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agosto 31, 2008

"ÉS BOM DEMAIS PARA MIM!"

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Olivia de Berardinis

"És bom demais para mim." Abundam relatos em que este dito pontifica. O olhar perplexo da vítima-ouvinte é resposta. Revira, disseca a frase. Especula sobre o significado da absurda classificação na escala da bondade.

Entre quem disse e ouviu tudo se encaminhava para elo romântico, com direito a «amassos» e ternuras e mimos e seduções várias. Até um dia... O tal em que a guilhotina caiu sobre o afecto nascente. E veio o remate - bondade a mais, faísca a menos.

Quando dizem a frase, aparentemente banal e elogiosa, a descodificação é simples -"és uma excelente pessoa mas como isqueiro falta-te gás!" Ou então - "o que tivemos deu o que tinha a dar. Toca a «basar»!" Fica um remoendo e o outro voando sem culpa à conta de, até no final, ter sido tão bonzinho. Pois se até cuidou de não deixar na sarjeta a auto-estima do preterido...

Nos amigos vitimados por tal veredicto, constatei denominador comum: entregam-se com tal denodo aos retoques do amor idealizado, apaparicando o alvo do afecto, que este de duas uma - ou abafa sob tamanha devoção ou se atemoriza pelo retorno a que se sente obrigado.

Sem que fuja um angström da verdade, nunca tal fatídico dito ouvi ou me saiu da boquinha - sou demasiado frontal para isso. Depois, há aquela mania de não alinhar em caridadezinhas. A substância do que penso obriga à coerência com o discurso. Posso polir, mas não emboneco. E se amigo que muito prezo substitui a verdade pela casca de banana da "bondade mal-empregue" como mandamento do happy end, é lá com ele. Rio, ao vê-lo discorrer sobre a receita, conquanto à prática diga não.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho

Publicado por Teresa C. às 10:49 AM

agosto 30, 2008

DIÁFANOS DEFEITOS E VIRTUDES

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Autor que não foi possível identificar

Está difícil identificar defeitos e virtudes. Falta lista exaustiva dos aspectos a banir e dos que merecem incentivo. Falta catálogo de bons e maus comportamentos, boas e más pessoas, como apoio fácil para educar as crianças e interagir socialmente.

No passado, havia o rol de pecados classificados e graduados por importância - veniais e capitais. Dos primeiros, ninguém se lembra, os segundos subdividiam-se nos cometidos contra o espírito e contra o corpo. Uns e outros banalizaram-se, e, agora, só os óbvios merecem crítica e penalização social, ainda que sob a alegação de doença ou de hedonismo menos adequado.

A lista dos pecados foi substituída por um código tácito sobre o que é suposto ou não fazer. Alguém que não se escapula aos normativos sociais é um tédio - pecado capital contra o espírito. Vieram as regras de boa educação que nos enformaram, saíram empobrecidas as regras básicas da identificação do defeito e de virtude. Para baralhar, qualidades e defeitos são sócios de longa data e altamente promíscuos.

Indo a factos:
- ser teimoso fornece perseverança para cumprir objectivos;
- saber mentir tanto desliza para a vigarice como para a diplomacia inteligente;
- ser compassivo tanto dá para a tontice como para santidade com direito a beatificação e imagens votivas.

O manto dos diáfanos defeitos e virtudes a todos abriga. Respiramos numa atmosfera de incorrecções menores. Tudo muito leve e sem contra-indicações.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Célia Bernardo e António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 09:48 AM

agosto 29, 2008

ÚLCERAS MAIS PROFUNDAS QUE AS DA CARNE

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Boris Vallejo

O Fernando Nunes Vicente reflectiu, de modo leve e agradável, sobre um estudo inquietante do qual cito a parte sumarenta: “as meninas que em pequenas se deliciaram com os contos de fadas têm mais possibilidades de virem a ser maltratadas em adultas.” Direi, dando préstimo a termos ali adquiridos, que a revisão da «atitude textual» relativa aos contos de fadas não é nova. Desde há trinta anos que as histórias de princesas compassivas, pele branca, olhos azuis e lábios de rubi têm sido chicoteadas. Não à toa, pese embora a dívida de gratidão pelos doçura dos sonos e sonhos da infância.

No anterior blog, alinhei ideias sobre as representações subjacentes a tanta princesa adormecida, gatas borralheiras passivas e Rapunzeis pacientes. A escandalosa complacência das vítimas perante bruxas e madrastas opressoras, príncipes ou monstros que o amor transfigurava, não podia ser bom presságio para meninas embaladas em partes iguais por fadas, biberões e papas lácteas. Tinha de dar no que deu – mulheres confinadas à subserviência face à família e aos ditames sociais.

Preocupante, é também o conceito, ainda hoje enraizado, de o que o amor transfigura quem toca. Beberrão, mulherengo, leviana, irresponsável, ou perverso, virará beatífico se tocado pela varinha-de-condão do amor. O pior é que muitas – mais elas que eles, convenhamos! – caem na ratoeira. “Ah, ele muda, verás, só precisa de uma oportunidade!” Uma, duas, três, «n» oportunidades. Gemem por volta da décima, quando a dor se sobrepôs ao orgulho. Aí, já as úlceras do espírito são mais profundas que as da carne.

Depois disto, os cyborgs resultam de um chiclete demasiado esticado e obediente ao princípio da acção-reacção. Previsíveis, portanto.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Rititi e Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 09:39 AM

agosto 28, 2008

DE ZORRILLA, A PÉROLA

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Julie Bell

Zorrilla debitou pérola que faz pensar: “Uns para as apaixonar, outros para as conseguir.” Mais parece adágio pelo empirismo e tino. Se a condição da mulher for de candura ou modorra nos amores, paixão arrebatada é tão natural como apetite por ameixas primícias – satisfeita a gula, deixa rasto. Ele, o deflagrador da gulodice afectiva, destaca-se como valoroso pelejador, pintado como herói e outros improváveis atributos (pela certa, imerecidos!). Estas alvoradas de paixão raramente chegam a manhã. Deixam por vestígios coração escaqueirado e ilusões mais esboroadas que miolo de broa.

Comumente, é curto o luto. Quase a roçar a indecência nos preceitos aldeões sobre os meses em que é medida a dor pelo preto no traje,. Quem remoça a alma e acorda o amor já não é visto com as cataratas oftálmicas inerentes à paixão. De mansinho, nela depenicará reservas teimosas até se tornar suserano amado e protector. Vai daí, nasce condado - relação julgada duradoura, quiçá engodada em matrimónio.

“Uns para as apaixonar, outros para as conseguir.”De Zorrilla, a razão?

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 08:54 AM

agosto 27, 2008

Na TRATTORIA DA VIA VEN ETO

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Autor que não foi possível identificar

Era o tempo, julgado sem tempo, de todos os (re)começos numa alvorada macia de Verão. Nunca quisera fazer de Roma destino. Tenho lugares mitificados – passo direito à desilusão, sei! – que reclamam conjugar momento e companhia. Contigo juntei as condições. Acedeste, malgré tantos regressos que de Roma contavas. Também isso espevitou o apetite. Queria um teste. Assegurar a impossibilidade das tuas memórias emudecerem o nosso presente.

Sabia dos ocres, da patina que os esfarrapa, de Bernini e das fontes, da vivacidade das piazzas e do trânsito. Do Tibre fantasiava o vaguear ondulante como anca de mulher desfilando na Via Del Corso. Ignorava o recorte doce dos pinheiros mansos na safira do céu. A moleza da tarde nos pátios das villas. A nobreza do museu imenso e destelhado. O aroma de um “vero capuccino” numa esplanada sombreada.

Vagabundeámos, perdidos, até à rendição na paz florida da trattoria na Via Veneto. Ao atirar, com fé que não te contei, à fonte a moeda, a Piazza di Trevi não se ateve ao riso em que me abandonei. Entreteci propósitos e certezas. Incertas como todas. A predição cumpriu-se: amontoo regressos a Roma. Mas o tempo, rápido como pardal, fugidio como peixe, tudo mudou. É Veneza que hoje adio. Irei negá-la até um Big Bang emotivo a impor. Momento zero de um caldo de novas vidas.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Paula Capaz e António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 09:11 AM

agosto 26, 2008

DA RUA PARA O DÉCIMO ANDAR

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Jay Anacleto

Perderam-se tons que enriqueciam a paleta das emoções. Continuam as essenciais – medo, surpresa, alegria, mágoa, ansiedade, fé, (des)ilusão. Ora, se até as emoções têm moda, são expectáveis reedições como nas malas, sapatos ou vestidos. A emoção de ser vítima(?) de rapto romântico é uma delas.

Raptar a amada é, nos dias que correm, tão espasmódico como fazer da rua para o décimo andar uma serenata. Por ora, entregamo-nos muito bem uns aos outros sem que mais seja pedido do que investimento num café, num jantar e num «copo». Por esta ordem. A cantada, antiga serenata, é preliminar, e não deve pecar por excesso nem por defeito. Duração justa e está feito, não se arquive a demanda por cansaço prematuro.

Nos idos do amor romântico com direito a cantigas de amigo, havia raptos e raptos. Que o diga D. Mécia, mulher de D. Sancho II. O povo português, linguarudo e que do enfeite faz defeito, não viu com agrado o arranjo matrimonial entre a viúva castelhana e o seu real primo. Da conjugalidade não haveria herdeiros, e se eram precisados para acalmia dos tumultos causados pelo mau governo e futura sucessão (ora aqui está uma das muitas vantagens do presente – povo está-se marimbando para se quem manda procria ou não). O Papa anulou o casório e deu ordens expressas para o casal dormir separado.

Não conheço retrato de D. Mécia, tão pouco consta dos anais históricos se não tendo feito filhos era prestimosa no acto de bem aviar a receita. Importante foi D. Sancho II dar-se por satisfeito. Tão satisfeito que lhe raptaram a mulher do leito partilhado à revelia da proibição papal. Foi o cabo dos trabalhos! O rei partiu desabrido à cata dela para o castelo de Ourém que pertencia à rainha. Não é que os raptores o correram à pedrada? Perdeu Sua Majestade a mulher e o crédito dos súbditos. De D. Mécia mais não sei. Confio que tenha gozado bem o rapto. Muitas o fariam.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca

Publicado por Teresa C. às 09:01 AM

agosto 25, 2008

BARTENDER BEM FALADO

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Jim Warren

Calor, férias, praia, amigos, ondas, corpos, areia, frutos do mar. Ilusões, afectos, desejo, sonhos, mudança, risos, noites de luar. Não apetece seriedade, é legítimo ser ocioso, estar dispensado de normas e interditos, ser frívolo sem chibatadas alheias ou do próprio. Que este seja o tempo de correr atrás do nada, imprimir frágeis pegadas na areia molhada, olhar à volta e omitir o que não é belo ou afável ou gracioso. Esquecer que no resto do ano muito é feito por obrigação, outro tanto porque sim, raramente porque não. Deixar que o pó se deposite em paz. Esquecer pontualidade e disciplina e método. Acordar se a espertina vier e fruir do prazer de caminhar quando a noite respira suavemente.

“Fazer o apetecido” – legítima aspiração neste recorte do ano. Adiando o que apetece, pelo final do interlúdio nem os frutos do mar saboreámos – mexilhões, surfistas, harmonias andantes, búzios, nadadores-salvadores calados e o bartender bem falado, ostras, as benção dos deuses na forma de gente humorada, risonha, desejável e desejando. Quem garante haver mais para o ano?

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Teresa C. e Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 09:17 AM

agosto 24, 2008

PRAIA VARRIDA

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Autor que não foi possível identificar

Lembras aquele final de praia varrido por zangados sopros marítimos que levantavam a areia seca e da húmida faziam pouco? De como as ondas esmorecidas na areia revolteavam? Era a última dezena dos dias de Agosto. Tempo de acabar deambulações e desfrutar o estio restante no lazer urbano. Voltámos à cidade.

Meava a manhã de Domingo ao acordarmos. Sonolentos, referenciávamos o espaço cujas coordenadas esbateramos. A porta ali, armários além, a janela ao fundo mal tapada por cortinas em desalinho. Quando regressamos não chega um suspiro para nos identificarmos com o sítio de sempre. Como se na ausência o silêncio e o pó se apossassem do espaço, moldando-o ao seu bel-prazer. Silêncio enganoso porque feito dos ecos das conversas antigas; dos sons que habitaram a casa e que de modo inaudível para os humanos se ligaram uns aos outros continuando diálogos inacabados que a nossa entrada abrupta interrompeu. A casa, num superlativo embaraço, suportou a invasão usurpadora do aparente vazio que a habitava. Sem que isto um ao outro verbalizássemos, largámos tudo e saímos para a cidade.

As paredes e os vidros e os muros e o betão dos viadutos, as ruas desertas, o alcatrão luzente à beira de mais um grau que o fundisse, refulgiam num riacho de calor espesso. Afluente daqui, outro dali, enchiam, impetuosos, a rua. Tão depressa dávamos as mãos como as largávamos ao darmos como incómodo o equilíbrio térmico entre os nossos corpos amantes. Regressámos à obscuridade caseira. Abandonámos a urbe tórrida e fugimos para outra tão tórrida quanto ela mas possuindo azul líquido no fim de cada rua. La Valleta. Mistura de cidade Europeia – na arquitectura e nos costumes das gentes - e do Magreb pela cor amarelada da pedra que o entardecer torna sumptuoso.

Permutados azuis, o mar num tom escuro e o céu turquesa esbatido de anil, abandonámos a penumbra fresca do Phoenicia. No Café Cordina debicámos pastizzi até ouvirmos o nosso, e da noite, riso.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho

Publicado por Teresa C. às 11:00 AM

agosto 23, 2008

OLHOU O RELÓGIO

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Terry Rodgers

O reboliço da casa deixava-a ansiosa, dispersa. Perdia o alinhamento das tarefas por cumprir – “será que pus na mala do Tiago os calções azuis, na da Ritinha as fitas para o cabelo e na caixa dos medicamentos as gotas para os olhos do Pedro? Desliguei o gás e os aparelhos eléctricos? Estou tonta. Já nem a certeza tenho! Vou verificar; o contador da água desligo no fim.” E cirandava descartando urgências.

Olhou o relógio. "Atrasado, para variar; deve ter-se lembrado de ir agora ver o ar dos pneus, verificar o nível do óleo e atestar o depósito; quando chegar e vir a bagagem rabuja. Cava as rugas más dos conflitos ou da ira. Repete que não cabe tudo na bagageira e aposta que das chinelas, calças, bikinis e vestidos “não usaremos nem metade; se julgam que vão por um mês desenganem-se!” Uma vez instalado, revolverá os pólos, e perguntar se me esqueci «daquele», “qual deles?”, “o branco!” Perante os três pólos brancos, não reconherá o «mais beige«, o «aquele», o amuleto capaz de tramar a partida de ténis ao convencido do Matos.

Transpirada, afundou-se no sofá. A correria gritada dos miúdos picaVA o espaço. Sentia-se farta de pensar em tudo. De esperar - por ele, pela partilha de tarefas, pela determinação comum em alimentarem o amor que, um dia, os fizera especiais num mundo agreste. Estava cansada; continuaria cansada em cada um dos quinze dias seguintes que prolongaria até o ano acabar. As ilusões adiadas dividiam-na em duas: uma que se elevava com elas, outra que desejava permanecer. Não era a resignação que a impedia de voar; antes um afecto profundo, embora mais ténue a cada dia.

Levantou-se, ajeitou o cabelo, acalmou os miúdos e abriu a porta num sorriso aéreo que só ela entendia – adorava antecipar-lhe a chegada. Não se enganar. Depois, beijá-lo. O hoje era assim. Amanhã? Não queria saber.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Célia Bernardo e António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 10:37 AM

agosto 22, 2008

VEM COM OS MELÕES E AS MELANCIAS

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Autor quen não foi possível identificar

Ser feliz por obrigação é infelicidade sazonal. Vem com os melões e as melancias, os abrunhos e os banhistas. Passar um ano às arrecuas com a vida, adiando projectos e apetites para as férias, é como fazer compota só com a fruta do quintal – quando arrebanhada a bastante, ou a primícia apodrece ou é pequeno o panelão. Por mor deste empirismo culinário, tão certeiro como o de Hume, conservo a fruta apanhada e pelo ano fora faço o gosto à colher de pau. Com as demais gostosuras da vida, o mesmo – parto e reparto, cuidando de gozar a maior parte. Esteja em férias ou não.

O meu espírito, ocasionalmente diletante, divaga num «quadrilema» antigo para opção de férias: segunda e própria casa, navio, dormida ou avião e dormida. Se o pessoal doméstico na urbe é raro, em tempo de férias vai-se, desaparece, dá às-de-vila-diogo. Sobra casarão para cuidar e amigos tão amigos que não param de chegar. Às tantas, são mais que as digníssimas mães e remédio só um: deixá-los felizes e juntos, optando os anfitriões pelo «trilema sobrante». Estando o físico de rastos, mais não aguento que check-in directo a poiso apetecível e a distância conveniente. Espírito em tiras tão finas como as de chila esborrachada requer lonjura. Abalada, contudo erecta, opto pelo marítimo amanhecer de prata e avermelhado crepúsculo.

E se gosto de melão doce, melancia carnuda e abrunhos polposos, não salivo pelos sítios de "ir a banhos". Neste particular, reservo-lhes igual devoção à inspirada por imposições, festas in, e feiras de verão – distância.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Rititi e Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 09:23 AM

agosto 21, 2008

MALGAS E NALGAS

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John kacere

Malgas e nalgas. Nos povoados do interior centro, malgas de sopa mataram fome a muita gente. Tigelas eram coisa fina. Muito mais finas não sei!, conquanto no presente ainda dêm arranjo - sopa fria e cereais odeio esparramá-los em pratos. Não aconchegam o que come primeiro: os olhos. Meus, no caso vertente.

As nalgas como palavra são malgas sem uma perna. Nádegas de facto. Curvas e cheias; calotes esféricas que se querem firmes. Mulher de nalgas apetecíveis que oscilem entaladas por saia fina, deixam muito homem escorrendo água pelos beiços. Idos houve em que os garotões fingiam desequilíbrios para tombarem contra os alqueires de oscilação gémea. E quando tocar nas nalgas era lubricidade (im)pensável, trocava-se o acto pela ameaça: “do que ela está a precisar sei eu... de umas boas «nalgadas»!”

Solteiros e mal-maridados muitas nalgas provaram nas malhadas espevitadas pela água dos lameiros. As saias subiam e as calças baixavam num entra-e-sai tão corrido que o restolhar da erva mal parecia ter acontecido. Não fora o escarlate das faces, ou as tremuras a bambarem as pernas, ninguém daria por nada. Mas dava. Meio-pequeno tem destas coisas – passar despercebido é coisa que não existe. Cheirando a escândalo ou a prática devassa, o disse-que-disse é mais rápido que Pai-nosso. Para as malvas as reputações, nas nalgas o proveito.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 10:09 AM

agosto 20, 2008

"ME BULLFIGHTER!"

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Vargas

As imperfeições do corpo quebram os tédios da beleza inumana. A exposição inerente à mulher não ajuda a disfarçar mazelas; no masculino, pernas arqueadas, adiposidades várias, pêlos disseminados, rabos de tábua e pés grandes como sapatas de ponte viram clandestinas por via da farda fato-e-gravata. Compõe e ajuda muito.

O estio é delator malvado. Assassina alegremente o que encobre no resto do ano. O Mané que o diga... Há vinte e cinco anos atrás, indo ele, indo ele a caminho de Torremolinos e das nórdicas aves-do-paraíso esparramadas no areal, encontra amigo que há tempo não via por conta de um doutoramento emperrado. O Mané baixo e fofo, o outro esguio e alto. Os dois buscando Dulcineias de ocasião. Sendo que na engenharia do engate o doutorado também era mestre, deduziu que sendo várias as donzelas tentadas, alguma roeria a corda do recato e cairia no laço. Por Rocinante, cabriolet vistoso e Jaguar E-Type. Uns figurões!

Na praia as loiras turistas arrasavam no contraste com as pudicas latinas. A estratégia deles era simples. O garboso aproximava-se dos bandos de perdição e entabulava conversa arranhando finlandês ou flamengo de praia. Para «fechar», possuía arma letal: uma fotografia dele enquanto cavaleiro taurino. Legendava-a, sorrindo melífluo – “Me bullfighter. Me!” E elas caíam no motel mais próximo. Um despacho.

Para o paciente Mané ficavam as sobras. Pernas muito curtas e em arco, desproporcionando o tronco extenso. Tudo resumido a metro e sessenta bem medido. Avançando no areal, sussurrava o amigo: “deita-te Mané, deita-te. Vai escolhendo e diz qual queres!” Depois, para elas – “My friend, bullkiller, very good bullkiller.” E riam muito, coitadinhas…

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Paula Capaz e António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 10:08 AM

agosto 19, 2008

QUANDO A ALIANÇA PASSEIA

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Sorayama

Homens casados. Mulheres que não arranham mandamentos afirmam à boca cheia que macho de parceria legitimada pela sociedade ou pela igreja não tem sexo. Em termos práticos significa que deles deram baixa na lista de candidatos a amásios. E que baixa! Homens e mulheres casam que se fartam. Elas, porque o tic-tac biológico a cada ano mais se esganiça ou porque os “sonhos são para cumprir, bolas que também mereço, ou não me chame Mariazinha”, são danadas para o tule, mais o vestido e a lua-de-mel, mais o fel da conta festiva. Eles, porque a pressão social, de início louvaminheira, começa a enviesar o olhar quando já lá cantam uns anitos. É aquela coisa da casa num oito, roupa suja entremeada com pêlos espalhados no chão sem a desculpa de terem um Serra da Estrela, dos lençóis arreganhados do uso e fedendo a uma mistura de nicotina, água de colónia e vinagre balsâmico. Um belo dia, acordam zonzos, olham em redor e ficam um bocado naquela: “Pá, reconhece, não dás conta disto. Atraca-te ou estás fodido!” E casam.

Os ingénuos julgam que o matrimónio lhes confere aura de préstimo e inacessibilidade que os torna mais apetecíveis. Os pragmáticos sabem que a aliança passeia facilmente até à algibeira, logo, o regabofe não cessa. Esquecem que também o mercado deles estreitou. Primeiro: as «amigas» de outros tempos só por desespero vencerão o despeito remanescente das sms não respondidas, do atraso dele para a estreia do Quebra-Nozes e o ar de vómito no primeiro jantar romântico em casa delas, ao deparar com verdes e grelhados numa instalação minimalista. Das sobrantes e liberais há as que não se importam de servir de microondas, as que exigem ilusões sem defeito, e as que mal vêm a santa aliança fogem como diabo da cruz só de pensarem em fins de semana sozinhas, programa só quando o telefone toca e na clássica “a minha vida é um inferno, não tarda separamo-me.”

Se as livres e desimpedidas fogem ou só por acaso caem na conjugação carnal, se as profissionais do ramo não bastam, quem resta então? As que adoram diversificar a ementa, sejam casadas ou equivalentes!

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca

Publicado por Teresa C. às 10:00 AM

agosto 18, 2008

PORQUE O MEDO TAMBÉM MATA

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Autor que n
ao foi possível identificar

Atribuem-me sofisticação de que não dou conta. Sei que a diferença me atrai, o déjà-vu evito, que o bonito – objectos, momentos e íntimo das pessoas – me cai no colo sem mérito próprio que vislumbre. No meio deste limbo bem-aventurado, foge-me o pé para a chinela plebeia a que sempre pertenci. Um reparo – ultimamente, é o meu pé que avança e a chinela fica; a vetusta calçada portuguesa separa os cubos calcários com areia feita íman para os afilados saltos do Manolo Blahnik que me endoudam.

O preâmbulo sugere predilecção pela excelência das praias dos arrabaldes lisboetas: Tamariz, Guincho, das Maçãs ou Azenhas. Mas não. Horas numa delas e os “Olá, tá bem?” são mais frequentes que os desmaios das ondas. Bani-as. As praias, claro! Uso alguma da minha liberdade na gestão de tempo e horários para fugas simplórias: Costa da Caparica, maila a poeira e a chapelada afável do vigilante do parque. Um querido!

Tendo-me como intuitiva ao fashion, a moda dos arrastões não previ. Aumentei o meu despojamento banhista, mas desistir, nunca! Com uma gaze compridona num rosa de perdição simulei tapar o revelado, top mínimo e havaianas. Mais despojada, só nua mesmo! Aos pertences acresci livro de que darei notícia, euros curtos, toalha anónima, óculos Gucci que imitam na perfeição os falsos. Uma mulher pode ceder, mas há mínimos a cumprir...

Três horas mal medidas pela inclinação solar, bem passada de um lado, quase tão bem do outro, livro e mergulhos intervalados e emoções escaldantes nem uma! Jovens de raças várias, jogatinas, Vs arrastando-se em postura de gorila, afagos enamorados como glória aos céus, enfim, o costumado. Li, abandonei cada interstício à lascívia morna do mar, abri-me aos UV e IV e mandei às malvas prevenções. O medo também mata.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Teresa C. e Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 09:26 AM

agosto 17, 2008

DO GATO E DA LEBRE

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Paulo Toledo

País trôpego, gentes julgadas mancas. Mãe bastarda e briga familiar fizeram nascer Portugal. Do burgo de Portucale ao reino tomado por conta e risco de Afonso Henriques, não se esticaram os anos. Terra com pouco a contar se, de ouvido rente ao chão, ignorarmos os ecos da evolução incerta entre dois mundos políticos diferentes: fronteiras oscilando entre os reinos cristãos e a influência muçulmana e islâmica.

Território acanhado, pobre, de pedregulhos agrestes entrecortados por leiras de solo castanho e húmido aventurando-se ao mar. O do interior dado ao centeio e à oliveira, o do litoral propício ao milho e verduras. A pastorícia e a pesca espreitavam amenidades atmosféricas para trazer à mesa o pão que as invernias negavam.

Do «ontem», assim resumido, há diferenças no presente. Continuamos, porém, leira acanhada, pobres como antes, desencantados por vocação. Penhorámos ilusões, mas é nosso o espírito vadio que nos elevou a cumes onde outros não chegaram, sem recuarmos a séculos em que os genes por nós acartados eram pedaço de junco de ribeira.

Dêem ânimo a esta gente antes que as cãs sejam todo o cabelo. Não acenem com benfeitorias, idas ao bufete e folguedos, subestimando a lusa inteligência. Sabemos quem somos e o que queremos. Do gato e da lebre enumeramos as diferenças. Exigimos pouco como alimento da energia derramada em suor para empurrar o país: verdade, hombridade e carácter.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho

Publicado por Teresa C. às 09:21 AM

agosto 16, 2008

O INSONDÁVEL MISTÉRIO DOS «Vs»

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Autor que não foi possível identificar

Há mistérios mais insondáveis que outros. Os «Vs» são intrigantes humanos ocidentais. Tenho-os por homens devido às características usuais do sexo masculino. Diferença: tudo neles é extremado. As costas são larguíssimas, os pescoços cheíssimos, as veias salientíssimas,os músculos rigíssimos, o cabelo curtíssimo e os rabos pequeníssimos. Presumo a pilinha proporcional ao que a circunda: mínima.

Perante um enigma não estou para arrepios - observo, indago até dali tirar o sentido. No começo da "época balnear", revi «Vs» a quem sempre enderecei olhar perplexo. Simulei soneca profunda e fiquei em vigilante ratice de um grupo padrão: homem normal, dois «Vs» séniores e um júnior. Todos usavaqm cuecas de banho pretas. As posturas diferiam: o normal sentado à sombra, o júnior estirado ao sol e os séniores em pé como Rangers sentinela.

O novato, barriga para cima e olhar vazo, disse - “c’um caneco, tenho uma fome....” Comentou um dos veteranos – “pá, daqui a pouco podes comer o gelado!”. Outro – “comeste peixe grelhado ao jantar?” Volve o novato – “pá, comi, pá, mas aquilo não enche.” O normal intervém - “gelado, peixe grelhado e água é lá sustento de homem! Bebam é um bom vinho e comam à maneira!” O júnior comenta enjoado – “vai lá vai pá, não gramo álcool; é mais para queimar pá.” Silêncio. Suspiros. Rosnam estômagos e acomodam-se os intestinos gasosos. O sénior – “daqui a um quarto de hora temos gelado” O outro - “yeah” O júnior - “bora à água para entreter!” Os «Vs» caminharam arrastando os pés no areal. Ângulo agudo culminando nas nádegas mínimas. Pernas arqueadas. Braços compridos, em arco, balouçando na cadência do passo. Orangotangos pilados.

Conclusão pessoal: «Vs» pensam, comem, falam, mexem-se. Tudo devagar. Sofrido. A pilinha deve ser atrofio. Como o rabo.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Célia Bernardo e António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 09:14 AM

agosto 15, 2008

RAMELOSA PELA MANHÃ

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Sorayama

À parte a nata que habita casarão de família em pleno centro urbano ou prédio da zona histórica, airoso, remodelado e, por isso, luzidio como brinco acabado de comprar, a espuma social vive em condomínios fechados. Na ausência de estrelas classificativas, distinguem-se por parâmetros difusos, se bem que consensuais: é diferente habitar no Alcântara Residence ou no Massamá Place.

Quem olha de fora os portões e gradeamentos dos guetos ajardinados, pode ser ingénuo e julgar os de dentro com vidas desafogadas. Abastança não raro fictícia - sabido é que calotes e preço por metro quadrado são directamente proporcionais. Condómino pontualmente pagante das mordomias mensais, é raro. Lugar de venda de frutas e legumes levando a casa a encomenda, é bom que se rodeie de cautelas – as empregadas recebem, a «senhora» nem vê-la e, semana após semana, a «continha» cresce como pico da Estrela.

As empregadas são o lado picaresco. Na negociação do contrato, indagam se têm lugar na garagem, já que “estacionar foi um inferno.” A meio da tarde, as «babás» empurram cadeirinhas e vigiam querubins loirinhos e de olhos azuis. Cada uma reclama para a respectiva patroa maior (des)mérito social – “É como te digo, Zulmira, «hádes» ver ela na revista que te falei. Ninguém diria que aquela é a ramelosa que encaro pela manhã quando lhe entro em casa!”

A coisa chegou a tal ponto que, estando aqui a «piquena» partilhando limpezas profundas com a Cila - no momemto empoleirada num escadote -, fui abrir a porta ao novo funcionário do talho. O homem mirou-me e, antes de entregar a encomenda, perguntou: “a Senhora está?”

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Rita Barata Silvério e Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 09:08 AM

agosto 14, 2008

O PÊNDULO DAS MULHERES

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Sorayama


«A própria identidade, o clube e um emprego para a vida eram os vestígios da tradição conservadora, hoje desmantelada e substituída pela precariedade dos afectos, dos compromissos, dos projectos, da vontade, dos ideais.»

O ser e o clube permanece intocado para a metade XY da humanidade. No genoma da fracção marialva, está escrito: “muda de fé, de carro e de mulher, nunca de clube!” E assim é, com acentuada relutância para o automóvel e alguma displicência para a mulher.

As mulheres são pendulares – mudam bem de quase tudo, excepto de marca de fond de teint. Por princípio, rendem-se ao que é novo e mais sedutor. O clube depende. Iniciam as lides futebolísticas por via paterna. Sendo o pai castrador, mudam para o inimigo fidagal que reuna maior consenso no «grupo». Já adultas, o percurso clubístico depende da meteorologia amorosa - amor em alta e o clube dele é o máximo, se nublado é o “que se lixe!” Volúveis, neste particular, não raras convicções femininas.

As mulheres fieis a um clube diferente daquele que anima o parceiro é, normalmente, tributo a um outro amor: o pai, o irmão, o primeiro namorado, um amante. Se românticas, ficarão tão apegadas ao Nuno Gomes e à águia como à memória do perfume que o homem de referência usava. A qualquer deles reservarão suspiro mascavado. As adúlteras, em vez de datar ou nomear factos e amores, dirão com um sorriso enigmático: “Ah!, isso foi quando eu era da Académica...” Para elas, datação inequívoca equivalente aos automóveis neles. Referências sexistas que perduram e revelam o esconso dos estereótipos.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 10:23 AM

agosto 13, 2008

AMORES COMO ARABESCOS

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O dia nasce, trepa ao cume previsto, suaviza-se pela tarde e põe-se de mansinho. Há dealbares impetuosos nos estios excessivos e ocasos precoces quando a tempestade arriba. Uns e outros chegam com maior majestade que fragata no Tejo. O mesmo com os amores – paixões súbitas e amores intrincados como arabescos. Crescendo e finando como o dia.

É pelo meio da tarde que, normalmente, tudo acontece. Ida a madrugada e o cume do meio-dia, o tempo é de sossego e pode calar o desejo. A previsibilidade ronrona, as cigarras teimam na melopeia, o outro parece milho maduro do qual conhecemos os grãos. É conhecido o pisar no restolho que forra o chão. Mal lembramos a brisa das glicínias elevando-se à janela pelo começo da manhã. Na moleza da tarde, há o conforto do certo e a nostalgia do incerto latejando na fundura íntima.

Apetece “sol na eira, chuva no nabal.” Conservar o histórico de um amor e aumentar a liberdade que promete colheitas novas e encantos viçosos. Talvez prescindir da doçura do entardecer e fantasiar apenas e só madrugadas. Espalmar o dia entre o nascer e o zénite solar. Dos amores, somente começos. A metade de sobra jazida no desdém.


CAFÉ DA MANHÃ

A ler: Paula Capaz e SAntónio Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 09:00 AM | Comentários (0)

agosto 12, 2008

ESQUECE A VILLA DE SANTORINI

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Autor que não foi possível identificar

Não quero varandas no mar Egeu. Esquece a villa de Santorini e o mar azul-turquesa. Esquece o casario branco e as cúpulas esparsas alcandoradas na falésia. Dispenso o peixe fresco, pescado à beira do restaurante, a praia de areia vermelha e o entardecer em Perissa, o Beach Bar onde a noite acelera. É peregrinar na felicidade que desejo. E é tão fácil ser feliz!... Basta não pedir às coisas e às pessoas mais do que elas podem dar. Então, descobre-se que são diferentes, mais ricas; que são, até, tudo o que procuramos.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca

Publicado por Teresa C. às 10:20 AM

agosto 11, 2008

ALVURA RENTE À PELE

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Will Kramer

Nunca bastantes. No perfil em que as alinho, escandaliza o excesso. O arco-íris está inteiro, porém, as brancas dominam o resto do pelotão. Refiro-me à alvura tentadora das camisas que prefiro. Cetins, sedas engelhadas, algodões translúcidos. Trabalhados ou lisos. Punhos dobrados, simples ou com atilhos. Se viajo, são as que primeiro dobro e emalo.

Jeans, saia e casaco ou qualquer base outra serve para complementar a finura branca do tecido da camisa. Permito-me envaidecê-las com acessórios improváveis. Favorecem arrojos, que, de resto, nunca abdico. Alguns só eu entendo, que à excentricidade ostensiva, rude, digo não. São os discretos, aqueles das subliminares mensagens dos quais retiro maior prazer. A lingerie, destacada levemente e em harmonia com a virginal camisa, é um deles.

Imaculadamente passadas é regra. No engomar nem sou maníaca, salvo nas camisas. Ao vesti-las, é o cheiro da infância que regressa. Lembro as férias de verão e os linhos cheirosos que forravam camas. De ver roupa a corar para que o branco não fosse perdido. Como estendal, o alecrim em sebe - assim recomendava a avó. E, ao colar a pele à macieza do tecido, é paz que visto. O perfume, como nuvem em que antes penetrei, não é o do alecrim, contudo, é deste o símbolo e dele o cheiro. Como antes.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Teresa C. e Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 09:06 AM

agosto 10, 2008

BOTÃO DESPEJADO DA CASA

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Olívia de Berardinis

Bijutaria – "pequena obra destinada a enfeite ou adorno. Do francês bijou." O dicionário não se alarga, mas qualquer mulher diria mais - enfeitiça pela novidade e pelo frívolo. Missangas, pedra, osso, flores, conchas e plumas, tudo serve. Basicamente um acessório certeiro a par da fenda na saia ou do botão despejado da casa, como armas poderosas que Patton não renegaria. Estratégia que pode ser mais avassaladora que a blitzkrieg.

Camisa entreaberta e lenço curto de algodão rematando o pescoço, sugerem resistência partisan; emboscada, esperança na “França Livre.” Colar de pérolas, recortado no colo despido pelo decote de um tailleur, é batalha de Stalingrado – início de capitulação.

Jeans justos alcandorados em saltos, sem colar ou brincos étnicos, ficam tão desprotegidos como o Afrikakorps de Rommel. Já os bordados duvidosos nas honestas gangas são kamikases (espatifam o requinte sem apelo nem agravo) conquanto o recheio dos jeans seja tão decisivo quanto o talento do Montgomery. E é simples – existe ou não! Quando as curvas traseiras rematam pernas longas coladas ao tecido, lembram resposta ao ataque japonês à base havaiana de Pearl Harbor: declaração de guerra ao Eixo. Masculino para começar.

As que pecam por excesso nos enfeites, se por um lado lembram abeto natalício, por outro são rés do julgamento «nuremberguiano» das suas pares. Implacáveis, mas justas!

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho

Publicado por Teresa C. às 08:31 AM

agosto 09, 2008

PISTOLAS EMOTIVAS

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Greg Hildebrant

Frases envenenadas. Não necessariamente providas de intenção dolosa. Apenas certeiras. Directas à fragilidade que ocultamos. Palavras sentidas como aguilhão espetado no fundo onde tudo dói mais.

Fortalecer a auto-gosto é meio-caminho-andado para fintar potenciais de mágoas. Como armadura onde comentários aguçados fazem ricochete, deixando ileso o alvo. Porém, qualquer psiquismo, por mais trabalhado que seja, abre fendas. Portas de entrada ao que inquina a serenidade. E o espírito, uma vez contaminado, pode ulcerar e doer e picar e atormentar.

É uso da agressividade fazer arma de defesa. Retorquir, avaliando num ápice as coordenadas do mapa que no outro abrigam ferida mal sarada. sítio onde bala certeira fará estragos. Infligir dor a quem nos magoou. Tão ociosa quanto a nossa se entendermos como insegurança ou temor ou angústia mal resolvida o que nos afligiu. Porque não se trata de dar a outra face, antes analisar as razões que nos torturam, acobardam ou fazem gemer. Tornando de pouco préstimo a pistola emotiva que, pela cabeça perdida ou pelo despeito, apetece empunhar.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Célia Duarte e António Eça de Queiroz
Desde Ontem

“Marilyn, quando era ELA”- Abençoada morte. Em Hollywood e em vida toda a estrela é um cometa: num segundo ilumina o mundo, um (...)”

“Busby Berkeley era um génio" - "Se têm um átomo de paciência e não se importam de recuar a 1933, espreitem(...)”

Publicado por Teresa C. às 10:19 AM

agosto 08, 2008

NAMOROS ALFORRIADOS

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Greg Horn

Quem não namora está out. Namorar deixou de ser coisa de donzéis mal iniciados nos arrepios eróticos e tornou-se imperativo em qualquer condição. Namoram casados, amantes, adolescentes e serôdios. Namora quem vive uma relação de cariz sexual. Quem não o faz por ausência de parceiro, por estar pelos cabelos com o que tem, ou por desprezar lamechices de gestos e palavras, está fora da onda namoradeira onde é suposto submergir.

A conjugação do verbo namorar nunca foi tão transitiva - basta reunir disponibilidade, atenção, partilha e proximidade. Envolvendo registos tão diferentes quanto a natureza dos afectos. Onde cabe, também, o amor romântico. Ou a paixão. O flirt, é limbo picante, solução quimicamente concentrada em «onas» e «inas». Adrenalina para o vulgo, que de fórmulas e estruturas moleculares pouco reteve além do H2O e H2SO4.

Muito antes do século passado finar, foi alforriado o namoro. Porém, os portugueses ainda pintalgam de ferrugem o olhar quando a mulher se adianta ao homem na idade. No inverso, quem observa reparte-se entre a lisonja ou aceitação, dependendo uma ou outra de quão vistosa é a namorada. Com a mulher é injusta a diferença. Apresente-se ela como brasa candente, ou ele como tição inflamado, não se livram da estupefacção alheia - “Tem mais que idade para ter juízo!” Ela, está visto, que dele dirá a eloquência coscuvilheira: “Que verá ele nela, Santo Deus?” E eles vêem, elas também, e, sem detença, namoram a bom namorar.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Rititi e Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 08:30 AM

agosto 07, 2008

SURGINDO DO VIÉS DA SEDA

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Jenifer Janesko

Vinte e cinco anos sem «ontem» próximo. Antes recuado. Longínquo. Agora juntos e afastados. A distância primeira instalou-se no sofá. Sentada entre eles, cobriu-os com um manto frio. Desdobraram assentos e silêncios. A economia da fala e da partilha pretextou, depois, a divisão de serões. Cumprido o ritual do jantar, ela voltava à sala, ele escapulia-se para o escritório. A banalidade conjugal adormecia com eles. Em silêncio.

Bodas de prata. Marcantes. Dolentes. Num impulso, ele largou tudo e saiu. Uma jóia, talvez. E flores como há vinte e cinco anos atrás. Mas não. Seria despropósito. Queria clivagem como borracha dos erros e das rotinas. Compraria um recomeço. Optou por um vestido. Branco a condizer com a nova união, diferente, virginal na acidez das memórias. O tamanho era o dela. Ele sabia-o, sentia-o nas mãos – não esquecera as fronteiras do corpo que desejara, desejava e ambos negavam.

Ela experimentou o vestido. Viu-se de branco, o corpo bem delineado surgindo do viés da seda. Gostou. Mirou-se num sorriso – não distava assim tanto da mulher que fora! – e voltou-se. Deu-lhe um beijo grato e feliz que não demorou. Sentia-se cansada. O trabalho do dia, naquele instante, pesou toneladas. Carga excessiva para reunir forças e ir jantar fora. Ficaram em silêncio na casa. Estropiaram ilusões. Como de costume.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Madalena Palma e Rui Pelejão
Desde Ontem

“Solzhenitsin” – “Há dois momentos macabros na história da humanidade, no século XX: os campos de concentração nazis e (...)”

Publicado por Teresa C. às 09:18 AM

agosto 06, 2008

AMORA SOB OLHOS ÁCIDOS

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Babis Kiliaris

Quem prova paciência por testemunhar os meus derriços com a palavra, deu conta do gozo que espremo das minhas (in)confidências factuais ou projectadas. Umas e outras verdadeiras por deixarem rasto de quem as conta, da Tati ou da mulher encoberta sob o nome Teresa C..

Culpam as mulheres de nos respectivos blogs abusarem de strips emocionais e das vidas. Pelo facto inferiorizadas aos olhos ácidos e tradicionais que do feminino esperam recato. Serei mais uma. Que importa? Não me tenho por rebento de narciso. Nada mais reclamo do que a condição de amora exposta ao sol em silvedo que trepa retalhos do granito.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Paula Capaz e António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 09:41 AM

agosto 05, 2008

BELGA, VESTIDA DE VERDE

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Edwin Georgi

A tia é uma mulher encantadora. Por pudor, não descrevo o percurso da jovem linda, culta e requisitada por candidatos ao seu amor. Adianto que ao concluir o ensino liceal no Colégio do Sagrado Coração de Maria, sito na Guarda, optou pela vida religiosa. Primeiro em Portugal, depois em Concy, aos setenta e sete anos mantém a jovialidade, espírito arejado e apetite pela leitura. Intervala os ensaios sociais e teológicos que lhe ocupam o espírito com a vulnerabilidade da qual é a primeira a rir – o gosto de saber o que acontece com a realeza europeia, a espanhola em particular. Admiradora da Rainha Sofia pelo pundonor e ligação afectuosa à família, interessada nos desvarios monegascos, de vez em quando apetece-lhe a IHOLA! Falta do cabeleireiro que dispensa, é o que é!, ou teria ao seu dispor resmas de números atrasados, o que para o caso tanto dá.

Do exemplar de sábado último, na moleskine, redigiu: “ A nobreza nos tempos que correm numa Europa em crise” – “Princesa belga vestida de verde, símbolo de esperança e com chapéu a condizer em forma de disco (homenagem aos jogos olímpicos?). Uma sua irmã foi vestida por estilista amante da família real e da pátria: toucado nupcial e carteira com a forma do país amado. Extraordinário sentido do “dever”, fora do tempo ou talvez fora da vida.”

Tenho sorte ou não?

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Leonor Barros e Manuel S. Fonseca

Publicado por Teresa C. às 09:07 AM

agosto 04, 2008

OS PRIMOS LIMA

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Steve Hanks

Fátima e António. Irmãos. Ele mais novo do que eu um par de anos, ela nascida quatro anos depois. Nas férias grandes da infância e adolescência, partilhámos tropelias e enredos; merendas de fábula servidas pelo meio da tarde. Abundando imaginação, o tédio não era conviva. Monopólio, loto, jogos de palavras e números, cantoria e passeios entretinham-nos até ao banho que precedia o jantar. Quais cabritos monteses, cabriolávamos encosta acima da Estrela até aos frondosos parques dos Conventos de São João Baptista - um masculino e seminário, outro feminino e lar de alunas da região. A ordem religiosa alemã fornecia às obras sociais apoio por homens e mulheres “consagrados” (peculiar esta concepção!). Eles e elas altos como cruzeiros de granito. Os centímetros a mais e os bondosos olhos azuis depressa afeiçoarem desvalidos e os nativos em geral.

Na época da crescença decisiva, a Fátima, o António e eu seguimos caminhos diferentes. Ela escolheu Medicina, ele optou por Direito. Passei-me da Coimbra de sempre para Lisboa e, por isso, desencontrei o António que, pela mesma época e mais a irmã, rumou à utopia estudantil do Mondego. Houve casamentos, separações, filhos e progressão nas carreiras. Cada um se ajeitou como pôde à benevolência da fortuna. Conto anos sem ver o Tó.

Soube hoje que a Fátima Lima é directora do centro de saúde. Aberto dia e noite, há quase uma semana recorri à urgência com um familiar muito querido. Assistência exemplar da entrada à saída. Humanidade na fala e nas atitudes. Edifício novo e bem equipado. Uns dias atrás, encontrei a Fátima. Elogiei o serviço e as mudanças. Discreta, sorriu e nada acrescentou.

CAFÉ DA MANHÃ
Hoje:

"Tule, Organdi e Cai-cai" - "Pelo dealbar da menarca, olham a forma da sombra que o corpo projecta ao caminharem. Inauguram,(...)"

Mauro Castro
Desde ontem:

“Picuinhices presidenciais” – “O assessor empertigado garantiu ao cortejo de cacarejos de microfone que – se não fosse (...)”

Publicado por Teresa C. às 08:54 AM

agosto 03, 2008

SEM MAIS DO QUE BIKINI, CHINELAS E PARÉO

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Al Moore

Dera por findo o almoço. Antes houvera o ritual do semanário abordado no Café Central. Mesas bordejadas com latão amarelo. Polido. Cadeiras de saudável castanho; assentos de couro gravado herdados do fundador. Do alto do retrato a preto e branco, a figura circunspecta do início do século passado vigia o trabalho do herdeiro. Por funcionários gente nova, bonita, sorriso cúmplice desde a entrada. À mesa vem parar o costume do ano anterior. É o “estar em casa” estando fora que seduz. Ambiente clássico isento de kitsch em plástico ou metal a fingir.

Quando o apelo chegou, já o café do pós-almoço assentara como é dito das sopas no mel. O desafio veio do mar ao largo de Albufeira. No que concerne a pescaria, o alvorecer a bordo do iate fora desastroso. As carnes frias e os patês do Apolónia, entre as Quatro Estradas e Almancil, sobravam por desistência dos convivas renitentes ao cedo-erguer. Há gente que a umas horas de sono sacrifica prazeres de eleição! Combinado está para o Agosto meio lançar âncora em praias desertas. Ondular de Vale de Lobo para trás e para a frente. Lançar bote no Evaristo. Algures no areal, ronronar a digestão. Sem mais do que bikini, chinelas e páreo, celebrar a vida boa de Verão.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Marta Botelho

Publicado por Teresa C. às 09:03 AM

agosto 02, 2008

“VAI UM DESABAFO?”

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Milo Manara

Sei que estás aí e me entendes os silêncios. Adivinho-te perplexo quando abres as minhas contradições. Concentrado quando estendes letras como se foram mãos. Dedos em terno passeio pelos meus ombros. Nas referências breves que fazes ao corpo que me dá forma, a boca nunca constou. Curiosa omissão. Aprazível diferença. Pela boca muito começou e acabou. Quando comecei a tornar-me mulher, reinava o estereótipo da fragilidade feminina. A distância entre os ombros devia ser pequena. Do pescoço até eles, o ideal de beleza estabelecia inclinação. Que não tinha. Por isso a mãe meneava um não se um casaco os revelava direitos. Assentia se o corte os disfarçasse. E eu sem me importar com eles.

Ao perguntar “vai um desabafo?”, aceitaste-o com generosidade. Lembro-te o começo: “Que não sou «piquena» para chorar sobre leite derramado, sabes. Que não sofro de vésperas como o peru, também. Mulher de apetites ocasionais? - Sou eu! Com razão treinada no enquadramento (i)lógico? - OK, it's me! Que adora permutar mimos, ternura e cumplicidades? Je, moi même, aqui deste lado com o coração nas teclas.” Admito que o termo “ocasionais”, ligado a “apetites”, é ambíguo. Remete para eventualidades várias. Para imprevistos que aceito como a dose de surpresa de que também me alimento. Esta fala contigo era inesperada, mas verificou-se. Apetite meu e teu.

Escreveste: “Porque é a Teresa Maria com quem quero conversar, conhecer, ouvir desabafar, e sei que a Teresa existe para que a Maria seja a Maria e a Maria existe para que a Teresa sejas tu. Daí a "minha" Teresa Maria, que és tão mais tu quanto menos eu pedir. À Teresa pedem não é? Pedem tanto que seja Teresa que a Teresa teria que deixar de ser Teresa para ser quem querem que a Teresa seja.” Resumiste na perfeição. Aqui reside o nó que aperta a rede. Que aceito e rejeito. Pendulo como um relógio a que só falta o cuco cantar as horas. E eu nem sou cuco, nem periquito, nem canário. Apenas uma rola que gosta de voar.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Célia Duarte e António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 10:38 AM

agosto 01, 2008

VASSOURA-MÍSSIL

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Anthony Guerra

Mulher profundamente urbana, corpinho habituado a afagos cremosos – óleos perfumados quando mãos hábeis os sabem manusear -, mãos e pés macios acabando em verniz alegre como o estio. Fosse outra a têmpera, e soltaria estridentes gritos por cada teia de aranha a romper. Não eu. Se esqueço a vassoura ao entrar nos arrumos da lenha ou na adega para das aranhas romper o trabalho sem tréguas, sirvo-me dos braços vigorosos que os deuses fazem o favor de conservar. Mais teia, menos teia, nada me faz recuar. A Leonor segue atrás. Vassouras, baldes e esfregonas a dobrar – ela fica com o equipamento novo, eu com o do ano anterior. Deparámo-nos com tarefa hercúlea: os granitos, tapados com paredes de lenha pronta a queimar no Inverno, devolviam águas continuadamente negras. Liguei ao meu anjo-da-guarda: o Sr. João. Homem generoso, bonito, solteiro, funcionário fabril e competente, vive os seus quarenta e picos com a mãe e o irmão. Amigos da família desde o tempo do avô. Com o pai estreitaram laços que herdei. Toma conta do jardim, temporiza a rega e determina as podas que o Sr. Mário executa.

Quando liguei, já ele carregava o automóvel – pela tarefa que lhe anunciara na véspera, assim pôde, decidiu auxílio antes de ser pedido. Minutos não eram passados, vejo-o descarregar o que me pareceu um aspirador industrial. Liga fios, mangueira, e eis que surge uma vassoura de água movida a jacto. As pedras ficavam brancas numa passagem. Limos e lixo dum ano pulverizados em menos de um ai. Quis brincar. Agarrei no tubo e experimentei. Por cada embate do jacto surgia o branco; mal comparado, era como se a vassoura debitasse, em vez de água, jacto de cal. Andámos naquilo até o sol se pôr. Ele protegido com botas de borracha, eu de vestido fino e havaianas com luziratos. A terra cobriu-me da face aos pés.

Finda a tarefa, despedida com tanto de breve como de grata, ensaio entrar em casa. Descalça, limpo os pés ao tapete. Com folhas das hortenses removo o lixo maior. Era mais fusco que lusco, quando me enfiei na banheira. A água que de mim escorria era tão negra como a do granito que a vassoura-míssil lavou.

CAFÉ DA MANHÃ

“Feminino e intemporal” – “A voz inversamente proporcional à figura excessivamente magra, o cabelo armado com um penteado (...)”

“APARTHEID E GUERRILHA” – “Os acontecimentos recentemente passados na Quinta da Fonte entre ciganos e africanos repõem no Portugal de hoje um conjunto de interrogações a que dificilmente se pode escapar. (...)


Desde ontem:

“Tudo na mesma como a lesma” – “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Tudo na mesma como a lesma. Regressar à (...)”

A VISITAR
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“Chiado em Évora" R. dos Caldeireiros, 19, ÉVORA

Porque o Chiado não existe apenas em Lisboa, recomendo passeio de truz: excelência da gastronomia e do património estão em harmonia com a exposição que em Évora tem as portas abertas.

Publicado por Teresa C. às 09:23 AM