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julho 31, 2008

AS PONTAS DOS DEDOS QUADRADAS

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Tinha as pontas dos dedos quadradas. Na espera pela vez, encostada ao balcão, era impossível despegar delas os olhos. Forma igual à das teclas que dedilhava com lentidão. A cada meia dúzia de dígitos, olhava para o ecrã. Apoiava o rosto na mão e aquietava-se. O casal em atendimento espreitava o monitor na esperança de entender o imbróglio – deviam estar há muito na mesma posição por pendularem entre um pé e o outro. Espreitei também. Nada. Apenas silêncio.

Passado um ror de tempo, a única funcionária e dona das extremidades dos dedos quadradas, agarrou no auscultador e marcou um número. Que faltava um código, que ela não o sabia, só o Sr. Carlos, que ele só entrava às duas, que antes nada podia fazer. Entretanto, a senhora da limpeza, fardada a verde e cinza, espanejava o computador do lado. Sem nada ter limpo de facto, à parte levantar e poisar uns papéis, acenava confirmando a informação. Deu por encerrado o trabalho na área esquerda e aproximou-se da zona reservada à funcionária. Abespinhou-se: que limpasse noutra altura, que com ela por perto não conseguia trabalhar, que passasse o pano no lado do Sr. Carlos. “Já está Dona Umbelina e olhe que assim não pode ser; tenho mais salas para cuidar e à uma começo por aqui!” Perguntou-me as horas ignorando o relógio da parede fronteira. Consegui abafar o pasmo e responder: “uma e dez.” A Dona Umbelina, essa continuava a olhar para o monitor.

Às tantas, diz para o casal: “falta-me um código. Sem ele nada feito. Voltem às duas por favor. Sou nova aqui e o Sr. Carlos é que sabe.” O ar lamentoso da Dona Umbelina impediu o casal de vociferar deselegâncias. Consciente do que me esperava, coloquei a questão. Ouviu-me sem um pestanejo – “até as pálpebras tem paradas”, pensei. Que ia tentar mas não prometia nada, que se fosse preciso um código arrevesado teria de esperar pelo Sr. Carlos. E foi. E não esperei. Condoída pela culpa estampada no rosto de meia-idade da Dona Umbelina, desejei-lhe um resto de boa tarde. Devolveu-me sorriso aliviado.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 09:03 AM

julho 30, 2008

MARIDO E FILHO? PORMENORES DE SOMENOS!

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Delia Brown

Ele abeira os sessenta. Casado há trinta e cinco anos. Ela mimada com griffes, viagens, condomínio a preceito, automóvel, cartão de crédito à l’aise da consumidora compulsiva. Sócia da empresa engendrada por ele. De há pouco a esta parte, decidiu pedir o divórcio – enrabichada, via net, por GNR musculado que julgo competente em iludir mulheres à cata de auto-estima e de lifting romântico. Ela caiu como pata em águas-sujas que tomou como frescas. Assim seja!

Começou por separar quartos. Ela. Após o dia que nunca lhe foi pesado – banho de lojas e disse-que-disse com amigas seguia o duche matinal -, remetia-se à clausura do quarto. O computador, com ela. Pela manhã, renovava o ritual e seguia, máquina a tiracolo, no automóvel comprado pelo marido. Não fosse Belzebu tecê-las, a prova do delito ia colada. Ele atentava e percebia o não-contado. Deixou andar, não fosse resquício da menopausa ou da cirurgia limpa-útero que ele pagou e seguiu, tolerante, na qualidade de marido atencioso que jamais descurara.

Decidida a tomar rédea na empresa, diariamente apresenta-se, agora, ao serviço. Aos mundos-e-fundos que exigiu – basicamente, ele ficava com a cama e ela levava para a segunda casa o que bem lhe apetecia –, resolveu acrescentar provocações públicas. Ele caiu – ensaiou um pontapé que não logrou atingir o alvo. Ela apresentou queixa-crime uma semana depois – presumo ter sido quando lhe doeu. Por testemunhas, empregadas. Com a testemunha maior, a má consciência, pode bem.

Entretanto, vai com o GNR às compras - lady de Max Mara, Burberrys e Lanvin, adquiriu, no El Corte Inglés, halteres que ao guarda fortalecessem os bíceps. O marido e o filho são pormenores de somenos.

CAFÉ DA MANHÃ

"Longe" - "A tecnologia informática permite parágrafos publicados em dia e hora previamente definidos. Longe dos lugares (...)"

António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 08:47 AM

julho 29, 2008

“BOM DIA, MEU AMOR!”

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Arthur Braginsky

Levantou-se pelas nove da manhã. Era domingo. Não acordasse os dormidos, pôs-se ao ferro de engomar. Sem empregada, casa composta de pai, ela, a mãe, e dois filhos, constatou: - há vinte e dois anos casada, nunca fui acordada com um beijo e o sussurro “ bom dia meu amor!” Ligou-me com o ferro no descanso e lágrimas na voz, seria hora de almoço, havendo naquela casa união. Que não há. Interpôs divórcio há dois anos e metade de outro. Portas adentro, tem um cretino que sustentou tempo demais. Automóveis, statu, férias, refeições, empregada a tempo inteiro, despesas dos filhos, tudo por conta dela. Fartou-se. Esgotou o papel de trouxa. Contratou advogado e pediu o divórcio. Que ele não dá. Afirma ao juiz que está bem casado e da condição não sai por vontade própria. Pudera!, deixou de trabalhar. Vive do subsídio de desemprego e às custas da candidata a ex-mulher. Fica na cama até tarde. Entra e sai quando lhe apetece. Esbodega-se nos sofás frente à televisão. Para ele, o quarto ensuite no condomínio de luxo. Para ela o sofá num canto do salão, a roupa pendurada num chariot. Na violência de um conflito, partiu-lhe um dedo do pé. Ela continuou, coxa, o trabalho de executiva brilhante na multinacional de renome. Entra cedo e sai tarde – porque é preciso, por ter receio de regressar a casa. O mundo dela desmorona-se. O dele continua inteiro. No tribunal, espera-a audiência, que deseja última, para os finais de Setembro. Ele deseja continuar casado. Uma ressalva: se for posto em nome dele o apartamento que ela comprou, declara-se pronto a dar por findo o contrato conjugal.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Leonor Barros

Publicado por Teresa C. às 08:45 AM

julho 28, 2008

QUEM NÃO FOR COM MISSAS

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Elizabeth Austin

Quem não for com missas é favor passar adiante. Fiquem as palavras para os resistentes. O sétimo dia em que Deus terá descansado ficou oficializado ao domingo. Nas cidades grandes, é pretexto para fugas, o nada-fazer, limpar os metros quadrados que as paredes domésticas limitam, passeios-dos-tristes, namorar ou para discussões conjugais. O freguês pede, o domingo dá.

Nos meios pequenos, os itens continuam iguais. Todavia, há acrescentos de monta. A missa congrega crentes e não-crentes. À volta dela, gira a manhã do dia. A partir das nove e meia, batem portões e saem os madrugadores. Cuidados no trajar, os casais de idade são os primeiros a cumprir o ritual. Deixam para depois a feitura do almoço. Havendo família a juntar, mais tempo sobra para os paparicos que, amorosamente, reservam aos filhos e netos. Quem entende que o domingo também existe para remanso nos lençóis lavados, escolhe outra missa. Uma hora mais tarde, batem outros portões.

O centro urbano/rural acumula homens nas esquinas sombrias à beira da Igreja Matriz. Há entra-e-sai no café fronteiro. Na esplanada, servida também por tílias, ocupam lugares costumados os clientes sem era e da terra. Os novatos ficam com as sobras. Ponto de observação privilegiado, enche o olhar de quem está. Feitos os cumprimentos e o escrutínio, chegando a hora aprazada que o sino não lembra, continuam sentados turistas, descrentes e comodistas. Quem preza observar os mandamentos entra na igreja. Muitas mulheres, poucos homens, cabelos brancos, coro afinado e treinado na função, homilia morna – aprendi que “alegria espalhafatosa” não faz parte das normas do reino de Deus. Todos disseram ámen e eu com eles. À saída, nova rodada de beijinhos e apertos de mão. Sabem como as amêndoas na Páscoa – na época são uma delícia, durando o ano todo enjoavam.

Naqueles meios, a missa dominical acaba por constituir celebração ecuménica – reúne ateus, católicos de baptizados, casamentos e funerais, católicos de todos os dias, coscuvilheiros e fãs da exibição. Mais abrangente, não há.

CAFÉ DA MANHÃ

“Já Não Há Província?” – “Da “Globalização” é dito ter uniformizado usos e costumes; assemelhar o que antes era diverso no mundo rico, porque ao pobre pouco ou nada acrescentou. (...)

“De médico e de louco...” – “O trânsito estava particularmente nervoso, naquela tarde. Motoristas se xingando mutuamente, (...)”

PRESENTE
Do querido Amigo Justo, recebi este mimo lindíssimo. Muito, muito obrigada.

Publicado por Teresa C. às 09:10 AM

julho 27, 2008

O JOÃO, O SR. MÁRIO E A MONTANHA AQUÉM DO MAR

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É soalheira a tarde. O recorte das latadas é definido pela abóbada azul. As hortenses entrecortam o limite do buxo confinado pela poda de mãos experientes nos dois primeiros meses do ano civil – não é este pelo qual costumo reger-me. Selvagens ficaram os abrunheiros que disseminam rebentos encorpados nos canteiros longilíneos.

Olho para a tesoura de podar, herdada do avô, e reconheço precisar de ajuda. O João, zelador do jardim, não merece, no estio, empatar fins de semana a disciplinar o que as regas automáticas e as chuvas proliferaram. Por isso, lhe contrariei a boa vontade e espero o Sr. Mário na segunda. Veio ontem, a meu pedido, interposto pelo João. Podou os arbustos-parede na álea exterior e traseira do jardim. No final, premiu a campainha. Atendi. “Que não, que dispensava a paga das horas de trabalho por trazer sem renda a quinta maior.” Não possuindo a chave da casa de apoio, onde as ferramentas e uns sofás acoitam sestas, pediu autorização para mudar a fechadura. Que sim, que mudasse e fizesse serventia como bem lhe aprouvesse da pequena construção rodeada de pinheiros alpinos – onze que restam dos catorze plantados pelo pai. O meu. Falecido e, no entanto, tão vivo na memória de quem o conheceu. O Sr. Mário entre eles. Homem alto e encorpado, sem vestígios de banhas, mais do que comigo pretendeu fala com a mãe. E falou. Foi recebido na sala reservada aos íntimos. Explicou os cuidados reservados ao Vale Dom Pedro que cuida e do qual arrecada, graciosamente, proventos. “Bem-haja”, disse a mãe. Acompanhei-o à porta, dei volta à álea esquartejada, agradeci o trabalho feito. “Quantas horas despendeu? Qual a paga do já-feito?” Que não, que nada esperava ou queria. Não insisti. “A partir de segunda quero pagamento justo”, rematei. “Das duas da tarde em diante, as semanas são para nós. Ao dia, ou no fim será feito o pagamento. Escolha o Sr. Mário qual o modo que prefere.” Ficou de dizer. E dirá, como a Leonor que, para a semana, substitui a Vitória na limpeza de escadarias, vidros e parapeitos de granito que a passarada transformou em W.C.

A Srª Ventura fica para a cozinha. Doçuras e pratos de substância é com ela, assim chegue a dezena de pessoas gostosamente esperadas. Porque não faço eu? Por me reservar rituais conhecidos no clã - o cabrito assado no forno, o arroz-doce, o leite-creme queimado que não entrego a ninguém. Porque uma tela aguarda forma e cor, é sensata a noção de limite temporal. Duas semanas restam para concluir a encomenda. Misturarei amor com óleos. A tela húmida tem, em Lisboa, parede à espera. Serão afectuosos os olhos que desculpam a inépcia de quem na montanha se deleita e antevê regresso ao mar.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho e Paulo Simões Mendes


Desde ontem:

“O pensionista” – “Sir Mick Jagger completa hoje 65 anos. De acordo com a lei britânica terá direito a uma pensão semanal (...)”

Publicado por Teresa C. às 10:47 AM

julho 26, 2008

VIRGENS ATÉ O FIM CHEGAR

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Rolf Armstrong

No tempo em que as tias solteiras permaneciam virgens até o fim chegar, as crianças não interrompiam conversas de adultos sem permissão. As tias eram mesmo irmãs do pai, da mãe ou dos avós. Amigas da família eram tratadas por Senhoras Donas Fulanas de Tal. Sendo íntimas da casa e solteiras – o estado civil comandava as referências sociais –, era admitido Isabelinha ou qualquer diminutivo afectuoso.

As tias solteiras estavam, por inerência do estatuto, confinadas às prendas domésticas, mais do que às profissionais, e à vigilância do respeito conforme ao bom nome do clã. Se os rebentos da estirpe pisassem ramo verde, tinham por certa a censura e correspondente admoestação. Nas mãos delicadas e férreas, detinham saberes que abrangiam compotas, remover a ferrugem dos linhos e a feitura de queques de Stº António polvilhados com açúcar branco – o amarelo servia para usos menores. No vestir submetiam a moda ao pudor. Esmiuçavam figurinos, iam a Coimbra comprar tecidos ao José Novais, à modista de sempre confiavam as parcimoniosas colecções Primavera-Verão, bem como as outonais. Botões e outros arrebiques eram pensados ao detalhe.

Fosse pela secura prematura dos úteros, ou para esvaziar o saco maternal, amavam, inibindo, as sobrinhas. Às mulheres outras reservavam afecto polvilhado de má-língua doméstica. Silenciavam amores perdidos e ilusões murchas. Apertando a nostalgia, abriam os álbuns de fotografias, detinham-se nalgumas, acabando por indiciar que, afinal, a estada no sanatório havia aliviado mais do que os pulmões. E, pelo brilho do sorriso e nos olhos, a sobrinha, no caso eu, percebia que a doença tratada longe da clausura familiar fora bem-aventurança que abrira lábios e coração.

CAFÉ DA MANHÃ

“Às vezes o Amor…” “Esta semana ouvi uma das mais bonitas declarações de amor. Pena que não tenha sido eu o destinatário, mas tudo a seu tempo. (...)

António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 10:33 AM

julho 25, 2008

PORQUE É VÍCIO ARQUIVAR O DIFÍCIL

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Serei crédula como amiga muito querida afirma. Não a desminto por considerar a desprevenida crença nos outros um dos muitos vestígios de uma infância sem temores. Jamais tive amigos imaginários. Os meus eram de carne e osso, acompanhavam-me nas tropelias, não me ludibriavam, e aos pactos de silêncio, pela prática conjunta de venialidades, eram fiéis. Por ausência de desmentido das convicções que adquiri, na idade adulta continuo tal qual. Desconfiar não é comigo. Ampara-me o filtro lógico a que submeto impressões e acções.

Gonçalo Amaral, o ex-inspector da Polícia Judiciária inicialmente responsável pela investigação do desaparecimento de Madeleine McCann, inspira-me confiança. Não tendo lido madrugada fora o livro “A Verdade da Mentira”, os factos descritos e as perplexidades nele levantadas parecem-me razoáveis. Em França, a opinião pública dá-lhe intuitivamente razão desde há um ano a esta parte, ainda nem o livro estava no prelo. Mais cortantes do que faca aguçada, os franceses nunca aceitaram a isenção de culpas dos McCann. Para eles, a visita do casal ao Papa e a conversa sigilosa que manteve com Kate, tem mais de confissão e publicidade engenhosa do que procura de conforto. Porém, sendo atávica a “malapata” que mantêm com os ingleses, a razão desaconselha conferir-lhes seriedade.

Porque aconteceu em Portugal, porque a história numa me pareceu bem contada, porque houve excessiva intervenção do Governo Britânico, porque é vício arquivar o difícil, tenciono ler o livro de fio a pavio. Confio mais num investigador escrupuloso do que nos meandros da diplomacia.

CAFÉ DA MANHÃ
“Nem Pense! É uma Fendi Baguette!” – “Mulher urbana, profissional com sucesso, em paz consigo, bem-encarada, quiçá vistosa e, também por isso, gourmandise (...)"

“APOLOGIA DE LANIER” – “Poderá parecer estranho, mas simpatizo com Anthony Lanier, de 55 anos de idade, nascido no Brasil e criado em Viena de Aústria. Ainda por cima, e ao que parece, não resiste a uma boa anedota, (...)”

Publicado por Teresa C. às 09:25 AM

julho 24, 2008

A CASA E OS ESPÍRITOS

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Kimberly

Há coleccionadores de selos. Numismáticos obsessivos. Criteriosos ajuntadores de louças, móveis, vidros, de jóias, roupas, vinhos e adereços vintage. Entendo: cada objecto enlaça memórias ou fantasias historiadas que ao possuidor encantam. Um selo do Estado Novo representando um traje, cena rural ou figura respeitável, quiçá venerada à época, é documento que transcende a época e o contexto. Seduz pela estória da posse, seja herança de familiar cujo percurso terreno foi particularmente aventureiro ou por razão outra, especial - ter constituído empreitada caprichosa garante cativeiro nos misteriosos ficheiros cerebrais.

Não constando da minha matriz a tendência coleccionadora, restrinjo objectos nos espaços que sei meus. Em Lisboa, é fácil – há muito enfiei num camião móveis, linhos, pratas, rendas, loiças preciosas(?) e cristais. Repousam, bem tratados, no sótão da casa beirã. No apartamento sem vista para o rio, há minimalismo que somente as paredes contrariam. Disputam-nas obras, algumas ocultas, que são parte do ser que transporto. Acrescento-as. Terem chegado por último, em nada as diminui. São estórias novas que decorrem de horizontes a cada passo descobertos. Por isso tão decisivas no meu percurso como as anteriores que olham de soslaio, pressinto, as recém-chegadas. E eu feliz, espreitando-lhes os diálogos mudos. As boas-vindas desconfiadas. O encolher dos esticadores - fossem humanas e o mesmo fariam com os ombros. Mas acabam por se entender. Dormem na minha ausência. Mal chego, retomam a forma e lambem as cores. Somente comigo tagarelam Ouço-lhes os recontos. Escutam os meus.

Na casa da Beira sou mais tolerante com os objectos. Ilumina a caixa de rapé do bisavô, que conheci, a luz do candeeiro sob a qual compunha músicas o avô. Vigiam as refeições retratos em tamanho impressivo da bisavó cujo nome herdei, da trisavó apertada no corpete com folhos, o do marido que espatifou o que pôde e, ainda assim, sorri acima da barba negra, tão dandy como o laço de pintas debruado a cetim. Porque de alguns conheci feitios e manias, de outros sei de cor arrojos e algumas, poucas, vergonhas sussurradas entre as paredes de granito, respeito-lhes os haveres passados de filhos em filhos. E filha sou. É ido o tempo de neta aninhada no colo dos avós. Hoje, preservo e limpo e acarinho as memórias em objectos. Minimalismo, na casa dos espíritos queridos, seria ultraje. Por isso assisto a Vitória na sabonária anual. No fim, resplandecem rostos e coisas. Entram risos novos. A casa e os espíritos riem com eles.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 08:57 AM

julho 23, 2008

O CÉREBRO QUE A GRUTA COMANDA

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Terry Rodgers

Os cabeleireiros ditos “unissexo” - termo impreciso por serem os homens intrusos e as mulheres rainhas – têm vantagens: revistas masculinas à mão. Numa delas, datada de Maio, cronista que parecia competente declarava fácil distinguir mulherengo eficaz de imitação menor. Registei o que suspeitava: homem dado a espalhar sémen em múltiplas grutas, quando está com uma, desliga o exterior. Das outras, melhor seria dizer.

À fêmea do momento – assim considera uma mulher - entrega-se de corpo e sobra de alma. Ilude-a com a disponibilidade, na aparência, total. Em presença, recusa chamadas, ou atende-as com aparente enfado. E elas, por ignorância do espécime, tomam os factos como indícios de afecto. Ledo engano... Mal dela se afaste, dá sequência aos arranjos. “Uma de cada vez” é o lema. Na ausência, é de ouro o silêncio - as outras merecem semelhante e iludida exclusividade. Rodando a tômbola, voltam à sequência.

O cronista ia além: mulherengo encartado reconhece provável a condição de «corno». Como prevenção, aparenta ciúmes que reverte em fantasias («pormaior» fundamental, garantia o artigo). Ali chegada, pasmei com a lista das minúcias e argúcias. Concluí: nós, mulheres, somos podres de boas em atributos e cérebros. Para alguns se darem a empreitadas tamanhas pela expectativa de partilha de funduras e proeminências, quando nós, postas em sossego, nem um passo damos, é inquestionável o tesouro que arrecadamos. Mais digo: o cérebro, que a gruta comanda, é a preciosidade maior.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Paula Capaz e António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 08:35 AM

julho 22, 2008

DOLLY & CAPARICA'S RIDE

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Carlos Diez

A tempestade Dolly apresta-se a varrer turistas dos resorts mexicanos. Entre eles, os de Cancun; os tais dos pacotes comprados em suaves prestações. Os mesmos que alojam portugueses aos molhos e fé nos ícones Astecas – o Deus católico, que os portugueses enformou, pode ter faces e nomes que o ecumenismo abrangeu. E há quem se endivide para inscrever destinos tidos como exóticos no carnet das viagens de sonho. Na insanidade consumista, há vestígios de pragmatismo: antes Cancun do que viagem em suite cimeira a bordo do Queen Elizabeth 2 da Cunard. Esta opção é que seria a desgraça completa e faria pular os 24% do actual endividamento per capita.

Quem pretender, a baixo custo, experimentar inferno graus abaixo da Dolly não precisa de lonjuras - basta praia de fim de semana na Costa da Caparica. Fui uma vez, neste ano da graça de 2008, num dia de utilidade oficial e, ainda sim, sei da tormenta infligida a uma incauta criatura. Pelo que vi, configuro o temperamento irascível da Dolly que passeia susto e ameaça devastação pela costa oeste das Américas. Caparica’s ride para mim chegou.

Acusem-me de snobe, rígida, preconceituosa. De Vila do Conde, Póvoa de Varzim e Vale de Lobo não prescindo. A Norte, tenho neblina que, preguiçosa, pelo meio do dia se alevanta. Existe maresia e mar batido que, deliciosamente, sova o corpo. A Sul, há a mansidão dos pinheiros, o mar que lhes recorta a curvatura das copas, minutos medidos por passos até à praia, ausência de gentes que a beira-mar atafulhem, o café tomado na esplanada vazia em pleno Agosto.

Os peregrinos-a-crédito de Cancun que me perdoem, mas o que vão lá fazer? Dívida por dívida que a deixem onde suam o pagamento dos impostos.

CAFÉ DA MANHÃ

"Tardes de Salvador" - "Uma caipirinha com uma carne de sol na Cantina da Lua, longe de ser tranquila, vertiginosa e sensual. (...)

"A Pena e o Gládio" - "Há quem pense que, num homem, talentos poéticos e dotes de escrita indiciam uma clara (...)


PORQUE DAS PÉROLAS NÃO PRESCINDO

“História alternativa” – “Não lhe falei e ela também não me falou. É verdade que só nos vimos quando estávamos a dois passos um do outro, eu surpreendido, depois estranhamente calmo, avançando, ela (…)”

“Na hierarquia da sapiência,” – “Prefiro uma conversa com um campino ou um coveiro do que com alguém cujo doutoramento e a vida se possam considerar comuns.”

Publicado por Teresa C. às 07:45 AM | Comentários (0)

julho 21, 2008

EM BICOS DE PÉS E ENRASCADOS COMO SEMPRE

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Pierre-Narcisse Guerin

O Hermitage deu o dito por não dito e desistiu do pólo permanente em Portugal. Lutámos com armas desiguais, foi o que foi. Empatámos milhão e meio de euros com o ensaio no Palácio da Ajuda, tentámos exibir rigor, usámos falinhas mansas, diplomacia de bastidores e cautelas que aos russos pareceram maçadas e sarilhos incompetentes. Ora, para eles burocracia é coisa séria. Vê-la aviltada às três pancadas, sem rublos, euros, dólares – afinal, a Guerra Fria já lá vai há tanto tempo! – enrolados na mão que apertam, é ofensa.

Consequências: o Museu Soares dos Reis, no Porto, fica a chuchar no dedo, e regresso da exposição a Lisboa nem vê-lo! O Piotroyski, mão-de-ferro do Hermitage, é duro e cortante como calhau de gelo solidificado com vodka.

Vantagens: a Galeria D. Luís I, na Ajuda, sofreu obras de requalificação no valor de 850 mil euros, ordenadas pela ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, minha estimada parceira de ginásio.

O actual ministro da referida pasta remete a culpa para os russos. Eles devolvem-lha numa só tacada: “"Normalmente cumprimos os nossos acordos. Se o Governo português quiser, fazemos a exposição. Estamos prontos. Mas, para fazer uma exposição, é preciso mais do que dizer coisas. Há procedimentos a tomar. [Neste momento] temos apenas um acordo geral. São precisos acordos específicos.”

De duas, uma: ou os russos mudaram muito, ou teimamos em atavismos que deviam ter finado. Para mim, digo: em bicos-de-pés, somos os enrascados de sempre.

CAFÉ DA MANHÃ

“O Terror de «Quinar»” – “Morremos por tudo e por nada. “Morro de fome”, de sede, de cansaço, de sono, de vontade, de tédio, de calor, de frio, de dor-de-cabeça e (...)”

Mauro Castro, às segundas, é o meu parceiro de escrita

Publicado por Teresa C. às 09:06 AM

julho 20, 2008

UM BACH LIDO COM DEDOS

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Chernova Viktoria

Planeio um domingo feliz. Não me importa o que acontece na cidade em brasa. Que as torres se esvaziem debitando condóminos para filas na procura de outras margens. A minha chega. Serena, silenciosa, saudável no ar que me dá para respirar. O perfume conhecido, a luz coada por musselinas dançantes. O desjejum alegre de quem sabe certo um dia extraordinário. Música e sabores que chegam novos. Pele sem atavios. Pés libertos de saltos e atilhos. Talvez um vestígio de seda daqui a pouco. Ou não, porque o dia irá deslizar num vaivém íntimo que dispensa enfeites e relógios. Os telefones ligados por que sim – os outros amados estão bem e no news, good news. Nada a temer. Aqui, entre o fúcsia e o verde-lima, a essência do que entendo por vida boa corre fluida. Um Bach desconhecido será lido com dedos. Noite dentro, talvez o calor e a dolência de um bolero. Do mais não entendo ou quero saber.

CAFÉ DA MANHÃ

“Tira-teimas” – “Chega o tempo quente e com ele o prenúncio de férias. Férias, essa palavra simultaneamente tão desejada e tão temida pelos casais. (...)"

“Letargia” – “O peso do calor começa a fazer-se sentir sobre as minhas costas que se vergam perante esta evidência: o país entrou (...)”

Publicado por Teresa C. às 10:45 AM

julho 19, 2008

MÃO NA MÃO, NO PESCOÇO OU NA CINTURA

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Walter Girotto

Perguntou Lou Reed: “Mas porque raios nos convidaram para a mesma noite?” Boa questão! Juntar Reed e Cohen só lembra a portugueses com a azia de quem oscila entre o papo vazio e o cheio. A pelintrice armada ao fino é no que dá. Não bastando o bastante, os motards faltam aos concertos por terem corrido para Faro. Entre jargões, tatuagens, borrachas, cabedais ao sol e excentricidades montadas em duas rodas, prevejo ocasião para compita rara no género: “a minha é melhor que a tua!” A noite das strippers foi ontem mas é suposto renovarem o stock hoje.

Em Lisboa, a escolha não é fácil, conquanto as entidades promotoras dos concertos afirmem diferentes os amantes do folk rock poético de Cohen dos seguidores do rock’n roll tirado às entranhas. Peculiar é fazerem da coincidência guerra de números como é uso nas greves e nos comícios eleitorais. Para cúmulo, hoje, a Adriana Calcanhoto é cabeça de cartaz no Alto da Ajuda nas noites quentes do Delta Tejo. E se estão apetecíveis para mínimos de roupa, liberdade, mão na mão, no pescoço ou na cintura...

Pela overdose musical, lembro o nonagésimo aniversário de Mandela. Da esquerda á direita, o apreço é geral. O legado de uma África do Sul pacífica e multicolorida não existe - xenofobia, crime, HIV, pobreza, divisões no ANC provam-no. Bonito de ver, foi Amy Winehouse sair, sob precária, do hospital onde tenta reabilitar-se para actuar sóbria, em Londes, no concerto de homenagem a Mandela.

CAFÉ DA MANHÃ

“Optimismo Precisa-se.” – “Estou cansada. Seriamente cansada dos sucessivos “bombardeamentos” sobre crise, preços, aumentos, taxas de juro, combustíveis, inflação, contestação e previsões sobre os males maiores que ainda estão para chegar. (...)”

“Mais silly não pode haver” – “Na terça-feira passada protagonizei um acontecimento que me provou que a nossa velha conhecida silly season (...)

RÁDIO CLUBE PORTUGUÊS

Célia Bernardo, estimada cronista no PNET Mulher, está de volta aos microfones do Rádio Clube. Anima um magazine de fim-de-semana, no ar entre as oito da manhã e o meio-dia. Chama-se “A Vida são 2 Dias”. Excelente sugestão para inaugurar o ócio matinal de sábado e domingo!


Publicado por Teresa C. às 10:45 AM

julho 18, 2008

LIFTINGS COM DETERGENTES

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Alberto Vargas

“PROCURO UM NAMORADO, apaixonado, pode ser carente que dou colo...dou amor também, versos? nem se fale, como remédio de hora em hora, homeopaticamente... PROCURO UM NAMORADO que me faça sentir menina.”

Há muito, devo ter recolhido esta imitação de apelo desesperado num qualquer comentário deixado por aqui. Obviamente, escrito por um homem. Acreditou no próprio e modesto entendimento e foi o que se leu: caiu na esparrela em que outrem era suposto deslizar. Reproduziu o que julga ser a linguagem e o desejo maior duma mulher. Pouca sorte! Não é. Ímpeto cujo único tino foi confidenciar o que, provavelmente, nem numa aflição sanitária revelaria. Um facto é os géneros uns dos outros contarem a ignorância; outro, em tudo diferente, é um homem assumir como reduzida a amostragem de mulheres que conheceu. Houvera convivido com mais e tivesse aprendido o básico, a tirada acima não lhe ocorreria daquele modo. Admitindo que foi provocação à autora deste blogue, ressalta a eficácia - após um ano, meses?, o anónimo sobe ao palco com direito a holofotes.

Dando por adquirida a minha subjectividade, aos exemplares que se identifiquem com aquele pensar alvitro esclarecimento. Dar colo, dar amor, enaltecer o ego dum parceiro requer dele merecimentos outros que não promessa de um lifting; duradouros milagres de pele ou o Elixir da Longa Vida ainda estão por inventar. Máquinas de camisas, peúgas e porta-atributos masculinos, que depois esperam o ferro de engomar, não constam da lista dos sonhos de uma mnulher. Pranto dúvidas que da fórmula, intemporalmente perseguida, conste detergente e amaciador.

CAFÉ DA MANHÃ

“Estado de Graça em Permanência” – “A Rita, neste momento, é mãe. Em todos os momentos da vida, será mãe. Por bonita razão, escrevo hoje, o dia da Rititi. (...)

“Morreu na Indonésia… - “Numa sociedade ocidental onde o filme O Sexo e a Cidade “mostrou” o pós-feminismo no seu melhor, valerá a pena falar não sobre Samantha, Carrie, Charlotte ou Miranda, mas antes sobre Mak Erot. (...)”

Publicado por Teresa C. às 07:35 AM

julho 17, 2008

DA ISILDA, DO ALEIXO E DO NUCLEAR

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Lisa Iris

Isilda, o nome próprio da Lia Gama, é nome lindo. Renegado pela artista, hoje na idade maior, que assume o nome de baptismo, conquanto afirme sem sucesso o registo oficial no mundo teatral.

Os moradores no bairro do Aleixo, no Porto, daqui a três ou quatro anos, serão realojados. Por água-abaixo foi a recuperação do sítio. Correspondendo ao usual, alguns dos habitantes desesperam pelo futuro mutante. O medo do novo, o culto do habitual que arrecada lembranças e factos do histórico das vidas.

Foi proposto à consideração nacional o investimento no nuclear. O < i> stand by na evolução da economia portuguesa e mundial, os custos energéticos obrigam estratégias de poupança. Victor Constâncio assim falou ao analisar a economia portuguesa e a macroeconomia em que está inserida. Tomou como exemplo a ecologista Finlândia que prepara o quinto reactor nuclear e discute o sexto. Recomendo a leitura deste artigo que encontrei: “já cá faltava a censura do costume, este lápis azul eco-fixe e politicamente porreiro!!! (...)"

CAFÉ DA TARDE

“A mentira” – “Porque mentimos?Não sabemos nós logo à partida que em cada mentira que proferimos (...)"

À quinta-feira, é pecado não ler Rui Pelejão


PRESENTES

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Pirata Vermelho – “O Floreiro”



Publicado por Teresa C. às 02:22 PM

julho 16, 2008

NA FLORESTA DO FEMININO CANSADO

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Jack Vettriano

Desmente a insofismável verdade da lista do MSN ser mais extensa do que rol de compras para o mês. Exclusivamente composta por mulheres. Com desgosto na voz, amiúde, refere ausência de amigos-homens. Por isso, se abastece de «amigas» nos mercados comuns. Estrangeiras, nacionais emigradas ou carregando a vida por cá. Insinua doçuras e concretização de fantasias. Elas caiem como moscas no mel. E ele leva até ao fim ménage a trois que tivesse segredado como possível e interrompa o tédio das queixosas. Arranja boçais que as tomem num motel; ele como caridoso voyeur. No após, degusta a sobremesa que a mulher serve nua.

Desflorado por uma prostituta a mais de meio da adolescência, fez carreira profissional brilhante a par doutra: mulherengo polido. Respeitoso. A nada obriga nenhuma. Justifica-se, reclamando o infinito amor pelos humanos que almeja entender. Concretiza-o por via das mulheres que manipula até atingirem a condição de bichos-fêmeas. Escapa-lhe a contradição entre o enamoramento que apregoa e reduzir mulheres a irracionais.

Quando desfia os picarescos das estórias, ri. Ouvinte mulher, que lhe conheça o profundo e são substracto, contém a revolta e permite-lhe verter o cálice. Pelas vítimas-protagonistas, nela remanesce tristeza e lágrimas cuja razão ele indaga e considera «não dar lé com cré». Acrescenta: “têm consciência do dito e feito. Apenas torno reais os sonhos de muitas vidas.” E torna. É um Robin dos Bosques na floresta do feminino cansado.

CAFÉ DA MANHÃ


A ler: Paula Capaz e António Costa Santos.

Publicado por Teresa C. às 07:46 AM

julho 15, 2008

ADORÁVEIS «PIROSEIRAS» JUVENIS

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Baron Von Linden

Decorre amável competição de «piroseiras» juvenis. Alguns dos muitos colaboradores daquele sítio vão fundo nas memórias que também preenchem o meu baú. Quando a Sofia Galvão lembrou o David Cassidy, dei por mim embasbacada - até que enfim encontro quem partilha idêntica desfloração-amorosa-infanto-juvenil. Único acidente platónico que vivi. Mais tarde, já mulher, não fui indiferente ao fascínio aventureiro do Indy/Harrison Ford. Malgré o péssimo hábito de não de não ver televisão, seja informada dum spot publicitário em que ele publicite rábanos ou salsaparrilha e mantenho a «coisa» ligada até o dito cujo surgir. O mais provável, ainda assim, é não dar conta dele pelo enfado da programação.

O “Blade Runner”, o “Frantic”, o “Sabrina” do Ridley Scott, do Polasnski e do Sidney Pollack respectivamente, bem como o deslavado Han Solo, em “Star Wars”, são rostos diferentes do ex-carpinteiro. Ao tempo, fazia uns biscates e, por cunha de um freguês, o George Lucas prestou-lhe atenção. Bendito repente! Até um bonsai murcho ganha saúde quando o “divino” lhe pega e caminha para um automóvel cujas potencialidades é suposto vender!

Só não candidato este blogue à compita das «piroseiras» online pelo similar atavismo que, há muito, lhe está associado. As reproduções kitsch da pintura, a escrita e a selecção musical têm créditos que, facilmente, tornariam o “Sem Pénis Nem Inveja” ganhador.

CAFÉ DA MANHÃ

“Vida de turista” - “Nisto do viajar as pessoas distinguem-se como na vida: há os mais entusiastas e excitados (...)”

“A Primeira Vez Que Vi Paris” – “A primeira vez que vi Paris fiquei com os olhos rasos de água. Tinha acabado de tirar os olhos de Lisboa (...)”


BLOGOSFERA


Ao Luis Carmelo, que hoje comemora cinco anos de blogger, endereço os parabéns. Magnífica a síntese à propos: “O primeiro ano foi de vício e compulsão sem fim. O segundo ano foi de intensíssima apropriação do meio. O terceiro ano foi o ano que culminou com a evidência do metabloguismo. O quarto ano foi de mini-entrevistas e de aceso debate sobre a dupla ficção-realidade. O quinto ano foi tempo de travagem, de mais inércia e, sobretudo, de contemplação menos deslumbrada.”

Publicado por Teresa C. às 07:55 AM

julho 14, 2008

NUMA ROCHA DO TEJO-MAR

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Michael and Inessa Garmash

Nunca coincidimos sentados numa das poucas rochas que amparam metros do estuário do Tejo. Acondicionados no ar e conforto do automóvel, jamais convergimos rotas. Multiplicados por um milhão, é escassa a probabilidade de num semáforo reparamos no outro, ainda que a pequenez da hipótese estivesse a favor. Na rocha, ainda menos. Pelo meio duma tarde da semana o meu refúgio à beira da água não é, certamente, teu. E, no entanto, excepto agora que escrevo, nunca me ocorreste quando ouço do rio-oceano o cicio. Talvez pelos quotidianos separados como os antípodas. Talvez pelo ramerrão (des)conhecido. Talvez porque o campo gravítico apenas atraia semelhantes, e nós, adivinho, mais diferentes não podemos ser. Porém há um elo. Quando e como foi estabelecido, não sei dizer. Nem tu, embora pelo arrepio da pele, esteja certa de que o experimentas mais vezes do que a razão ordena. E abanas a cabeça e avanças para a tarefa seguinte e só pela noite - quando a consciência desleixa a vigilância - ouves a interpelação do corpo.

Na distância próxima, vamos sendo felizes. Muito, sentimos. A falta do outro não é falta – um bolo sem cereja que o encime pode ser perfeito e saboroso. E adiamos a cereja por medo. Mas, não desmintas - não fosse o fantasma que represento e te agita o breu, há muito teríamos partilhado uma das poucas rochas que amparam as águas do nosso Tejo-mar.

CAFÉ DA MANHÃ

“Cretinos e Cabrões são Outros” – “Nada a fazer - reclamo a condição de felizarda e progressão na carreira. Optimista convicta, deliro com tiradas (...)”

“Apreciando o movimento” – “Dentro do táxi, encolhido de frio, mato o tempo observando as figuras que circulam pelo (...)”

Desde ontem:

“Esmerado Aceno” – “O Sr. Francisco é um homem robusto. Sentado ao portão, olha para dentro de todos os carros (...)”

“O Museu do Oriente” – “Esta semana, a “Time Magazine” fala de Portugal. E fala bem. Na pg. 60, com o título (..)”


Publicado por Teresa C. às 08:17 AM

julho 13, 2008

A UNHA DO PÉ

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Autor que não foi possível identificar

Sentado no sofá, num interlúdio do durante, ele acariciava-lhe os pés. Um a um, nenhum dos dedos esquecia. Gostava deles papudos como soem na infância ou no tempo de Lolita. Não eram assim os dela – esguios e magros como os pés, o corpo e o pescoço. Pelo fetiche, desviava do rosto dela a atenção, olhava-os erguidos ao alto e abertos em leque quando as vagas de prazer sucediam. Sempre fora assim. Também por isso, somente tivera duas paixões. A última fora devida às formas opulentas e novas, o cheiro a sexo sem que o houvesse e, fatalmente, aos dedos dos pés. Dela contava às que ameaçavam a memória da paixão antiga. Actualizada quando o chamamento e a saudade o reclamavam. Das outras gostava assim-assim. Afectos mornos e infiéis. À maneira dele. Uma amava-o, outra era entretém longínquo, a terceira conhecera-o cinco anos atrás e, desde o último, tinha-o por mentiroso. Mais havia que não contavam - fogachos consumidos na adrenalina do momento. Fatuidades que serviam para lhe provarem a virilidade que temia, um dia, adormecer. E teimava na webcam e nos orgasmos virtuais. Dali aos reais era um passo que não hesitava em calcorrear.

À terceira perguntou: “Que tenho de especial?” Ela, com a rapidez useira, respondeu: “Nada; tão pouco eu. O feitiço é o histórico comum.” Meia-verdade ou verdade inteira – o laço cúmplice não tinha, para qualquer dos dois, paralelo. Ela sabia que ele sempre a temera – mulher inteligente e intensa é perigo eminente. Agora, ele vinha e ela esperava-o, sabendo que havia três horas se despedira da que o amava e era a galinha dos ovos de ouro dele.

Quando disse “Tu és a tua unha do pé!”, ela riu. Soube que, muito tarde, começava a entendê-la. No reencontro seguinte, a unha do pé não estava igual.

CAFÉ DA MANHÃ

“Uma, duas, três fatias de bolo de chocolate” – “Mas afinal de contas, vais ou não vais acabar de comer essa fatia de bolo? – pergunto (...)”

“Vai um tirinho?” – “Isto, sim, indigna-me: a violência (ia chamar-lhe gratuita, mas até poderia parecer que (...)

Publicado por Teresa C. às 11:09 AM

julho 12, 2008

ATÉ AS MOSCAS ANDAM MOLES!

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Blake Flynn

Mudar de Verão para Primavera tente-não-caia adormece cada pedaço do corpo. Até os ossinhos, saudáveis diz o bendito João Semana que insiste em tomar conta do recheio que enformo, doem um a um. Vem daí a lentidão dos movimentos e a perplexidade da Cila ao deparar com uma pasmada que contrariava o comum. Balbuciei uma qualquer ausência de explicação. “Que não, que não pode ser, que alguma coisa aconteceu, sentiu-se mal?, está cansada?, dormiu bem?” Que sim, dormira como uma «anja», não estava exausta, doente e tão pouco nada de mau acontecera. Presenteou-me com o café-bomba da praxe e sossegou.

Interrompeu os cozinhados para espiar o meu estado. “Ah!, a “doutorinha” está melhor! Pois eu não! Continuo chocha, dói tudo o que há para doer; na cabeça carrego batatas que não param de aumentar. Sabe que mais? É do tempo! Se viesse uma chuvada lavava a terra, sumiam as batatas e as dores. E já reparou? Até moscas entraram em casa. Veja como andam moles!” A memória recolheu o dito da Lise, francesa que viveu anos em Portugal, quando a atmosfera teimava no cinzento: "oh la la!, putain de temps, oh la la!"

Tudo passou pela tarde. Duas horas com Amiga a quem muito quero recompuseram-me num ai. A parte sumarenta da conversa reservo para segunda no PNET Mulher.

CAFÉ DA MANHÃ


“O Regresso” – “Após 7 meses entre fraldas, arrotos, cocós, sestas, mamadas e diálogos de gugus-dadás, estou de regresso ao mundo real. (...)"

“PARECER ECUMÉNICO” - “Mecanismo fundamental das sociedades humanas – agora (muito mal) misturadas (...)”


Publicado por Teresa C. às 11:07 AM

julho 11, 2008

«LERDA» NÃO CONSTA DOS MEUS DICIONÁRIOS

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Drudwyn

"Lerdo – 1. pouco activo; vagaroso; lento. 2. bruto; estúpido (do castelhano lerdo, «pesado»)."

Não-amigo afirma erro imperdoável o masculino de «lerda». Segundo ele, dicionários onde não constar apenas o feminino são edições de somenos que convirá banir do rol credível. Nem discuto o pressuposto. Machista, presumo, e, só por isso, o relego à indiferença. Lerdo consta dos meus dicionários e chega. Lerda não. Quero lá saber de voz masculina que atribui a lerdice às mulheres!...

Há gente mais lerda do que os homens no que concerne aos afectos? E no que respeita ao sexo? Trocam os «bês» pelos «vês». Não distinguem a urgência de um instante do querer genuíno duma mulher que corpo e alma faz tremer. Resta o silêncio que logre entender no outro a precariedade do corpo-cedência.

Lerda serei. Dou barato o termo omisso nos dicionários que possuo. Mas confundir apetites com "está caída por mim", não me ocorre sequer.

CAFÉ DA MANHÃ

“O Milagre da Multiplicação das Vagas no Ensino Superior” – “Quinhentas vagas para licenciaturas em Direito. Aumento substancial de candidatos admitidos em cursos como Medicina e Engenharia (...)"

“A Outra” – “As entrevistas dadas na semana passada por Manuela Ferreira Leite na TVI, no programa “Cartas na Mesa”, conduzida por Constança Cunha e Sá, e de José Sócrates, na RTP1, (...)”

Publicado por Teresa C. às 08:37 AM

julho 10, 2008

ANDARILHA DOS SETE COSTADOS

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Greg Horn

Andarilha dos sete costados, calharam na rota bairros sociais. Sol no zénite, temperatura amena, dois quilómetros de peregrinação. Ao volante, pouco é semelhante ao que vi. A surpresa maior é o cumprimento dos desconhecidos que comigo cruzaram o caminho - um “Boa tarde” amistoso é raro na cidade grande. Ouvi vários. Correspondi, deliciada. Do mesmo lembrava nos arrabaldes de Vila do Conde e na Beira onde, enterradas, tenho raízes e floresce parte substancial dos meus verões.

Prédios comuns despojados de artifícios que denunciam statu quo. Há rostos idosos nas janelas escancaradas do rés-do-chão. Mulheres sentadas nas soleiras. Homens assentados à volta de mesas de pedra onde poisam as cervejas e ditam lances nas jogatinas para entreter ócios e fastios. Reformados os idosos, desempregados os mais novos, ou fruindo da simplicidade das férias.

Há jardins relvados entremeados por roseiras de folha graúda, improváveis nas cores e robustez. Saudável desprezo pelo desenho dos arquitectos paisagistas. Os moradores tratam dos espaços comuns com zelo, à semelhança do que fariam se o espaço verde fosse exclusivo de cada um. Um canteiro pode rodear o jacarandá original, ou um chorão que o vizinho plantou.

Pela roupa estendida nas fronteiras dos edifícios é feita a distinção dos condomínios vigiados por câmaras, seguranças em permanência e jardins privados. Impera como destrinça a afabilidade que abrange vizinhos ou não. E esta, sim!, é fundamental.

CAFÉ DA MANHÃ

"A falta que me faz escrever, é como a saudade do cheiro do mar para quem vive no interior.Um (...)"

Rui Pelejão

"Autêntico" - "Nós já desconfiávamos mas o Medina Carreira hoje disse-o de forma a não (...)"

Publicado por Teresa C. às 09:04 AM

julho 09, 2008

TÃO LONGE E TÃO PERTO COMO A ILHA DA PÁSCOA

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Annamaria Centola

Voo AF1624 de Paris, Charles de Gaulle. Hora de chegada: 14.35h. Viagem antecipada tranquila. Ainda os corpos se ajeitavam nos assentos, já disparavam flashes. Olhando para trás, onde o tumulto acontecia, apenas era visível um par de muletas. A indiferença reocupou o lugar. Entre o similar de alimento e o sol sobranceiro, a modorra instalou-se; somente o empinanço invertido da descida a ousou perturbar. Lembrados os flashes foi inevitável ceder à curiosidade. Que coxo congregaria tanta atenção mediática? Uma cabeça acima das demais, óculos escuros, cabelo (des)alinhado com gel acenderam a lerda candeia do raciocínio - o Cristiano Ronaldo, «elezinho», duas filas atrás.

Assumo: coxo ou não, o homem é uma torre de perfeição. Benditos genes que, feitos carne e osso, se ajuntaram naquela obra-prima .

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Shinichi Noda

Dei com esta «coisa» numa respeitável galeria online. Não faço a mínima ideia para onde emigrara o juízo do pintor ao concretizá-la. Tão pouco sei da eficácia da obra na fervura do caldo hormonal masculino. O que afirmo é simples: uma mulher olha para «aquilo» e pasma à conta de estereótipos tão longe dela como a Ilha da Páscoa – malgré tout, destino que, não tarda, será meu.

Que faz ali uma banana? Logo um fruto que amassa e fica dengoso em menos de um fósforo.... A espada(?) que o sustenta aflige só de imaginá-la tão próxima do não-suposto. E o pesadelo dos airbags XXL derramados até á cintura? Mal empregue técnica do suporte ao serviço de tamanho disparate.

CAFÉ DA MANHÃ

“Irritantemente simples” – “Tem por hábito viver sem artifícios. Ao corpo dedica algum tempo. Nunca se esquece dos (...)”

“Era a Vida (4 e últ.) *” - Ora, em 1969, a minha compra da praxe na Feira do Livro, tinha sido um policial do Raymond Chandler, (...)

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ANIVERSÁRIO

O MAC celebra o 14º aniversário com duas exposições que é fundamental visitar (mais detalhes aqui).

Ao Director Coordenador do MAC, Álvaro Lobato Faria e ao Director do Mac, Zeferino Silva, endereço os parabéns pelo rigor e qualidade do trabalho desenvolvido.

A obra da Pintora Manuel Pinheiro que acima figura consta da exposição. Para melhor conhecer o seu trajecto artístico recomendo a exposição virtual que contempla 107 obras e está patente no PNET ARTES.

Publicado por Teresa C. às 08:18 AM

julho 08, 2008

¼ SEMELHANTE A ADULTOS CASADOS

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Michel Gourdon

Pela manhã, noticiava a TSF que um quarto dos jovens entre os 15 e os 25 anos agridem ou são vítimas de violência nas relações amorosas. “Índice semelhante aos dos adultos no casamento”, segundo a síntese divulgada dum estudo elaborado pala Universidade do Minho. Pendeu-me o queixo pela enormidade. Então o casamento é bitola de violência entre homens e mulheres? Que associação tenebrosa é esta? Sendo legítima, não fica desculpabilizada. O casamento é inocente. As pessoas envolvidas nos entendimentos amorosos é que podem ser patifes de meia-tigela ou de tigela-inteira. Não andará longe o dia em que o papel timbrado que legitima o ajuntamento de um par sirva de padrão para depressões, problemas cardíacos e maleitas várias. Triste fado capaz de transbordar em pranto a calçada!

Insatisfeita, espiolhei o estudo em causa. Li: “Carla Machado, coordenadora de um projecto nacional sobre este fenómeno, identificou níveis de violência física e psicológica no namoro muito próximos dos encontrados num outro estudo desenvolvido em 2003, no Norte do país, junto de 2900 adultos, mas em contexto conjugal. Dos 4730 jovens inquiridos pelas investigadoras, 30 por cento admitiram ter agredido o parceiro, sendo 23 por cento agressão física, 18 por cento emocional e três por cento física severa. Os rapazes são os que agridem com maior gravidade, com sovas, murros e pontapés, mas na pequena violência, não há diferença de género e vale tudo, desde insultos, bofetadas, empurrões, puxões de cabelos e até ameaças.”

Mais afirmam as investigadoras: “a violência é cada vez mais aceite como «natural» pelos próprios, incluindo o sexo forçado. A violência sexual é tolerada entre os jovens, porque para eles «relações sexuais forçadas não são o mesmo que violação, nem sequer são crime».”

Aqui chegada, perguntei-me: os pais dos anos oitenta e noventa sentir-se-ão interpelados? É que remeter a totalidade das culpas para a televisão, internet ou mudanças sociais não explica o explicável.

CAFÉ DA MANHÃ

"A animalada" - "Mário de Carvalho, um dos meus escritores contemporâneos preferidos, definiu-a na perfeição (...)"

"Só Vi Uma Vez O Fogo" - "O que assusta mais é o ronco. Eu só vi uma vez o fogo, poderoso, pletórico (...)"

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INAUGURAÇÃO
Está aberto o PNET Petições. Dele constam as cinco que seguem:
- Círculos uninominais
- Petição sobre horários e publicidade nas televisões
- Petição para a reorganização administrativa de Portugal
- Petição contra a cobrança de dívidas da EDP
- Petição para limitação pecuniária das reformas em Portugal


BLOGOSFERA

A seguir atentamente: “VIDA DE PRIMÍPARA”

Publicado por Teresa C. às 11:12 AM

julho 07, 2008

CONTABILIDADES PELUDAS

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Lia Lu

Descreve o James Stuart os benefícios de ter nascido homem. Presumo-os, em número, idênticos ao de ter sido brindada com um pipi. Não irei desfiá-los, tantos são. Além do mais, o texto do James explora-os quase todos porque comuns a homens e mulheres.

Desenganem-se aqueles que ainda julgam ser muito o que nas pessoas distingue os géneros. Basicamente, e uma vez desacreditados – Deo gratias! - os clichés, excluindo as partes pudendas é a semelhança que impera. Há homens assim e assado como há mulheres fritas e cozidas – o inverso é verdadeiro.

Permito-me desbravar o que une os sexos, além do próprio sexo como é por demais evidente: querem ser felizes, ter ao lado companhia cúmplice e amante, partilhar dores, sonhos e alegrias, florir os amigos com afecto e dedicação, embelezar o quotidiano com as dádivas que as artes oferecem, olhar o mundo e sentir eloquente vontade de o melhorar, desdobrarem-se em amores felizes que a família beneficie primeiro, trabalhar com gosto, se possível com paixão, fruir dos lazeres e, last but not least, experimentar a serena doçura dos dias.

Diferenças? Pêlos a mais ou a menos? Que importam quando o relevante dispensa contabilidades peludas?


CAFÉ DA MANHÃ

“A Divina Brontë” – “Há défice de romancistas como as inglesas. Não temos uma Charlotte Brontë, uma Jane Austen ou uma Daphné Du Marier. (...)"

Às segundas, o Mauro Castro faz-me companhia.


BLOGOSFERA

"Acho piada à expressão desonestidade intelectual. É que tal como esta, deveria haver uma desonestidade emocional ou uma outra desonestidade sensorial. Porque qualquer que seja a sua tipologia, não deixa de haver um sujeito desonesto cuja carga paliativa de indecência pura e dura, almeja, quando muito, ser analgésica e de curta duração.” – O João, acutilante como é seu apanágio. Subscrevo, caríssimo.

Publicado por Teresa C. às 08:17 AM

julho 06, 2008

DA CIMEIRA DO G8 AOS MATA-MELGAS

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Don Maitz

É prometedor acordar com a notícia de que Mister Bush, na Cimeira do G8, se manifestou preocupado com a fome em África e se propõe aventar medidas para redução de emissões poluentes que, finalmente!, os States irão cumprir. Coerente com a hipocrisia que neste domínio lhe é conhecida, pede à China e à Índia que subscrevam e concretizem as resoluções que saírem da reunião dos reis da indústria mundial. Passa uma esponja na indiferença com que tem acolhido semelhantes decisões e do boicote que mais do que uma vez levou a cabo. Um querido arrependido!

A GNR pretendeu, sem usar multa como arma, ser eficaz na segurança rodoviária. É refrescante! Não fosse a falta de pontaria dos tiros – em vez de atingirem os pneus, acertaram no condutor de um veículo em fuga –, tudo teria corrido bem. Mas não. O homem está em coma e a equipa médica luta para o salvar. Uma coisa é falta de pontaria ao matar uma melga, outra é enviar de charola para o hospital os desobedientes às ordens policiais. A estas recomendo treinarem a localização dos alvos. Podem começar com melgas. Não faltam por aí.

CAFÉ DA MANHÃ

“A crise económica, as prioridades e o meu subconsciente avarento” – “Nos últimos tempos tenho sido inúmeras vezes contactada pela Portugal Telecom com o (...)"

“Exames com sucesso” – “Conhecidos os resultados dos exames nacionais, o meu coração palpitou com o sucesso na (...)”

BLOGOSFERA

“Uma mulher inteligente que nunca chora” - “PLATÓNOV: Por quem se apaixonaria ela aqui? Por si mesma? Não acredites no riso dela. Não se pode acreditar no riso de uma mulher inteligente que nunca chora: ela ri-se quando tem vontade de chorar.”

Publicado por Teresa C. às 01:43 PM

julho 05, 2008

DA EU-OUTRA NÃO QUERO SABER

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Ken Martin

Saiu de Braga em Outubro do ano passado. Percorreu oito mil e quinhentos quilómetros em busca de si próprio. Pelas lágrimas que o empresário bracarense declarou ter derramado ao entrar em Jerusálem, o ignoto «eu» e o peregrino coincidiram na chegada à meta.

No presente, que os velhos no Restelo postados dizem diminuído em valores e espiritualidade, muitos, eu entre eles, idealizam percorrer fracção dos Caminhos de Santiago. Dissemelhantes da peregrinação deste português pela lonjura e prolongado rompimento com o quotidiano. Reunisse coragem para dar largas ao meu temperamento andarilho, e partiria.

Esventrar a eu-outra que o corpo abriga não seria o objectivo - se a que conheço e sou me dá tantos (des)gostos, de mais uma não preciso; além do mais, a existir, dela não quero saber. Mas, caminhando, celebrar liturgia íntima sem tempo contado seria o bem maior que, num mês de pausa no trabalho, poderia conquistar.

CAFÉ DA MANHÃ

“A Preto e Branco” – “Com o fim das aulas e dos exames, a única equação que parece ocupar a cabeça dos mais novos é (...)”

“A importância das coisas” - “Esta anódina semana que passou não teve um único momento que suscitasse verdade (...)”

Publicado por Teresa C. às 10:53 AM

julho 04, 2008

PORQUE NÃO FAZ QUARENTA ANOS

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Ivan

A Vieira do Mar não completa hoje quarenta anos. Fosse de aniversário a data e tanto haveria para dizer!... Porque odeio bajulações, limito-me a afirmar que é uma mulher fabulosa com beleza a condizer; que escreve divinamente; que a impetuosidade é prova visível duma ponta do incêndio que sabe gerir; que é amiga querida. “Bora lá” almoçar! A ver se é desta que ludibriamos as preenchidas agendas. Mandamos as ditas às malvas ou para aqueles sítios que nas nossas cavaqueiras têm nomes (abusivos por aqui).

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Diego Rivera

O João perfaz hoje idade maior que a família celebra. Porque é dele o tempo das certezas, à Fernanda R. pertence o orgulho e a alegria de uma mãe cuja infinita generosidade transborda e usa para amar também os amigos. Muitos parabéns, minha querida!

Publicado por Teresa C. às 06:38 PM

ENTRE FILHAS DE EVA

M. L. Garmash 1.jpgM. L. Garmash 2.jpgM. L. Garmash 4.jpg
M. L. Garmash

Quando mulheres e amigas acontecem num serão, há risos e boutades deliciosas de que estão arredadas temáticas menores: homens e maledicência. Nada mais interessa quando uma Ana Marta, linda como só ela, preambula: “Uma boa alma a caminho do céu pede ao santo da devoção que lhe seja concedido o desejo de no Além encontrar nus e com vinte anos de idade os finados. Ao entrar no Paraíso, constata satisfeito o pedido. Reencontra amigos e (des)conhecidos joviais e em pelota. Procura, depois, Adão e Eva. Mas, desconhecendo rosto, tamanho e forma dos atributos que os poderiam distinguir, inquieta-se. Como reconhecer os pais da humanidade?” Ficámos duas sem resposta. Aventámos disparates. Monguices de mulheres em risota. Que não, que ignorávamos a resposta, que nos fosse também concedido o pedido – pararmos as tristes figuras. E a Ana Marta, candidamente, elucidou: “Ora, é fácil! Como não foram paridos, há «nada» no lugar do umbigo.”

Pronta na resposta, a Paula não se ficou: “Espertinha! Mas garanto não fazeres a mínima ideia como sei que Eva era loira? Ninguém arrisca resposta? Não? Simples, minhas queridas. Brincando no paraíso, vai por de trás do Adão, tapa-lhe os olhos e pergunta: quem sou eu, quem sou?”

Esqueçam as danadinhas do “Sexo e a Cidade”. São dispensáveis luxos, copos, relatórios de «quecas», artimanhas para as ter ou evitar. As mulheres que não desfilam nos ecrãs são mais económicas e muito melhores que elas.

CAFÉ DA MANHÃ

“A Casa Está em Ordem” – “Garantia do poder entronado na governação. E uma mulher sai de casa para abastecer o ddespenseiro (...)”

“Berlim, 60 anos depois” - “Fez, no passado dia 24 de Junho, 60 anos sobre o início da ponte aérea para Berlim; na prática e na teoria, (...)”

Publicado por Teresa C. às 08:20 AM

julho 03, 2008

DE SEU NOME, JOSÉ

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Autor que não foi possível identificar

De seu nome José. Filho de mãe índia da tribo Tupi Guarini e pai de Minas Gerais. Conheceram-se em Timóteo e tiveram dez filhos. José é o do meio. A mãe, Maria Pereira Soares cuja origem no Sudeste Brasileiro não contradiz o nome bem português, morreu, aos trinta anos, vítima de um derrame cerebral. Deixou dez filhos. O pai, passadas duas semanas de luto, casou com a Custódia Maria de quinze apenas. A adolescente viria a ser generosa e compreensiva madrasta da dezena de crianças a que o ventre acrescentou mais três. Hoje, tem quarenta e dois anos e o marido setenta.

O José, criança “levada”, deu que fazer. Frequentou o segundo ano do “colegial”. Desistiu, mandriou e foi cobrador de “omnibus”. Aos vinte e quatro casou. Ela com um filho anterior, ele desejando o primeiro. Que chegou. Fez onze anos há pouco, os pais divorciados desde os sete. No ano passado, o pai veio ao casamento de uma amiga em Carcavelos. Os noivos arrufaram, a boda foi ao ar, mas o José ficou. Mora em Campo de Ourique, frente ao Jardim da Parada, e diz que lugar mais lindo do que Lisboa não há. Amou o Porto. Mas a moura encantada fascina-o. Para sempre, segundo o falar convicto.

Encontrei-o ao entrar na garagem, quando se aprestava a encerrar o portão que, para os regressos escancarado, vigia das seis às oito. Por ter comprado um nico de serradura com ar de móvel, perguntei-lhe se o poderia montar – em casa, a tanto não chega a paciência. Que sim, após colocar no passeio os contentores. E veio. Decifrado o puzzle, ele aparafusou. Perfeita combinação completada pela voz da Diana Krall.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e o Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 08:17 AM

julho 02, 2008

ATÉ À UMA DA MANHÃ

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Sorayama

(Des)Enfastiei catorze portas de roupeiros. Um quinto dos meus haveres de vestir aguarda o amanhã de transporte pela mui querida e prestável Cila. Pelas quatro da tarde, ainda ela engomava, foi iniciado o desbaste. Até à uma da manhã, eliminei o (im)possível. Aspirados os resíduos dos arrumos, espetei o indicador na terra dos verdes e dessedentei os precisados. Frente à porta-varanda que prefiro, estiquei o rosto e as pernas nuas ao vento, cumprindo o ritual da noite que no acordar repito.

Por ora, das portas de roupeiro para meu uso, descontando duas onde preservo, longe do pó, os livros-tesouro, e uma de (in)utilidades, destinei:
- duas para abafos compridos e gabardinas;
- três para tailleurs, vestidos de noite, de cocktail e de quotidiano;
- uma para camisas, outra para calças e mais uma para saias;
- uma e meia para blazers, bombers e casacos curtos, todos em pele mais parecendo o arco-íris (estes «nadas» tiram-me do sério, confesso!);
- uma e meia aguardam os pertences de quem chegar.

Em três prateleiras, alinhei caixas de botas e sapatos. Duas ficaram com malas. Um «contentor», deliciosamente tapado em verde-lima, recolheu pastas, sacos e mochilas. Outro semelhante alinhou, envoltas em flanelas, aquelas coisas mínimas que soem pender da mão ou do ombro nas festas. Não conto das gavetas e gavetões com intimidades, tops, conjuntos para ginásio, malhas grossas e finas, finuras de materiais estranhos.

Bem contadas, nove horas de trabalho. Cinco sacos com bens de que não necessito. Um sacão de tralha gasta até ao fio. Oito isqueiros recuperados.

CAFÉ DA MANHÃ

Hoje:

“Noite adentro” – “Nascido na Eslovénia em 1949, Slavoj Žižek tornou-se, ao longo dos últimos dez anos, (...)"

“Era a Vida (3) *” - “Era, portanto, durante o dia, um adolescente aficionado dos rallies, por parte de Joaquim Filipe (...)”

Desde ontem:

“Inacreditável” – “Consumidores podem evitar subida da luz. Os cerca de seis milhões de consumidores de electricidade (...)”

“Je Vous Salue Marie” – “Recebi agora um documento comprovativo de que faço parte do passado. Definitiva. Inapelável. (...)”

“Orquestra de saberes” - “Confesso que esta «coisa» me fascina, como aliás qualquer máquina complexa (...)”

Publicado por Teresa C. às 09:09 AM

julho 01, 2008

“PRÓS E CONTRAS” OU ST. JULIAN’S SERÔDIO

Blake Flynn  BigHead_72_lg.jpg
Blake Flynn

Um não-amigo, conto alguns, persiste no cultivo do meu intelecto por via da RTP2. Devo-lhe a generosidade da lembrança e a bondade do julgamento desta leda cabecinha. Olhando para o monstro mudo, propus-me saber do caos da nação. Na 1, os “Prós e Contras” prometiam angústia para seroar. Fosse pelo estado de “tásse bem!”, ou pelo rescaldo de um dia cheio, aceitei o desafio que me propus.

Tendo-me corrido mal, por falta de engenho e verbo, a crónica da semana no PNET Mulher, descansei as teclas – não prometiam que delas saísse nada melhor. Um a um, os pontífices foram apresentados pela estridente Fátima Campos Ferreira. Que me perdoem, mas pareciam meninos do St Julian`s em versão serôdia. Explico: very cool na postura, idênticos na farpela, no duplo-queixo e nos narizes inchados de prestígio. Não os soubesse figurões da sapiência e do poder, voltaria à malfadada crónica e passaria em rodapé: “homenzinhos”.

Das banalidades que ouvi, ressalvo a ousadia de um cientista político(?) cujo nome desconheço. Como soe dizer o referido não-amigo, um engraçadôncio! Entre outros nonsense, afirmou mover-se o PSD a diesel e o PS a gasolina. Faltou explicitar qual delas. Mais à frente, debitou tirada à Monsieur de La Palice – o engenheiro José Sócrates é melhor do que os outros porque tirou o curso numa universidade obscura que não lhe encheu a cabeça de merdas (as merdas são minhas). Foi o único momento em que dei por bem empregue o tempo.

Comentário final: malvado St Julian`s que obriga alvas camisas. Um tédio! Outro não-amigo, que muito prezo, arrisca camisa Façonnable com gaivotas em cerimónia de estadão. Isso, sim, é ousadia!

«Lapalissades» famosas

«Ce que j'ai écrit, je l'ai écrit. », Pôncio Pilatos.
«Quand c'est rugueux, c'est pas lisse » Jacques Lanzmann
« Je pense que nous sommes d'accord : le passé est révolu.», George W. Bush.
«La plupart de nos importations viennent de l'étranger» George W. Bush

Nota: Afirma o não-amigo que cuida do meu intelecto, que a minha imagem "faz lembrar aquela imagem e você lembra a personagem mas com handicap e outros conteúdos."


Body Heat (1981) - introduction of Kathleen Turner


CAFÉ DA MANHÃ

A ler: Leonor Barros e Manuel da Fonseca.

Publicado por Teresa C. às 08:25 AM