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maio 22, 2008

NO INTERVALO DA “TOSCA”

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Albert Herrera

Já Scarpia havia destilado veneno na forma de um leque pertença da Attavanti e corria, ciumenta, a Tosca para casa do “Mario mio”, quando com o “Te Aeternum Patrem omnis terra veneratur” findou o primeiro acto. Pano descido, abrem-se as portas dos camarotes e o sururu dos espectadores enche o São Carlos – desdenho a snobeira da expressão “Sã Carlos”, que os habitués julgam distinguirem-nos dos frequentadores ocasionais.

Na meia hora do intervalo, repartem-se as gentes em duas: a que não arreda pé dos comes-e-bebes e a viciada no tabaco. Gentes na essência semelhantes aquelas que encontram deleite nas festas da paróquia. As diferenças são acessórias: na carestia dos odores, no corte dos fatos e no bom gosto dos sapatos deles, no jeito de inclinar para o lado as pernas cruzadas delas, monotonamente fashion.

Resplandecia o Largo de São Carlos de luzes, abobado por azul-noite sem mácula. Na tepidez que permitia apenas um tecido leve sobre a pele, vi-a entrecortada pelas oliveiras-anãs. Cruzados olhares felizes pelo acaso – a perversidade do quotidiano urbano impõe afastamentos indesejados -, aproximámo-nos. Linda como sempre, preocuparam-meas pálpebras ligeiramente descaídas. Numa leve hesitação, apresentou-me o companheiro. Fixei-me na postura curva que denunciava cifose, nos olhos piscos e fugidios, no esgar-sorriso de circunstância. Desconfiei da exibida posse da mulher, traduzida no abraço poderoso e no olhar sobranceiro. Do silêncio roçando o acinte. Do incómodo que nela detectei. Da pressa dele numa despedida, quando da meia hora faltava metade para regressarmos ao escritório do pérfido Scarpia.

Ligou-me há pouco. Como pretexto, um pedido de desculpa. Desnecessário, disse-lhe. Desabafou. Culpada, disse, da incompreensível dependência duma companhia garante de partilha e ternura. Como paga, devolvia a generosidade afectuosa que lhe conheço e o inevitável sexo. Infeliz por sentir venda quando aspirava a amor cheio. Com tristeza, entendi a razão das pálpebras caídas.

CAFÉ DA MANHÃ
Hoje:

“Teorias pedagógicas da treta” – “A Educação, sempre a Educação. Agora, surgiu-lhes a ideia peregrina de unificarem os primeiro (...)"

“Os betos de Muskogee” – “No mesmo dia em que foi assinado o acordo ortográfico que extinguiu a trema da linguiça brasileira (...)”

“From Nashville to Memphis passando pela Cruz Quebrada” – “Há músicas que se colam ao ouvido como UHU e não nos largam durante dias a fio, são uma praga boa (...)”

PARA UM DIA DE CHUVA

Publicado por Teresa C. às maio 22, 2008 01:07 PM