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maio 15, 2008
ESTAVAM NA MESA DO CANTO

Beryl Cook
Estavam na mesa do canto. Passada a maré-cheia de fregueses pela hora do almoço que as empresas de serviços comandam, o sítio fica tranquilo. Altura em que me esgueiro para disciplinar o falho apetite. Na breve espera da posta de corvina grelhada e do feijão-verde cozido, eles chegaram. Sentaram-se pesadamente, como quem descarrega no assento arrobas de batatas. Que vieram, fritas, em pratos cheios. Ninhos de alheiras com ovo em cima. Nem ponta verde à vista.
Debicando as vagens do feijão aparado, foi audível o pedido de condimentos. Chegou o infeliz galheteiro ladeado de sal e pimenta. Caída na indiscrição que suavizei como pude – olhar intervalado e fugido –, registei os gestos síncronos. Sal, muito sal sobre as batatas, pimenta em seguida. Pelo silêncio harmónico era denunciada a longa conjugalidade. Entre a corvina e o café, registei da mulher os pés inchados que prendiam chinelas rasas de bom-tom. Obesa, concluí. Ele, abdómen como bola, pediu café e digestivo. Em três penadas, ela engoliu sucedâneo de leite-creme.
Matutei se compreenderiam as consequências do crime ingerido. Dois obesos emudecidos. Sem outra glória que a de trincarem colesterol na mesa do canto, repousando nos assentos os carregos de batatas.
Publicado por Teresa C. às maio 15, 2008 08:18 AM