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dezembro 20, 2008
NEVA EM MANHATTAN, ARDE O LINHO

Andrew
Há quem ao excelso sentimento de paz associe abulia. Vontade e desejo hibernados, quiçá defuntos repousando no esquife do quotidiano sem esperança. Ao falar assim, é esquecido outros experimentarem a serenidade, chamo-lhe paz!, enquanto conservam acesos espírito, sentidos e gozo na passagem pelo tempo em que são. Abolir ilusões, o escaldar dos afectos, os desafios que a todo o momento acenam - basta não dispersar a atenção -, o incomensurável poder de dizer sim ou não contraria a serenidade que entendo.
Sinto a paz como lençol de linho seco ao sol e perfumado com a alfazema dos pequenos sacos cheios, pelo final do estio, com as flores ainda tenras. Lençol como tela branca. Como folha de papel de desenho que aguarda traço a carvão. Como folha alva que o monitor, à espera das letras, pode ser. Lençol que regista o tumultuar erótico dos corpos. Que se habitua à ausência de fronteiras na pele.
Estar em paz permite saber que o Natal será branco em Manhattan e sentir, em cachão, a vontade de a vinte e seis só parar no J.F.K.. De escrever um e-mail à Teresa Nobre, a concretizadora dos meus insanos repentes. Numa linha pedir: “Voo para Nova Iorque a 26, regresso a 3 de Janeiro. O hotel do costume.” Depois, suspender o gesto de premir o «enviar» por saber dos lençóis de linho onde as almas e os corpos ardem.
Publicado por Teresa C. às dezembro 20, 2008 01:49 AM