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abril 17, 2008

NAS ALÇAS DO MEU VESTIDO

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Eric Christensen

Não foi tua a mão que me serviu o primeiro Syrah. No crepúsculo cálido de final de Primavera, era o sul que meava Junho. O corpo emprestava à brisa da noite o calor que no areal recolhera. Do mar, havia o sussurro. O lânguido vai e vem mutável e fixo. Como longo plano no filme do mesmo nome do César Monteiro Grilo. Fita burlesca a que preferíamos “Recordações da Casa Amarela” e o alter-ego do cineasta mascarado de João de Deus.

Quando no bojo do copo rodaste o vinho, deste-me a provar o aroma. Descreveste-o, enquanto a tua mão se ensarilhava nas alças do meu vestido. Desde o primeiro gole soube da eternidade do instante. E a noite rodopiou entre gestos bravios e mansos que esgotámos sem sono. O Syrah era Cortes de Cima.

Noutro lugar, ainda a sul, outra mão desafiou um Trincadeira. Aroma e rubro em estreia. E lembro a chuva que, ao cair no terraço, estalejava a vidraça. A intimidade do pitéu servido. O vinho bebericado entre palavras que o riso interrompia, enquanto o Syrah vinha à lembrança mais a mão ensarilhada nas alças do vestido.

Por saber premiado com ouro, e nomeado rei dos vinhos numa prova cega em Paris o Syrah – 2005 da casa Ermelinda Freitas, dei conta duma história feita de aromas, toques e sabores. A minha.

CAFÉ DA MANHÃ
Hoje:
Leituras obrigatórias: Sofia Vieira e Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às abril 17, 2008 07:29 AM