« AMORA SOB OLHOS ÁCIDOS | Entrada | NAMOROS ALFORRIADOS »
agosto 07, 2008
SURGINDO DO VIÉS DA SEDA

Jenifer Janesko
Vinte e cinco anos sem «ontem» próximo. Antes recuado. Longínquo. Agora juntos e afastados. A distância primeira instalou-se no sofá. Sentada entre eles, cobriu-os com um manto frio. Desdobraram assentos e silêncios. A economia da fala e da partilha pretextou, depois, a divisão de serões. Cumprido o ritual do jantar, ela voltava à sala, ele escapulia-se para o escritório. A banalidade conjugal adormecia com eles. Em silêncio.
Bodas de prata. Marcantes. Dolentes. Num impulso, ele largou tudo e saiu. Uma jóia, talvez. E flores como há vinte e cinco anos atrás. Mas não. Seria despropósito. Queria clivagem como borracha dos erros e das rotinas. Compraria um recomeço. Optou por um vestido. Branco a condizer com a nova união, diferente, virginal na acidez das memórias. O tamanho era o dela. Ele sabia-o, sentia-o nas mãos – não esquecera as fronteiras do corpo que desejara, desejava e ambos negavam.
Ela experimentou o vestido. Viu-se de branco, o corpo bem delineado surgindo do viés da seda. Gostou. Mirou-se num sorriso – não distava assim tanto da mulher que fora! – e voltou-se. Deu-lhe um beijo grato e feliz que não demorou. Sentia-se cansada. O trabalho do dia, naquele instante, pesou toneladas. Carga excessiva para reunir forças e ir jantar fora. Ficaram em silêncio na casa. Estropiaram ilusões. Como de costume.
Publicado por Teresa C. às agosto 7, 2008 09:18 AM