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novembro 19, 2008

MENINAS DE BEM NO TEMPO DAS VERGONHAS

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Alain Aslan

Até 24 de Abril de 1974 era amargo e doce ser menina. Não fosse uma canastra almofadada por cobertor gasto, ou berço tomado por empréstimo caridoso que no nascimento a acolhesse, corria manso o crescer. Cedo dava conta que as aparências e a paz familiar recomendavam à mãe e às outras matriarcas atitude subalterna e passiva. No liceu - os muros iriam apartá-la dos alunos modestos da escola comercial – constataria que a moldura onde cabia vigorava desde 1872. Fora descrita tal e qual por Ramalho Ortigão: “Ninguém a instrue, ninguém a distrae, ninguém procura tornar-lhe a existência doce e risonha, dar-lhe o nobre orgulho de ser amada, querida, necessária no mundo para mais alguma coisa do que lavar a casa, coser a roupa e cosinhar a comida”.

Chegada a menarca, do inesperado sangue quente escorrendo nas coxas, pouco as mães explicavam. Insuficientes as conversas com colegas e amigas – não constava do bom tom que “meninas de bem” delatassem «vergonhas» femininas. Era tempo de relembrar a história do Capuchinho Vermelho - metáfora sobre a preservação da virgindade (tesouro e parte do dote), que associava ao despontar da sexualidade males e perigos traçados pelas manhas dos lobos-homens. E a crescença decorria vigiada pela tirania das normas sociais e familiares. Mas havia almoço em casa. Presença na chegada do liceu. Tempo de estudo. Lugar para a leitura. Conversa do pai, que a mãe secundava durante o jantar. Tudo polido e bem comportado. Desenhado à mesa o futuro da menina – licenciatura e casamento branco.

O primeiro orgasmo, acaso do sono ou surpresa na vigília, a menina guardava para si. Acontecimento estranho, pressentia pouca-vergonha que murmuraria na confissão. Acto pecaminoso se provocado, como tudo que arribasse ao corpo e não fosse contemplado no rol do dizível. A castidade no despir e vestir era ensinado pelas mães – peça de roupa tirada quando outra cobrisse a pele. No colégio, aprendia bordados, tricô, costura e veniais infracções. Era tolerado num beijo experimentar frémito pela penetração da língua quente de um rapaz, sendo cumpridas duas condições: idade adequada e namoro sério aprovado pelos pais. Às escondidas, ainda assim.

As meninas cresciam envoltas em medos e riscos. Não casar era um deles - vergonha “ficar para tia”. Obrigatório sangrar na noite de núpcias. Ser mãe. Boa esposa. Uma profissão, sim, se à perfeita vida doméstica não causasse rombo. E as meninas sentiam os pedidos do corpo, quando apenas ao espírito submisso era reconhecido direito. Refugiadas nos livros, gira-discos e televisão, ganhavam formas e altura. No horizonte, as desejadas vergonhas do sexo e do acto de parir. Sangue e dores como penitência. Por tudo, ansiado e temido o futuro como mulher.

De Neil Jordan, um filme inesquecível de 1985 – A Companhia dos Lobos. O Capuchinho Vermelho como metáfora que o cinema também imortalizou.

Nota: texto publicado aqui.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às novembro 19, 2008 08:43 PM

Comentários

Texto maravilhoso. Beijos Tati.

Publicado por: justo às novembro 20, 2008 09:31 AM

Bonito texto. Mas triste, se nos recordarmos da condição feminina, na actualidade, em muitos paises...

Publicado por: ejsantos às novembro 20, 2008 01:48 PM

Justo - obrigada querido Amigo.

Ejsantos - e quanto acerto lhe cabe na sua observação... Obrigada pelo comentário e pela visita.

Publicado por: Teresa C. às novembro 28, 2008 07:59 PM

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