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junho 10, 2008
ZAROLHO, DESENRASCADO E AFOITO

Anthony Christian
10 de Junho - Dia da Raça. De Camões ainda entendo, ou o defunto não tivesse sido exemplo do desterrado génio zarolho, desenrascado e afoito. O símbolo da gesta dos Descobrimentos e da epopeia portuguesa deu o pretexto ao morrer a 10 de Junho de 1580. Mas da raça... Qual raça se mais não somos que herdeiros de miscelânea de povos? Cruzámos sangues, disseminámos sémen pelas cinco paragens que dizem ter o mundo. De coitos vários nascemos. Por outros tantos povoámos continentes. Se alguma característica nos distingue dos assépticos povos europeus é a da prontidão para a cópula, seja qual fora a raça da fêmea que, acordando a tradição, está por baixo.
No canto nono dos Lusíadas, navegantes e reles tripulantes fornicaram com ninfas entendidas na arte do toca-e-foge. Um deles, Leonardo, desafortunado nos amores, viu mudança no fado por Efire, “exemplo de beleza que mais caro que as outras dar queria”. Mas deu. “Volvendo o rosto já sereno e santo, toda banhada em riso e alegria, cair se deixa aos pés do vencedor, que todo se desfaz em puro amor.” A pertinácia lusa que mais valoroso exemplo podia ter? Centenas de anos volvidos, o Zezé Camarinha das terras algarvias tentou fazer jus à herança.
Arrepia-se a esquerda pelo associar da celebração da raça ao 10 de Junho que o Estado Novo glorificou. Vãs cogitações! Não há raça salvo a que advém da condição de copuladores intercontinentais. Nem assim única - os espanhóis puxaram dos galões literários de Don Juan e fizeram mais do que podiam.
Pela história e nos Lusíadas, encontrem alívio os espíritos canhotos, porém sensíveis. Porque, afinal, mais não foram os nossos heróis que aprendizes indefesos da sabedoria feminina.
“De uma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes súbito mostradas;
Uma de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indignadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.
Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam:
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.”
Nota: "Divagação" publicada aqui.
Publicado por Teresa C. às junho 10, 2008 10:30 AM