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julho 14, 2008
NUMA ROCHA DO TEJO-MAR

Michael and Inessa Garmash
Nunca coincidimos sentados numa das poucas rochas que amparam metros do estuário do Tejo. Acondicionados no ar e conforto do automóvel, jamais convergimos rotas. Multiplicados por um milhão, é escassa a probabilidade de num semáforo reparamos no outro, ainda que a pequenez da hipótese estivesse a favor. Na rocha, ainda menos. Pelo meio duma tarde da semana o meu refúgio à beira da água não é, certamente, teu. E, no entanto, excepto agora que escrevo, nunca me ocorreste quando ouço do rio-oceano o cicio. Talvez pelos quotidianos separados como os antípodas. Talvez pelo ramerrão (des)conhecido. Talvez porque o campo gravítico apenas atraia semelhantes, e nós, adivinho, mais diferentes não podemos ser. Porém há um elo. Quando e como foi estabelecido, não sei dizer. Nem tu, embora pelo arrepio da pele, esteja certa de que o experimentas mais vezes do que a razão ordena. E abanas a cabeça e avanças para a tarefa seguinte e só pela noite - quando a consciência desleixa a vigilância - ouves a interpelação do corpo.
Na distância próxima, vamos sendo felizes. Muito, sentimos. A falta do outro não é falta – um bolo sem cereja que o encime pode ser perfeito e saboroso. E adiamos a cereja por medo. Mas, não desmintas - não fosse o fantasma que represento e te agita o breu, há muito teríamos partilhado uma das poucas rochas que amparam as águas do nosso Tejo-mar.
Publicado por Teresa C. às julho 14, 2008 08:17 AM