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julho 13, 2008
A UNHA DO PÉ

Autor que não foi possível identificar
Sentado no sofá, num interlúdio do durante, ele acariciava-lhe os pés. Um a um, nenhum dos dedos esquecia. Gostava deles papudos como soem na infância ou no tempo de Lolita. Não eram assim os dela – esguios e magros como os pés, o corpo e o pescoço. Pelo fetiche, desviava do rosto dela a atenção, olhava-os erguidos ao alto e abertos em leque quando as vagas de prazer sucediam. Sempre fora assim. Também por isso, somente tivera duas paixões. A última fora devida às formas opulentas e novas, o cheiro a sexo sem que o houvesse e, fatalmente, aos dedos dos pés. Dela contava às que ameaçavam a memória da paixão antiga. Actualizada quando o chamamento e a saudade o reclamavam. Das outras gostava assim-assim. Afectos mornos e infiéis. À maneira dele. Uma amava-o, outra era entretém longínquo, a terceira conhecera-o cinco anos atrás e, desde o último, tinha-o por mentiroso. Mais havia que não contavam - fogachos consumidos na adrenalina do momento. Fatuidades que serviam para lhe provarem a virilidade que temia, um dia, adormecer. E teimava na webcam e nos orgasmos virtuais. Dali aos reais era um passo que não hesitava em calcorrear.
À terceira perguntou: “Que tenho de especial?” Ela, com a rapidez useira, respondeu: “Nada; tão pouco eu. O feitiço é o histórico comum.” Meia-verdade ou verdade inteira – o laço cúmplice não tinha, para qualquer dos dois, paralelo. Ela sabia que ele sempre a temera – mulher inteligente e intensa é perigo eminente. Agora, ele vinha e ela esperava-o, sabendo que havia três horas se despedira da que o amava e era a galinha dos ovos de ouro dele.
Quando disse “Tu és a tua unha do pé!”, ela riu. Soube que, muito tarde, começava a entendê-la. No reencontro seguinte, a unha do pé não estava igual.
Publicado por Teresa C. às julho 13, 2008 11:09 AM