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janeiro 23, 2009

ESTA COISA ESTICADA À BEIRA-MAR

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Ernani Oliveira

Na enregelada Islândia, a ilha geologicamente mais nova da Europa e das últimas a ser habitada por humanos, a temperatura emocional subiu abruptamente. Os islandeses perderam a compostura tranquila que o verde das pastagens emoldura. Três mil manifestantes, alguns batendo panelas e destruindo o (im)possível, tiraram o sono à polícia habituada a calmaria. Com mais prados do que povo, viesse no Brasil para a rua semelhante proporção de gentiaga e seriam dois milhões bem contados a transtornarem a cabeça e os cassetetes dos polícias. O mesmo que um quinto dos portugueses enxameando, em simultâneo, o largo fronteiro a S. Bento. Caos e catástrofe.

Os islandeses eram, até há meses, dos mais ricos habitantes do planeta. A inflação de dezoito por cento deixou-lhes rotos os fundos dos bolsos e ao governo as calças com fundilhos. Os bens essenciais aumentaram de preço trinta por cento, enquanto o valor da moeda desceu quarenta e cinco por cento. Sem advogar que o mal dos outros é conforto, esta coisa esticada à beira-mar ainda gatinha na crise financeira. Não houvessem sinais evidentes de se descoserem, lentamente, os fundos dos bolsos portugueses, quase devíamos prostrarmo-nos num hossana sentido.

“Quando a confiança se foi, TUDO se foi”, gritava um cartaz manifestante. Talvez a nossa quietude em tempos tão ventosos advenha da enfezada confiança tradicionalmente sentida. Habituámo-nos. “É a vida!” “Quem na escada mais alto sobe, mais balança!” Melhores estão do que nós por já terem experimentado bem-bom digno, enquanto por aqui nunca houve toupeira que escavasse buraco para enterrar a secular pelintrice. E, num encolher de ombros, vamos diminuindo o peso dos sacos com os bens indispensáveis e as «bicas» de cada dia. Na rua, arrefecem à chuva as castanhas assadas. Razão outra para chorar o fado e extravasar a melancolia.

CAFÉ DA MANHÃ
Vera Mar
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às janeiro 23, 2009 02:18 PM

Comentários

Ora viva!

O título, apelativo, fez-me pensar noutra coisa (que não digo).

Ora... até parece que ando por aqui a catar deslizes... bem pelo contrário, quadros felizes!

Mas ainda o gelo, o vento, a chuva parecem contribuir com forças arras(t)adoras para (re)tirarem da narrativa algo (in)significante, que só se (de)nota pela habitual perfeição.

Será que estou a propor-me a um novo (apetitoso) pedido de ajuda? hehehe

Mas não me parece que esteja satisfeito com a alternativa da toupeirice invocada, pois mais sugere destruição de vitais raízes em fresco solo plantadas.

A alternativa existe... mas teria que recorrer a bichos escavadores de buracos mais vocacionados (e musculados) para a dura tarefa de enterrar a (nossa) ancestral pelintrice.

Disse.

Ri-se?

Admiravelmente!

Publicado por: zeka às janeiro 24, 2009 03:01 AM

Zeka - dou de barato que o texto acima é «coisa» menor. Equivoquei-me no bicho, equivoquei-o no título. Já lá para trás, troquei um "descia" por "subia". Não fora o seu precioso esclarecimento e continuaria a ler sem ler. Mas cate. Cate, por aqui deslizes. Nem imagina o prazer que me dá saber-me lida criticamente! E sim, ri. Ri com o gosto de quem não se tem em grande conta.

Admiravelmente,

Teresa C.

Publicado por: Teresa C. às janeiro 25, 2009 10:15 AM

Publicado por: xcskzfdn às outubro 22, 2009 10:56 AM

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