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julho 27, 2008

O JOÃO, O SR. MÁRIO E A MONTANHA AQUÉM DO MAR

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É soalheira a tarde. O recorte das latadas é definido pela abóbada azul. As hortenses entrecortam o limite do buxo confinado pela poda de mãos experientes nos dois primeiros meses do ano civil – não é este pelo qual costumo reger-me. Selvagens ficaram os abrunheiros que disseminam rebentos encorpados nos canteiros longilíneos.

Olho para a tesoura de podar, herdada do avô, e reconheço precisar de ajuda. O João, zelador do jardim, não merece, no estio, empatar fins de semana a disciplinar o que as regas automáticas e as chuvas proliferaram. Por isso, lhe contrariei a boa vontade e espero o Sr. Mário na segunda. Veio ontem, a meu pedido, interposto pelo João. Podou os arbustos-parede na álea exterior e traseira do jardim. No final, premiu a campainha. Atendi. “Que não, que dispensava a paga das horas de trabalho por trazer sem renda a quinta maior.” Não possuindo a chave da casa de apoio, onde as ferramentas e uns sofás acoitam sestas, pediu autorização para mudar a fechadura. Que sim, que mudasse e fizesse serventia como bem lhe aprouvesse da pequena construção rodeada de pinheiros alpinos – onze que restam dos catorze plantados pelo pai. O meu. Falecido e, no entanto, tão vivo na memória de quem o conheceu. O Sr. Mário entre eles. Homem alto e encorpado, sem vestígios de banhas, mais do que comigo pretendeu fala com a mãe. E falou. Foi recebido na sala reservada aos íntimos. Explicou os cuidados reservados ao Vale Dom Pedro que cuida e do qual arrecada, graciosamente, proventos. “Bem-haja”, disse a mãe. Acompanhei-o à porta, dei volta à álea esquartejada, agradeci o trabalho feito. “Quantas horas despendeu? Qual a paga do já-feito?” Que não, que nada esperava ou queria. Não insisti. “A partir de segunda quero pagamento justo”, rematei. “Das duas da tarde em diante, as semanas são para nós. Ao dia, ou no fim será feito o pagamento. Escolha o Sr. Mário qual o modo que prefere.” Ficou de dizer. E dirá, como a Leonor que, para a semana, substitui a Vitória na limpeza de escadarias, vidros e parapeitos de granito que a passarada transformou em W.C.

A Srª Ventura fica para a cozinha. Doçuras e pratos de substância é com ela, assim chegue a dezena de pessoas gostosamente esperadas. Porque não faço eu? Por me reservar rituais conhecidos no clã - o cabrito assado no forno, o arroz-doce, o leite-creme queimado que não entrego a ninguém. Porque uma tela aguarda forma e cor, é sensata a noção de limite temporal. Duas semanas restam para concluir a encomenda. Misturarei amor com óleos. A tela húmida tem, em Lisboa, parede à espera. Serão afectuosos os olhos que desculpam a inépcia de quem na montanha se deleita e antevê regresso ao mar.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho e Paulo Simões Mendes


Desde ontem:

“O pensionista” – “Sir Mick Jagger completa hoje 65 anos. De acordo com a lei britânica terá direito a uma pensão semanal (...)”

Publicado por Teresa C. às julho 27, 2008 10:47 AM