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maio 27, 2008
QUE MORRA EM PAZ

Toby Boothman
Quando calha antecipar o fim do dia, além do que tenho desejo mais. Se espraio no longe o olhar, nada vejo - esborrato a distância, deixo sumir rasgos de azul. Não se apague tudo de todo, largo o parapeito e aconchego-me no silêncio tépido do fúcsia e verde-lima. Resvalo para quem sou. Para o incómodo de ouvir o pensamento bradar. Obsessivo, envolve-me em lençóis de amanhãs que não tenho ou espero. Por isso teima e vigia. Por isso asperge veneno e perfume. Sem que o amordace, permito-lhe a tortura do ruído. Que me arrebate e, na sela, com ele inicie cavalgada. Que sei insana. Que dói. Que pela brida me anestesia o ser.
Se pelo cansaço ou réstea de vontade me agiganto e debato, fico com as rédeas na mão. Desmonto-o. Ainda preso, sinto-lhe o respirar penoso, os cascos em cacos que pontapeio com força. E para ali fica jazendo, espreitando-me de soslaio. Cubro-o de esquecimento e sussurro-lhe: morre em paz.
Irene Pimentel, recebeu o prémio Pessoa pelo trabalho desenvolvido na qualidade de investigadora da história contemporânea.
Publicado por Teresa C. às maio 27, 2008 07:44 AM