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novembro 30, 2008
CARTA À MULHER DO SÉCULO XXI

Greg Horn
Estimada(o) utente do fabuloso nick “Mulher do séc. XXI”,
garanto que não esperava tantos elogios de uma assentada. Agradeço todos. Digo porquê:
- “escrever em português arcaico” não é para qualquer um, mas para quem sabe e leu bem cedo o que podia e devia;
- ser “indiferente a quem lê” e não cair na facilidade que garante aplausos é mérito que nem sabia possuir de modo tão evidente;
- admitindo que tenho “reduzido número de fãs”, ignorava ter um que fosse, imagine!, mas é bom sabê-lo, merecem todo o meu carinho pela rara paciência de me lerem;
- pesquisar um tema antes de, sobre ele, botar discurso, é verdade que julgava omissa na opinião do leitor;
- "rebuscada na cama" pode querer dizer criativa que nega rotinas. Boa! Este elogio soube-me particularmente bem;
- "teatralizar", fazer da vida espectáculo que, fatalmente, acaba sempre cedo demais, demonstra essa qualidade fantástica do próprio não se levar muito a sério. Que os outros nos descubram o íntimo com idêntico fervor ao que lhes reservamos. Este foi brilhante!
- “mulher de mal com a vida” que o presente serve aos humanos, sem dúvida. A miséria, a fome, a guerra, o terrorismo, as assimetrias sociais, a exploração das gentes, os massacres sempre me suscitaram revolta. Fantástico como a sua argúcia registou este detalhe!
- “mulher fora de época” é mulher intemporal. Até o afirmar, nem me ocorria pertencer a esse lote diminuto de pessoas que a história costuma lembrar.
- "chegar ao comum das pessoas" pode querer dizer nivelá-las por baixo. Se admite que o não faço prova que as tentativas de proceder inversamente, até agora e por mim julgadas infrutíferas, tiveram algum mérito;
- este site tem o propósito de acolher diversidade no pensar e não descurar a elevação no discurso e nos conteúdos. Por isso lhe respondo considerando oportuno, desassombrado e legítimo o seu comentário.
Cordialmente,
Teresa C.
Publicado por Teresa C. às 04:33 PM | Comentários (7)
“CAIXA, AMIGA, AS MULHERES ESTÃO CONTIGO!”

Milo Manara
Rejubilei com a novidade. Às mulheres era recomendada prudência quando inauguravam atracção. Nos diálogos serviçais da “arte de bem impressionar”, recomendava a sabedoria matriarcal que política, religião e futebol fossem tabu. Não me arrogo o direito à discordância – obedecemos a atavismos engolidos às golfadas quando sugámos o leite materno.
Tivessem os clubes de honra, F.C.P. e Sporting entre eles, iniciativa semelhante, e sairia facilitada a análise feminina do putativo candidato à partilha de fluidos e lençóis. Quando ele desdobrasse o rol de couro onde alinha os cartões de crédito, constando o da filiação clubística, de imediato a mulher saberia: (…)
Publicado por Teresa C. às 04:28 PM | Comentários (2)
FAZ REFÉNS QUANDO PODIA DESLUMBRAR
Michel Gourdon
Fim de semana esticado. Da frialdagem e da chuva era esperada queda de neve. Nas nuvens cinzentas de chumbo, grávidas de vapor de água, o frio aproxima as gotículas e constrói alvos cristais enquanto deslizam para a terra. E descem e cobrem de branco o que antes reflectia o negrume do céu.
Quem, como eu, aprecia sentir o nariz gelado espreitando sob gorro de lã, abafo de gola levantada, melhor ter capuz!, botas e calças de neve, pés enfiados em meias de lã grossa, rejubila e teme. Não subi à casa que dorme com portadas cerradas a poucos quilómetros do pico da montanha. Sabedora do que implica nevão naquelas bandas – estradas bloqueadas, fila em caracol pior que a da 2ª Circular no final de sexta-feiras, a luz do dia esvaindo-se enquanto o carro nem sobe nem desce – prescindi de acordar a casa beirã. Se dormia, espero que a ventania não a tenha sobressaltado por ter feito voar as telhas das chaminés. A Srª Ventura, pela noitinha, me dará conta se houve ou não desacatos.
Lastimo quem sobe as estradas da Serra da Estrela, estando previstos nevões, na expectativa de uns dias plantados sobre skis. Ilusão legítima, não fossem insuficientes as infra-estruturas nas únicas estâncias de ski portuguesas - limpa-neves escassos em eficácia e número, corpo de bombeiros mal equipado em viaturas competentes para resgatar gentes e veículos bloqueados. E aquela Serra chamada da Estrela torna reféns quem podia deslumbrar.
Publicado por Teresa C. às 01:37 PM | Comentários (0)
novembro 28, 2008
NA DISTÂNCIA, RENTE À PELE E AO CORAÇÃO

Rockwell
Este sábado – Dia Mundial sem Compras. Mais um convénio que é suposto o mundo celebrar. «Tanga» semelhante aos demais. O único proveito é o alerta para maleita advinda de contaminação pelo vírus do consumo. Efeitos directos e colaterais da comemoração: nenhuns. Não fora estar roto o fundo das carteiras, e às catedrais, capelas e “alminhas”, onde é celebrado o prazer de comprar, faltariam mãos para forrar com papel festivo tantos objectos-presentes. Afectos substituídos pelo cumprimento de hábitos. Como se laçarotes-prontos-a-enfeitar lacrassem, por si só, sentimentos. Uma pepineira!
Quem pode e faz dos presentes de Natal acto de amor, ainda é recém-nascido Janeiro e, deparando-se ocasião, compra o símbolo de um afecto. Durante meses prepara o contentamento que brilhará no olhar de quem traz sempre consigo. Rejeita o comércio atascado de gente febril. Escolhe presentes ao ritmo do coração. Manifesta indiferença pelo calendário das compras oficiais. Prefere a ternura e o vagar na escolha do mimo - hoje para este, quando calhar para aquele. Numa loja de museu encontra o que a mão recolhe e sabe alegrar a mãe. Disso faz prazer intenso. Como lei, a generosidade do tempo que a cada amor dedica. Sem preço. Sem convulsões. Omissa a obrigação. Presente a lembrança de quem, na distância, está rente à pele e ao coração.
Publicado por Teresa C. às 10:09 PM | Comentários (0)
AI COMO ENTENDO O ANÃO!

Ken Martin
“Um homem passa pela colega de escritório e diz-lhe que o cabelo dela cheira muito bem. A colega vai imediatamente ao gabinete do chefe e diz-lhe que quer fazer queixa dum colega por assédio sexual. O chefe, admirado, pergunta-lhe:
-Mas, afinal, qual é o mal de um colega lhe dizer que o seu cabelo cheira bem?
-Chefe !... Ele é anão!”
Ai como entendo o anão! Então um ser precisa de atingir a altura doutro para lhe sentir o “sexual feeling”?
Costumo, entre amigas, dizer que mulheres altas, vistosas, fashion, inteligentes, assertivas e informadas vêem reduzido o «mercado» masculino. O que é bom, por decorrer da escassez da amostra menor risco de encontrarem cabotinos.
Fundamentalmente, gostamos:
- de ser menos altas do que eles;
- tão informadas quanto eles;
- que nos aceitem o polimento sem por ele entenderem rendição de alcova;
- que recebam a nossa sedução e nos seduzam com inteligência;
- que reconheçam, sem reservas, intelecto, nosso ou alheio, tão ou mais ágil do que o deles;
- de nos sentirmos sexy e ter o respectivo feedback;
- que eles nos dêem colo semelhante ao que estamos dispostas a conceder;
- de homens leais, íntegros, irreverentes, humorados, socialmente destemidos – bravos do pelotão! -, criativos, isentos dos atavismos e tiques inerentes ao designado homem contemporâneo, assertivos, que não toquem, nos violinos, partituras que conhecemos bem demais;
- que eles não nos obriguem a cedências, salvo as ditadas pelo bem maior de amar e ser amado;
- que discordem de nós e tenham em acervo argumentos suficientes para consolidarem no nosso íntimo o respeito pelos alvos (vítimas?) dos nossos amores;
- de homens tão loucos quanto ponderados;
- de cavalheiros saborosamente debochados;
- que eles saibam cozinhar tão bem ou melhor do que nós;
- que não precisem das mulheres para (sobre)viver com alegria e, ainda assim, lhes sejamos tão indispensáveis como eles o são para elas;
- que eles sejam cúmplices, amantes e amigos;
- de homens simples, discretos e que não torrem a nossa paciência ao impingirem-nos o papel de ouvintes dos mil e um relatos de amores anteriores;
- de sermos poupadas às encenações fanfarronas de super-heróis.
Elementar, não é? Não sou o Dr. Watson, mas diria que sim.
Publicado por Teresa C. às 10:18 AM | Comentários (6)
novembro 26, 2008
A MOURA E O FILHO ABASTADO DO “NUORTE”

Alberto Vargas
O António Eça de Queiroz, que não perde estocada na amável guerrilha editada pela Guerra e Paz, “Porto Versus Lisboa”, a que lhe dá réplica o António Costa Santos, enviou-me delícia que seria egoísmo não partilhar. Deslizava ele pela Foz, facto que, por si só, me suscita sentimentos menores como o da inveja, quando lhe pedi autorização para o nomear e fazer cópia do apontamento humorado. Obtive pronto assentimento. O que ouviu, e depois escreveu, reza assim:
“O filho do empresário do “Nuorte” apaixonou-se por uma lisboeta e decidiu casar.
Muito a medo, foi contar ao pai, temendo a sua reacção, por se tratar de uma «Moura» de gema. Ao contrário do que esperava, o empresário ficou contentíssimo, prometeu-lhe grande apoio e deu-lhe alguns conselhos:
- meu filho, para começar, vão um mês para Bora-Bora, para o melhor hotel, para mostrar a esses lisboetas que a gente do “Nuorte” tem dinheiro;
- o casamento vai ser no Mosteiro dos Jerónimos para mostrar a esses lisboetas que temos gosto;
- o copo de água vai ser no Hotel da Lapa para mostrar a esses lisboetas que sabemos luxar;
- quando chegares ao Hotel para passar a noite de núpcias, vais carregá-la ao colo para mostrar a esses lisboetas que somos uns cavalheiros;
- antes da entrada no quarto, dás-lhe passagem para mostrar a esses lisboetas que somos educados;
- no quarto, tiras-lhe lentamente a roupa para mostrar a esses lisboetas que somos carinhosos;
- quando ela estiver toda nua... “bates uma punheta”, para mostrar a esses lisboetas que não precisamos deles para nada!”
Nota – não me justifico pela transcrição da gíria final. Da hipocrisia e falsos pudores de salão há fartura. Fosse substituída a expressão por sinónimo que a "decência social" legitima e a genuidade ficaria, hipocritamente, omissa.
Publicado por Teresa C. às 07:45 PM | Comentários (3)
novembro 25, 2008
NADA EM TROCA DE TUDO

Bo Bartlett
Fechadas há quinze anos, as Minas de Aljustrel reabriram em Maio. Pompa, projectos e promessas como cenário. No Outono, que faz anoitecer mais cedo a vida das gentes portuguesas, caiu o preço do zinco nos mercados mundiais. Por falta de rentabilidade, cessou a exploração das pirites alentejanas. De nada serviu inspirarem danoso pó de sílica os habitantes de Aljustrel. Uma centena de mineiros, habituados à vida dura nos esconsos da terra, são confrontados com rescisões dos contratos. Talvez a nacionalização da empresa. Talvez um faz-de-conta. Talvez o desemprego. Talvez o regresso à economia de subsistência – a jorna por conta de outrem, assim surja e que bom era!
Nos últimos seis meses, os mineiros, e as famílias que sustentam, abdicaram do encontro que os fins de semana propiciam. Feriados, nem vê-los! Dez horas por dia. Laboração contínua. Regalias perdidas relativamente ao ano de noventa e três do fatídico, bem presente, despedimento colectivo. O tudo que deram pouco valeu. Até 2 de Dezembro a vida continua incerta. Nesse dia, saberão se os quinhentos milhões de euros oferecidos(?) pela empresa canadiana, potencial compradora da actual que lhes roubou descanso e confiança, constituem feixe luz que lhes ilumine o Natal próximo ou luzirato precário da pilha incrustada no capacete.
Se o futuro aos humanos não pertence, que sejam comedidas as promessas. Quem julgar que alimento feito de sonhos enche barriga e satisfaz dignidades que se enxergue!
Publicado por Teresa C. às 11:24 PM | Comentários (3)
novembro 24, 2008
UM SEIO DA CIDADE DE TANTAS CIDADES FEITA
Onze mil estrangeiros de vinte e cinco nacionalidades vivem na Mouraria onde outrora Fernando Maurício cantou o fado na Rua do Capelão. Também a Mariza por ali se fez mulher e fadista no “Zazala”, por ora com as portas cerradas. Hoje, o bairro-templo do fado tem forro composto de sevilhanas e música paquistanesa. E o Castelo ali ao lado, a Lisboa que é assim: cosmopolita e afável.
Quem da cidade moura conhece e procura encantos, basta subir a colina erguida a partir do Martim Moniz. Que não tema o bairro alcandorado e dele não se arrede pelo Centro Comercial sito em praça esconjurada do mui real e nobre coração lisboeta. Largo com nome do lendário cavaleiro que defendeu do ataque mouro porta da cidade atravessando-a com o próprio corpo, seria honra não fosse a salgalhada que no presente constitui. A genealogia do nobre valente ao serviço de D. Afonso Henriques é confusa. Uns dizem ter casado com Ouroana Rodrigues, outros com Teresa Afonso, alguns afirmam-no pai omisso de filho que nunca reconheceu. Tricas com tanto de verdade como de fantasia – sorte esperada para quem lega, aos vindouros, insanidades sob a forma de bravura.
No canto de Lisboa reservado aos muçulmamos após a conquista da cidade, soaram melancolias dolentes sob a forma de cânticos. Talvez lamentos musicados do que houveram e não tinham. Deles dizem nascido o fado. No presente, a Mouraria mistura incensos, sotaques mil, bugigangas em contínuo saldo, moradores resistentes e outros que vêm e vão como onda harmónica que regula o flutuar das culturas e das gentes.
Com o Tejo lambendo os pés da cidade de tantas cidades feitas, alguém que arrisque desmentir o "fado" da Lisboa capital.
Publicado por Teresa C. às 10:20 PM | Comentários (0)
novembro 23, 2008
“FAÇAM-ME TUDO COMO SE ESTIVESSE MORTO!”

Barndog
Num fim de tarde adoçado por réstia de sol, o lençol do Tejo em frente, afirmou: “nunca falhei a uma mulher”. Bailaram insinuações brejeiras. Amigos de tempos que foram e são aproveitaram a deixa magistralmente encenada pela voz grave, gestos largos e lestos olhos azuis. Garantiram que alguma falha, alguma negação à sorrelfa da vontade, terá cometido o pedaço do corpo que nas vulvas encontra deleite. Negou. Deu razão: “a uma mulher, ou mais, se ajuntamento delas acontece, sempre disse: façam-me tudo como se estivesse morto! Ora, de um defunto nada há a reclamar. É milagre a ressurreição da carne. Alegre acrescento ao nada que antecipei.” Voaram risos e contestações no crepúsculo de folhas caídas. (...)
Publicado por Teresa C. às 11:56 PM | Comentários (0)
INBOX, OUTBOX
Autor que não foi possível identificar
Domingo pejado de afazeres burocratas é desgosto. O “dia do Senhor” supõe descanso. Ideia liberdade, parênteses nas tensões profissionais, acréscimo de serenidade. Antecipa o gozo de gozar tempo com o próprio e com os amores. Sugere fantasias: fugas ao conhecido – deslizar por estradas secundárias e (re)descobrir a humildade das vidas, da pintura natural que limita, a oeste, o lugar português. Ou voar. Partir sem regresso que a alma não ordene. Talvez cair em deliciosos clichés. Fazer o que a gana mandar.
E uma mulher abre a caixa de correio. Recebe novas da noite acabada na forma de recados, cartas e doçuras – o desinteressante apaga sem ler. No inbox depara com razões para sonhar e sorrir. Como esta:
“A mulher vira-se para o marido (namorado, amigo colorido, etc.) e pergunta:
- Vamos a Nova York fazer um workshop?
O marido (namorado, amigo colorido, etc.) responde:
- Como assim?
A mulher responde:
- Tu work, Eu shop!!!”
Tal qual, amiga! De bocejar noutros workshops temos fartura. Este, sim!, aprovo, quero, preciso. Que seja deixada à solta no ChinaTown. Que sinta os odores, a excentricidade das gentes e das cores. Que adquira falcatruas perfeitas por escassos dólares. Que à conta da pechincha acresça delícia ao figurão que estarei certa de fazer. Que me seja concedido o prazer de um almoço-namoro em Little Italy. Que este domingo burocrata se esgote enquanto, na minha cadeira, a fantasia me torna feliz.
Publicado por Teresa C. às 11:44 AM | Comentários (0)
novembro 22, 2008
AFINAL, NÃO SÃO ETERNOS!

Lisa Iris
Primeiro fervem a tequila, depois aproveitam o vapor. Continuando o aquecimento até aos 800º Celsius, soltam-se e depositam-se em camada muito fina átomos de carbono que, na essência, estruturam a vida vegetal e animal. Da urtiga à miss Universo, tudo o que respira nesta Terra, que a Bíblia afirma de Deus, é carbono combinado em incontável número de maneiras.
Se esqueleto de carbono caracteriza os vivos, nas pedras é variada a natureza e a constituição – combinam alguns dos noventa e dois elementos que o planeta contém. O diamante é, de todas, a pedra-rainha - geometria cúbica centrada que organiza átomos do elemento único: o carbono. Pela raridade que persistiu até há um século e meio, pela resistência e dureza foi baptizado com nome derivado de termo grego significando "inconquistável".
A obtenção mexicana de delicada camada de diamantes sintéticos a partir da fervura da tequila, seja rasca ou boa, é conquista e desilusão. Como jóia de nada valem pela pequenez microscópica, mas são alternativa barata ao sílicio - parente crescido do carbono – utilizado em computadores ou nos instrumentos médicos de corte ultrafino.
Sai abatido o mito da raridade e vida eterna dos diamantes. Saber que, afinal, não são eternos por definhar o carbono que lhes dá cor e brilho, interpela: nada haverá eterno nesta Terra de deuses precários?
Publicado por Teresa C. às 12:06 PM | Comentários (2)
novembro 21, 2008
A NOITE DOS CINCO «EFES»
Longa foi a noitada, matutino o despertar. Alegres as razões para as curtas horas de sono – contrariar normas biológicas que ordenam oito vezes sessenta minutos de bom dormir é uma das muitas formas de insubmissão da matriz pessoal. Acordei com o sorriso beatífico de quem inaugurou, na véspera, o fim de semana. Rodeada de amigos e de amigos dos amigos que amigos correm o risco de vir a ser, ri, abracei, a fala fluida foi fatalidade feliz – cinco «efes» que sempre entesouram memórias emolduradas com ouro.
Entre críticos de arte, pintores, homens da edição escrita de pensares, escritores, mulheres admiráveis, destaco a Fernanda Rocha que pela vez primeira expôs bijutaria-joalharia de rara sensibilidade e gosto. Singular também – porque única, porque tem alma, porque provem de profissional de elevados méritos na pragmática área financeira, o véu quotidiano da artista que é obrigatório conhecer.
A casa Potthoff abre as portas na rua Duques de Bragança, logo a seguir ao «parisien», não fosse bem português, Largo do Picadeiro, no lado superior do São Carlos. A esplanada do Café do Chiado, entre arquitectura pombalina e a arte nova do final do século dezanove, é ladeada pelo Teatro Estúdio José Viegas e pela oblíqua Travessa dos Teatros. Nos requebros dos ferros, no ocre desmaiado das construções convém detença. Descer vinte metros é prazer que antecipa outro: o momento de olhar a pintura do Vasco Ribeiro e a arte da Fernanda Rocha. Roteiro que sugiro até 4 de Dezembro como fuga ao trivial.
Publicado por Teresa C. às 11:02 AM | Comentários (0)
novembro 19, 2008
MENINAS DE BEM NO TEMPO DAS VERGONHAS

Alain Aslan
Até 24 de Abril de 1974 era amargo e doce ser menina. Não fosse uma canastra almofadada por cobertor gasto, ou berço tomado por empréstimo caridoso que no nascimento a acolhesse, corria manso o crescer. Cedo dava conta que as aparências e a paz familiar recomendavam à mãe e às outras matriarcas atitude subalterna e passiva. No liceu - os muros iriam apartá-la dos alunos modestos da escola comercial – constataria que a moldura onde cabia vigorava desde 1872. Fora descrita tal e qual por Ramalho Ortigão: “Ninguém a instrue, ninguém a distrae, ninguém procura tornar-lhe a existência doce e risonha, dar-lhe o nobre orgulho de ser amada, querida, necessária no mundo para mais alguma coisa do que lavar a casa, coser a roupa e cosinhar a comida”.
Chegada a menarca, do inesperado sangue quente escorrendo nas coxas, pouco as mães explicavam. Insuficientes as conversas com colegas e amigas – não constava do bom tom que “meninas de bem” delatassem «vergonhas» femininas. Era tempo de relembrar a história do Capuchinho Vermelho - metáfora sobre a preservação da virgindade (tesouro e parte do dote), que associava ao despontar da sexualidade males e perigos traçados pelas manhas dos lobos-homens. E a crescença decorria vigiada pela tirania das normas sociais e familiares. Mas havia almoço em casa. Presença na chegada do liceu. Tempo de estudo. Lugar para a leitura. Conversa do pai, que a mãe secundava durante o jantar. Tudo polido e bem comportado. Desenhado à mesa o futuro da menina – licenciatura e casamento branco.
O primeiro orgasmo, acaso do sono ou surpresa na vigília, a menina guardava para si. Acontecimento estranho, pressentia pouca-vergonha que murmuraria na confissão. Acto pecaminoso se provocado, como tudo que arribasse ao corpo e não fosse contemplado no rol do dizível. A castidade no despir e vestir era ensinado pelas mães – peça de roupa tirada quando outra cobrisse a pele. No colégio, aprendia bordados, tricô, costura e veniais infracções. Era tolerado num beijo experimentar frémito pela penetração da língua quente de um rapaz, sendo cumpridas duas condições: idade adequada e namoro sério aprovado pelos pais. Às escondidas, ainda assim.
As meninas cresciam envoltas em medos e riscos. Não casar era um deles - vergonha “ficar para tia”. Obrigatório sangrar na noite de núpcias. Ser mãe. Boa esposa. Uma profissão, sim, se à perfeita vida doméstica não causasse rombo. E as meninas sentiam os pedidos do corpo, quando apenas ao espírito submisso era reconhecido direito. Refugiadas nos livros, gira-discos e televisão, ganhavam formas e altura. No horizonte, as desejadas vergonhas do sexo e do acto de parir. Sangue e dores como penitência. Por tudo, ansiado e temido o futuro como mulher.
De Neil Jordan, um filme inesquecível de 1985 – A Companhia dos Lobos. O Capuchinho Vermelho como metáfora que o cinema também imortalizou.
Nota: texto publicado aqui.
Publicado por Teresa C. às 08:43 PM | Comentários (3)
novembro 18, 2008
CICIA O MANTO DE ÁGUA

V. R.
Da água é sabida a condição fluida. A transparência, sendo pura. Dela, também, o milagre da multiplicação da luz. Aquietada, é espelho – reflecte as margens e, pelo inverso, ensina a ler. Verte corpos e rostos indiciados. Imersos no não visto onde apetece mergulhar alma e sentidos. Que retém aromas de gentes e lugares - talvez a Índia o pressentido; o Tibete em marcha; Marraquexe; o doce inferno da noite.
Olhar que se debruce na pictografia do Vasco Ribeiro, de si e do mundo verá entidades outras porque devolvidas sob a forma de recontos tangíveis. Num amplexo reflexo, a ternura. Ou o riso. Ou a nua exposição do ser. E cicia o manto de água julgado silêncio. E vem à tona a intimidade dos corpos cujos espíritos tumultuam. Destes, os rostos que gritam histórias e mistérios. Que a mão-pincel esventra. Que olham o longe e o perto da geografia onde são, centrados na faena ou no outro que os lê. Como alcatruzes mergulhados em mar próximo que a vida sabem reter.
Publicado por Teresa C. às 11:04 PM | Comentários (2)
novembro 17, 2008
INÉDITO-RECORRENTE

Autor que não foi possível identificar
Corre o Verão de São Martinho. Dois fins de semana consecutivos fora de portas bastam para encher a alma de beatitude. Seja pela modesta exigência do necessário para empreendimento deleitoso, seja pela disposição atenta aos menores e simples detalhes, é prazenteiro o regresso que sabe não ter a beleza arredado presença do caminho.
Dos tapetes ocre das folhas moribundas, o quotidiano urbano conhece e pisa e sabe quando brisa infante ou adulto vento se compraz em desfazer o manto rasteiro e fazê-lo bailar. Mas nos lugarejos ou nos campos corridos até chegar ao destino, a opulência do Outono arranca exclamações espantadas pelo inédito-recorrente que o ciclo da Terra traz. Nos vinhedos postos em descanso após a fartura dos frutos em cachos, os requebros dos troncos suspendem ouro e encarnados e carmins e verdes ensanguentados.
Verdes outros, macios, titubeando entre o que eram e deixarão de ser, parcelam o horizonte. Deslizando as rodas em velocidade humilde, nos lados e na frente muito há a descobrir enquanto a conversa flui e os olhos se arredondam e os seres se ajeitam à quentura do sol. Dias mais precários que todos. Noites longas em que a doçura acontece. E da facada no ramerrame é consequente o abraço dos corpos à fecundidade da terra, à reconciliação com o território e com o povo português. Alma exacerbada que partiu. Alma limpa que regressa.
Publicado por Teresa C. às 05:19 PM | Comentários (0)
novembro 16, 2008
COMO MARTIN LUTHER KING, "I HAVE A DREAM!"

Marta Dahlig
António Eça de Queiroz e António Costa Santos estão hoje presentes, pelas 18.30h, na Fnac do Vasco da Gama para apresentarem o livro Porto Versus Lisboa. Editado pela Guerra e Paz.
Publicado por Teresa C. às 09:45 PM | Comentários (0)
novembro 14, 2008
DE LANZAROTE À «MULHERZINHA»

Al Moore
O Nobel Saramago afirmou como “a maior das estupidezes” dos conservadores americanos a escolha de Sarah Palin para vice-presidente do octogenário derrotado candidato à presidência. Por outras palavras o sumo foi este: se o McCain quinasse não admitia que obediente estereótipo da «mulherzinha» comum administrasse o planeta. Cito o habitante mais notável de Lanzarote por algumas e boas razões. Entre elas, as decisivas:
- o plural de estupidez soa mal, evito usá-lo e é notável a utilização do termo por autor de referência nas letras mundiais;
- relacionar próxima condição de defunto com a idade é (pre)conceito que mente suposta liberta de condicionalismos banais devia evitar;
- o estatuto de «mulherzinha» assim reconhecido e adoptado apagou-me sentimentos culposos do mesmo, há anos, fazer;
- avaliar as capacidades dos humanos pelo disse que disse, parece e ouvi dizer é facilidade em que espíritos elevados caem tão bem quanto os menores como o meu;
- a rejeição da figurinha da Sarah Palin é independente do sexo, Q.I. e talento;
- conseguir unanimidade é feito árduo. A mulher vinda do frio para a boca da cena mundial conquistou-a num ápice. O mundo e os americanos rejeitaram-na liminarmente.
Publicado por Teresa C. às 10:39 PM | Comentários (2)
GALHETEIROS E LEONARDO DA VINCI

Steven Kenny
Corria o século XVI. Já cansava a culinária conhecida na sociedade italiana dominante. O aparecimento da nouvelle cuisine é atribuído ao espírito pioneiro de Leonardo da Vinci. Reza a história (lenda?) ter aberto dois restaurantes onde aplicou invenções gastronómicas inusitadas para o tempo, ou não fosse de génio a criatividade que em múltiplas áreas revelou. Infelizmente, Leonardo nunca havia pegado num tacho ou o que dele, ao tempo, fizesse as vezes. À teoria faltaram os rudimentos e os restaurantes faliram em seis meses. Uma pena ou como fica de novo provado que o saber da experiência feito é decisivo na concretização das especulações teóricas por mais mobilizadoras que se afirmem.
Entre a nouvelle cuisine, a gastromina tradicional ou importada – nesta, a onda ocidental do sushi - e a culinária de fusão, os portugueses optam segundo a sensibilidade do palato e o recheio da carteira. Porém, aos que teimam em sabores convencionais – um bacalhau com todos, uma cabeça de garoupa grelhada que verdes e batata cozido acompanhem – foi surripiado o prazer do clássico galheteiro na mesa. Em vez dele, cérebros plastificados decidiram pôr em prática modernices pseudo-higiénicas – garrafa de azeite e outra de vinagre que à mesma servem diversas bocas que não prescindem daquele tempero. Algum resto de lucidez veio ao de cima por serem de novo legitimados os galheteiros tradicionais na restauração. Gente bobonicamente teimosa aquela que tal impedimento decretou!
Publicado por Teresa C. às 09:45 PM | Comentários (0)
DIZEI SE NO “SPNI” O CORAÇÃO É MUDO
Não faltam eventos da treta. Ingredientes comuns: discursos pomposos, falso sumo de laranja, vinho de garrafão engarrafado, presenças de entra-e-sai como num velório, cabelos armados, cumprimentos e sorrisos ocos, faz-de-conta institucionalizado. No universo das artes plásticas, surpreende abertura pública de uma exposição onde a regra é a ausência dela e o vivido oposto do que atrás foi desfiado.
Na Galeria Artur Bual – espaço magnífico de que pode orgulhar-se o Município da Amadora –, foi ontem inaugurada exposição da Manuela Pinheiro. Para quem não conhece a Pintora, defini-la como Paula Rego outra, é injusto. Por muito que me embasbaque perante obras da Paula que exportámos para o Reino Unido – da Tate fez casa –, a Manuela é diferente como um Pera-Manca de um Cyrah Cortes de Cima. Pintura de ocres e encarnados, sombras verdes e esmeralda nos casarios, tons diáfanos, outros bravios, afectos em bolha, derrames sensuais, disformismos como retrato do indivíduo feroz que esqueceu a essência do «ser».
A noite foi de afectos genuínos. No jantar-tertúlia que a precedeu, foi lembrado o Bual e dele as memórias conjuntas. Lágrimas contidas, outras despudoradas bailaram entre o alentejano e a feijoada de lebre. Esteve reunido o inner circle, parafraseando o sempre amigo e distinto Eduardo Pitta. Lembrados foram amigos que partiram cedo demais, como sempre parte quem amamos: David Mourão Ferreira, a Natália Correia, a Dorita Castel’ Branco – todos membros da insustentável leveza daquela seita dos puros de coração. Críticos das artes esqueceram a postura oficiante na imprensa escrita e fruíram do luxo de anónimos cidadãos. O “Porta da Ponta” enlaçou simplicidade, vernáculo, «bocas» atempadas e rostos felizes.
Ide até à Galeria Bual na Câmara Municipal da Amadora. Esparramai o olhar sobre a “Seiva dos Afectos”. Dizei, depois, se no “SPNI” o coração é mudo.
Publicado por Teresa C. às 01:07 PM | Comentários (0)
novembro 12, 2008
VERMELHO IMPERIAL DESMAIADO
Muitos não dissimulam ar de «mete-nojo» mal são referidas. Outros, quase sempre desabonados, arriscam a entrada. Eu, entre eles. Lamento a proliferação do comércio que chama os clientes por via de balões vermelho imperial desmaiado pelo sol. Fazem lembrar o reportado sobre eras que identificavam comércio de sexo à la carte pela luz encarnada iluminando porta escusa. Hoje, existem dessas portas, mas, na maioria, dão para anónimo hall de elevadores, sito numa rua banal, num andar de prédio comum, onde pode cheirar a peixe frito se o cliente escolhe a hora de almoço para abafar manias ou frustrações. Os condomínios de requinte fechado também possuem invisíveis luzes encarnadas - escorts de luxo andam aí e desmentem haver crise no mercado do sexo ao domicílio.
Lojas chinesas. Frequento. Rolos de papel de cozinha ou higiénico, de alumínio ou de película aderente são baratos e com idêntica serventia à daqueles comprados pelo dobro nos «superes». Sabonetes líquidos, toalhitas para limpar o íntimo e o exposto, detergentes e sabonárias são, naqueles malquistos lugares, um mimo de economia. Qualidade? Semelhante. Limpam, lavam e amaciam. Porque gosto de pintalgar telas, evito a dispendiosa prova de as comprar em casa séria – reservo-as para os óleos e pincéis -, sabendo de antemão a sina triste que as espera. Há que estar preparado para enfrentar cara de bola de ping-pong na caixa; olhar desconfiado como se cada cliente fosse potencial gatuno; vigilância do menor gesto, não enfie na mala uma tela de 60X60. Mas resisto. Sou mulher económica no que classifico como “bem não essencial”. E porque os meus bens essenciais não estão à venda – os afectos – entro nas portas encimadas por balões vermelho imperial desmaiado.
Publicado por Teresa C. às 09:26 PM | Comentários (0)
NO BACCARAT DA ALEGRIA GANHA O BUTÃO

H. Sorayama
Países incógnitos dão lições aos que ocupam a ribalta do poder económico, financeiro ou cultural. Destes, alguns são como herdeiros desnaturados que desperdiçam o amealhado pelas gerações precedentes nas mesas de baccarat em casinos de categoria duvidosa. Eu, mulher cuja matriz arreda de jogos de sorte e concomitante azar, fico nauseada quando giram as roletas seja em Cannes, Monte Carlo, Las Vegas, no Estoril ou no casino da Póvoa de Varzim. Inevitavelmente, lembro adictos ao jogo que, bloco de notas na mão, passeiam sobrolhos franzidos pelas mesas onde a roleta (des)anda. Humanos convictos de encontrarem regra e ganho onde somente vigora a lei do lucro como é comum nos negócios com porta aberta designados por casinos.
O Butão é um dos países obscuros falados lá em cima. Incrustado nos Himalaias, possui economia que ocupa o fim da lista nos rankings mundiais. Os parcos rendimentos advêm principalmente da água vendida à Índia e transformada em energia hidroeléctrica. Farto do papel de país-vassoura do rendimento per capita, decidiu inovar - inventou o índice de contentamento per capita. Garante os habitantes felizes com o modus vivendi – quem diz não estar relacionada tanta alegria com o facto do Butão ter sido o primeiro país do mundo a banir o fumo e a venda de tabaco? Num ápice, o top million dos povos mais satisfeitos passou a ser ocupado pelos butaneses.
Fosse tal escala aplicada a Portugal e pertencer-lhe ia o lugar de país-vassoura. Enquanto povo, somos predispostos a coro de lamentos pior do que o das carpideiras contratadas para gemer e urrar. Português honrado somente o é se não souber rir de si próprio e a lamúria for dialecto bebido com o leite materno e, por isso, familiar.
Publicado por Teresa C. às 10:47 AM | Comentários (4)
novembro 10, 2008
“AVALIAÇÃO BUROCRÁTICA” E O MUI CARO “BLASFÉMIAS”

Anthony Guerra
"Avaliação burocrática II"
Publicado por JoaoMiranda em 10 Novembro, 2008
"Há dias, um professor de matemática explicava na televisão porque é que é contra a avaliação. Entre outras coisas, explicava que teria que verificar se os avaliados, de outras disciplinas, cumprem o programa. “Mas eu nem sequer conheço o programa”, dizia. E ler, será que sabe?"
"Avaliação burocrática"
Publicado por JoaoMiranda em 10 Novembro, 2008
"Os professores queixam-se que a avaliação é demasiado burocrática. Curiosamente, grande parte dos procedimentos de avaliação são definidos nas escolas pelos próprios professores. Imaginem um grupo de portugueses a tentar organizar-se para definir um procedimento simples. Pois. Agora imaginem que esses portugueses têm o interesse em que o procedimento seja o mais complicado possível. Pois."
O Blasfémias é um dos adoçantes do SPNI. Faço questão de todos ler diariamente – ou bem que os recomendo pelo aprendido com eles, ou seria hipocrisia que não me condiz recomendá-los sem lhes seguir a escrita quotidiana.
Os textos acima transcritos não me surpreenderam pela pior das razões: são o exemplo perfeito do «opino-porque-li-ouvi-ou-vi». E o que é ouvido, lido ou visto sobre o mau estar dos docentes? Acerca das razões que os levam a manifestar descontentamento em Lisboa no dia 8 de Novembro, 8 meses após o 8 de Março do ano que corre com pressa tamanha e em que, de igual modo, no mesmo lugar e pelas mesmas razões, manifestaram desagrado pelo actual sistema de avaliação do respectivo desempenho? Os media recolhem dos manifestantes opiniões sumarentas, seja pelo disparate ou pela subordinação política. Os indagados sobre a causa que os leva à rua e respondam assertivamente ficam de fora do veiculado pela comunicação social. A incoerência, a imagem triste e alienada, essas sim!, têm direito a prime time. Não havendo interesse ou capacidade para filtrar o testemunhado à luz dos shares das audiências e interesses políticos, repeti-los é ingenuidade ou argúcia tão condenável como o ouvido, lido, visto.
Na vastíssima maioria – em qualquer bom ninho nasce um mau passarinho! – os professores conhecem os programas que ministram e desejam ser avaliados com independência e rigor. Durante anos sofreram com a indiferença ministerial que tornava irrelevantes os méritos e apagava deméritos. Foram vítimas da injusta progressão automática na carreira indiferente à excelência e ao mau. Empenhados, atentos e sabedores valiam tanto como os “baldas” em idos que não deixou saudades à generalidade dos professores.
A realidade nua é esta: cada escola interpreta o actual Processo da Avaliação Docente como entende. Os Conselhos Directivos (Executivos) regulam obedecendo a normas vagas. A situação é tão caricata que, na mesma escola, um agrupamento disciplinar determina complicação e outro simplicidade. Quer isto dizer coisa simples: o sistema que o Ministério da Educação pretende implementar é aleatório. Tão díspar que vai pelo rego abaixo a uniformidade de critérios que devia abranger, por igual, todos os docentes. E se nalgumas escolas prevalece o bom senso, noutras vigora a lei do terror (terrorismo?). Culpa de quem? Da ambiguidade em forma de lei.
Nota: a ilustração que acompanha o texto é, embora muitos a julguem um despropósito, adequada à crónica. Nas escolas, pululam “Lolitas”. Nem configuro o nível de contenção de um professor perante reality shows como o pintado por Anthony Guerra.
Publicado por Teresa C. às 07:36 PM | Comentários (2)
novembro 09, 2008
“MY NAME IS CONSTÂNCIO, JAMES OBAMA!”

A octogenária californiana que pela primeira vez votou movida pela crença em Barack Obama e ser omissa no filme a frase “My name is Bond, James Bond” indiciam sinais de ruptura a marcarem o presente. Incoerentes? Nem tanto assim.
Publicado por Teresa C. às 09:49 PM | Comentários (0)
EM MANHATTAN, A FIFITH

E. Goetschel
Num domingo, bebericando o café doméstico, viajo pela memória. Escolho a bilionária Fifith Avenue ao serviço das elites e da mistura étnica. Lembro o fervilhar de turistas, nativos e elegantes mulheres encimadas por improváveis capelinas. Se da Quinta Avenida, fizesse postal e roteiro recomendaria ao peregrino, tenha meios de tarde que cheguem, não pecar por omissão e provar as variedades de cheesecake – o de forno, o de Filadélfia, de queijo fresco e outros mais.
Aproximado o entardecer, bem no centro da Midtown, diria altura ideal para erguer o olhar na esquina da 34th Street e ver o Empire State Building esticado até ao céu. No 86º andar, esperar os tons de fogo e malva do pôr-do-sol. Vislumbrar a sombra urbana de Manhattan no outro lado do rio. Não perder os impassíveis leões de pedra que honram as virtudes da paciência e da coragem, Patience e Fortitude, que guardam os degraus de quem eleva os passos às humanidades e ciências da New York Public Library. À saída, no lobby do Algonquin, demorar o descanso e uma bebida.
Num começo de dia, depenicar uma pretzel na Rockefeller Plaza e, mordiscando-a, enviesar a cobiça na Christie’s e nos palácios das grifes nas travessas da 5th Avenue - entre a Saks e a Bergdorf Goodman incluo na rota do frívolo a Cartier, a Versace, a Tiffany e a Gucci. Porque a cobiça envenena, lavar a alma enquanto tece louvor íntimo na St Patrick’s Cathedral. Orientar o caminho para o Museu de Arte Moderna. Espreitar o “‘21” Club, entre a Fifth e a Madison para reviver os míticos "speakeasies" dos anos vinte.
O dourado da estátua do general Sherman e a Army Plaza coroam a Quinta Avenida. Quando por ali cirando, entro no Plaza e no Pierre. Adiciono-os à minha colecção de hotéis-maravilha encabeçada pelo preferido, o Negresco, na sempre soalheira e perfumada Nice. Em Central Park, ali tão perto, diluo os barulhos da cidade e do espírito na relativa paz e serenidade que a fronteira de relvados e árvores emboscadas me legitima. E quase lhe sinto o prazer, enquanto aspiro o aroma do Arpeggio.
Publicado por Teresa C. às 11:27 AM | Comentários (2)
novembro 08, 2008
"AVALIAÇÃO DA CARREIRA DOCENTE" - A FRAUDE!

Steve Hanks
Porque decorre nas escolas processo burocrata e trapalhão que pretende avaliar a infinita paciência dos professores para aturarem reuniões vazias prolongada por horas a esmo, protestam hoje, em Lisboa, docentes de Norte a Sul deste “reino do antes depressa e mal do que nada fazer”.
Ingénua criatura, houve tempo em que logrei convencer-me de, finalmente, a classe docente ser alvo de uma avaliação que, fundamentada nas competências reveladas por cada professor, encaminhasse as escolas para um futuro de rigor. Desconfiei do desagrado manifestado pelos abrangidos por este sistema de avaliação – o «deixa andar» é confortável, a progressão na carreira era automática e independente dos méritos ou deméritos, renovar o paradigma do “ser escola”, é difícil. Excelentes razões para o atávico “Velho do Restelo” que habita no íntimo dos portugueses explodir em protestos.
Enganei-me. A avaliação da carreira docente, tal como está a ser concretizada, transformou-se no pior que caracterizava os procedimentos das repartições públicas poeirentas e “sem rei nem roque”. Orgulhosamente, declaro o erro de análise por mim cometido até aqui. Formulei a hipótese da bondade das medidas lavradas pelo Ministério da Educação, observei, reflecti e concluo: a actual “Avaliação da Carreira Docente” é uma fraude que urge emendar.
Publicado por Teresa C. às 09:19 AM | Comentários (6)
novembro 06, 2008
VOLÁTIL CALDO DE SUORES

Autor que não foi possível identificar
Quando acontecemos, inaugurámos a atracção. Porque me apeteces afinal? Dos mistérios da atracção sabemos pelo aproveitado saber acumulado nos corpos que os espíritos também animam. Explicá-la seria contrário ao volátil caldo dos suores. Inventados? Talvez não. (Pres)Sentidos antes de por via deles escorregarem no teu corpo as minhas mãos.
Sem que o beijo repetido nos dias reúna o apartado, ainda assim jogam à cabra-cega os sentidos. E têm sede. Muita sede de sorver. Ou beijar, eufemismo de um modo outro de beber. Apaziguada a sede, ainda o ventre morada, regressa a (in)consciência da ternura. São de paz os instantes. Nas dobras dos lençóis brancos ficaram escritos os beijos que, enfim, reuniram o apartado.
Publicado por Teresa C. às 11:31 PM | Comentários (0)
HAJA FENO!

Autor que não foi possível identificar
Encantam-me fábulas. Lidas em criança ou perpetuadas pela tradição oral, contêm ensinamentos que, por não serem impingidos com ralhos ou voz doutoral, ficam retidos no lastro que orienta comportamentos futuros. Na história a seguir (re)contada, ainda que, de facto, os animais estejam arredados da condição de personagens, metaforicamente marcam presença – o lobo e o suposto cordeiro, a águia e o periquito recém-saído do ovo.
“Decorrendo exame num curso de Medicina, o professor pergunta ao aluno:
- Quantos rins temos?
- Quatro!, responde o inquirido.
- Quatro?, replica o professor cheio da prosápia daqueles que retiram prazer dos erros alheios.
- Traga um molho de feno, pois temos um asno na sala, ordena o professor ao auxiliar.
- E para mim um cafezinho!, pediu o examinando.
Irado, o professor expulsou-o da sala.
O aluno era, o humorista Aparício Torelly Aporelly, falecido há trinta e sete anos, mais conhecido como o 'Barão de Itararé'. Ao sair da sala, o aluno teve a audácia de corrigir o furioso mestre: “O senhor perguntou-me quantos rins 'nós temos'.'Nós' temos quatro: dois meus e dois seus. Tenha bom apetite e delicie-se com o feno.”
A vida exige dose bastante de conhecimento e outra tanta de compreensão. Aos que sobrevalorizam os próprios conhecimentos, reais ou fantasiados, e se arrogam o direito de subestimar os dos outros, apetece dizer: “Haja feno!”
Publicado por Teresa C. às 09:14 AM | Comentários (0)
novembro 05, 2008
THANK GOD, IT'S OBAMA!



Publicado por Teresa C. às 09:50 AM | Comentários (0)
novembro 03, 2008
CARTILHA CONTRA A LIBERTINAGEM SEXUAL

Erica Chappuis
Li esta (des)graça aqui, retirada do livro “Castigo Divino” patrocinado pela Igreja Universal do Reino de Deus (Edir Macedo). Sendo que na minha infância os cromos eram comprados a uma dúzia de tostões, adopto o novo significado do termo atribuído pela contemporaneidade. Ele há «cromos» que, felizmente, continuam a surpreender-me - se tal não acontecesse a razão seria trágica: ser uma cínica que o mundo olha com dois «des» (desconfiança e desencantada).
Porque não me revejo na causa e prefiro idear-me crente no mundo e nos humanos, deixo aqui um extracto do livro centrado no castigo do divino que vigia a sexualidade. O escrito lembrou-me uma das últimas intervenções da Drª Manuela Ferreira Leite: "casamento implica procriação". A subjectividade do parecer não questiono. Apenas não aceito que a líder de um partido decisivo na democracia do regime confunda estados de alma com posicionamentos políticos.
“Comentários sobre o pecado de algumas posições sexuais:
1. Posição de quatro - É uma das posições mais humilhantes para a mulher, pois ela fica prostrada como um animal enquanto seu parceiro ajoelhado a penetra. Animais são seres que não possuem espírito, então o homem que faz de cachorro com a sua parceira, fica com a alma amaldiçoada e fétida.
2. Sexo Oral - O prazer de levar um órgão sexual a boca é condenado pelas leis divinas. A boca foi feita para falar e ingerir alimentos e a língua para apreciar os sabores. A mulher que engole o sémen não vai ter filhos. E o homem somente sentirá dores musculares na língua ao sugar a vagina da parceira.
3. Sexo Anal (Sodomia) - O ânus é sujo, fétido e possui em suas paredes milhões de bactérias. É o esgoto propriamente dito. No esgoto só existem ratos, baratas e mendigos. A pessoa que sodomisa ou é sodomisada iguala-se a um rato pestilento. O seu espírito permanece imundo e amaldiçoado. Mas o pior é quando o ato é homossexual, pois o passaporte dessa infeliz criatura já está carimbado nos confins do inferno.
Segundo a cartilha, este é a "maneira correcta do relacionamento sexual:"
O homem e a mulher devem lavar suas partes com 1 litro de água corrente misturado com uma colher de vinagre e outra de sal grosso. Após isso, a mulher deve abrir as pernas e esperar o membro enrijecido para a penetração. O homem após penetrar a mulher, não deve encostar seu peito nos seios dela, antes deve manter distância por a fêmea deve estar rezando aos santos para que seu óvulo esteja sadio ao encontrar o espermatozóide. Depois do ato sexual, os dois devem rezar, pedindo perdão pelo prazer proibido do orgasmo. Como penitência, o açoite com vara de bambu é aceite como forma de purificação.”
Haja Deus!
Publicado por Teresa C. às 05:54 PM | Comentários (9)
novembro 02, 2008
O “GRANDE RÚSTICO” E A "GRANDE ALFACE”
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Van Oostzanen
Amar o Porto não é para qualquer um. Requer berço ou prolongado viver. Pressentir o aroma das bouças, meada a distância de Aveiro para cima. Conhecer do Porto os verdes e azafamados arrabaldes rurais. Ter aprendido a gostar da exaltada frialdade marítima, do cheiro a maresia e da morrinha na face. Guardar o sabor das rabanadas degustadas em pleno estio na pensão anónima pras bandas de São Bento. Ler no granito a luz que ao céu parece fugir. Em cada pedaço de mica e feldspato ouvir o orgulhoso testemunho de no lugar ter dealbado a nação que da cidade contêm o nome. Pressentir a luxúria no donaire das mulheres que nas calçadas tecem enredos com o pisar dos tacões. Saber ao lado a Lello, o Majestic e a Foz. Cidade com vinho que baptizou e pelo mundo afaga palatos.
Olhando de baixo para cima, que é como quem diz da “Grande Alface” para a Invicta, é estranhado o labor, a austeridade parda e o falar. Envaidecidos pela ausência de sotaque, garantem ser falado em Lisboa o português comum, enquanto no “Grande Rústico” – assim os «alfacistas»* vêem o Porto – são trocadas letras entremeadas com palavrões. Sei de um lisboeta que pela profissão foi “desterrado” para o lugar onde li começar o Sul. Testemunhou: “Nunca me habituei ao falar à «moda do Porto». Não padeço de snobeira, apenas em Lisboa não se fala assim. Enquanto andei lá em cima, todos os natais saímos de carro, eu e o meu chefe de vendas, para presentear com cifrões os polícias-sinaleiros. Como ele falava com os polícias!... Indescritível. Em Lisboa, ia preso pelo final da primeira frase. "«Oh meu cab...toma lá uma prenda aqui do dótori, compra um casaco de peles à tua mulher pra ela não ter que sair à noite!» O polícia respondia: «Oh seu Moreira, obrigado, muito obrigado, deixe lá que eu não tiro o olho daquela pu....!»”
Ler o que falta, somente aqui.
Publicado por Teresa C. às 07:38 PM | Comentários (2)
novembro 01, 2008
MORTE-VIDA ASSÉPTICA
É de mau gosto sofrer perante alheios. Regras “bobonescas” de etiqueta duvidosa impõem que os enlaçados ao morto por afectos usem óculos escuros e funguem discretamente, caso as lágrimas teimem em correr. Nem na hora da morte o chic desdentado ou inventado dá tréguas aos sentimentos. As capelas funerárias fecham a horas compatíveis com ceias familiares ou copos para esquecer. Os velórios de terços, cheiro e fumo de velas, arrebatamentos dolorosos traduzidos em gemidos e choro, do disse-que-disse murmurados até o sol nascer, do luto das culpas dos vivos pelas múltiplas omissões de ternura ao finado, foram para não mais serem. E os que ficam são compelidos ao esquecimento pelo pragmatismo social da inutilidade do penar por quem era, mas já foi.
Chorar em liberdade o morto amado parece direito esquecido. Deve ser coisa das HOLAS! lidas entre o arrepelar da escova e o ponha-agora-a-mão-de-molho. Aquela gente dos bonecos impressos em papel couché fornece a imagem de “OK, chorar só com estilo.” Antes do funeral, parece ter-lhe sobrado tempo para cabeleireiro e disponibilidade para escolher roupa elegante adequada à ocasião. Nas capelas com design e bom parecer, carpem entre cumprimentos e beijinhos e coroas entregues por paquetes fardados de reputadas floristas.
Depois, há que esperar vez para a cremação do infeliz que "já lá está" e, ainda assim, atrapalha osvivos que anseiam regressar à vidinha de sempre. Ao sétimo dia, congregam-se em missas os obrigados pela herança e os amigos que, injustamente, servem para as ocasiões. Os vivos do morto passam o ritual em silêncio. Quando muito, dizem “ámen”. Católicos de baptizados, casamentos e funerais que, na ausência de convicções religiosas, se acham obrigados às regras “bobonescas” do bem saber estar e parecer. Subservientes e bajuladores esquecidos do que os leva ali, mas lembrados das vantagens de apagar anteontens a troco de rituais.
Publicado por Teresa C. às 09:07 PM | Comentários (0)





