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maio 01, 2008
COMO A BANDA DO ZÉ CARRAPATO

Bruno Di Maio
Quando Maio abre portas na utilidade formal da semana, é dia regalado. Porque as cidades encerram para descanso do pessoal trabalhador, abrem as tendas de febras e couratos que proporcionam conforto reinadio aos assalariados em festa memorial. Perguntado um a um o que festejam, a maioria desdentada que pontifica nas entrevistas de rua dos telejornais, hesita, franze o sobrolho por segundos meditativos para arribar ao “porque é dia do trabalhador”. De pronto, continua pasmado na relva a ouvir a banda do Zé Carrapato e cuspindo aleivosias às “gajas de umbigo à mostra”.
Vasculhando antecedentes da data, nada de excepcional a marca, salvo uma manifestação de trabalhadores em 1886 nas ruas de Chicago. Reivindicavam a redução da jornada de trabalho para 8 horas e inauguraram greve que imobilizou a economia da U.S.A.. Cinco anos depois, num ajuntamento de milhares de trabalhadores no norte de França em luta pelo mesmo, morrem dez manifestantes sob as botas da polícia. Quanto ao mais que a história debita sobre movimentos laborais, o que importa aconteceu a 23 de Abril, a 3 e a 4 de Maio.
Em cinquenta anos portugueses, falar ou tão somente reflectir sobre o símbolo e o jeitaço da comemoração era matéria sob alçada da PIDE e do lápis censório. Uma pepineira justificada pela miúfa e vistas-curtas. Lixou-nos a Internacional Socialista ter decidido convocar manifestação no primeiro de Maio anual com o objectivo de continuar a luta pelas 8 horas de trabalho diário. Não ajudou a remover o bolor salarazento a «demoníaca» Rússia tê-lo adoptado como feriado nacional. Os Estados Unidos mandaram às malvas o simbolismo e comemoram o Labor Day na primeira segunda-feira de Setembro. Uns sovinas, que por via do estabelecido impedem «pontes» ociosas.
Na Austrália, é dia do trabalhador quando uma região quiser: a 4 de Março na Austrália Ocidental, a 11 do mesmo mês no estado de Vitória, a 6 de Maio em Queensland e no Território do Norte, a 7 de Outubro em Canberra e Sydney. Esta última opção interessa-me particularmente por corresponder ao dia em fui nascida – é tortura a madrugada laboral que anula soneca comemorativa. Sofrimento em tudo semelhante aos clones da banda do Zé Carrapto à mistura com couratos.
Nota: "Divagação" publicada no PNET Mulher.
Publicado por Teresa C. às maio 1, 2008 03:51 PM