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maio 31, 2008
A BUENA HORA

Steve Rosendale
Domingo de Otoño 9 de la noche
Sentado en mi cuarto y pensando lo que el tiempo esconde
Mirando las fotos, leyendo tus cartas gritando tu nombre
Domingo de otoño 9 de la noche
Hace un momento me has llamdo después de tantos años
Quiza tu conciencia y mi paciencia se han vuelto aliados
Me dices que en estos momentos quisieras estar aquí
A mi lado
A mi lado....
Y yo que hasta he sonreído por no empezar a llorar
Has perdido tano tiempo y no has querido regresar
A buena hora
Vienes a decirme que yo soy esa persona
que has sabido darte lo que el corazón no borra
ahora te equivocas
A buena hora vienes a curar el alma que dejastes rota
Y a cambiar mi vida porque ahora se te antoja
A buena hora
Domingo de Otoño 9 de la noche
la madre experiencia me ha dicho que ya no me conforme
el tiempo y los años colocan a uno donde corresponde
lo que nace puro tambien se corrompe
Y tu como te atreves otra vez a dar marcha atrás
Has tenido tanto tiempo mejor te quedas como estas
Permiteme decir...
Que ha buena hora
vienes a decirme que yo soy esa persona
que has sabido darte lo que el corazón no borra
ahora te equivocas
A buena hora vienes a curar el alma que dejastes rota
Y a cambiar mi vida porque ahora se te antoja
A buena hora....
Sergio Dalma
Publicado por Teresa C. às 11:04 AM
maio 30, 2008
PUDOR OU MORDAÇA COM UM DEDO SÓ

Lennox Campell
Arrenego a indiferença que nutro pelos entretenimentos e talk shows das televisões. Não os sabendo bons ou maus, arrisco perder debates que dos portugueses revelem o sentir. Tive notícia de estar em preparação uma “Tarde da Júlia Pinheiro”, na TVI, orientada para a temática das infelizes conjugalidades que rondam três décadas. Os envolvidos em tão demorado mau-viver adiam desligar a máquina que confere sobrevivência ao, formalmente designado, casal. Que não é. Há muito deixou de o ser. Parceiros infelizes que sob tecto comum conjugam solidões e mágoas e desprazeres.
A extrema-unção dos matrimónios moribundos é adiada por quatro razões fundamentais: o histórico consubstanciado nos filhos, quiçá enriquecido por netos, a dependência económica de um dos membros do casal, maioritariamente da mulher, a reprovação familiar e social. Apenas são desculpados divórcios no feminino devidos ao alcoolismo, violência doméstica e à infidelidade delas - a deles merece esponja, quantas vezes atribuída à “medíocre” performance das respectivas que os não souberam cativar. Injustiça. Outra a acrescentar ao rol das suportadas por mulheres rondando os cinquenta. “São do tempo” da entronização das prendas domésticas, da quase exclusiva responsabilidade pelo rolar sem atrito da vida familiar acumulada com o salário profissional que ao “lar” aumentou proventos.
Por não acreditar que somente a Oprah Winfrey permita dos viveres íntimos expressão condigna, importa o testemunho de homens e mulheres que, por essa via, a outros exprimam solidariedade. As conchas fechadas das ostras abrigam, muitas delas, pérolas. Preciosas. Confundir pudor com mordaça é erro. O exibicionismo gratuito e a venda da intimidade alheia, também.
Nota: crónica escrita com um dedo só. Por ele, e porque, desprevenidamente, atestei o depósito na segunda, alegremente participo na utópica retaliação à Galp deste fim-de-semana - recusarei abastecer de combustível a barriga do meu pet com rodas.

“Lágrimas Negras” - “Tenho imenso medo de que não gostem da canção do vídeo que está no fim (...)”
Publicado por Teresa C. às 08:19 AM
maio 29, 2008
À CONTA DE UM DÓI-DÓI

Michel Mobius
À conta de um dói-dói, alguns dos gestos simples de que estarei inibida durante dois dias. I guess...

Philip Castle
Publicado por Teresa C. às 07:43 AM
maio 28, 2008
COMO AS CARTOMANTES OU CIGANAS

Clyde Caldwell
Da futurologia há especialistas. Não predizem o futuro como as cartomantes ou atrevida cigana que aborda quem passa. Mulheres, fatalmente, por ser realidade comum a vantagem que levam aos homens no pecúlio de dúvidas (in)existenciais que o preço de uma consulta ou uma moeda justificam.
Futuros há os possíveis, os previsíveis e os preferíveis. Fosse brejeiro o discurso, que no caso vertente pretendo asseado, e à trindade de pês acresceria a “porra do acaso”. Detendo-me na “porra” pelo mérito, já que da minha oralidade é termo que excluo pelo mal que me soa - reconheço-lhe expressividade por remeter para cacetada indevida ou infortúnio. Adiante.
Voltando aos entendidos em futuros, afirmam que num previsível os afectos ganhem terreno na economia e mudem regras ao jogo das macroeconomias. O fundamento faz corar de tão sabido - os senhores da fome e da fartura, vivendo a contar dinheiro mais não são do que infelizes. Por ditarem as regras do mundo, com a respectiva desgraça penamos todos. Bem visto!
Decorre do raciocínio o cenário possível e previsível de crescente desmaterialização dos comportamentos e consequente alteração da ordem social. O dinheiro, reles para quem a sobrevivência dá por adquirida, passaria a desempenhar o papel de brinquedo dos (muito) ricos e menos afirmação do sucesso de que hoje é medida.
Sidney Pollack, que no cinema tratou como poucos os valores e os seus porquês, à inversão nos regulamentos das atitudes, a acontecerem, já não assiste. E tenho pena. Um a um, ícones de tempos deixam para os outros presente e futuro.
Nota: "Divação" publicada aqui.
"Sem PC" - "Não, não vou falar dos países do antigo bloco socialista, nem de uma qualquer (...)"

Publicado por Teresa C. às 07:33 AM
maio 27, 2008
QUE MORRA EM PAZ

Toby Boothman
Quando calha antecipar o fim do dia, além do que tenho desejo mais. Se espraio no longe o olhar, nada vejo - esborrato a distância, deixo sumir rasgos de azul. Não se apague tudo de todo, largo o parapeito e aconchego-me no silêncio tépido do fúcsia e verde-lima. Resvalo para quem sou. Para o incómodo de ouvir o pensamento bradar. Obsessivo, envolve-me em lençóis de amanhãs que não tenho ou espero. Por isso teima e vigia. Por isso asperge veneno e perfume. Sem que o amordace, permito-lhe a tortura do ruído. Que me arrebate e, na sela, com ele inicie cavalgada. Que sei insana. Que dói. Que pela brida me anestesia o ser.
Se pelo cansaço ou réstea de vontade me agiganto e debato, fico com as rédeas na mão. Desmonto-o. Ainda preso, sinto-lhe o respirar penoso, os cascos em cacos que pontapeio com força. E para ali fica jazendo, espreitando-me de soslaio. Cubro-o de esquecimento e sussurro-lhe: morre em paz.
Irene Pimentel, recebeu o prémio Pessoa pelo trabalho desenvolvido na qualidade de investigadora da história contemporânea.
Publicado por Teresa C. às 07:44 AM
maio 26, 2008
QUENTES E BOAS
Na ronda matinal pela blogosfera, meia dúzia de sugestões para agradáveis passeios. Com prazer transgrido o princípio de não publicar fotografias googlianas neste espaço.


- ”Maio Sonhado” é um texto magnífico da Leonor Barros que importa ler.

Carlos Diez

Nota: O Luís Rainha e o Edgar que me perdoem a falta de respeito pelos direitos de autor, mas quando a tentação é deliciosa submeto as normas à fruição de as infringir.
Publicado por Teresa C. às 11:14 AM
TEORIA DO BISCATE

John Pitre
Transcrevo um texto exemplar escrito pelo James Stuart. Sobressai a diferença no entendimento masculino e feminino do mundo dos afectos. Mais não comento – a metaleitura a cada um pertence.
“Joana e João casaram-se há alguns anos.
Joana tem um amante, João tem conhecido diversas "amigas".
Joana partilhou o segredo da sua relação extra-conjugal com Julieta, sua irmã mais velha e melhor amiga.
João nunca revelou a quem quer que seja os seus "casos", nem sente necessidade disso.
A relação de Joana com o seu amante é de longa data, confunde e perturba os seus sentimentos, leva o assunto a sério.
As ligações de João com as sua "amigas" são passageiras e indiferentes, "biscates" que desde sempre teve e que não lhes dá muita importância.
Quando a Joana se encontra com o seu amante sempre avisa Julieta disso, para que se comprometa com eventual cobertura para se justificar ao marido da ausência.
Quando o João visita alguma das suas "amigas" é sempre casualidade de noitadas com os colegas, após jantares de confraternização, deslocações profissionais, coisa incerta.
Certo dia Joana não estava em casa quando João chega. Este telefona a Julieta para indagar do paradeiro de Joana.
Julieta confirma terem estado juntas toda a tarde a fazer compras no centro comercial com o seguinte detalhe: "ela deve estar quase a chegar, e até te comprou uma prenda, mas não lhe digas que eu to disse, pois é surpresa".
Joana sempre transportava consigo um saco com uma prenda preparada para a eventualidade de João chegar a casa antes dela.
Quando esta abre a porta de casa, dá conta do ruído que vem da sala, é o Benfica-Porto no seu início, ou seja, ainda empatado a zero. O arrepio que sentiu, substituído por um nervoso só miudinho, depressa se extinguiu com a saudação de João:
"Olá querida, já sei que foste às compras com a Julieta, ela disse-me"
Joana estende-lhe um saco com a prenda, uma gravata nova, pelo que João sem sequer primeiro descobrir o embrulho abraça-a ternamente enquanto o Benfica sofre o primeiro golo.
João, descontente com o jogo mas feliz da mulher, prepara ele próprio um jantar romântico que terminou num serão de sexo apaixonado até adormecerem, abraçados, ali mesmo no sofá da sala.
Desde esse dia que Joana sofria com remorsos, um sentimento de culpa que a impedia de sorrir, falta de ânimo, desesperada e desiludida consigo própria.
Encheu-se de coragem, isto é, determinação, chegou o tal dia em que decidiu contar tudo ao marido, após terminado o seu "amantizado" por razões também diversas que se confundem com saturação e acaso, preparou o discurso e estudou a confissão sujeita ao perdão implorado, dignificado pela verdade do arrependimento.
Esperava em casa enquanto o relógio já marcava umas onze horas da noite e João nada de aparecer. O seu telemóvel estava desligado, pelo que Joana opta por chamar Júlio, seu melhor amigo e colega de secção. Júlio estava de férias no Brasil mas atendeu apesar da diferença horária que o transtornou. Este aconselha-a a telefonar ao José, outro colega, também compincha de noitadas e jogatanas. José atende e informa que está na tasca do costume e que o João estava por ali ou esteve, que o tinha visto ainda há cinco minutos junto do Júlio e do Joaquim. Estando Júlio no Brasil como podia estar na tasca junto do João? Joana, zangada, telefona ao Joaquim e fica a saber que este está em casa e nem sequer saiu por causa de um "campeonato de lerpa" em que o João participa e até está a ganhar, mas que de momento não pode vir ao telefone porque desceu com o Júlio há pouco para comprar mais cervejolas na estação de serviço onde trabalha o Jerónimo e que deve estar num instante de volta, mas o campeonato ainda vai a meio, foi só intervalo para reabastecer.
Joana prime o botão vermelho do telemóvel ainda antes de Joaquim terminar quando roda a chave na porta e aparece o João, com um cheiro inconfundível e brutal a perfume barato, de mulher... e uma história requintada onde o Júlio volta a aparecer, após ambos terem saído tarde do serviço e depois ido não sei onde prestar auxílio à sogra deste que por sinal é distribuidora de águas-de-colónia falsificadas e teve um furo no pneu do carro, mas que depois se perderam no caminho e o telemóvel ficou sem rede.
Desfecho:
Hipótese 1
Joana tratou de ouvir o João enquanto a história lhe parecia cada vez mais inverosímil, até que se despe totalmente à sua frente e o convida para um duche em conjunto. A roupa que João trazia nesse dia desapareceu sem que este a reclamasse e por outro lado a tal gravata nunca saiu do embrulho.
Hipótese 2
Joana não entende porque todos os homens se encobrem uns aos outros como se a uma irmandade pertencessem, desinteressadamente e naturalmente sem sequer urdirem esquemas ou planearem enredos, logo se enrolam em fábulas trapalhonas de simples detecção. João confessa a verdade e pede perdão enquanto Joana não se descose, representa o seu papel de ofendida e trata de aproveitar essa vantagem até ao dia em que é descoberta, tendo como consequência um divórcio litigioso.
Hipótese 3
Após acalorada discussão onde pratos e panelas estrilharam, o comando remoto da televisão saiu projectado pela janela da marquise e telemóveis ficaram definitivamente sem rede, João viu-se obrigado a refazer a sua história mais próxima à verdade, ou seja que tinha saído mais tarde do emprego, sem o Júlio porque este está de férias no Brasil (Joana confirma esse dado, coisa que estranha a João porque não se recorda de lho ter comentado antes), portanto sozinho saiu do escritório e pretendia regressar a casa directamente. Mas entretanto e de repente lembrou-se de que havia um "campeonato de lerpa" combinado na casa do Joaquim para essa noite (Joana franziu o sobrolho). Então realmente passou na tasca para avisar "a malta" que não ia aparecer pois tinha uns assuntos para tratar. A mudança de pneu no carro da sogra do Júlio realmente aconteceu, coisa que demorou não mais do que um quarto de hora (ao retirar o pneu sobressalente da bagageira, entornou acidentalmente umas amostras de perfumes), auxílio que prestou momentos antes de entrar em casa (as mão ainda sujas confirmavam a verdade), na esquina do quarteirão. Joana decide aceitar a história, embora não convencida de todo e sem explicação para o facto de Júlio ter sido incluído desnecessáriamente. Seguidamente confessou ao marido o seu segredo, confirmou o seu arrependimento e João acabou por lhe perdoar (algumas semanas depois) sem que alguma vez tenha revelado os seus "biscates".”
Texto gentilmente cedido pelo autor e publicado no Szerinting.
Publicado por Teresa C. às 08:19 AM
maio 25, 2008
O BERLUSCONI É UM TRASTE

Al Moore
O Berlusconi é um traste. Não adiantam panos quentes quando os factos se impõem. Dos 21 ministros do actual governo italiano, apenas quatro são mulheres. Escolhidas por dedo narcísico que delas pretende mais do que competência e eficácia. A imprensa têm destacado estas mulheres, quer pela sua atractiva imagem, quer pelo respectivo passado. Berlusconi trata-as como coitadinhas ao afirmar: "precisam de ganhar prática e de ser protegidas". Declarações de macho paternalista.
A ex-modelo e finalista do concurso de Miss Itália 1997, bailarina de televisão, é a nova ministra da Igualdade. Mara Carfagna, de 33 anos, ganhou fama ao provocar uma discussão entre Berlusconi e a mulher. Numa gala, disse-lhe o narciso latino: "Se nao fosse casado, queria casar-me contigo".
Silvio Berlusconi divide a Itália. Metade do país idolatra-o. A outra metade odeia-o. As duas Itálias assistiram à briga conjugal. Verónica Lario, a mulher de Berlusconi, exigiu do marido “desculpas públicas” por tê-la ofendido ao flirtar com uma deputada do Forza Italia. Il Cavaliere reagiu. Pediu perdão numa carta aberta onde recorreu à estafada razão do seu casamento atravessar “um período problemático”. Os antecedentes eram públicos. Berlusconi chegara atrasado ao jantar dos Telegatti (prémios televisivos), à 1h da manhã, num estado eufórico. Às 2h, prodigalizava piadas e propostas de casamento. Às 3h ofereceu-se como letrista ao cantor Zucchero. Às 4h proclamou Gianfranco Fini como seu sucessor da centro-direita. Na manhã seguinte, veio o desmentido.
Verónica Lario é a segunda mulher de Berlusconi. Como reacção à brincadeira(?) do marido que no referido jantar mencionou o suposto namoro entre ela e Massimo Cacciari, prefeito de Veneza e filósofo de esquerda, escreveu uma carta que a imprensa italiana divulgou:
“Com dificuldade supero a reserva que caracterizou meu modo de ser durante os 27 anos transcorridos junto de um homem público, primeiro empresário e depois político ilustre, como o meu marido. Considerei que o meu papel se deve circunscrever, principalmente, à esfera privada, com o objectivo de dar serenidade e equilíbrio à família. Enfrentei com respeito e discrição as inevitáveis discussões e os momentos dolorosos que fazem parte de uma longa relação conjugal. Agora escrevo para reagir às afirmações feitas pelo meu marido durante o jantar de gala que se seguiu à entrega dos Telegatti, (...).”
“São afirmações”, continua a carta, “que considero lesivas da minha dignidade, afirmações que pela idade, o papel político e social e o contexto familiar (dois filhos de um primeiro casamento e três do segundo) da pessoa da qual procedem não podem ser consideradas simples comentários jocosos. De meu marido e do homem público, exijo, portanto, desculpas públicas, não as tendo recebido em privado. (…) Na relação com meu marido escolhi não deixar espaço para o conflito conjugal, mesmo quando os seus comportamentos criaram condições para isso. (…) Sempre levei em conta as consequências que as minhas possíveis reacções poderiam gerar na dimensão extrafamiliar. Esta linha de conduta encontra um único limite, o da dignidade de uma mulher que deve constituir um exemplo para seus filhos. (…) Diante das minhas filhas, hoje adultas, o exemplo de uma mulher capaz de defender a dignidade perante os homens assume uma importância particular. (…) Creio que a defesa de minha dignidade ajudará o meu filho a situar valores fundamentais como o respeito devido às mulheres, de forma que possa manter com elas relações saudáveis e equilibradas.”
Publicado por Teresa C. às 10:30 AM
maio 24, 2008
MISS CASTELINHOS

Peter Driben
Quando a paixão ensandece, aproxima-se borrasca. Ou não - paixões há muitas, tantas quantos os chapéus. Já Vasco Santana disse no primeiro sonoro português, “Canção de Lisboa”: “chapéus há muitos, seu palerma!” Havia no início dos anos trinta, que, por ora, há bonés invertidos e sweats largueironas em vez dos paletós.
Os apaixonados pelo comando do PSD pavoneiam rituais de acasalamento que entre eles destaque um. Comove a dedicação à causa pública que manifestam no pensar e agir. Peregrinam pelas sedes partidárias de Norte a Sul. Tecem loas e desfiam cantigas de amor que os correlegionários convençam. Em muito semelhantes ao cábula Vasco que vive da mesada das tias transmontanas e por dizeres as endromina. Elas convictas de terem um sobrinho doutor. Que Vasco não é. Forrado e cosido de dívidas, prefere os arraiais, as cantigas e as mulheres bonitas, em particular Alice (Beatriz Costa), a costureira do Bairro dos Castelinhos.
Não me atrevo a assemelhar os barões do PSD ao alfaiate Caetano (António Silva), o pai de Alice. Contraria o namoro com Vasco até lhe saber ricas as tias que dele farão seu único herdeiro. Perturbado pelos cifrões e pelo poder inerente, aceita ajudar Vasco a fingir-se médico. À dupla associou-se o sapateiro, interessado no mesmo.
As próximas directas no PSD lembram a eleição da Miss Castelinhos. Cantando a “Agulha e o Dedal” venceu o concurso. O pai, esse, viciou premissas e resultados.
Nota: "Divagação" publicada aqui.
Publicado por Teresa C. às 12:04 PM
maio 23, 2008
O TEMPO DAS FODAS NOTÁVEIS

Jim Warren
Adulto recém-iniciado vê o mundo a preto e branco. Distingue o bem do mal, a verdade da mentira, a tristeza da alegria com uma clarividência notável. Treinado no uso do Excel, arruma em colunas pensares e atitudes. Dos resultados não duvida: a máquina é ágil e isenta de erro. É a idade do rei-na-barriga. De se levar a sério.
Mais ano menos ano, muda o cenário interior. Abala certezas e nascem dúvidas. Acumula vitórias e fracassos emocionais. Nos (des)amores, também. No desempenho sexual. Na inquietação do que dele espera o parceiro amado e o patrão. Contabiliza fodas sofríveis e notáveis. Estas, as que contam, grava no histórico individual. Esbate o preto e dilui o branco no modo de ver os outros e os valores – já traiu, foi traído, amou em desamor, experimentou os meandros obscuros da cobiça e da mentira.
Para alcançar a condição de adulto humilde sabedor não abdica interrogar-se sobre quem foi e quem é. Não desiste da incerteza como princípio do ser, da exigência no estar. No acto sexual atinge a idade maior – a concepção de foda notável adquiriu rigor. Do mundo abriu o leque cromático.
A idade da sabedoria chega quando o adulto desvaloriza banalidades e acumula fodas notáveis do espírito com o corpo. Então chegado o tempo do arco-íris colorindo o horizonte.
Publicado por Teresa C. às 02:50 PM
maio 22, 2008
NO INTERVALO DA “TOSCA”

Albert Herrera
Já Scarpia havia destilado veneno na forma de um leque pertença da Attavanti e corria, ciumenta, a Tosca para casa do “Mario mio”, quando com o “Te Aeternum Patrem omnis terra veneratur” findou o primeiro acto. Pano descido, abrem-se as portas dos camarotes e o sururu dos espectadores enche o São Carlos – desdenho a snobeira da expressão “Sã Carlos”, que os habitués julgam distinguirem-nos dos frequentadores ocasionais.
Na meia hora do intervalo, repartem-se as gentes em duas: a que não arreda pé dos comes-e-bebes e a viciada no tabaco. Gentes na essência semelhantes aquelas que encontram deleite nas festas da paróquia. As diferenças são acessórias: na carestia dos odores, no corte dos fatos e no bom gosto dos sapatos deles, no jeito de inclinar para o lado as pernas cruzadas delas, monotonamente fashion.
Resplandecia o Largo de São Carlos de luzes, abobado por azul-noite sem mácula. Na tepidez que permitia apenas um tecido leve sobre a pele, vi-a entrecortada pelas oliveiras-anãs. Cruzados olhares felizes pelo acaso – a perversidade do quotidiano urbano impõe afastamentos indesejados -, aproximámo-nos. Linda como sempre, preocuparam-meas pálpebras ligeiramente descaídas. Numa leve hesitação, apresentou-me o companheiro. Fixei-me na postura curva que denunciava cifose, nos olhos piscos e fugidios, no esgar-sorriso de circunstância. Desconfiei da exibida posse da mulher, traduzida no abraço poderoso e no olhar sobranceiro. Do silêncio roçando o acinte. Do incómodo que nela detectei. Da pressa dele numa despedida, quando da meia hora faltava metade para regressarmos ao escritório do pérfido Scarpia.
Ligou-me há pouco. Como pretexto, um pedido de desculpa. Desnecessário, disse-lhe. Desabafou. Culpada, disse, da incompreensível dependência duma companhia garante de partilha e ternura. Como paga, devolvia a generosidade afectuosa que lhe conheço e o inevitável sexo. Infeliz por sentir venda quando aspirava a amor cheio. Com tristeza, entendi a razão das pálpebras caídas.
Publicado por Teresa C. às 01:07 PM
maio 21, 2008
CHAMAM-LHE ATÉ “MARIAZINHA”

Alain Aslan
Pelos relatos femininos que amontoei, chamam-lhe “cereja”, “a minha menina”, “florzinha”, a “casinha”, “bidu-bidu”, "botãozinho", "papoilinha" e até, pasmem!, “mariazinha”. De tudo as mulheres ouvem quando as saias sobem e é remetido ao degredo o fio dental, a asa-delta, os boxers rendados, a cueca da avó ou qualquer outra forma de resguardo da fundura íntima. E elas, em cada estreia invasiva e prazenteira, pestanejam um par de vezes até integrarem o petit-nom. Quantas sufocam o riso, ou, porque impossível de conter, interrompem com uma gargalhada a conjuntura sensual. Não abaixem aos parceiros a auto-estima viril, elas zelam pela censura da espontaneidade, porque quem vê corpos entumescidos tudo ignora da moleza mental.
Neles, os equivalentes diminutivos costumam ser os próprios a divulgar - desde “júnior” a “zézinho” – ou qualquer «inho» acrescentado ao nome do utente -, passando pelos vernáculos tradicionais. De tudo as mulheres ouvem. E repetem, mordendo a língua para travar sublinhado jocoso à designação que muito conta de quem a profere, tal como a daquela outra que a gruta da mulher denomina.
Graças de alcova, mais do que distinguir o par no momento instituído, denunciam quem impõe a alcunha. Porque mudada a parceira, permanece o “júnior” e a “papoilinha”. E nestas subtilezas da libido, raramente as mulheres são madrinhas. Gostos, tremeliques ou manias que dos homens revelam o que, frequentemente, gostariam de ocultar.
Publicado por Teresa C. às 08:11 AM
maio 20, 2008
ROTINA E PONTO «G»


Dominique Wtez e Terry Rodgers
Publicado por Teresa C. às 01:55 PM
FRENTE À PORTA-JANELA

Bart Lindstrom
Sentada frente à porta-janela, inauguro o acordar. Abro as portas à frescura, por vezes brisa, outras vento que inspiro, suspensa das novas que me traz. E aborto os pensamentos, não me tente desfolhar a agenda que, teimosamente, preservo mental. Entre o chá-verde e o escândalo de uma caneca com mais de meio litro de leite, ligo a rádio. As frescas e raramente boas notícias da manhã cortam-me o devaneio. Despertam-me para o real, para os trabalhadores da construção que me rapinará um terço da vista para os relvados, cascata, riacho e folhagens do parque em crescimento. Os coletes verde-néon cobrem os fatos-macaco de homens que manobram ferros, máquinas e cimento desde as sete e meia da manhã.
Por essa hora, estou de saída. A rádio diz-me dos contadores de água cuja mensalidade a lei aboliu e os municípios travestiram de taxa adicional. Dos escoadouros entupidos por quem, dentro das latas volantes, entra na cidade grande. Da diminuição dos fundos comunitários destinados ao mundo rural. Dos doentes de autismo entre os quais apenas 1 em cada três está convenientemente diagnosticado. De a partir dos dezoitos anos não estar previsto para os autistas qualquer apoio governamental. E sinto pureza na alma por não me ter deixado contaminar pelo cinismo que a tantos impede a capacidade de ainda se escandalizarem. Porque não aceito que a desgraça de cada um de muitos constitua o bem geral, quero saber do meu país e do mundo. Por isso, com a frescura ou brisa ou vento lavo a alma frente à porta-janela.
Publicado por Teresa C. às 07:50 AM
maio 19, 2008
SÍNDROMA GABI

Voris Vallejo
Atinge ambos os sexos por serem precisos dois para o síndroma vir à tona. Mulheres famosas dão rosto e testemunho. Marília Gabriela e o actor Reynaldo Giannechini, vinte e quatro anos mais novo, sustentaram prolongado matrimónio. Pioneiros na ruptura do statu quo habituado ao síndroma Lolita – enlaces escaldantes de homens com décadas de avanço a meninas disponíveis para seduções serôdias. O Brasil fornece exemplos que são manchete nos tablóides: a belíssima Sónia Braga e o actor Sidney Sampaio com 29 anos a menos; Marisa Monte é para cima de década e meia mais velho que o marido; Elba Ramalho está casada com Gaetano Lopes, atrasado na idade 28 anos. Em Hollywood, o mesmo: Cameron Dias, 32, namora Justin Timberlake, 23; Gwyneth Paltrow, 31, e o líder dos Coldplay, Cris Martin, 27; Demi Moore, 42, trocou o semiparalizado pelo botox, Bruce Willis, por Aston Kutcher, 16 anos mais novo. Em Portugal, a Teresa Guilherme fez o mesmo.
Os preconceitos vigentes caricaturam o síndroma Gabi: eles são gigolôs interesseiros, elas Madames de Chatterly ou de Bovary, emocionalmente frágeis e que atravessam tediosos desertos sentimentais. No síndroma Lolita, a ninfeta é descrita como uma pubescente sexualmente precoce que, por remeter para a transgressão pedófila e para o elixir alquímico da longa vida, explora (des)equilíbrios nos homens de meia-idade. Em qualquer das situações, a fracção reptiliana do cérebro masculino manipula a conjuntura. O mito da “mulher-serpente” e o da “mulher vítima fácil” persistem nos estereótipos. A infidelidade feminina engloba ambos e é vista como contra-natura por não privilegiar o zelo pelas crias e o respeito devido ao macho. A infidelidade masculina enquadra-se na legítima proliferação do sémen que garante da espécie a continuidade.
Para trás ficou o conceito de Honoré de Balzac relativo à “La femme de Trente Ans” que, havendo beleza ou atracção, a ciência e as sociedades esticaram até aos cinquenta e muitos. O lado deliciosamente perverso desta realidade é o apetite suscitado pelas mulheres ditas balzaquianas. Afirmações avulsas dos novos candidatos a Vandenesse:
“São mais pacientes, mais compreensivas, e ensinam-nos a sê-lo também".
"A mulher madura tem mais experiência, sabe vestir-se e sugere um despir novo. Capta a atenção apenas com um olhar.”
“Se uma mulher quinze anos mais velha está connosco num namoro sério, com certeza é porque dá mais valor ao diálogo, à compreensão, ao respeito".
"Numa roda de amigos, olhamos para as meninas da nossa idade. Mas uma bela balzaquiana não a perdemos de vista.”
"Entre namorar uma garota da minha idade e uma mais velha, prefiro a balzaquiana. Para ela não sou uma conquista, mas um desafio perpétuo."
“A diferença no amor entre uma rapariga e uma mulher é simples: a rapariga cede, a mulher escolhe. Existe maior lisonja ao ego masculino?”
“Síndroma Gabi” ou “Complexo de Édipo”? Nem uma coisa nem outra e tão somente sinal da contemporaneidade?
No “La Femme de Trente Ans”, Honoré de Balzac escreveu:
“Enfin, outre tous les avantages de sa position, la femme de trente ans peut se faire jeune fille, jouer tous les rôles, être pudique, et s'embellit même d'un malheur. Entre elles deux se trouve l'incommensurable différence du prévu à l'imprévu, de la force à la faiblesse. La femme de trente ans satisfait tout, et la jeune fille, sous peine de ne pas être, doit ne rien satisfaire. Ces idées se développent au coeur d'un jeune homme, et composent chez lui la plus forte des passions.”
Nota: "Divagação" publicada aqui
Publicado por Teresa C. às 07:45 AM
maio 18, 2008
A CASA DO RIO VERMELHO

Autor que não foi possível identificar
Morreu Zélia Gattai. O sorriso amável e a serenidade desta mulher, mãe, companheira, escritora, perpassa na obra literária que, por ora, nos lega e aos 63 anos inaugurou. Filha de um casal de emigrantes italianos, o pai chegou ao Brasil no final do século XIX, com a intenção de criar uma comunidade anarquista na selva brasileira. A família da mãe, católica, chegou ao Brasil após a abolição da escravatura para trabalhar nas plantações de café, em São Paulo.
Aos vinte anos, casou com Aldo Veiga, intelectual e militante do Partido Comunista. Nove anos passados, já separada, conheceu Jorge Amado num congresso de escritores. Enquanto flirtavam e militavam politicamente, nasceu o amor que na posterior vida partilhada jamais arrefeceu. Por esse tempo, o intolerante regime brasileiro forçou-os ao exílio. Paris acolheu-os e animaram a cultura europeia ao lado de Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Paul Éluard, Picasso, Fréderic Curie.
Após três décadas de vida comum, corria o início dos anos sessenta, já de volta a Salvador, Bahia, Zélia e Jorge decidiram oficializar a união pelo casamento. Nesse entretanto, escreveu o romance “Anarquistas, graças a Deus” em que descreve a vida dos imigrantes italianos na São Paulo do começo do século e conta deliciosas e sofridas histórias da sua família. Os ideais que dela herdou, emolduraram o crescimento da mulher – família de anarquistas que defendiam uma sociedade sem leis, sem religião ou propriedade privada, em que mulheres e homens tivessem os mesmos direitos e deveres.
No “Memorial do Amor”, Zélia resgatou memórias dos 56 anos ao lado de Jorge Amado na casa do Rio Vermelho onde o casal recebeu personalidades significativas do século XX. A casa do Rio Vermelho será transformada num museu. Memorial que honre a obra, os ideais e o duradouro amor do casal vivido em português e que o mundo não esquece.
Publicado por Teresa C. às 11:23 AM
maio 17, 2008
TEXTURAS POLPOSAS E SUCULENTAS

Chris Beaumnont
Os entendidos prevêem que as cerejas da Beira Baixa fiquem pela “hora da morte”. E se a expressão popular a cada dia adquire consistência no sentido – cangalheiro, urna, coroas floridas que somente consolam os vivos, velas e panejamentos originam contas caladas que os defuntos não pediram. De volta à carestia das cerejas do Fundão e arredores, a culpa cabe inteira às bátegas de água deste Maio indeciso.
Eu, que adoro mordiscar texturas polposas e suculentas, entre elas as das cerejas, conformei-me, não sem íntima revolta – até na fruta o cidadão comum, cada vez mais pelintra, fica condenado à compra de espanholadas. Ora bolas!
Porque as palavras são como cerejas, temo que dumas e doutras Maio não me traga abastança. Apetecem-me palavras novas, doces e rijas, que me encham a boca e apeteça experimentar. Nas quais me lambuze e ouse a rendição. E não temo capitular pelo provimento de audácia que os genes e o histórico pessoal construíram. Pela liberdade do pensamento que as atitudes dita, somente rejeito ajoelhar perante causas cobardes ou tirânicas.
O escritor António Lobo Antunes subscreveu hoje a petição em linha Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico - assinatura nº 27223.
A petição está em linha em http://www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa e continuará aberta a receber assinaturas.
Às 18h00 de ontem ultrapassou as 28.000 assinaturas.
Publicado por Teresa C. às 10:12 AM
maio 16, 2008
CHARUTO TEMPERADO A FÊMEA

Alberto Vargas
Entre o aumento do preço dos combustíveis e as desgraças terrestres, nos dias dos portugueses paira o cinzento que a meteorologia acentua. Pinga água do alto, escorrem notícias tristes das televisões. Seja pela violência no Líbano que já matou sessenta pessoas, pelo desabamento de número inusitado de escolas na China que soterraram milhares de crianças, ou pelo atentado atribuído à ETA que causou a morte de um polícia e fez quatro feridos em Espanha, o desânimo encharca a hora do jantar.
A fumaça aérea do Primeiro Ministro interrompeu o desgraçado ciclo. Há coisa mais divertida, e que exemplarmente caracterize o espírito insubmisso português, do que ver o Chefe do Governo furar a lei que ele próprio impôs? Gostei, confesso. É refrescante constatar que ainda não nos amalgamamos com o obediente espírito dos outros europeus. Andava macambúzia com o nosso estar bovino que em tudo contradizia a lusitana tradição de fura-leis. Estávamos a ficar um tédio porque certinhos, aceitando num encolher-de-ombros os aguaceiros governamentais. Com uma fumaça clandestina, o Engenheiro José Sócrates repôs os usos tradicionais: proibições, sim, cumpri-las, não. E depois, pela irreverência, veio provar que não ficamos aquém dos americanos. Se o Clinton fumou charuto temperado a fêmea na sala oval, porque carga de água devia o nosso Primeiro prescindir de uma cigarrada aérea?
Publicado por Teresa C. às 11:13 AM
maio 15, 2008
ESTAVAM NA MESA DO CANTO

Beryl Cook
Estavam na mesa do canto. Passada a maré-cheia de fregueses pela hora do almoço que as empresas de serviços comandam, o sítio fica tranquilo. Altura em que me esgueiro para disciplinar o falho apetite. Na breve espera da posta de corvina grelhada e do feijão-verde cozido, eles chegaram. Sentaram-se pesadamente, como quem descarrega no assento arrobas de batatas. Que vieram, fritas, em pratos cheios. Ninhos de alheiras com ovo em cima. Nem ponta verde à vista.
Debicando as vagens do feijão aparado, foi audível o pedido de condimentos. Chegou o infeliz galheteiro ladeado de sal e pimenta. Caída na indiscrição que suavizei como pude – olhar intervalado e fugido –, registei os gestos síncronos. Sal, muito sal sobre as batatas, pimenta em seguida. Pelo silêncio harmónico era denunciada a longa conjugalidade. Entre a corvina e o café, registei da mulher os pés inchados que prendiam chinelas rasas de bom-tom. Obesa, concluí. Ele, abdómen como bola, pediu café e digestivo. Em três penadas, ela engoliu sucedâneo de leite-creme.
Matutei se compreenderiam as consequências do crime ingerido. Dois obesos emudecidos. Sem outra glória que a de trincarem colesterol na mesa do canto, repousando nos assentos os carregos de batatas.
Publicado por Teresa C. às 08:18 AM
maio 14, 2008
QUANDO ELA TREME

Daniel Bilodeau
Pode ser de quietude o estado. Parecer mansa e terna ou afadigada num dia comum. Acordar risonha. Entardecer dourada. Pode, num repente, mudar. Quando das entranhas vem o rugido, entra em convulsão. Sem que parto ou prazer húmido explica a doudice. Sendo feminino o género, não é mulher.
Que a Terra enlouquecemos, é certo. Mas quando ela decide o fragor, abre rasgos no que fora chão plano, destrói as obras dos humanos e estes com elas. Esgotada a energia que o grito causou, são gritos outros que ficam – dos feridos e daqueles que amavam os mortos. Milhões, porque a China é grande também em gente.
Há muito, pouco para quem a habita, que a terra portuguesa apenas solta vagidos e se esvai em tremuras suaves. Dela afirmam ser de risco o centro e o sul. Que as plataformas onde assenta se procuram. Que num amanhã, hoje?, talvez colidam e ralhem ou que venha do chão do mar a zanga. E se for? Será nosso o tempo do sofrimento. Antes que chegue previno-me: dos que amo cuido e conto-lhes do meu amor por eles.

Publicado por Teresa C. às 07:31 AM
maio 13, 2008
TELAS, PERNAS E PÉS NUS

AÇÚCAR
Pessoas, sol, silêncio, brisa suave, caminhar, neblina matinal, baixa-mar e maré-cheia, faróis, rugidos das ondas nas rochas e piados de gaivotas, these are a few of my favorite things.
Tela branca, pincéis e óleos, cheiro a aguarrás, lápis de carvão bem afiado, papel alvo, pátio sombreado por latada, cavalete e caixa de lápis-de-cor, these are a few of my favorite things.
Calor espesso do dia meio, pernas e pés nus, desarmonia das cigarras, rumorejar das folhagens, canto da água que salta, cerejas, violetas silvestres, pisar restolho, calcar caruma, inspirar fundo aromas de resina e pinheiro, these are a few of my favorite things.
Casa arejada, preservar livre o espaço, fotografias, os disformismos da Manuela Pinheiro, esculturas da Filhó, cartoons e os cavalos do Cid, cerâmicas do Carlos Oliveira, óleos do Ernâni, tapeçarias do Querubim Lapa, o erotismo cruzado entre a China e Portugal do Silva Palmeira, these are a few of my favorite things.
Noites longas abertas à vida, afectos, mãos, jeito de olhar, lábios cheios que um sorriso divide, mesa lenta e um bom vinho, cascatas de risos, corpos e sentidos espertos, these are a few of my favorite things.
VENENO
Sendo homem, talvez o arrazoado ficasse assim resumido:
Sex... hmmm… beer...
Cars... Football... sex
La dee da, la dee da,
La dee da, da,
These are my favorite things.
Publicado por Teresa C. às 07:50 AM
maio 12, 2008
INAUGURAÇÃO: PNET ARTES

Manuela Pinheiro
Abre hoje o primeiro site português integralmente dedicado às Artes Plásticas. É uma galeria de arte online que pretende reunir artistas das áreas da pintura, cerâmica, escultura, cartoon, ilustração, tapeçaria, desenho e gravura. Nela figuram obras de nomes consagrados nas artes pictóricas nacionais:
Augusto Cid
Antonieta Roque Gameiro
Carlos Oliveira
Conceição Ramos
Ernâni Oliveira
Manuela Pinheiro
Silva Palmeira
Víctor Belém
No PNET Artes têm lugar todos os artistas que tenham carreira feita ou em construção, como é o caso da Isa Vasconcelos e do Nuno Miranda Ribeiro. Cada artista possui a sua página pessoal. Nela figura o currículo, e dali é possível partir para as galerias que os respectivos trabalhos abranjam. As exposições são divulgadas com destaque honroso, e não remetidas para cantos escusos como soe acontecer nalgumas publicações escritas.
Porque os amantes das artes pictóricas, artistas e observadores, merecem o espaço digno que, amorosamente, a PNET construiu, peço aos leitores que o ajudem a divulgar. Talvez, quem sabe, a visita venha a traduzir-se em viragem na difícil vida de um artista plástico em Portugal.
Nota: A partir das 15h de hoje, www.pnetartes.pt abre a janela que faltava. Um logotipo no blog e, caro blogger, nem imagina o bem que fazia!...
“O segredo mais bem guardado dos homens (e que não será aqui revelado, caso contrário deixaria de ser segredo) é os seus pensamentos (...)" Crónica de James Stuart
“Prolegómenos para uma metafísica presente dos Notáveis” -“Quando se fala de Notáveis a única certeza conhecida é que se trata de uma estirpe (...)” Crónica de André Carvalho
Publicado por Teresa C. às 07:45 AM
maio 11, 2008
A LILLY DOS CASOS GELADOS

Mati Klarwein
Passou há dois anos nos ecrãs portugueses. “Cold Case” ou “Casos Arquivados” é um enlatado americano com ingredientes conhecidos: os maus e os bons, sabujos e bonzinhos, detectives e crimes. O sumo da série é este: uma equipa do Departamento de Homicídios de Filadélfia reabre casos por solucionar e investiga-os utilizando as novas tecnologias. Entre peripécias várias de encher o olho e colar ao sofá o espectador, a equipa consegue o milagre da confissão voluntária dos acusados. Não fosse o peso do remorso e a manipulação dos indícios, os casos continuariam gelados na arca frigorífica do tempo.
Série de culto para muitos, não me deteria se em vez da detective Lilly Hora do Rush (Kathryn Morris) fosse protagonizada por um polícia careca próximo da aposentação. Neste particular, os produtores da série acertaram: a história de uma mulher, loira, de meia idade, solteira, que trabalha rodeada de homens e com um passado misterioso fideliza a curiosidade.
A vida pessoal de Lilly é desfiada no decorrer dos episódios. O sangue frio e a dedicação integral ao trabalho tentam encobrir a vulnerabilidade da mulher por detrás da profissional exemplar. Solitária, carinhosa na intimidade, vive os quarenta anos rodeada de gatos, tal como ela, no passado vítimas de violência patente em chagas. Como muitos humanos, sublima o drama pessoal através da entrega a uma causa, aqui simbolizada pela profissão.
Lilly é o tipo mulher comumente descrita de modo cruel e redutor – “loira solteirona, independente e com sexualidade indefinida. Por ter sofrido em criança abusos sexuais, escolheu ser polícia para se vingar dos homens maus. Do que precisa para curar a carência afectiva é de um homem que lhe dê uma boa queca companhia.”
Publicado por Teresa C. às 11:45 AM
maio 10, 2008
DOS TELHADOS ÀS CATACUMBAS DA CIDADE

Claude Théberge
Alcandorados, descem ao rio. Quando o há. No âmago das cidades, sendo planura o chão, os telhados ge(r)minam aboletados. Resguardam o casario e as gentes que dele fazem casa ou sítio de labor pago. Circula sangue vivo nas ruas cavadas pelos fossos entre telhados.
Amanhecem tranquilas as cidades. Enganador o vazio do alcatrão e das calçadas - no descompasso da hora que rege de cada um o dia, chegam caminhos apressados e a cacofonia. Pelo movimento do sol – porque assim percepciona quem, pregado ao chão, o vê acordar e morrer pela tardinha – chega a obscenidade dos roncos motorizados e dos guinchos das buzinas. Abafados, ficam sons outros que às cidades pertencem e dão vida: o saudável vozear dos humanos que entre si estabelecem pontes, a música tocada pelas folhagens ou o linguajar próprio dos cães e aves.
E, quando a cidade esgota pelo cansaço quem nela habita, fica por conta dos morcegos e daqueles para quem o dia é turno da noite. Nas horas de todas as sombras, as catacumbas sobem à superfície.
Nota: texto publicado hoje a convite da "Dobra do Grito"
Publicado por Teresa C. às 10:11 AM
maio 09, 2008
SÁCRISTIA DO ARCEPISPO

Autor que não foi possível identificar
Um novo espaço onde pontifica o Arcebispo.
Do templo, abriu sucursal.
BOGOSFERA

Samuel Bak
Publicado por Teresa C. às 02:43 PM
UMA INQUIETAÇÃO E UM DESMANDO

Jan Boallert
A inquietação
Perante factos, afirma o povo, diminuem os argumentos. Sofredora consciente da patologia da razão, mais que o precisado eivada de emoção, desgoverno a lógica perante algumas notícias. A última, aventava a hipótese da herança de traços da personalidade do doador em transplantados.
Li a história de um honesto cidadão, de seu nome Sonny Graham, que sofria de insuficiência cardíaca congénita e recebeu o coração de Terry Cottle que se suicidara com um tiro na cabeça. Cumprido um ano de receptor do novo órgão, procurou a família de Cottle para o agradecimento pessoal. Acabou por se envolver e casar com a viúva do seu doador, Cheryl Cottle. Passada uma dúzia de anos, o feliz contemplado com mulher e coração novo, o referido Mr.Graham, suicida-se com um tiro na garganta. A desgraçada Cheryl enviuva pela segunda vez devido à panca suicida dos respectivos.
Porque da lógica não desisto, quem garante não residirem os motivos últimos do uso da arma de fogo no comportamento da casada-viúva-casada-viúva, Cheryl Cottle? É que há cada um e cada uma...
O desmando
Um casal irlandês, de férias em Portugal, abusou dos copos na tépida noite algarvia e deu entrada no hospital em coma alcoólico. A polícia tomou conta dos três filhos deixados sozinhos e entregou-os ao cuidado do Refúgio Aboim Ascensão. Recobrada a consciência dos pais, foram-lhes devolvidas as crianças. Há gente incapaz de aprender com o sofrimento alheio. E depois, as inocentes Maddies deste mundo é que pagam a factura da neglicencia parental.
Publicado por Teresa C. às 07:50 AM
maio 08, 2008
SEM PRESERVATIVO QUE SE DANEM OS APETITES

O Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa divulgou, terça-feira, os resultados daquele que é considerado o maior estudo alguma vez realizado sobre a sexualidade dos portugueses. Objectivo: analisar os comportamentos “numa perspectiva de práticas, representações e identidades bem como de atitudes preventivas sobre a infecção HIV/Sida”.
As conclusões confirmam dados antigos. Os homens têm maior número de parceiras, traem mais, declaram maior frequência e gratificação nas relações sexuais que iniciam dois anos antes de nós (por volta dos dezassete anos). Nada de novo. Não ficou esclarecida a perplexidade das mulheres de ontem e de hoje: na horizontal, na oblíqua ou na vertical eles dão-se por contentinhos, independentemente do prazer obtido pela parceira.
Foi concluído que aproximadamente 60% dos portugueses não usam, não usaram e não tencionam usar preservativo. Penderia o queixo pelo espanto, não fosse atávica a lusitana rebeldia à mudança de costumes. Ainda lembra a dificuldade em interiorizar nos condutores a utilização do cinto de segurança. Cumprir limites de velocidade, ter seguro válido, documentos em ordem e automóvel afinado obrigou à fiscalização da polícia e multas. A entrega da declaração anual do IRS é feita sob a coacção de coimas e maçadas. Que tememos tanto, ou mais que a polícia.
Fossem os actos sexuais passíveis de policiamento e encargos onerosos, teriam mudado os usos. Mas não. Ora, sendo tirada à Monsieur de La Palice que são precisos dois para fundar império dos sentidos, e admitindo, malgré a óbvia falsidade da conclusão, que apenas 0,7% dos portugueses são homossexuais, as mulheres têm culpas no cartório. Vem a calhar sublevação feminina – sem preservativo que se danem os súbitos apetites! "Em vez de", um duche. Bem frio.
Crónica publicada ontem no PNET Mulher
Publicado por Teresa C. às 07:58 AM
maio 07, 2008
O (DES)GOSTO DOS GINÁSIOS

Mulher que se inscreva num wellness center – ginásio é termo out, dizem - julgando distrair-se com cópias do David de Michelangelo enquanto relaxa e combate o puxa-para-baixo da gravidade terrestre, desengane-se. Se o herói bíblico, postado em sossego na Academia di Bella Arte em Florença, tem cinco metros de altura, tudo no sítio e a dureza do mármore, os «davidzinhos» dos clubes de bem-estar são deploráveis. Dividem-se em duas categorias: os “Vs” (de)pilados que gemem enquanto os bíceps esticam, não arredando os olhos do incha-desincha como se a definição dos músculos fosse a essência da vida, e os “Outros”. Estes usam calções largos de onde sobram pernas, invariavelmente, desastrosas e têm pêlos onde é suposto – I guess!, que quem vê pernas ignora o que vai pelas áreas pudibundas. Subdividem-se nos escanifrados e nos valentes que guerreiam litros de cerveja, feijoadas e cozidos alojados nos abdómens proeminentes. Nesta divisão, o uso de meias brancas é recorrente.
Outro item que também distingue as categorias dos utentes masculinos é o respectivo comportamento perante as mulheres reveladas pela licra. Os “Vs”, ao olharem-nos, assestam monóculo invisível no grau de dureza da nossa curva traseira. Sem detença, progridem até à postura e à forma musculada dos ombros e antebraços. Os “Outros”, sendo heteros, são normais – vão do rabo às mamas, depois catam montes de Vénus que a justeza das calças exiba. Embasbacam, quando abrimos e fechamos as pernas no abductor sel, com a discrição de um sapo ao esticar a língua para caçar alimento. Os “Vs”, não - avaliam com sobranceria a nossa execução dos abdominais e o levantar dos pesos.
Abordar uma mulher entretida na Wave ou em exercícios pélvicos, culmina as diferenças entre os espécimes cujo habitat precário é o ginásio (sorry!, wellness club or center). O “V” pede licença, corrige o exercício e fundamenta tecnicamente a intervenção. O “Outro” dardeja olhar que pretende significante e só detém a mulher por estar convicta de poder assistir a uma apoplexia em qualquer instante.
Fossem os homens que connosco partilham os treinos como o sereno e belo David, e mais mulheres trocariam artifícios cirúrgicos pelo tranquilo desafio com o próprio corpo num ginásio (shame on me!, wellness club or center).
Publicado por Teresa C. às 07:40 AM
maio 06, 2008
OS ALEXANDRES DAS NOSSAS VIDAS

Steve Rosendale
São atentos, dedicados, cobrem-nos de mimos. Dizem amar-nos. Das mil maneiras, inventam mais uma para nos cativar. E cativam. Porque a ternura nunca é demais e pelo registo cúmplice, uma vez com eles envolvidas em lençóis comuns, chegamos a verbalizar a palavra amor. Que nem é mentira naquele instante preciso – a insanidade dos sentidos eleva a mil potência de base dez. Na teia docemente urdida, alojamos nostalgia do haver, o desejo de tudo ser mais do que é. Porque a razão é malvada ao intrometer-se nas acarinhadas ilusões, espicaça a verdade dos sentimentos e vai escasseando no verbo o “amo-te”. Ao dar por isso, já é tarde para colmatar o prejuízo ao outro e a nós feito. E não quereríamos ter dito o que dissemos. Experimentar o sentir dúbio do não é, mas podia ser. Arrependimento? Nem por isso. Houve momentos felizes, puros e sãos. Ambiguidades e incertezas? Trocar os «bês» pelos «vês»? Sim, é certo. Quem pelo mesmo nunca passou, não atire pedra. Não fossem os Alexandres, como identificaríamos a majestade dum grande amor?
A Leonor Barros é, doravante, a cronista das terças-feiras. Escreve, e que bem o faz!, aqui e “Na Curva da Estrada”
Publicado por Teresa C. às 05:46 AM
maio 05, 2008
MARIJUANA, REGGAE E MAIO DE 68

Alain Aslan
No sábado, em 239 cidades do mundo houve Marcha Global pela despenalização do consumo das designadas drogas leves – haxixe e marijuana, entre outras. Portugueses manifestaram-se no Porto, em Coimbra e Lisboa. Miguel Portas caminhou, acompanhado de seiscentos cidadãos e ao ritmo do reggae, desde a rua da Escola Politécnica até ao Largo do Camões.
Segundo notícia da Lusa, um dos manifestantes declarou: "Queremos poder consumir sem termos de andar em sítios estranhos ou com pessoas perigosas a consumir cannabis com aditivos.” Manifestantes, crianças a adultos, dançaram, uns "mascarados" de folha de cannabis outros com tarjas e um "charro" gigante. O cheiro do haxixe esvoaçou o caminho da festa.
É certa a polémica que subjaze à reivindicação. Permaneço convicta da sabedoria do velho ditado: “o fruto proibido é o mais desejado”. E mais caro, acrescento. Mais vulnerável a adulterações. Pela venda no inferno das cidades, os traficantes depressa transformam o primeiro passo curioso em escarpa dolorosa que lhes encha os bolsos. Garantem a aniquilação das vítimas que prendem como tenazes. E se o movimento do Maio de 68 comemora trinta e nove anos, a frase de Conh-Bendit “Esqueçam 68, nós ganhámos” desmente outro dizer seu “É proibido proibir.” O amor livre, essa outra bandeira, continua tão livre como antes.
Publicado por Teresa C. às 08:11 AM
maio 04, 2008
A MINHA ORAÇÃO SERÁ VOSSA

J Honeil
Sete crianças portuguesas desaparecidas. Tragédia sem alívio pela condição de país do mundo que contabiliza menor número de casos destes. Há dois anos, sobressaltou as consciências o assassinato da Joana Isabel Cipriano Guerreiro, ou simplesmente Joana. Tinha oito anos quando desapareceu da aldeia da Figueira, Portimão. A mãe e o tio foram condenados pelo homicídio ainda que desaparecida a prova maior: o cadáver.
Continua incerto o futuro da pequena Esmeralda de quase cinco anos de idade. A (in)justiça fez dela bola de ping-pong. De um lado, o sargento Gomes e a mulher, pais adoptivos, do outro, o pai biológico que não lhe desejou o nascimento. Ontem, morreu um jovem de dezoito anos na praia fluvial do Mondego chamada dos Doutores. No feriado de 25 de Abril, foram três as vítimas mortais nas estradas portuguesas.
Não é possível a muitas mães celebrar em alegria o dia do amor maternal seja pela doença, desaparecimento, morte ou ausência - nalguns casos, mãe e filho em presença. Data sem festa. O coração definhado e dorido. Lágrimas e silêncio. Mães coragem que o não deixam de ser pela precariedade das vidas. Hoje, a minha oração será vossa.
Publicado por Teresa C. às 11:14 AM
maio 03, 2008
RAPIDINHAS

Carlos Diez
«Rapidinhas». Quantos não lhes conhecem delícias e incidentes picarescos? Classifico-as em duas categorias.
- «Rapidinhas» sem sal. Dietéticas. Estafadas. Remedeios. Passada a fase de nos despirmos para o amor e chegada a do pijama, o calor da cama mais o corpo ao lado despertam o desejo e acontece a «rapidinha». Instituição masculina na conjugalidade. Alinhamos do mesmo modo que comemos insípidos gelados de baixas calorias em reserva no congelador - sabem a pouco; apetece recorrer a uma gelataria para nos lambuzarmos com sorvetes dos mais calóricos que houver.
- «Rapidinhas» picantes. Apetitosas como chamuça acabada de fazer. Associadas ao frémito do proibido e à transgressão. Impetuosas ao desatinarem emoção e corpo. Aquele olhar que nos deixa loucas, enquanto fruímos da bebida num final de tarde na esplanada do Albatroz, pede sequência. Não pode passar impune. Tentamos ficar pela brincadeira dos lábios e língua na beira do copo, mas não dá. Por essa altura já os corpos se inclinam, e, antes que um dos dois vire a cadeira de pernas ao ar, viram-se para outro lugar. O mais à mão e que demita o mau senso de percorrer a Marginal até casa com os sentidos atormentados. Porque a segurança rodoviária merece, o Código da Estrada devia contemplar «rapidinhas» em trânsito.
Publicado por Teresa C. às 02:11 PM
maio 02, 2008
CARJACKING E CAVES DOS HORRORES

Delara Darabi
Por cá, é falado o carjacking. Apontados como alvos preferenciais os condutores de veículos acima dos 35 000 euros. Pelo meu quatro rodas pelintra descansei – estou fora da mira dos especialistas na moda importada dos Estados Unidos. Nos “States” remonta há dez anos. O atávico atraso português, abençoado neste particular, deu por ela de há dois anos a esta parte. Ainda bem.
Das importações maldosas da estranja, temo as que da Áustria podem surgir. Após Natascha Kampusch ter sido sequestrada a caminho da escola, foram passados oito anos até ser encontrada a vaguear num jardim de Viena. Os média caíram-lhe em cima e a história da perversidade correu mundo. Especialistas diagnosticaram-lhe síndroma de Estocolmo - fenómeno psicológico caracterizado pela criação de laços afectivos entre vítima e raptor - que talvez explique não ter ousado a fuga. O sequestrador, Wolfgang Priklopil, um técnico de 44 anos que viria a suicidar-se ao ser descoberto o crime.
Não bastava o bastante, eis descoberto um pai tarado e tirano que sequestrou a filha durante vinte e quatro anos. Abusada desde criança, ao chegar aos dezoito anos o pai encerrou-a no porão da casa onde vivia com a mulher. Pai e filha geraram sete crianças: uma morta por falta de assistência, três criadas no cativeiro e outras três adoptadas pelo pai e pela mulher-avó. Mea culpa pela generalização, mas a civilizadíssima Áustria surge aos olhos do mundo como propensa a gerar monstros com pancas subterrâneas. Pior: perante as caves dos horrores a preocupação austríaca vai direitinha para sabonária esmerada que lhe desencarda a imagem a tempo do Euro de Futebol.
Publicado por Teresa C. às 09:35 AM
maio 01, 2008
COMO A BANDA DO ZÉ CARRAPATO

Bruno Di Maio
Quando Maio abre portas na utilidade formal da semana, é dia regalado. Porque as cidades encerram para descanso do pessoal trabalhador, abrem as tendas de febras e couratos que proporcionam conforto reinadio aos assalariados em festa memorial. Perguntado um a um o que festejam, a maioria desdentada que pontifica nas entrevistas de rua dos telejornais, hesita, franze o sobrolho por segundos meditativos para arribar ao “porque é dia do trabalhador”. De pronto, continua pasmado na relva a ouvir a banda do Zé Carrapato e cuspindo aleivosias às “gajas de umbigo à mostra”.
Vasculhando antecedentes da data, nada de excepcional a marca, salvo uma manifestação de trabalhadores em 1886 nas ruas de Chicago. Reivindicavam a redução da jornada de trabalho para 8 horas e inauguraram greve que imobilizou a economia da U.S.A.. Cinco anos depois, num ajuntamento de milhares de trabalhadores no norte de França em luta pelo mesmo, morrem dez manifestantes sob as botas da polícia. Quanto ao mais que a história debita sobre movimentos laborais, o que importa aconteceu a 23 de Abril, a 3 e a 4 de Maio.
Em cinquenta anos portugueses, falar ou tão somente reflectir sobre o símbolo e o jeitaço da comemoração era matéria sob alçada da PIDE e do lápis censório. Uma pepineira justificada pela miúfa e vistas-curtas. Lixou-nos a Internacional Socialista ter decidido convocar manifestação no primeiro de Maio anual com o objectivo de continuar a luta pelas 8 horas de trabalho diário. Não ajudou a remover o bolor salarazento a «demoníaca» Rússia tê-lo adoptado como feriado nacional. Os Estados Unidos mandaram às malvas o simbolismo e comemoram o Labor Day na primeira segunda-feira de Setembro. Uns sovinas, que por via do estabelecido impedem «pontes» ociosas.
Na Austrália, é dia do trabalhador quando uma região quiser: a 4 de Março na Austrália Ocidental, a 11 do mesmo mês no estado de Vitória, a 6 de Maio em Queensland e no Território do Norte, a 7 de Outubro em Canberra e Sydney. Esta última opção interessa-me particularmente por corresponder ao dia em fui nascida – é tortura a madrugada laboral que anula soneca comemorativa. Sofrimento em tudo semelhante aos clones da banda do Zé Carrapto à mistura com couratos.
Nota: "Divagação" publicada no PNET Mulher.
Publicado por Teresa C. às 03:51 PM