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abril 11, 2008
À MERDA POR LUCIDEZ

Arthur Braginsky
Ensinaram-nos a sermos lindas meninas. Adolescentes bem comportadas. Jovens sensatas com objectivos grandiosos, porém compatíveis com casamento feliz e filhos exemplares. Das matriarcas, nem uma dica recebemos sobre a felicidade que advém de estarmos gratas a nós próprias. De respeitarmos, sem culpa, abismos e alturas que existem no íntimo do ser. Mulher ainda é Virgem Maria que desce dos céus à terra, concebe com alegria, ou não, e dá à luz com dores. Que entreabre sorriso compreensivo e generoso para a humanidade em redor. Que não lamuria, nem falha, nem salta os limites da cerca imposta pelas normas de conduta que padronizam a mulher-símbolo-e-exemplo.
Mas não. Rejeitamos altares e auréola de santidade. Queremos e, na vida-nossa-de-cada-dia, lutamos por paradigmas adequados às terráqueas criaturas que somos – como os homens sublimes e chatas, ingénuas e perversas, afectuosas e distantes, racionais e apaixonadas. Incoerentes como é próprio da condição humana. Generosas porque sim, e não ONGs ao alcance de um gesto. E porque mulher não é mulher nem é nada se não mandar à merda alguma coisa ou alguém, uma vez por (a)caso, é dever a análise crítica individual. Identificada pedra ou aguilhão que fira a pela através do saco que cada um transporta às costas, mandá-la à merda é acto lúcido que enaltece quem o toma.
Publicado por Teresa C. às abril 11, 2008 09:18 AM