos ser cantados e comidos.
Pelo nosso direito de dizer não sem grilos nem questionamentos da nossa masculinidade. (...)
Abaixo a máscara da fortaleza masculina. Queremos ter o direito de assumir nossas fragilidades.
Abaixo o complexo de corno. Por que mulher não é corna? Fidelidade ou infidelidade recíproca.
Cavalheirismo é cansativo e custoso. Delicadeza é unissexo. Que seja extinto o cavalheirismo ou se instaure, também, o damismo.
Queremos receber flores.
Exigimos a modificação do Pai Nosso:
a) Pai e Mãe nossos que estais no céu...;
b) bendito seja o fruto do vosso ventre, do nosso sémen.
Pela capacitação dos homens, desde a infância, para as tarefas tidas como "essencialmente feministas". Reciclagem geral. Queremos aprender corte e costura, culinária, cuidado de crianças etc. Em contra partida, ensinaremos às mulheres: trocar pneu de carro, bujão e fusível; dar porrada, atirar e espantar ladrão; matar barata e rato.
Pela paternidade responsável e contra a gravidez e os filhos serem utilizados como elementos de chantagem sentimental sobre nós.
Pelo respeito à intuição masculina. (...)
Protestamos contra o fato do nosso órgão do amor ser representado, simbolicamente, por espadas, canhões, porretes, e outros instrumentos de agressão e guerra. Só aceitamos a simbolização a partir de coisas gostosas e sadias: chocolates, biscoitos, bananas, batons, picolés, pirulitos, etc.
Denunciamos como principais vias condutoras do machismo: as vovozinhas cândidas, as mulherzinhas dondocas, as mãezinhas possessivas e as professoronas assexuadas.
4.
Considerando que muitos masculinistas trabalham dois expedientes, estudam e frequentam um milhão de reuniões e eventos, sem falar das poligamias possíveis, não iríamos incorrer na atitude fascista de inventar mais uma reunião para a comunidade masculinista. Portanto, o nosso princípio de organização é o seguinte: grupos de um, cada grupo obedece a seu chefe. Assembleias gerais com ego, id e superego. Voto de minerva para ego.
Convencidos de que a perfeição não é uma meta e é um mito, procuramos fazer um esforço no sentido de romper com 70% do nosso machismo actual e acrescentar sempre novos itens neste manifesto, aceitando a contribuição crítica e propositiva de todos os masculinistas e outros segmentos sexuais, preservada a nossa opção fundamental pelas mulheres.
Denunciamos os machões enrustidos, que utilizando o discurso masculinista, pretendem apenas dar os anéis para não perder os dedos: recuam em 30% de machismo para manter os 70%. É a Nova República do machismo.
Somos todos oprimidos. E sendo os homens, estatisticamente, minoritários diante das mulheres, isto já nos caracteriza como minoria oprimida. Nós, homens masculinistas!, sofremos a pressão dos machões, das feministas sectárias e dos homossexuais autoritários – o que nos caracteriza como a menor minoria oprimida. Requeremos, portanto, o apoio extremo e a solidariedade máxima por parte da sociedade inservil. "
Obervações: este manifesto começou a circular em 1985. Foi divulgado e reproduzido em diversos encontros estudantis. A autoria foi creditada a Marcelo Mario de Melo.
Excerto do comentário do Francisco Araújo ao texto “Eles Dizem Merecer”.
Publicado por Teresa C. às 07:15 AM | Comentários (2)
março 16, 2008
TALVEZ SORVO, TALVEZ RIBEIRO

Tomas Rut
Na noite, arbustos, laranjeiras e choupos espreitam os fiapos de luz que as vidraças da varanda coam. Haverá frio. Vultos. Enamorados que regressam ao casulo. Desabrigados do amor que não somos. Pertence-nos a exaltação do sentimento. Excessivo. Urgente. Podia ter sido ontem? – Fineza que agradecera. Dias em falta para esculpir o “nós”. Mas é de hoje o gosto, o nome, o apetite pelo toque e pelo cheiro e pelos músculos retesados e pelos sorvos. Talvez sorvo. Talvez ribeiro que a brecha, de insuspeita fundura, acolha. Antes, a fantasia. Um cenário. Este.

Igor Mipovaj

Igor Mipovaj
Agradeço o afectuoso acolhimento à minha participação no PNETmulher dispensado pela Miss Pearls, pérolas é connosco, minha querida, pelo mui estimado Manuel S. Fonseca que reluz na constelação do PNEThomem, a par do surpreendente Rui Pelejão (o tema musical do seu belíssimo Vodka7 remete para marginais insanidades. Um perigo para o gineceu!). Idêntica gentileza devo à Ana Anes, cronista com especial destaque às terças-feiras no PNETmulher. Beijinho, agora de longe, à Rita Barata Silvério, querida parceira de aventura no PNETmulher, pioneira blogosférica dos termos «gajedo» e «grelame» que utiliza genialmente.
Registo mais uma prova da afabilidade amiga do Eduardo Pitta. Muito, muito obrigada.
Publicado por Teresa C. às 10:47 AM
março 15, 2008
QUANDO O DESAMOR ACONTECE


Igor Mipovaj
O fastio, seja pelo hábito ou pela obrigação, mata um amor. Aconteceu-me com toda a Espanha, Madrid em particular. O necessário para a escola no Corte Inglés e nos Preciados foi recorrente objectivo de romarias, lambuzado por recolhimentos em catedrais e museus. A gaiata que fui esgotou a paciência nos inúmeros Setembros dealbados entre Vilar Formoso e a Guardia Civil de Ciudad Rodrigo. Naquele tempo de férias, às curvas e ao desleixo do reles caminho para Lisboa era preferível esticar o motor até Madrid. Passado o apaixonado deslumbre pelo estranho que o espírito provinciano julga superior ao nacional, retive flashes de mulheres donairosas e insuportáveis calores. Na maioridade, divorciei-me de nuestros hermanos e confinei ao avião as travessias da Ibéria. Por uma vez ensaiada a reconciliação terrestre. Engano modelar.
Entre o lembrado e o presente, cresceu a sedução cultural de Madrid. Viajando pelas catacumbas ou percorrendo a superfície, não despegam as motivações para a leitura e para as artes em geral. No metro, os deliciosos textos afixados entretêm a distância. Nas ruas pontificam esculturas, ecrãs gigantes divulgando exposições, música ou dança. E o povo atenta e engrossa as filas de entrada nos museus. E lê nos tremeliques metropolitanos ou em assentos dispersos nas bordas ajardinadas. E passeia e goza a sua cidade. Herança do império e dos moinhos de vento, Madrid (re)construiu-se como lugar de utopia e elevação. Atocha prova-o nas vidraças que o metal engrinalda e no exotismo húmido das folhagens.

Publicado por Teresa C. às 08:19 PM | Comentários (2)
março 14, 2008
DEPOIS DE MODGLIANI

Era de tarde e havia jazz. “Basílio y Valentin”. “All of me”. Swing nos requebros de quem o violino tocava na margem do Prado. Mais do meio domingueiro numa Madrid de movida ali parada em fila. À frente, a entrada para El Greco, Vélazquez e Goya, Caravaggio e Tiziano. No «R», Rafael, Rubens Rembrandt. Destes e doutros mestres a cor e as formas que abandonam as telas por via da perspectiva e do branco rompendo velaturas. A luz coada num entardecer tranquilo. Gentes nativas e estrangeiras desciam com vagaroso deleite o Paseo. Ostensiva a Espanha multicultural pela própria diversidade de povos e pela miscelânea das raças que a demandam na certeza do vigor económico. A América Latina no metro e ao balcão de estabelecimentos menores. Fazedores de riqueza que a Espanha legalizou e privilegia no acesso à saúde e à educação* – as fogueiras de Paris e os incêndios dos excluídos da sociedade francesa são o fantasma maior. Os autóctones remetidos para sistemas privados. E nesta fractura foi centrada a campanha eleitoral: um Zapatero disposto à integração por quaisquer custos e meios, em oposição a um Rajoy xenófobo e nacionalista. Porém, durando o jazz e a luz do dia, era de namoro e passeio o tempo dos madrilenos.
Ao nascer da noite, entre tapas e vozear, por cada golo duma caña ou de vino español a ansiedade crescia. Alcatrão vazio, reinava su majestad la televisón. E os sorrisos enformados nos outdoors da defunta campanha adquiriam o sentido de esgares cobiçosos. O Poder – entidade com rosto mutante. Ali e no mundo post Adão e Eva.
(*) Nota – ler crónica da Rita no PNET Mulher.

Publicado por Teresa C. às 12:45 PM | Comentários (2)
março 13, 2008
DURANTE MODIGLIANI

Foi precisado clarim para erguer o esqueleto moído. Cafés depois, caminhada a meio, espertou a consciência quando a Espanha peregrinava rumo às assembleias de voto. “Cabeza y Corazon” ou o “Z qué le gusta más La Goya desnuda”? Sessenta e um por cento dos espanhóis votantes responderam até às oito da noite de um domingo acordado pardacento. Quando o sol arribou, O“Palácio de Villahermosa” impôs, subindo, tomar a esquerda da praça. Opípara refeição de pintura, em conjunto servida pelo defunto Heinrich Thyssen e a ex-miss Espanha, presente baronesa viúva, alicia a debicar todos as escolas e períodos. A suposta facilidade flamenga e holandesa, o pintalgado colorido fauve ou a perspectiva rigorosa do barroco italiano, obrigam a detenças. Pela fruição das belezas a cada passo repetidas.
De Modigliani chegou, enfim, o tempo. Mulheres e homens esguios placidamente erguidos acima dos mortais. Nus que não exaltam os sentidos, mas as almas só na aparência aquietadas. Figuras de corpos franzinos como cortinas de vidas em ruína. Secundando o pai na tuberculose, no álcool e no haxixe. O sol do Midi na vã tentativa de sarar a maleita invisível.
Para retempero do corpo e do espírito, pelo todo aguardando o “Prado”, serviu a modéstia da hora de almoço. Na apressada festa de sabores, foi lembrada a considerável influência política da baronesa Thyssen. (Pre)Sentindo-se derrotada pela aprovação do projecto viário do nosso Siza para o “Paseo del Prado”, com Chanel branco e lábios carmim, fez-se amarrar a uma árvore, temendo daquela e de muitas o abate. Rodeada de guarda-costas, os fotógrafos disparavam enquanto posava enrolada em correntes e dizia fazendo beicinho: "Têm de me cortar primeiro um braço, antes de cortarem estas árvores divinas." Da infalibilidade da estratégia, pouco sei. Sem correntes, a mesma que utilizou para formar a própria colecção que enche dois dos pisos? Certo é continuarem as árvores. O beicinho alcançou o fim em vista. Again!
Publicado por Teresa C. às 09:03 AM
março 12, 2008
ANTES DE MODGLIANI

Antes de Modigliani, foi tempo de viagem. Ponte entre idear pernoita em comboio e, vindo o sono, abrir o dia centenas de quilómetros além. Luxo que os voos low cost não aniquilam por haver quem persevere no mito e na utopia; na irreverente dimensão conferida ao viver. E era noite em Santa Apolónia. O halogéneo não lograva empalidecer faces que a ilusão desenhava risonhas. (a)Ventura enrubescida. Desejo de beber a noite e apagar distâncias. Adiar o sono. Deslizar com luz pelo breu. Dos subterrâneos de Chamartin, partir de novo. O azul viria nas ruas desertas. Estremunhadas. Vazias. Molhadas, fosse pelo levantar da noite fria ou pelo asseio urbano. A bagagem rolando com tumulto na calçada. O barro cozido como limite vertical. O alcatrão do mapa quase vazio. Pouco a pouco, encaminhando destinos nativos para um dia igual.
Quando o sol acalorou a subida da Glorieta de Santa María de La Cabeza para o Reina Sofia sem de Ícaro lograr derreter as asas, evaporara-se o cansaço da vigília pela cama entalada. Mais à frente, esperava a temporária de Picasso. A transgressão na forma e na técnica. Telas fendidas ao meio por um traço ou por um ícone. Contorno a negro das figuras que, sem ele, à mesma saltariam do fundo. Omitidas regras e normas e o que outros estabeleceram como feridas mortais à nobre arte da pintura. Um esboço. À frente, a consumação da obra perfeita segundo os canônes tradicionais. Por último, a descontrução somente possível a quem do real entende as linhas primevas e com elas brinca até remanescer essência, espírito e cor. Sulfato mediterrânico na “Baía de Cannes”. Sangue negro, mão que floresce vida e empunha morte, o grito e a dor da “pietá” na “Guernica”. A luz trémula e o olhar de um Senhor distraído perante o sofrimento da Espanha. Força de touro na ressurreição de um povo e de um país. Que repetidamente amara e, entretanto, esquecera.
(continua)
Publicado por Teresa C. às 07:41 AM
março 11, 2008
ELES DIZEM MERECER

Deborah Poynton
"ARGUMENTOS:
Porque nós merecemos um Dia Internacional, convém lembrar que inerente ao homem é:
- sentir a dor física de uma bolada nos tomates;
- suportar tortura de usar fato e gravata no Verão ;
- suportar o suplício de fazer a barba todos os dias;
- suportar o desespero das cuecas apertadas;
- fingir indiferença perante uma mulher sem sutiã;
- resistir olhar para umas belas pernas com uma mini-saia;
- ir à praia com a mulher e desviar o olhar do "mulherão" deitado ao lado;
- viver sob o permanente risco de andar à porrada com outro homem;
- vigiar o churrasco ao fim de semana, enquanto todos se divertem;
- resolver os problemas do carro;
- reparar na roupa nova dela;
- reparar que ela mudou de perfume;
- reparar que ela mudou a tinta do cabelo de "Imedia 713" para "731 loiro/bege";
- reparar que ela cortou o cabelo, mesmo que tenha sido 1cm;
- jamais notar que ela está com um pouco de celulite;
- jamais dizer que ela engordou, mesmo que seja a pura verdade;
- desviar os olhos do decote da secretária que se faz distraída e deixa a blusa desabotoada até ao umbigo ;
- ter a obrigação de ser um atleta sexual;
- ter a suspeita de que ela, com todos aqueles suspiros e gemidos, apenas incentiva;
- ouvir um NÃO, virar para o lado conformado e dormir, apesar da vontade de partir o quarto todo e fazer um escândalo;
- ouvi-la dizer que está sem roupa, quando o problema são novos armários para guardar mais roupa;
- almoçar aos domingos na casa dos sogros. Discutir política com aquele velho “reaça”, tratar bem os sobrinhos, controlar-se para não olhar para o decote da irmã dela e não servir um arraial de porrada ao irmão dela, "sacana do caraças," que pede sempre dinheiro emprestado.
Depois, Elas ainda acham que é fácil viver a masculinidade só por NÃO TERMOS O PERÍODO!
ALTO! Falta um detalhe importante que acontecia e acontece a quem usa calças com fecho em vez de botões: entalar a “gaita” na porcaria do fecho. São duas dores: o entalanço e abrir o fecho outra vez.
Estão a ver? - Ter um filho só custa no parto!"
NOTA: Porque nos homens rareiam desabafos emotivos, a depoimento tão veemente presto homenagem. Como eles sofrem, os nossos queridos!
Publicado por Teresa C. às 10:25 AM | Comentários (10)
DOS «AJUNTADORES»

Kath Birch
Ouvir a mesma canção. No entendimento dos corpos que coreografam a melodia, são enlaçados espíritos. Entre as pontas da distância, firme o nó que a espinha de cimento, ribeirinha, testemunhou. Porque é (des)favor do acaso cruzar geografias. Mapas de memórias. Cicatrizes. Projectos (sonhos?) intocados no tempo maduro. Olhando a sinuosa estrada percorrida, a parte melhor. O andado como aproximação do horizonte que as cinzas não toldaram. Invisível para os demais. Canção excelsa quando arrepia e comove e recolhe dois.
Colecções de medalhas. Há quem nelas empenhe bens, lazeres e entrega. As catalogue e arrume por data, autor e nobreza da matéria. Revelada com indisfarçado orgulho. Da mostra, as peças menores amontoe num canto escuro - ocultas, não deslutrem ou questionem a sabedoria do coleccionador. As dores e alegrias, o passado e o presente, o excelso e o lodo constituem a numismática das vidas. Desprezar lances do histórico individual que não glorifiquem a persona exibida é fingimento. Medalha enferrujada sem préstimo ou valor, que, num descuido, cai do oculto para onde foi remetida pela arrogante banalidade do «ajuntador».
Publicado por Teresa C. às 12:26 AM | Comentários (0)
março 10, 2008
NA FORMA DE UM BIFE OU DE UM NACO DE CARNE

Dos génios que a humanidade germinou, além do legado intelectual, são propalados fait-divers e ditos onde se revêem as pessoa comuns cuja condição, à parte o brilho do espírito, eles partilharam.
Porque um cientista, físico ainda por cima, é visto pelas gentes como um misto de visionário, frade beneditino e desconjuntado social, de Einstein são referidos inúmeros “pensamentos” – caricata expressão para eufemismos ou graçolas. Como homem cujo único amor foi a Física, das mulheres apreciava os serviços domésticos – os da carne dispensava se não tivessem a forma de um bife ou de naco de carne. Eis algumas das supostas pérolas que terá debitado:
- "É uma verdade que o Homem não vive apenas para o prazer."
- "Como vai ser a terceira guerra mundial não sei, mas que a quarta vai ser com pedras e paus não tenham dúvidas disso, se não houver juízo dos políticos."
- "Quando as mulheres estão em casa, pensam nos móveis, limpando-os e preocupando-se com eles, mas quando estou viajando com uma mulher é o cabo dos trabalhos, passo a ser o único móvel disponível para ela…"
- "Apaixonar-se não é absolutamente a coisa mais idiota que as pessoas fazem e sentem… mas a gravitação universal não pode ser responsável por isso!"
Para aprender mais sobre a teoria da relatividade de forma bem gostosa, neste endereço http://br.youtube.com/watch?v=0MHy4XrnDa0 o tempo não será perdido. Recomendo
Publicado por Teresa C. às 08:59 AM
março 09, 2008
NA TAURINA, LOGO À NOITE

Elvgren
Bons conselhos

Les Demoiselles d'Avignon – Pablo Picasso
Estimado João Nave: a sua “sugerencia” de no “Museo Reina Sofia” me embevecer com “a exposição de Picasso (preciosa)” é harmónica com a minha agenda. Pela tarde de hoje, calçando botas quentes e rasas que o conforto garantam e previnam dos pés a fadiga, palmilharei feliz e sôfrega os caminhos da beleza. E sim, sei que muitas das obras vieram da casa-museu Picasso em Paris. Já pelo visto noutra casa-museu, a de Barcelona, suspeito que as cinzas de Picasso se alevantam de ira perante a menoridade de algumas obras exibidas. Nem o pintor lhes reconheceu méritos suficientes para nelas constar a respectiva assinatura.

Scott Gilroy
Publicado por Teresa C. às 10:53 AM
março 08, 2008
DIA INTERNACIONAL DE QUEM?


James W Johnson e Pink

(Poster soviético de 1932 para o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora)

Hoje, esta Mulher que tanto admiro fala de “Carisma” na Igreja Baptista de S. Domingos de Benfica. Não estivesse tagarelando com a Rita sob o frio sol madrileno, remataria o dia que, astutamente as mulheres glorifica, na paz do seu lúcido pensar.
Publicado por Teresa C. às 10:31 AM
março 07, 2008
MORGADINHAS, CLARAS E JOSÉS DAS DORNAS

Rob Gonsalves
País de capelas e capelinhas. Dispersas por colinas, com o inevitável adro que anualmente acolhe devotos do santo padroeiro. Destacadas do arvoredo que as enquadram pela brancura da cal ou pelo telhado bicudo encimado por uma cruz. Modesto o sino, opcional o cata-vento. Comuns as mesas e bancos toscos para satisfação dos romeiros que, estafados pelas rezas e cumprimento das promessas, estendem virtualhas para saciarem a fome do corpo e matarem saudades piqueniqueiras.
País de atávicos bucolismos. De Morgadinhas e Claras e Margaridas, de Josés das Dornas e de (des)irmanados Danieis e Pedros. De corporativismos pequeninos. De umbigos desmedidos e mal sarados mais parecendo cicatrizes do acto de nascer. De pulmões ressentidos por não terem engolido abundante golfada do primeiro ar respirado. De gritos débeis somente ganhando força a coberto de multidões uivantes. De matrizes pessoais ressabiadas e tristes. De macambúzio e penoso modo de vida. Por isso culpando os outros, o governo, o país e o mundo daquilo que não souberam construir.
Publicado por Teresa C. às 01:40 PM
março 06, 2008
ANTE ET POST CAMPAINHA

Mark Weller
Tanto falatório e parece, afinal, que a montanha pariu um rato! Era falada a instabilidade nas escolas devida à avaliação dos senhores professores que a estes e aos alunos traziam desaustinados. Por solidariedade, já tinha pedido à Cila para me passar com esmero um lenço branco para no domingo, abanicando, o erguer bem alto. Eis senão quando (isto sim, é prosa clássica!), sou informada dos detalhes do processo. É impiedosa a calamidade que fustiga os docentes. Aparte duas aulas assistidas por titulares competentes, são obrigados a enfiar num dossiê os documentos A4 dispersos pela casa. Mal comparado, um processo semelhante ao da papelada ajuntada durante o ano para descarga no IRC.
Como se não fora pouca a desconsideração, os parâmetros constantes dos quilómetros de grelhas não contemplam itens decisivos. As docentes andam com saias enfadonhas ou cuidam de puxar pela vida, que é como quem diz subir bainhas, (moderadamente, porque a missão é de respeito)? Os seus pares preferem calças onde backs caibam dois ou ajustam a vestimenta? E as competências que fazem acordar um professor bovinamente feliz, por isso emprestando alegria à actividade ante et post campainha? São ignoradas. Depois, a Senhora Ministra mais os Senhores Licenciados que a rodeiam, queixam-se – teimo que entre eles nem um é professor e, bem contado, há, pela certa, um engenheiro.
Não fora ter de rumar a Madrid, aproveitaria o dia para passeata solidária, o braço no ar agitando alvo lenço como pombo. Das causas meritórias, como esta, não costumo alhear-me. Já aos pombos não deito milho. Que se... morram.
Publicado por Teresa C. às 08:15 AM
março 05, 2008
COM AÇÚCAR E SEM CANELA

Marcel Franquelin
Ele convidou-a para jantarem. Ela achou o acto íntimo em demasia. Um café, enfim, talvez, porque não? Ele cedeu. Atendendo ao fim em vista, sugeriu as nove da noite. Que sim, que estava bem, até lhe dava arranjo a hora por gostar de se deitar cedo. Aprazado o local, desligaram. A tarde dele correu devagar à revelia da adrenalina. Pelas sete, duche e perfume e traje de violino. Meia hora depois, uma sopa e uma sandocha; jantar leve mais pelo não do que pelo sim, à conta do recato que a pequena significara.
O encontro. O café com açúcar e sem canela. Podia ter sido zurrapa que ele tê-lo-ia bebericado conservando nos lábios o sorriso dos dias de engate. As achas que enviava para atear a conversa não logravam a fogueira, menos ainda o incêndio. Temendo a companhia desfeita após a ceia que o não fora, avança para toques subtis. Nada. “Está feito! É tempo de acabar com esta chatice e tratar de aviar sozinho o serviço.” Paga a despesa. Cavalheiro, propõe-se acompanhá-la ao carro dela. Que não, que viera de táxi. “Ora, que não seja por isso! Levo-te a casa.” “Casa? Sim, para a tua.” Ele, que na situação pouca clareza via, acedeu de pronto, não se arrependesse a criatura.
Portas adentro, “queres uma bebida”, “não, obrigada!”, a coisa não progredia. Pelas onze, ela afirma estar na hora de ir para a cama. Ele, maldizendo a vida, já se erguia para ir buscar a chave do carro, quando a ouve perguntar pelo quarto. Sem palavras que lhe saíssem do gorgomilo, indica-lho. Ela abre a mala; sim era volumosa, mas qual a mulher que não pendura ao ombro um cabaz? Sai a camisa e a escova de dentes, mais os preservativos e produtos de higiene. Despe-se. Sentada na beira da cama testa o colchão. Deve ter sido aprovado porque, função terminada, dormiu como uma justa toda a santa noite.
Publicado por Teresa C. às 09:01 AM
março 04, 2008
À PROPOS SARKOZY

Os franceses que me perdoem, mas têm um presidente em partes iguais trengo e desmiolado. Antes e durante a prolongada lua-de-mel, por ora em romântica viagem pela África do Sul, a França sente-se órfã. Um homem cujo senso duvidoso acumula com a natural sandice da paixão não serve para dirigir um quiosque, quanto mais um país que a si próprio coloca nos píncaros da lua. À propos - como saberiam os antigos que a lua tinha montanhas agulhadas se dela pouca notícia possuíam? Aparte o carrego de silvas que um desgraçado por lá transportava, e o dito de permanecer intacto o queijo lunar aguardando a dentada do primeiro homem fiel na Terra, era escasso o conhecimento.
Quando o camembert aumenta quarenta por cento, o povo francês treme. Cartesiano após o mal feito, conclui que fez borrada. Passa do queijo para a carestia geral. Somente depois, repara na imigração dos jovens que, concluído o bac, a universidade excluiu e procuram abrigo sob a stars & stripes. Na exposição patente na Câmara de Cergy, a imigração é o mote. Pouco realçado o emigrante português que nas décadas de sessenta e setenta engordou a economia francesa à custa da mão-de-obra barata e da miséria dos bidonvilles. Talvez porque bem integrada, a comunidade que daqui para lá abalou não tenha merecido realce.
No final da exposição, é encenada a leitura das cartas enviadas da América pelo homem que, por via delas, remenda saudades da companheira que deixou em França. Quer saber novas da família, como vai na escola o petiz e se está agreste o Inverno. Pede o envio de produtos da terra - um camembert, porque não? – e queixa-se da rudeza diária. Cópia fiel do acontecido em Portugal, que nesta inesperada versão Resnais não descuidaria. Quem diria que a galinha-dos-ovos-de-ouro para os, mais cerca, expulsos pela má sina dos respectivos países de origem, acabaria a exportar gauleses como quem despacha queijos?
Publicado por Teresa C. às 08:14 AM
março 03, 2008
UM COPO DE GLEISS BRANCO

Lorenzo Sperlonga
O “Sem Pénis nem Inveja” cresceu. Nem soprou o “Grito do Ipiranga” – ganhou a independência que tardava com dois cliques e um copo de Gleiss branco. Na vitrola digital, o som estava por conta de Duke Ellington e Count Basie. Doravante, este espaço é exclusiva pertença da autora e dos que a lêem. Invulnerável a peditórios e a censores. Continuará espanejando detritos e poeiras, viscos e iscos, negando salamaleques, ofertando tolerância e afecto. Porque acreditar na pessoa é vício da autora que a Teresa C. partilha, nos lábios dança-lhe sorriso optimista. O olhar, esse, reluz quando a bondade dos outros alcança. E tanta é! Como abundam as benesses generosas da vida e dos leitores... Não fosse cair na tentação da modéstia exaltada pelo amesquinhamento próprio, diria ignorar os méritos que justificam as dádivas afortunadas.
O “Sem Pénis nem Inveja” conserva as portas abertas às opiniões alheias, embora com uma nuance: via e-mail. Uma espécie de clube-privado no que à permuta de ideias concerne. Bem frequentado, rejeitas papas nos espíritos e obriga a tento na língua. Digamos ter entrada quem, descalço, aprimora a alma e deixa à porta os sapatos sujos de lama. Dos que “fazem o favor de me ler”, quase todos, diria, têm aprovada a inscrição.
Publicado por Teresa C. às 07:54 AM
março 02, 2008
SARAVÁ MARÇO!

Al Moore
Idos Janeiro e Fevereiro, da frialdagem e das névoas foi passada a fatia maior.

Al Moore
Própria de Março é a tepidez e a subida do sol que à luz diária soma tempo.

Alberto Vargas
Corpos e espíritos mais libertos de resguardos empecilhos reviram, alegremente, azimutes. A incoerência devia, assim entendida, constar dos canhenhos que alinham os “valores”.
Publicado por Teresa C. às 04:51 PM
março 01, 2008
ADORÁVEL FIGURA DE ESTILO!

Will Kramer
O poder está nas sociedades como o branco na pintura. Sem o óleo mágico que reflecte por igual a luz, as obras dos grandes mestres não teriam nascido. Todos precisamos do poder, no mínimo, o poder pequenino dos pequeninos. Do mesmo modo, sem tinta branca, um amador de pintura estarrece e nenhuma forma «sai» da tela, subitamente triste e sem vida. Depois, o poder origina o perdão. Esse toque de simulada e inefável grandiosidade.
O “perdão” de hoje é forma de polidez que na bolsa de valores sociais vale tanto como um pedido de desculpa, o “faz favor” ou o “muito obrigado”. Usado após uma pisadela, deixar o automóvel quinze minutos a bloquear outro que precisa sair, um gesto brusco ou num atraso. Tudo muito light e inconsequente. O máximo que pode acontecer é o Outro dizer que não desculpa. Vai daí, é dito rezingão, intolerante, com mau feitio. Certo o desconforto da incompreensão alheia.
Quem se leva muito a sério, gosta de conceder o perdão – adorável figura de estilo! – em cenas de elevado tom dramático. Não dispensa lágrimas e garantias de arrependimento, gestos magnânimos, rancores e desdém que acentuam a assimetria do poder por parte de «juiz» e «réu». Delirantes são os jogos de perdão nas relações amorosas. Nas assimétricas, algumas encaixam este estilo retórico e apaixonado. O desenlace é o costumado quando as lágrimas secam. E há quem nele se vicie. Não eu.
Publicado por Teresa C. às 02:36 PM