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outubro 31, 2008

NO PORTO DIZ-SE ASSIM, EM LISBOA ASSADO

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“...o broeiro do Xico anda todo apilarado ma num passa dum azeiteirote foleiro q’anda sempre na moina; só tem paleógrafo, faz a féria com fatelas gamadas e despois anda paí armar ao pingarelho. Ele é marca chevrolet, á poi'sé!...” Se não vive ou cresceu no Porto, precisa de um tripeiro de gema que se encarregue da tradução. Mais exemplifico numa listagem que li algures e cuja origem perdi.

O tema vem a propósito da semana que amanhã o João Moreira de Sá e a Marta Botelho inauguram contando espingardas no atávico despique Porto e Lisboa. Tudo porque o António Eça de Queiroz e o António Costa Santos escreveram o “Porto versus Lisboa”, batalha campal em livro, editado pela Guerra e Paz.

picheleiro - canalizador; boeiro - sarjeta; quarto - assoalhada; bufar - soprar; bolinhos (de bacalhau) - pastéis (de bacalhau; sótão - trapeira; tasco - tasca; rádio - telefonia; bitaite - palpite; loja de miudezas - retrosaria; calca - pisa; hidranja - hortênsia; trengo - tótó; carapins - sapatos de lã; parolo - saloio; morcão - palerma; sameira - carica; quarto de banho - casa de banho; guita - dinheiro; botija (de gás) - bilha (de gás); carola - cabeça; prego - bitoque; aloquete - cadeado; japoneira - cameleira; chicharro - carapau; caramilo - chupa-chupa; baraço - cordel; tomar café - beber café; negos - copo de três; cimbalino bica; patroa - esposa; bolso - algibeira; parcómetro - parquímetro; maçã - pero; regadela - mentira; mouro - alfacinha; beber do fino - gostar do que é bom; osga - raiva; roto - pederasta; portuense - tripeiro; chapada - bofetada; catraia - garina; estar a toques - ter cuidado; pingo - garoto; volta - fio de ouro; - engomar; saber da poda - saber do assunto; vermelho - encarnado; basqueiro - barulho; uma charutada - um pontapé; fino - imperial; faneca - mulher atraente; taró - frio; chusso - guarda-chuva; canalha - miúdos; fazer praia - ir à praia; milongas - mentiroso; quarteirão - oitavo de litro; seita - grupo; cinco menos dez (horas) - dez para as cinco (horas); cruzeta - cabide; quilho - testículo; guarda-vestidos - guarda-fatos; sertã - frigideira; carcela - braguilha; peluda - amuada; quartilho - meio litro; malha - chinquilho; toalha de banho - lençol de banho; penca - couve portuguesa; uma nação - Porto; Lisboa - capital

No linguajar, "A Grande Alface" fica a perder.

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Duarte
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 11:22 PM | Comentários (0)

NA NOITE DAS BRUXAS, FOI ASSIM

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Walter Girotto

Na importada noite das bruxas, os feitiços saem à rua por meio da presença ou da voz. E chegam quando menos são esperadas. Estacionam a vassoura e preenchem lugares julgados esquecidos. Que não eram, ou os requebros da voz seriam atenuados pela normalidade dos idos que a memória tem por arquivados. Enganadora, porém. Licenciosa nas subtis mudanças de tom que a língua e a garganta oferecem. Os sentidos à espreita do diz ele, dizes tu. E, nos silêncios prolongados, falam os dois. A voz dorida ouve e diz o que trazia escondido sem saber. A voz que chamou subitamente perplexa por ouvir o não esperado, embora sabedora da remota possibilidade do sentido ser tal-qual. Mas porque dos outros adivinhar é ousadia, o pressentimento fica esquecido. Até um dia. Até a voz dizer o que não queria, ou queria sem dizer. E ficam os dois a saber dos silêncios o reconto. Presos do tempo esvaído entre falas. O falo, a fala, a gruta, o cio ciciado na penumbra. E ela escorregou no colo e nas costas o niquelado da festa que ele não viu. Vestiu a seda fluida sobre a pele. Despiu-a com uma flute de champanhe na mão. Na noite das bruxas, foi assim.

CAFÉ DA MANHÃ
Rita Barata Silvério
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 01:58 AM | Comentários (2)

outubro 29, 2008

DO CIO E PELO CIO

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Terry Rodgers

Quando o cio aperta, bichos e pessoas assemelham-se. Revelam de si o pior e o melhor. Dizem o excesso de álcool capaz do mesmo. Não testemunhei, mas acredito por remeter às profundezas dos seres. Regurgitar inconsciências é compatível com alterações da lucidez que a via química – ingerida ou própria – favorece. O comportamento, aferido pelo “normal” do indivíduo, extravasa arrojos e loucuras.

No acasalamento, plantas e animais são dados a ritos maliciosos e subtis que os genes comandam. Os humanos revelam idêntica matreirice na competição pelo lugar de sedutor-mor dos parceiros disponíveis. Dão «patadas» aos rivais, «rugem» como leões, arranham, ferem aqueles que o fatum lhes interpuser no caminho rumo ao cobiçado. Este, alvo de trinados e denguices, floreados e representações burlescas, esteja também no cio e cai como sopa no mel - adorável metáfora por lembrar tira de pão centeio acabado de sair do forno e mergulhada no fluido e dourado fruto do labor das abelhas. Recordo-me azucrinada pelos enxames em fúria na altura da extracção do mel dos favos que as colmeias amealham um ano inteiro. Dividida entre o doloroso incómodo das picadas e a gulodice desejada.

Durando o cio insatisfeito, sobrevém a mágoa que alguns transformam em maquiavélicos fazeres. E receiam-nos as escaldadas vítimas. Fazem ouvidos de mercador em presença de devolução da venda por defeito ou mau serviço. E, fartas de banha-da-cobra, esperam o dia em que os catalisadores apazigúem o alvoroço químico e se curem do ferrete do cio descontrolado os seres.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 08:53 PM | Comentários (4)

“MALMEQUER BICICLETA”

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Um dito comum afirma igual a humanidade no nascer e no morrer. Como acontece com todas as “máximas” que pululam nas sociedades, são verdadeiras «assim-assim». O mesmo é dizer que, esmiuçadas, têm tanto de mentira como de verdade. Um bebé parido, longe de tudo, numa parte esquecida do mundo vem à luz desprotegido do básico que lhe permita sobreviver.

Se forem postas de lado tragédias originadas pelos sentimentos vis dos humanos – a sede de poder, a cobiça, o egoísmo -, basta situar as diferenças no pós-nascimento para desmentir a “máxima” comum. O registo do nome do neófito prova o meu dizer. Sendo os pais excêntricos ou, no mínimo, originais, a criança está condenada a futuro de vergonhas e explicações pelo nome do qual não teve culpa.

Em Itália, um pai teimou em registar o seu filho como Sexta-feira. O tribunal recusou o nome. Não se deve ter lembrado, presumo, do homónimo e fantástico personagem no livro de Defoe, “A Vida e as Estranhas Aventuras de Robinson Crusoé”. Nome que remete para o simbólico: a luta isolada do homem contra forças cruéis e exteriores. Actual, portanto.

Por cá, circula nas auto-estradas virtuais, história que faz pensar. Transcrevo-a.
“No Registo Civil, um angolano residente em Portugal quer registar o seu filho recém-nascido.

- Bô dia! Eu quer registrar meu minino que nasceu otem.
- Muito bem. O seu filho nasceu ontem, é do sexo masculino... e qual é o nome?
- Marmequer Bicicreta.
- Desculpe! Quer chamar ao seu filho Malmequer Bicicleta?
- É.
- Desculpe, mas não posso aceitar esse nome.
- Não pode, porque tu é racista! Si meu minino fosse branco, tu punha.
- Não tem nada a ver com racismo. Esse não é um nome admitido em Portugal.
- Tu é racista. Si meu minino fosse branco, tu punha esse nome a ele. Tu não põe, porque meu minino é preto.
- Já lhe disse que não tem nada a ver com racismo. Malmequer Bicicleta não é nome de gente.
- Ai não! Então porque é que tu tem uma branca chamada Rosa Mota?”

A hegemonia branca é capaz destas anedóticas incongruências.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 09:54 AM | Comentários (0)

outubro 27, 2008

NO CENTRO, UM HOMEM E UMA MULHER

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Walter Girotto

Numa entrevista, contou Sidney Pollack: “Sempre fiz filmes cujo centro é um homem e uma mulher. Para mim, é a maneira mais interessante de trabalhar. Não sei se isso me coloca, ou não, off-Hollywood. O certo é que esse é o tema que mais me seduz, seja em que género for. Penso mesmo que se trata do único aspecto em que os seres humanos não progrediram, nem progridem com o próprio envelhecimento. Mesmo homens de 80 anos continuam a interrogar-se sobre a dificuldade em manter relações amorosas, gratificantes e duradouras – e a desejá-las mais do que tudo. Gosto de encenar esses homens e mulheres num mundo cujas circunstâncias reflectem os seus problemas pessoais, e também o inverso.

Por isto e pela ignorância cinéfila, manifesto ter-me rendido a um filme de Pollack consensualmente menor: “Sabrina”. Foi arrojo volver ao registo em celulóide obra do mágico Billy Wilder; colocar Julia Ormond no papel outrora desempenhado por Audrey Hepburn, Harrison Ford no lugar de Humphrey Bogart e Greg Kinnear para reinventar o desempenho de William Holden. Com “Tootsie” maravilhei perante a comédia terna e limpa. De novo a música de Grusin - It Might Be You - interpretada, daquela vez, por Stephen Bishop.

Pollack não hesitou na detença frente às câmaras: no filme de Kubrick, “Olhos Bem Fechados”, partilhou o plateau com Nicole Kidman e Cruise. Lastimo ter adormecido no "Out of Africa." Naquele tempo, a estafa era tamanha que, envergonhada, confesso ter adormecido em quase todos os teatros independentes de Lisboa. Atingi o cúmulo da carreira de dorminhoca pública num bar do Represas – caí no enredo de Morfeu encostada às colunas de som. Ainda hoje me pergunto como não fui proscrita do grupo de amigos de então e de sempre.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros
Manuel S. Fonseca


Stephen Bishop - It Might Be You (Tootsie Theme)

Publicado por Teresa C. às 10:12 PM | Comentários (2)

outubro 26, 2008

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA DENÚNCIA

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Bo Bartlett

Há duas décadas e meia que Milan Kundera não concede uma entrevista. De nada parece servir-lhe o apagamento mediático ao surgir, há alguns dias, uma folha carcomida pelo pó e pelo tempo nos arquivos do Partido Comunista da antiga Checoslováquia. Nela consta a denúncia de um estudante de 21 anos sobre um desconhecido da mesma idade. Miroslav Dvorácek, o nome do desconhecido, era um jovem militar desertor. Um ano após a fuga, regressou a Praga. Quis o acaso que se encontrasse com uma amiga, Iva Militká, que contou ao namorado o acontecido. Este, por sua vez, confidenciou a um amigo íntimo a chegada do desertor como espião-correio. O amigo era Milan Kundera.

Horas após a revelação, Kundera denunciou o estranho num posto da polícia local que viria a prender o jovem. Foi condenado a 22 anos de prisão. Cumpridos catorze de torturas e trabalhos forçados, Dvorácek sai em liberdade na mesma altura, malévola coincidência, em que o escritor publica “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Delação que, a ser provada, mancha o percurso do autor da “Insustentável Leveza do Ser”. Livro inspirador de êxtases solidários para com o povo que admiravelmente descreveu através da trama e caracterização fascinante dos personagens.

Com 79 anos, Kundera nega o acto de que é acusado. Porém, o milhar de caracteres que enchem o documento e o testemunho de Iva Militká, 58 anos depois, deixam pouco lugar à dúvida. Milan Kundera vem assim juntar-se a Hermann Hesse nos tortuosos caminhos da (in)consciência juvenil.

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 11:16 PM | Comentários (2)

outubro 25, 2008

DO “MEU BAIRRO” PARA O MUNDO

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Hal Sutherland

Aos fins-de-semana, o meu bairro tem tempo para ser feliz e eu com ele. Bairro, fosse eu rigorosa, é designação errada; antes uma cidade dentro da cidade grande que, à conta do amor que lhe tenho, gosto de chamar “A Grande Alface”.

De volta ao “meu bairro”. Vi-o nascer em descampados de má nomeada. O betão disseminou-se, parques e jardins entremearam-no, as avenidas e ruas rasgaram os campos de outrora. O comércio chegou cauteloso. Dois anos volvidos, reúne ciganos, brancos, negros, “tios” e tias”, putas reformadas e outras no activo. Gente boa e cordial que ainda diz bom dia a desconhecidos que tem por moradores. Nos acessos, circulam topos de gama lustrosos e carros estafados pelo uso berrando música aos muitos ventos da zona. Uma salgalhada a quinze minutos do Marquês e a cinco do Campo Grande. Porém, mistura de aldeia com bas-fond e luxo. Bem ao meu gosto.

Nos dias de lazer, as pessoas enchem as ruas. Eu entre elas. De ténis e confortável, alinho no hábito comum das caminhadas de alguns quilómetros, ventre contraído, rabo para dentro e coluna erecta. De bicicleta, pais e filhos pedalam entre conversas e risos. Mais abaixo, no parque maior, deslizam patins e skates. Miúdos e graúdos em cima deles. Bebés gozam as sombras relvadas e divertimentos infantis esteticamente agradáveis. Nas esplanadas, nos bancos à beira de riachos, casais lêem semanários, namorados de todas as idades passeiam dando as mãos.

Porque o “meu bairro” tem vida e alma, orgulho-me de o ter escolhido e me proteger. Quero-o como é e sou: incoerente, livre e cosmopolita.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá


PORQUE DE MIMOS NÃO PRESCINDO

Agradeço ao Justo a divulgação do meu texto de sexta-feira última

Publicado por Teresa C. às 06:49 PM | Comentários (3)

outubro 24, 2008

DESEJO OU PRINCÍPIOS?

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Vasco Ribeiro

“Teresa,

(...) Estou separada, sempre fui fiel ao meu marido durante tantos anos, apesar de ele me ter sido continuamente infiel, o que me fazia sofrer muito - conheci um homem lindo há pouco tempo, daquele tipo de paixão que é difícil evitarmos...mas a pessoa tem namorada e os meus princípios não me permitem continuar nesta semi-relação que magoa outrem...o que faço - opto pelo desejo ou pelos princípios?”

Correndo o risco de transformar o SPNI num correio sentimental, a questão colocada tem que se lhe diga, seja homem ou mulher quem a submeteu à consideração. A “Dobra”, ali mais em baixo, associou pragmatismo e sensatez. Gostei de ler.

As coordenadas éticas da matriz individual são decisivas – agir à revelia da consciência comumente acarreta culpas, fantasmas e mau dormir. Ingredientes primeiros na lista do descontentamento. Para quem aprecia a paz, como eu, conforta respeitar a lista de prioridades que defino e reavalio para voltar a definir e pôr em questão – noutro lugar, escrevi que cristalizar compreendo nos minerais.

Pela ausência de aviamento de receita carimbada e duplicada, não ficou a pergunta sem resposta. Entenda-a à moda dos psis – conjugue o «eu» e ouça o que tem para dizer. Se lhe gritar, acalme-o, e, depois, converse com ele.


CAFÉ DA MANHÃ

Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 10:26 PM | Comentários (4)

QUANDO O DESEJO ESCORRE

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Autor que não foi possível identificar

Do desejo é dito correr para o mar como água de rio. Liberdade fingida pelas margens que o contêm. Necessariamente. Inevitavelmente. A vontade submissa ao imperativo obscuro da química(?), do sangue. Como se cada um agisse sob ditado inconsciente do qual pouco sabe, mas sente a fervura nas veias. E, na dança lenta dos gestos, no escorrer do desejo fluidificado por um no outro, nos dois pelos dois, nos lábios e olhos acorrentados, o tempo esvai-se. Enquanto as bocas peregrinam, meticulosamente, no corpo que, não sendo nosso, é.

CAFÉ DA MANHÃ
Eles e Elas renovaram o visual. Estão lindos de morrer! Hoje, reflectiram sobre Sarah Palin e Joe, o canalizador.

“Palin, a sopeira” - Pergunta: se é mesmo verdade que a senhora Sarah Palin gastou aquela enormidade de dólares (podia ter sido simplesmente dinheiro, mas não, foram dólares) em roupas e cabeleireiros, porque é que continua a ter aquele ar de sopeira? (...)”

“Joe, o canalizador” - Ao contrário do que foi noticiado por alguma comunicação social portuguesa, Joe, o canalizador, cujo nome completo é Samuel Joe Wurzelbacher não ganha 250.000 dólares por ano e, curiosamente, nem sequer é canalizador. (…)

Publicado por Teresa C. às 10:49 AM | Comentários (5)

outubro 22, 2008

MAUS SEGREDOS, BOAS MENTIRAS?

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Michel Gourdon

Porque a nova lei do divórcio foi promulgada, reflecti sobre as apreensões merecidas ao Presidente. Movido pela discordância pessoal, alertou para a injustiça que pode atingir as mulheres desfavorecidas e as crianças nascidas do casamento. Em geral, anotações conservadoras – remanesce o modelo da preservação da família tradicional e a concepção do divórcio como mecanismo legal que a destabiliza. Como se gravosas fracturas familiares não acontecessem nos casais oficialmente unidos por razões patromoniais, comodismo ou outras… Rupturas que penalizam os próprios e, mais do que eles, os filhos. Que a lei ignora ao abrigo da convenção de “entre marido e mulher não interferir a colher”. O apreço que me merece a nova lei advém do facto de terminar, sem delongas excessivas (de três anos de separação de facto, prevê, agora, um), convivências trágicas. De considerar o trabalho doméstico como forma outra de angariar bens para a família.

Valorizar a família, é preciso. Encerrar num féretro culpas duma conjugalidade falhada, também. Existem lugares-comuns sensatos: “quando um casamento acaba, a culpa é repartida pelos dois que o viveram”. Ressalvo a violência e a transgressão sistemática dos «deveres conjugais», evolutivos, como é sabido com o tempo social.

Sendo que um amor acabado e outro nascido é razão frequente para enterrar um casamento, lembro o que li escrito pelo pensar nas teclas do sempre querido Eduardo Pitta.

«O fora-da-lei, a mulher fatal, o herético, o agente duplo, o trocadilho — é a infidelidade que os atrai a todos. Tem o fascínio do mau segredo e da boa mentira. Viaja porque tem de viajar, porque acredita no algures.
O que teríamos então de fazer para tornar a monogamia mais fascinante? Ou antes, o que teríamos de deixar de fazer?»

Numa época em que tanto se discute a desvalorização do casamento e o facilitismo do divórcio, vem mesmo a calhar ter Adam Phillips (n. 1954) em português. Ensaísta e psicoterapeuta infantil, com uma dúzia de títulos publicados desde 1993, Adam Phillips escreveu Monogamy (1996) tendo como ponto de partida «as questões e os paradoxos por trás da nossa pulsão de acasalamento», bem como «a centralidade da monogamia para as nossas noções de casamento, família e sujeito

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 11:52 AM | Comentários (2)

AS NOITES DOS MEUS DIAS

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Anthony Christian

Das partidas, inebriam-me os regressos. Porque dos instantes vividos o último é o melhor, ou não me tivesse prolongado a vida até ele acontecer, esqueço os primeiros que inauguraram a viagem, o fim de semana ou a manhã.

Não aceitando que do caos tenha surgido a organização do Universo, renovo a cada noite o sentimento de assombro pela certeza do tempo que a Terra demora no rodar sábio à volta dela e da estrela maior. Experimento a doçura de ter calhado esta forma de vida ao meu planeta. De não terem calhado em Saturno as noites dos meus dias. Vinte e nove anos terrestres para descrever uma órbita seria tempo demais para quem aprecia recomeços. E a lonjura? E o frio pela gigante distância ao Sol? Por isso me quero na Terra que amo e concede ciclos adequados à parte do meu ser que não se vê.

Quando a inclinação do eixo encurta os dias e faz maiores as noites, é tempo da rodilha em que o meu corpo se torna aconchegado no sofá. Do livro no colo, da música sussurrada, do rosto lavado, das calças de algodão que o laço do atilho prende à cintura. De me erguer e, encostada à vidraça, desenhar caminhos das pérolas líquidas que as nuvens deixaram cair. São as noites aveludadas pela sabrinas brandas que confortam os pés, enquanto é pressentida a chuva e o frescor na rua. E a languidez distende a pele e os músculos. O espírito regressa ao tempo dos sonhos acordados que o serenam e transmitem paz. Manso, chega o sono. Mansa, arrumo a noite sabendo que o giro da Terra a prolongará.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos


Crazy - Patsy Cline

Publicado por Teresa C. às 10:22 AM | Comentários (2)

outubro 20, 2008

“ESPOSAS" PARA QUE VOS QUERO!

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Van Oostzanen

Monsieur Sarkozy é um perigo se lhe for dado mote para resposta pronta. Que a tem, não seja julgado que se lhe enrola a língua como soe acontecer quando o álcool fala por ele. Na inauguração do Salão Internacional do Automóvel em Paris, estava combinada a apresentação do “automóvel verde”. Não chegasse Le Président sem plateia à altura, o Eliseu convidou, por inteiro, o vizinho 15º Bairro. Reformados, curiosos e mulheres, possivelmente à cata da lindíssima Bruni e prontas ao deslumbre perante respeitadas griffes, berram histerismos. Eis senão quando, desafinada, voz masculina grita: “clima em perigo, Sarkozy cúmplice!” O ex-marido da Cecilia, ex-amante de madame Anne Fulda que acumulava com a primeira*, não gostou - é compreensível porque o homem estava ali para estrelar o salão. Sem delongas, responde: “carro verde para aqui, CO2 para ali, que diabo quer o «marado» além ao fundo?”

Não deve ser acaso a Cecilia ter confidenciado os podres da conjugalidade a Catherine Nay, que, por sua vez, escreveu a biografia de Nicolas Sarkozy. Entre despautérios vários, há registo no livro e na polícia de queixa formal da fugaz ex-primeira-dama contra a brutalidade do marido. Até à data, não existem consequências conhecidas. Mais lenta que a nossa G.N.R e P.S.P parecem ser a germanderie e a policie. Depois, riem-se dos belgas!...

Sabendo que Carla Bruni se prepara para contar em livro a sua vida ao lado de Nicolas, retive a razão do enamoramento da italiana com pedigree impressivo: a incrível inteligência do marido. Aqui chegada, resmoneio que “Sarko” mais parece um asno, também por reeincidir em “esposas” dadas a fazer soar o trombone.

*”Amor, Ruptura e Traição” é a nova biografia do Presidente francês que lhe retrata a vida amorosa. O autor é Hubert Coudurier que o descreve como bruto e agressivo.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros
Manuel S. Fonseca

Publicado por Teresa C. às 08:45 PM | Comentários (0)

BARACK E O BOTÃO DAS CALÇAS SKINNY

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Obama Expectant e Jennifer Janesko

Sou mulher de muitas perguntas e poucas certezas. Em solilóquio com o meu único botão - o das calças skinny que colam tecido e pele na perfeição – tinha decidido que, fosse norte-americana, o meu candidato às presidenciais seria Obama. A decisão foi tomada por conjuntos de razões valorosas entre as quais, e nada despicienda, a de ser a good looking guy.

O homem, mesmo enfarpelado a preceito e espartilhado num ecrã em debate aguerrido com o opositor, transparece conforto e agilidade. Ora, só aguenta tantos meses de guerrilha com aquele sorriso e fair-play uma pessoa rija como pêra rocha e espírito disponível. É certo que a ambição faz o mesmo, sendo detalhe ocioso pela condição comum a todos os candidatos a qualquer acréscimo de poder. Pois se até o poder dos pequeninos, onde incluo o dos mangas-de-alpaca, lhes abaixa a grimpa perante o superior e levanta o queixo e endurece a voz que dirigem aos que julgam dominar…

Arrecadando imagens de gente conhecida bem retratada, encontrei o site do Mr. Obama. Anda por lá uma fã que o pinta de mil cores e não é desprovida de talento. Do homem surgem momentos vários: a rezar, expectante, triste, eufórico, et cetera. Presumo a pintora obcecada com o modelo. O resto do site é a arenga useira na situação.

Mas do que mais gostei foi ter sabido que o Correio de Washington (Washington Post) e o republicaníssimo Colin Powell apoiam o meu estimado senador democrata Barack. Com os dois pontos de avanço que as sondagens lhe atribuem, não me devo enganar quando acredito que a 4 de Novembro o “black power” detém o poder dos E.U.A.

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 12:05 AM | Comentários (2)

outubro 19, 2008

"A RAZÃO DE SER DO SPNI"

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Silva Palmeira

“Cara Teresa C., permita-me uma intromissão. Talvez esta ocasião pudesse ser o pretexto para nos revelar a razão de ser do SPNI no que à autora diz respeito. Intriga-me a sua dinâmica na net bem como a sua inesgotável veia de conversadora.”
VdeB, comentador no texto de ontem.

Não gosto de me idear intrigante. Menos ainda misteriosa. Pela simplicidade do meu ser, penso-me mulher banal que teve sorte da vida a cumular de mimos. Que tem olhar afável para os outros e neles procura ouvir e ver o melhor. Porque a mulher tem energia, quantas vezes a sobreavalia!, optimiza o tempo que os deuses lhe concedem na Terra.

Para ela descansar é mudar de tarefa. Desde pequena assim é – estando fatigada de estudar história, lia, desenhava, resolvia problemas de álgebra, ou jogava xadrez, ou às damas, desafiando o pai. A mãe dizia-lhe e diz: “a tua lufa-lufa cansa-me.” E sorria como hoje ainda lhe sorri. A irmã da mãe, senhora sua tia e dada à reflexão, ao vê-la mulher que nada atemoriza e tudo se julga capaz de resolver, sorri também. E ambas lembram os saltos escada acima, escada abaixo, nas férias de verão na casa beirã. Do entra-e-sai do automóvel rumo à mangueira nova que falta para colmatar falhas da rega automática nos cantos mais escusos do jardim. Do rol das compras para, no dia seguinte, a Sr.ª D. Ventura ter o necessário para cozinhar.

A mulher que assina Teresa C. recebeu o SPNI da querida amiga Maria Dulce – Lulu nos primórdios deste blogue. Sozinha, e por não recusar desafios sensatos, decidiu alimentá-lo. Depois, a mulher tem defeitos: o da teimosia e o de tudo fazer com paixão. E continua apaixonada pelos trabalhos que a ocupam. Pelas pessoas também. Dizem-na crédula. Não o é, salvo se for ingenuidade acreditar que os humanos são capazes de muito e melhor. Ela, em primeiro lugar.

O SPNI é a reflexão nocturna do dia que acabou. Uma vez por outra, daquele que daí a umas horas dealbará. E à mulher sabe bem o silêncio e o tempo de ter tempo para estar com o «eu». Por isto, tecla algumas sínteses do lembrado. Por isso, ouve o silêncio da casa e da cidade e das gentes. Por tudo é quem é.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá
Desde Ontem

"Mau uso de ferramentas" - Gostava muito que se fizesse uma avaliação séria e rigorosa ao desempenho dos nossos governantes.(...)A possibilidade de uma terapia aplicada a cada pessoa que tem nas mãos o poder, seria uma das soluções. (...)"

“Petição Patriótica” – “Vamos lá tentar estabelecer sinergias entre os variados ramos da rede PNET. Visto e ouvido o que tenho visto e ouvido, julgo que estão reunidas as condições para uma reabilitação da Dona Branca. Proponho que se lance uma petição patriótica.” (...)”

Publicado por Teresa C. às 01:37 AM | Comentários (3)

outubro 17, 2008

DARDOS E HALF DAY SPA

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Marcel Franquelin

É sábado, o ginásio espera-me, depois o half-day Spa da Lucia Piloto, um presente que me desvaneceu – o Olimpo sabe como ando precisada de entregar a pele e o que reveste a mimos profissionais. Para o serão, convite para o teatro. Pelo amor que à nobre arte reservo, lá estarei com o maior gosto. Já ontem tive um regalo vindo da querida autora do Repensando:
o Prémio Dardos. Lendo as informações abaixo, não fosse o exercício auto-crítico e quase acreditava que as minhas arengas trouxessem à Web valor-acrescentado.

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Informações sobre o Prémio Dardos

“Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc। que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Os selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:
1 - Exibir a distinta imagem; 2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio; 3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.”

Que o palco se ilumine, os panejamentos rubros sejam cenário e o clarinete soprado. Os escolhidos são…

Alba
Dobra
Leonor
Madalena
M. Botelho
Rita
Vieira do Mar
Xantipa
Eduardo Pitta
James Stuart
Justo
Luís Carmelo
Mauro Castro
Nuno Miranda Ribeiro
Rui Pelejão


CAFÉ DA MANHÃ

Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 11:07 PM | Comentários (6)

OS MENINOS DO HAMAS

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O Hamas anda preocupado com as crianças palestinas. Cento e cinquenta foram feridas por balas de armas de brincar chinesas quando celebravam o fim do Ramadão. Culminando a tragédia, outro dado incendiou os dirigentes do partido sunita: os brinquedos chegavam por subterrâneos com um extremo no lado egípcio da faixa de Gaza. De imediato, o Hamas apelou aos pais para não comprarem aqueles brinquedos.

O Movimento de Resistência Islâmica, que assim tanto acautela as suas crianças, leva mais longe os cuidados entretendo-as com um programa de televisão, «Os Pioneiros de Amanhã». Apresentado por Farfur, um sucedâneo humano do rato Mickey, pretende ser pedagógico - aconselha a beber leite e a rezar na mesquita cinco vezes por dia até que «haja uma liderança mundial de origem islâmica». Porque as crianças devem estar informadas, mantém-nas a par da luta contra Israel e os Estados Unidos. Aceita de bom grado que um menino, ao telefone, declame: «é a hora da morte, vamos para a guerra».

As crianças-bomba e escudo-humano mais têm ao dispor como entretenimento: jogos em que o propósito é matar Bush, trespassando-o com a espada islâmica. Como pedagogia da violência não conheço melhor.

Hamas Mickey Mouse
CAFÉ DA MANHÃ
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 12:13 AM | Comentários (2)

outubro 15, 2008

ONDE SÃO FALADAS RENAS, RAPOSAS E ÍSLAND

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Will Kramer

A Islândia abriu falência. Fosse nome de empresa, e seria mais uma, pela má gestão ou conjuntura, a ir pelo cano das PME que não aguentam o balanço. Mas não. É um país. Uma ilha de bem-estar nórdico e capitalista considerado, até há bem pouco, um dos melhores lugares do mundo para viver. Desde ontem, a posição no ranking anterior desceu ao ritmo da queda na bolsa islandesa: 76%.

Tenho pena. Sem nunca lá ter posto botas condizentes com a humidade e a temperatura e os horizontes de campos desolados que somente a erva cobre, ideio romanticamente a Islândia. A fauna autóctone domesticada - a ovelha islandesa, o gado islandês, e o cavalo islandês – tem originalidade. A selvagem é especial - a raposa ártica, mustelas, e renas. As mustelas, em particular, encantam-me por não serem doninhas comuns e a pelagem incluir arminhos e visons. E os géiseres escapulindo água fervente e vapor das entranhas vulcânicas?

Pois a Ísland, tal como a imaginava enquanto paraíso de civilidade e habitantes prósperos e felizes, desapareceu. Fantasio-a, por ora, acabrunhada devido às penosas contas do muito dever e do diminuído haver. Voltasse à Terra o primeiro escandinavo, Ingólfur Arnarsona, que em 874 d.C. construiu moradia em Reiquiavique, e teria um baque ao ver regressada à sua ilha a instabilidade medieva.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 12:08 PM | Comentários (0)

O ELOGIO DOS VÍCIOS

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Walter Girotto

Dos vícios é julgado o pior. Normalmente associados a hábitos nefastos. O da bebida, da putice, do tabaco, são alguns. O de tudo guardar até empanturrar o espaço, outro. Este, por me ter feito penar dois Verões, esconjuro – perdi conta às cargas e descargas de inutilidades e ao pó e ao lixo e às farruscas que me cobriram da cabeça aos pés. Não é elegante afirmá-lo, mas tenho memória vívida da cor da água do duche que antecedia o posterior banho de imersão. Só com pré-lavagem e demolhada a pele readquiria o tom usual.

Pela definição do termo, engana-se quem considera qualquer vício como um defeito. E não adianta distingui-lo de um hábito- existem hábitos mais viciosos que vícios. Dos que possuo, prezo alguns. Bem posso ser alvo da pregação de várias e bem-intencionadas almas, que deles não abdico. Por ser recorrente propósito dos sermões amigáveis que recebo, espírito mais lúcido e, portanto, menos teimoso do que o meu devia ter cedido um quinhão. Mas não! Preservo-os. Pior: acarinho-os e continuam meus.

A arenga vem ao caso por dois vícios antigos: nas pessoas ver o melhor e não deitar fora revista sem um segundo desfolhar. Pelo primeiro chamam-me crédula (ingénua, simplória?), pelo segundo nada me dizem por jamais o ter revelado. Em pleno uso deste, duma Sábado obtive duas gargalhadas. Uma tal Eva Mendes, capitosa criatura que não faço a mínima ideia de quem seja, afirmou: “já fiz sexo em todos os 50 estados norte-americanos.” Pela idade da dita Eva, deduzi ainda estar na fase da contabilidade. No canto inferior esquerdo da mesma página, amotinava-se Helena Roseta: “Dizer que António Costa me meteu no bolso dá-me vontade de rir.” Pensando num e noutro, monologuei: “a mim também.”

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 12:35 AM | Comentários (0)

outubro 13, 2008

LUXO NAS CÂMARAS DOS HORRORES

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Drudwyn

Transformar câmaras de horrores em luxo de residência ou pernoita é fashion. O Forte de Peniche passa a futura pousada da Enatur, a sede da PIDE a condomínio de luxo. Bem recalcitra o “Movimento Não Apaguem a Memória”. De pouco adianta por ser curta a lembrança e comprido o braço dos interesses económicos. Além do mais, quando património, que tão diligentemente serviu o Estado Novo, está situado em lugares bonitos e, por isso, valorizados do ponto de vista imobiliário, a cobiça cresce. O mesmo no arrumador de rua quando lobriga automóvel – para lá da lata motorizada, adivinha moeda e potencial cigarro. Bem vistas as coisas, a máxima dos advogados merece credibilidade: nos divórcios e nos negócios, bairro da lata e da Lapa são idênticos.

Depois, já ninguém acredita em fantasmas. Estão por todo o lado. Banalizaram-se. Abandonaram o lençol branco e têm a cabeça onde é suposto. Vestem Armani ou feira de Cascais, o que vai dar ao mesmo. Cansaram-se da exclusividade nocturna onde eram e percorrem, agora, o dia. Mais: fazer a sesta onde tantos doloridos gemeram quem garante não constituir valor acrescentado?

Ainda assim, entre aproveitamento luxuoso e transformar história num London Dungeon pejado de gentes chinas a dez libras por cabeça, que venham as belas vistas, o fausto e os dias regalados.

AGRADECIMENTO
Ao Dr. Lobato de Faria pela divulgação do lançamento da Rede PNET
CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros
Manuel S. Fonseca
Desde Ontem

“O crash do meu táxi!” - A bolsa está à beira do abismo, vai quebrar. Todos estão se movimentando em socorro ao sistema financeiro. (...)”

Publicado por Teresa C. às 08:24 PM | Comentários (2)

outubro 12, 2008

O MARAVILHOSO MUNDO DAS “WIKIS”

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Ernâni Oliveira

Li por aí que os utilizadores da internet preferem as “wikis” para efeitos de pesquisa. Em contrapartida, os jornalistas recorrem aos blogues e citam-nos abundantemente. Parece que o fenónemo “Wikipedia" é responsável na alteração de comportamento de quem na Internet e procura respostas credíveis ao desejo de informação. Ao facto não deve ser alheio tratar-se de uma enciclopédia global on-line cuja edição é feita por todos e para todos, fácil de usar, e com livre acesso.

Eu, que não dispenso a “Wikipédia”, prevejo imparável a respectiva utilização e profundas mudanças sociais na recolha de informação - em breve, será ferramenta noutros contextos de trabalho. Dizem prestes a chegar a Web Semântica e a Web Social. Venham elas, que as aguardam milhões como eu perfilados num exército entusiasta. A prova é a palavra "wiki" ser mais procurada na Internet do que a palavra "blog", desde há aproximadamente um ano.

Alguns senhores jornalistas, que cobras e lagartos há uns cinco anos escreveram sobre a invasão blogosférica, a julgar pelas estatísticas, acabaram fiéis consumidores do que então censuravam. Naquele tempo épico das chaminés virtuais, personalidade reconhecida que editasse um blogue era, diziam, excêntrico ou cobiçava acréscimo de protagonismo. Ideias bacocas e balofas que agora são desmentidas por muitos jornalistas manterem chaminés daquelas.

Porém, e a favor de maior rigor nalguma informação jornalística, visitar uma “wiki” e ali obter conhecimentos precisos, seria muito útil aos senhores jornalistas. É que muitos dos disparates lidos na imprensa e ouvidos na televisão - restrinjo-me às áreas das ciências que melhor domino – seriam evitados se a consulta de uma enciclopédia on-line, permanente actualizada, fosse hábito.

Sendo vivo, Fernando Pessoa manteria um blog? Quem diz um, diz dois; três, porque não?

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 10:01 PM | Comentários (3)

SUSHI PARA O JANTAR

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Ted Hammond

Entre sopa, tempuras, barco de sabores crus, chá verde e um branco para acompanhar, deslizou a noite. Na sala privada do Aya, oito amigos reuniram-se para celebração do que não cabe aqui desvendar. Lugar sereno a idear o oriente. Mancha única: sítio abrigado na parte rasteira das Twin Towers - o mesmo é dizer inserido no centro comercial. Que fecha cedo, benza-o Deus, comparada a hora com o tempo demorado na degustação de sabores e afectos; a Aida, doce como desde sempre a conheço, a São, também divina pelos magníficos olhos azuis, o Carlos e o Carlos, a Fernanda e a Paula, mais quem não vem ao caso e foi presença maior. Conversa fluida e alegre, presentes lindos. Feliz a outra que a Teresa C. esconde.

Depois, num espaço branco da Quinta das Rosas, viriam ao pano da mesa o champanhe e os morangos. As (in)confidências e o riso a cada flute mais solto. O altaneiro terraço testemunhou fumos e falas cúmplices. A lua quase-cheia abençoando rituais antigos e novos. Na memória, o sushi outro de Vila Sol. O serão perfumado pela terra húmida forrada a relva. Iluminado pelo azul líquido em forma de rim.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às 12:11 PM | Comentários (0)

outubro 11, 2008

CASAMENTO-CONTRATO E OUTONO

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Silva Palmeira

Porque a tradição ainda é o que era, cumpre o que dela é esperado: transmite práticas, conhecimentos e hábitos. As necessidades de segurança, aconchego, de rodar 180º os comportamentos que o sol e bonomia primaveril e estival prolongaram até final de Setembro, regressam em alta no mês de Outubro. Ora, Outubro é Outono. Cai o bronzeado e o cabelo. Caem folhas das árvores. Declina mais cedo o dia. Desvanecem-se pretextos para, fora de casa, noite após noite, encurtar horas de sono.

O Governo, as instituições, as empresas e os cidadãos acordam da letargia onde mergulharam durante os meses de Verão. Firmam contratos. Se o estio foi altura para casar, o Outono sugere o casamento também como meio de preencher o breu das noites longas. Remediar inseguranças. Afugentar solidões. Prometer horizontes de amores eternos. “Casar” ainda é palavra mágica para muitos homens e mulheres. Forma outra de satisfazer a tradição e, por via dela, elevar os candidatos ao respeito social. “Estar junto”, pelos próprios e pelo costume, é considerada forma menor da coabitação amante.

Que peso é este arrastado pelo casamento? Arredando considerações éticas e/ou religiosas, casar é estabelecer contrato de usufruto e transmissão de propriedade. As entidades administrativas consagraram o casamento como meio de regulação social e de registo da pertença, ao longo do tempo, dos bens materiais. Nesta perspectiva, o casamento entre pessoas do mesmo sexo surge natural e isento de razões para discussão.

É nocivo atafulhar o pensamento dos cidadãos com miscelânea de “alhos e bugalhos” - seja lido misturar subjectividade dos valores e das crenças com o pragmatismo indispensável à vida e aos direitos dos humanos.

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 12:19 PM | Comentários (3)

outubro 10, 2008

ENGOLIR A VERDADE

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Gustavo Fernandes

A imagem do excelente Pintor Gustavo Fernandes, retrata o meu dia.

Completa a descrição a síntese do João Nazaré:

“A honestidade é rara porque, na verdade, ninguém gosta muito dela. Ser honesto provoca a desconfiança e a intolerância. Além do mais, dificulta as situações de ruptura: é muito mais fácil insultar um mentiroso do que engolir a verdade.”

CAFÉ DA MANHÃ
Hoje:
Carlos Amaral Dias
Desde ontem:

“FUI BURRO MAS QUERO SANGUE NA MESMA!” - Como isto é uma crónica de escárnio e maldizer sobre a minha própria pessoa vou-me deixar de polissons ecuménicas e entro já de chancas. (...)”

Publicado por Teresa C. às 03:24 PM | Comentários (0)

outubro 08, 2008

ECOMONIA DE CASINO E BLUSAS DE LAÇADA

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Judy Somerville

Quando uma mãe telefona à filha e se afirma disposta a levantar os tostões que tem no banco movida pelo receio de não os reaver, é sinal de intranquilidade. Atemorizar os idosos é fácil: é suficiente o bate-boca ouvido entre a meia-de-leite e pastel de nata no café feito ponto de encontro de bengalas, muita surdez, cabelos cinza, brancos, tailleurs de meia-estação e blusas de seda com laçada. Cortejo de fiéis da Betty Barclay e da Burberrys que não falham, por volta das onze, uma manhã. O Sr. Eduardo, funcionário trintão, paciente e afável, a todos endereça sorriso ao entrarem e, com o olhar, pergunta: “o mesmo?”. Um leve aceno é resposta.

Ao mesmo tempo, a filha ouve que a economia de casino empandeirou de vez. Que as poupanças nacionais estão a salvo. Que a economia de mercado foi uma bênção por ter ajudado a consolidar democracias políticas (existem outras?) e o desenvolvimento. Que, ainda assim, precisam estar sob a mira de entidades reguladoras e competentes (não têm regulado e/ou não foram competentes?). Que o sector financeiro paga impostos menores do que o sector produtivo. Basicamente, a força de trabalho e a produção que paguem os caros préstimos dos bancos e das seguradoras.

A filha tenta suavizar medos. Aligeira a realidade e, por amor, brinca com os factos. Empresta arco-íris ao vermelho das bolsas e das finanças. A mãe acaba rindo e serena. Desliga. O riso de ambas perdurará no dia, sem que andanças económicas causem dano.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão
Hoje
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Apresentação da Rede PNET online, seguida de Conferência/Debate
Livraria Byblos Amoreiras, Lisboa
Dia 9 de Outubro 2008, 5ª feira, 18,30h
(Aberto ao Público)
"As formas outras da Língua Portuguesa"
As Crónicas, as Artes Plásticas e a Internet
Convidados
Álvaro Lobato Faria
(Director do MAC - Movimento de Arte Contemporânea)
Manuela Pinheiro
Pintora
Manuel S. Fonseca
(Administrador da Editora Guerra & Paz, Administrador Delegado da Valentim de Carvalho Filmes e Cronista do site PNET Homem)
Maria do Céu Brojo
(Coordenadora dos sites PNET Artes, PNET Homem e PNET Mulher)
Vítor Coelho da Silva
Administrador da rede PNET online
Diálogos na Byblos
www.redepnet.pt www.byblos.pt

Publicado por Teresa C. às 09:53 PM | Comentários (4)

A FÉ É UMA VARIANTE DO BEN-U-RON

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Jim Warren

Sentimentos e emoções têm constituído um dos objectos predilectos da investigação científica. Cientistas esmiúçam o córtex cerebral. Já nem começam por ratos, as cobaias do costume. Agora, vão direitos ao que interessa: os humanos. Destes, as ondas cerebrais são analisadas através de tecnologia de ponta e com pontas de eléctrodos que tudo captam.

Uma equipa multidisciplinar, em que pontificam neurologistas, concluiu que os crentes suportam melhor a dor do que os ateus. Baseada na minha ignorância, presumo alívio e analgésico o ensinamento cristão de devolver a outra face quando uma recebe sopapo e aquele outro de existir um além onde aos bem-aventurados espera uma eternidade “supimpa”. À fé fica associada qualidade analgésica. Bem bom!

Mais parece provado: os optimistas são mais saudáveis, adoecem menos, possuem taxas de cura das maleitas e esperança de vida superiores às dos pessimistas. A última descoberta revela que a ideia de felicidade a que aspiramos tem receita simples: vencer os medos.

Atenta a estas coisas das ciências, fiquei animada – sou crente, optimista e medos não me afligem. A minha prática de recusar encher um saco com ressentimentos, temores e invenção de amanhãs, pareceu-me estar conforme a receita. Pelo final do dia, há notícias que confortam uma mulher estafada.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos

Está, desde ontem, online mais um site da Rede PNET: PNET Júris. À coordenadora, Marta Botelho, desejo muito sucesso.

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Publicado por Teresa C. às 10:52 AM | Comentários (2)

outubro 06, 2008

OS HOMENS SÃO UM TÉDIO?

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Sorayama

Um homem só entedia quando não adivinha uma mulher. Falta ao masculino a dose de intuição equivalente àquela que faz parte do património genético das utentes de vulva e com sentido extra acrescentado aos cinco tradicionais.

Depois, há a velha estória dos homens permanecerem adoráveis crianças até a morte os levar. Para eles, salvo o dinheiro e a carreira, tudo é brinquedo – a líbido, as parceiras, o futebol mais as «bjecas» e os petiscos, os catraios que engendraram e lhes servem de pretexto para voltar ao tempo dos comboios e do «pouca-terra, muita-gente».

Sendo bem alimentado e garantido o asseio, desde que a respectiva não indague onde esteve até tarde, evite amuos, remedeie avarias domésticas sem o importunar, lembre, a tempo, aniversários significativos, o homem reúne condições para satisfatório compagnon de route.

Não é por acaso que Laura Schlessinger resolveu, numa assentada, as dificuldades de relação entre homens e mulheres. A benemérita iniciativa veio sob a forma de livro da Amazon – “The Proper Care and Feeding of Husbands.” Nova Iorque ficou em estado de choque, e chocar nativos da Big Apple não é para qualquer um. "Sexo quando e como ele quiser", "Os homens são amibas que só precisam de comida e luz para viver" – exemplos dos tesouros que a obra guarda.

"Para manter a sua amiba contente não chateie. Nada de calças de fato de treino. Não o incomode com os seus problemas. Deixe-o passar o tempo que lhe aprouver com o Gameboy e os amigos. Trate-o como ao seu animal de estimação. Se ele tiver sexo, exercício físico e comida vai portar-se bem! Se ele não quiser sexo, aceitará uma sanduíche."

Fácil não é? Redutor e idiota também.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros
Manuel S. Fonseca

Publicado por Teresa C. às 05:48 PM | Comentários (5)

outubro 05, 2008

QUERIDA ALQUIMISTA

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Vladimir Kush

Em dia de folga, uma mulher habituada ao gosto de aprimorar o espaço que a rodeia, olha para a estante duma divisão com uso menor e decide presenteá-la com arrumo condigno. Especada, avalia a intervenção necessária. Olha as lombadas uma a uma. Se a algumas atribui menoridade, retira os livros e deixa-os de lado para posterior encaminho. Continua a tarefa. Porque as prateleiras não têm importância idêntica, passa das mais importantes – aquelas que os olhos alcançam numa primeira mirada – às de baixo. Da esquerda para a direita, varre os títulos. Já o extremo oposto se avizinhava, quando tem sobressalto – não se lembrava de ter lido, ainda menos comprado, “O Sorriso das Estrelas”. Logo a seguir, vê o “Diário da Nossa Paixão”. Contabiliza dois Nicholas Sparks. Avança. Três Susana Tamaro: “Vai onde te leva o coração”, “Querida Mathilda” e “Alma do Mundo”. Pensa: dos males os menores. Continua e o baque não tarda. Razão: um trio assinado pelo Paulo Coelho. Vagamente, lembrava-se do “Alquimista” e do “Brida”, uma história deprimente. O pior veio no fim. Lá estava, berrando, o amarelo. Certificou-se. Desanimada, constatou ter comprado em idos de que não retinha lembrança o “Não há coincidências”. E não havia.

O triângulo literário(?) obrigou-a a procurar assento. Se da MRP, da Tamaro e do “Alquimista” registava a origem – ela, a própria, a mesma que agora pasmava -, dos outros nada sabia. Apurou a memória. Fora coisa da Angelina, estava certa. No Natal, tinha o bom gosto de trocar a clássica oferta de Senhoras de Fátima e bibelôs extraordinários, nisso se distinguia da que a precedera, por livros. Lembrou-se dos croquetes, das sopas, dos rissóis deliciosos que confeccionava. De com ela ter aprendido a grelhar alheiras sem lhes estragar a forma original. Do feitio arrebitado com o qual aprendera a lidar, brincando. Teve saudades de tudo.

Limpou os livros. Voltaram ao lugar de sempre. Com eles arrumou um tempo que julgava esquecido.

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 08:57 PM | Comentários (0)

DE MAU QUE SOU DISSOLVO A RÉPUBLICA!

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Barclay_Shaw

(…) resolvi dissolver a República Portuguesa – ou pelo menos a versão platónica que tenho dela.

As razões são poucas e simples: primeiro porque vem a propósito, já que amanhã vai haver uma data de malta deslocada no tempo a gritar vivas à república por entre os doutos murmúrios dos que ainda tentam a patética colagem deste tipo de regime à liberdade (que afinal de contas só conhecemos como conceito abstracto); por fim, estou farto da república e quero mudar.

Como corolário do meu oportunismo na primeira razão que evoco para tão inconsequente acto político (o meu, a minha dissolução da RP) lembro apenas algumas particularidades republicanas – nacionais e não só.

Logo nos seus primeiros dezoito anos de vida a RP demonstrou a sua incapacidade operacional; na sua segunda versão (e à semelhança da Alemanha de von Papen) deu-nos Salazar; finalmente, depois do 25 de Abril – que justamente se assemelhava a um reset regimental –, Portugal sonhou que enriquecia nas suas cabriolas de gigolo aunt (da tia Europa, claro!), e o centrão que o foi dominando rapidamente se baronizou, e se condecorou, e se elevou… E naturalmente roubou!

De todos os presidentes que o país teve só me lembro efectivamente de dois: Américo Tomás e a sua monice pasmática de fantoche, e Ramalho Eanes – que (tanto quanto julgo saber) foi o único homem da política portuguesa que recusou uma bem choruda maquia. O general Eanes tinha direito a ela do ponto de vista administrativo, mas do ponto de vista moral entendeu que isso não era bem assim e recusou-a.
(…)
E assim, depois de tirocínio mais ou menos longo na AR, o centrão nobilita-se nos Tomates, reforma-se na primeira hipótese, avança para a privada (onde tem contas a acertar), espolinha-se em benesses auto-infligidas, em sacrifícios de contas sigilosas, no penar diário de aturar jornalistas metediços e/ou vinganças ao retardador…
(…)
Ninguém se iluda: a república criou mais snobs* em cem anos do que toda a monarquia em oito séculos. O seu peso relativo no erário público (cruzando a quantidade com a qualidade da despesa) é certamente o que maior mossa faz aos impostos cobrados aos portugueses.

Excerto da última crónica do António Eça de Queiroz. Amputar um texto é crime. Por isso, recomendo a leitura integral.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá
Desde Ontem

“Dinis Machado” - Gostávamos todos do Dinis. Estabelecemos o pacto – pacto de grupo – em Tróia, no clássico festival de cinema, e depois andámos anos em (…)”

Publicado por Teresa C. às 11:42 AM | Comentários (4)

outubro 03, 2008

EM MEMÓRIA DO BEXIGAS DOIDAS

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Tariq Raheem

Nalgum sítio que visitei fiz a cópia que lá para baixo segue. Por descuido ou pressa deixei a fonte omissa. Pela certeza dos protagonistas da laracha, muito provavelmente, não saberem quem foi Dinis Machado, ontem falecido, ou terem, ao menos, desfolhado “O que diz Molero”, é altura de a publicar. Em memória do Peida Gadocha, do Bexigas Doidas, do Peito Rente, do Vampiro Humano, do Bigodes Piaçaba, do Descoiso, e doutros que não me lembro, aqui vai.

“A maioria dos estudantes que estão hoje nas universidades nasceu em 1986, ou depois. Chamam-se jovens.
- Nunca ouviram “We are the world” e “Uptown girl”; conhecem westlife e não Billy Joel.
- Nunca ouviram falar de Rick Astley, Banarama ou Belinda Carlisle.
- Para eles sempre houve uma só Alemanha e um só Vietname.
- A SIDA sempre existiu.
- Os CD's sempre existiram.
- O Michael Jackson sempre foi branco.
- Para eles o John Travolta sempre foi redondo e não conseguem imaginar que aquele gordo tivesse sido um deus da dança.
- Acreditam que “Missão impossível” e “Anjos de Charlie” são filmes do ano passado.
- Não conseguem imaginar a vida sem computadores.
- Mal acreditam que houve televisão a preto e branco.

Agora vamos ver se estamos a ficar velhos.
1. Entende o que está escrito acima e sorri.
2. Precisa de dormir mais depois de uma noitada.
3. Os seus amigos estão casados ou a casar.
4. Surpreende-o ver crianças à vontade com computadores.
5. Abana a cabeça ao ver adolescentes com telemóveis.
6. Lembra-se da Gabriela (a primeira vez).
7. Encontra amigos e fala dos bons velhos tempos.
8. Vai encaminhar este post para outros amigos por achar que vão gostar.
Sim, está a ficar velho, mas teve uma infância do «caraças».

Alguém que se acuse como sendo o autor ou tendo publicado tão nostálgica viagem. E sim, estou a ficar deliciosamente velha por tê-la encaminhado para aqui.

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Bernardo
António Eça de Queiroz


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Obrigada, Amigo

Publicado por Teresa C. às 07:47 PM | Comentários (3)

EM ARGUMENTAÇÃO, UM ÁS DE COPAS

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Shinichi Noda

Os norte-americanos possuem exacerbada consciência dos direitos que possuem ou julgam possuir. Cegos ou não. A propósito da estreia, hoje, nos Estados Unidos, do filme “Ensaio sobre a cegueira”, realizado por Fernando Meirelles de boa memória pelo excelente trabalho no “Cidade de Deus”, os protestos começaram. Um cavalheiro, John Paré, director da Federação Nacional de Cegos lá da terra, alega que o filme “provavelmente vai levar a que os cegos tenham menos oportunidades e até a perder empregos por gerar o medo e a repulsa contra eles”. Mais acrescenta: “tanto o livro como o filme retratam os cegos como incapazes de fazer seja o que for e até como viciados ou criminosos”. Um delírio que vindo do além-Atlântico arrogante não surpreende.

O picaresco da estória é o livro do mesmo nome ter chegado às livrarias norte-americanas em 1998 e ter vendido mais de meio milhão de exemplares sem qualquer polémica. Provavelmente, não houve edição em Braille ou ao Sr. Jonh Paré somente importam conteúdos relacionados com a cegueira que o cinema veicule.

A língua afiada que caracteriza José Saramago não se deteve: “a estupidez não escolhe entre cegos e não-cegos”. Não lhe fazendo o género deitar água em fervuras, rematou dizendo que a polémica não é polémica por necessitar de dois interlocutores. Ora, se uma associação de cegos se pronuncia sobre um filme que não viu nem verá, o melhor é abster-se de o comentar. Este Nobel é um ás de copas em argumentação.

CAFÉ DA MANHÃ
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 01:29 PM | Comentários (2)

outubro 02, 2008

DO FADO, DO NEGRO E DO TANGO

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José Espanhol

A partir de Buenos Aires, os acordes do tango que fascinaram Lorca e Borges chegaram a todo o mundo. Encurtou distâncias na paixão comum pela dolência e sensualidade ao som das quais os corpos coreografam os sentidos. A imortal necessidade de homens e mulheres se aproximarem e, sob a inocência de uma música enlaçarem volúpia e arte, encontra no tango expressão. Pelo dito, muito pelo omitido, é proposta a candidatura a Património Imaterial da Humanidade.

O Museu do Fado reabre as portas amanhã, no Largo do Chafariz em Alfama. Genuinamente português, o fado terá remotas origens nos cânticos dos mouros que permaneceram no bairro que deles recebeu o nome, Mouraria. O negro que veste quem a rigor o canta, a obscuridade do ambiente nas casas de fado, acrescem mistério ao palpitar das almas que, silenciosamente, o sentem mais do que ouvem. Porque o fado canta a atávica tristeza da alma a lusa, as palavras amor, ciúme, saudade, destino, solidão fazem poemas. Nostalgias e sentimentos chorados pelas guitarras e pelos requebros das vozes fadistas. Linguagem que o mundo entende e justifica a candidatura do Fado à Convenção para a Salvaguarda do Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

“A Curva da Estrada” comemorou o terceiro aniversário e merece parabéns. No tecer das palavras que admiro, a mui querida Leonor é mestra.

EXPOSIÇÃO

A Galeria do Palácio Galveias apresenta uma exposição evocativa dos 50 anos de carreira do artista plástico português Victor Belém. Nascido em Cascais em 1938, iniciou a sua actividade em artes plásticas em 1956, tendo realizado a sua primeira exposição individual dois anos mais tarde. Tem trabalhado nas mais variadas disciplinas artísticas, da pintura ao vídeo, da "instalação" à "performance". Ultimamente tem-se dedicado à fotografia ficcionada.

Ana Moura - A Sós com a Noite

Publicado por Teresa C. às 11:32 AM | Comentários (4)

outubro 01, 2008

QUE UM RAIO ESTRAFEGUE OS "PINHOS"

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Sorayama

Honesta cidadã regressa do trabalho que lhe garante a sobrevivência. Conduz a lata que alguém fugidio amolgou no canto direito. Liga o ar condicionado - na Grande Alface o Setembro abafa e é luminoso de dia, conquanto no final, noite sim, noite não, encharque o escuro. Mas a Lisboa branca que o Tanner tão bem registou, é mesmo assim: imprevisível. Por isso ela e eu combinamos. Por isso lhe quero tanto bem. Por isso me amofina. Por isso me surpreende quando ao descer para a Praça de Espanha a bandeira das quinas ímpares se empina por cima do casario. Passado o Bairro Azul, revejo-a, enorme, encimando o Parque Eduardo VII – a parte ainda careca que recebeu o nome da Amália Rodrigues.

Falava de regresso e não de idas. A rádio debita a reprise das notícias. O Ministro da Economia, Manuel Pinho de seu nome (adenda para muitos que não lhe (re)conhecem a existência), anuncia em tom dramático que o mundo da prosperidade acabou. Uma mulher desce o espelho do tabliê, verifica se o olho esborratou, depois mira-se de frente e pergunta: em que universo tens pairado que nem da prosperidade deste conta? Quiçá o mundo de que fala Manuel Pinho exclui portugueses?

O jornalista faz um directo da Bolsa. Garante que terça-feira abriu (não devia ter fechado?) em forte queda em Hong Kong. Que as bolsas estão no vermelho – curioso o símbolo do capitalismo assumir cor estalinista e dos seus derivados. Que a causa foi a rejeição do Plano Paulson. Que o Bush está de rastos. Que o mundo sofre enquanto ele geme.

Uma mulher desliga a telefonia, passa ao Cd dos momentos de crise e aguenta a fila no Eixo Norte-Sul. Ao passar, verifica que uma dúzia se amalgamou em conjunto. E pensa: que um raio estrafegue o “Pinho”, mais as bolsas e, de caminho, leve o tal Paulson e o Bush. Já nem volta ao espelho. Se o mundo da prosperidade acabou só pode significar que o rímel que possui é o último.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos
Desde Ontem
"Anedota" - "Parece que a avaliação dos professores é anedota ainda maior do que se julgava.(...)"

Publicado por Teresa C. às 02:01 AM | Comentários (7)