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agosto 02, 2008

“VAI UM DESABAFO?”

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Milo Manara

Sei que estás aí e me entendes os silêncios. Adivinho-te perplexo quando abres as minhas contradições. Concentrado quando estendes letras como se foram mãos. Dedos em terno passeio pelos meus ombros. Nas referências breves que fazes ao corpo que me dá forma, a boca nunca constou. Curiosa omissão. Aprazível diferença. Pela boca muito começou e acabou. Quando comecei a tornar-me mulher, reinava o estereótipo da fragilidade feminina. A distância entre os ombros devia ser pequena. Do pescoço até eles, o ideal de beleza estabelecia inclinação. Que não tinha. Por isso a mãe meneava um não se um casaco os revelava direitos. Assentia se o corte os disfarçasse. E eu sem me importar com eles.

Ao perguntar “vai um desabafo?”, aceitaste-o com generosidade. Lembro-te o começo: “Que não sou «piquena» para chorar sobre leite derramado, sabes. Que não sofro de vésperas como o peru, também. Mulher de apetites ocasionais? - Sou eu! Com razão treinada no enquadramento (i)lógico? - OK, it's me! Que adora permutar mimos, ternura e cumplicidades? Je, moi même, aqui deste lado com o coração nas teclas.” Admito que o termo “ocasionais”, ligado a “apetites”, é ambíguo. Remete para eventualidades várias. Para imprevistos que aceito como a dose de surpresa de que também me alimento. Esta fala contigo era inesperada, mas verificou-se. Apetite meu e teu.

Escreveste: “Porque é a Teresa Maria com quem quero conversar, conhecer, ouvir desabafar, e sei que a Teresa existe para que a Maria seja a Maria e a Maria existe para que a Teresa sejas tu. Daí a "minha" Teresa Maria, que és tão mais tu quanto menos eu pedir. À Teresa pedem não é? Pedem tanto que seja Teresa que a Teresa teria que deixar de ser Teresa para ser quem querem que a Teresa seja.” Resumiste na perfeição. Aqui reside o nó que aperta a rede. Que aceito e rejeito. Pendulo como um relógio a que só falta o cuco cantar as horas. E eu nem sou cuco, nem periquito, nem canário. Apenas uma rola que gosta de voar.

CAFÉ DA MANHÃ
A ler: Célia Duarte e António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às agosto 2, 2008 10:38 AM