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dezembro 21, 2008
DUAS CHÁVENAS DE CHOCOLATE QUENTE

Steve Hanks
Num domingo finda ou inicia a semana, segundo os credos vários que fidelizam clientes. Seja útil ou inútil o dia, ele caminha, curvado, vigiando o estaleiro das construções em curso. Indo alta a noite, vejo-lhe a silhueta recortada no contra-luz dos holofotes que encimam as gruas. Pelo escuro do que devia ser manhã, fosse outro o fuso ou a hora oficial, prossegue, cabisbaixo, a vigilância.
O vento torce os plátanos despidos. Adivinho o frio que lhe enregela pensamentos e rosto. Por só lhe conhecer a silhueta obscura, ignoro o tom da pele que, antes da roupa, o veste. Emigrante de primeira ou segunda geração, quase juro – aos nacionais é mais favorável a jornada de trabalho soalheira.
Olhando-o da porta-janela, findo o serão de letras, óleos e conversa, repetidamente me apetece descer à rua e entabular conhecimento. Talvez duas chávenas de chocolate quente na mão. Talvez um conhaque para ele e um chá verde para mim. Como receberia o vulto gesto tão inopinado? Talvez nem fale português. Talvez nos entendamos na língua solidária de humanos que um do outro querem saber. Talvez lhe pareça extraordinária a figura envolta num polar com as calças de atilhos a espreitar. Talvez rejeite o gesto e a surpreendente proximidade o confunda. Por isso o olho de cima. Por isso seguro entre as mãos o primeiro café fumegante da manhã, desejando-lhe, sem que ele o saiba, “bom dia!”
Publicado por Teresa C. às dezembro 21, 2008 10:52 PM
Comentários
eu sou gay e dai
Publicado por: cesar às dezembro 26, 2008 09:36 PM