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outubro 26, 2008
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA DENÚNCIA

Bo Bartlett
Há duas décadas e meia que Milan Kundera não concede uma entrevista. De nada parece servir-lhe o apagamento mediático ao surgir, há alguns dias, uma folha carcomida pelo pó e pelo tempo nos arquivos do Partido Comunista da antiga Checoslováquia. Nela consta a denúncia de um estudante de 21 anos sobre um desconhecido da mesma idade. Miroslav Dvorácek, o nome do desconhecido, era um jovem militar desertor. Um ano após a fuga, regressou a Praga. Quis o acaso que se encontrasse com uma amiga, Iva Militká, que contou ao namorado o acontecido. Este, por sua vez, confidenciou a um amigo íntimo a chegada do desertor como espião-correio. O amigo era Milan Kundera.
Horas após a revelação, Kundera denunciou o estranho num posto da polícia local que viria a prender o jovem. Foi condenado a 22 anos de prisão. Cumpridos catorze de torturas e trabalhos forçados, Dvorácek sai em liberdade na mesma altura, malévola coincidência, em que o escritor publica “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Delação que, a ser provada, mancha o percurso do autor da “Insustentável Leveza do Ser”. Livro inspirador de êxtases solidários para com o povo que admiravelmente descreveu através da trama e caracterização fascinante dos personagens.
Com 79 anos, Kundera nega o acto de que é acusado. Porém, o milhar de caracteres que enchem o documento e o testemunho de Iva Militká, 58 anos depois, deixam pouco lugar à dúvida. Milan Kundera vem assim juntar-se a Hermann Hesse nos tortuosos caminhos da (in)consciência juvenil.
Publicado por Teresa C. às outubro 26, 2008 11:16 PM
Comentários
Hermann Hesse? Não está a confundi-lo com Gunther Grass?
Publicado por: António Ferreira às novembro 2, 2008 09:29 PM
Claro que sim! Não tivesse feito o reparo e a minha lerdice não teria dado pela partida da memória. Estou, a cada dia, pior, concluo. Nem mudo o texto para ficar exposta a decripitude que me avassala.
Muito, muito obrigada.
Publicado por: Teresa C. às novembro 3, 2008 06:04 PM