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janeiro 16, 2009

VAI E VEM-TE NA NOITE CAÍDA

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Silva Palmeira

Dos dias são esperadas surpresas, é sabido. Ainda bem! Fossem paus-mandados da previsibilidade e os humanos definhariam. A novidade que arredonda os olhos e espevita, pelo espanto, os ouvidos, é sal e pimenta das horas corridas. Nos que afirmam “Já nada me surpreende!”, não acredito. Frase cínica, entediada ou revelando sobranceria. A imunidade contra a surpresa não existe.

Ela nem lembrava o compromisso que assumira, semanas antes, para o dia seguinte. Como anfitrião, um Homem de excelência. Amostragem do corpo diplomático, da igreja oficiosa e da política. Próximo o sono, arrebanhou peças de roupa e acessórios que a ocasião servissem, isentando o risco de overdressed na parte inicial e restante do horário de trabalho do qual a recepção seria interlúdio. Abotoou o mouton pérola até ao pescoço de modo a esconder a saia de cós subido em veludo turquesa e o camiseiro justo. Tudo revelaria quando no bengaleiro do hotel recebesse a chapa devida.

Passada a oficialidade do acto, copo numa mão, prato na outra, guardanapo de pano dobrado na beira da porcelana, cumprimentou, reviu rostos afáveis e, por tudo, a boa disposição cresceu – da qualidade sofrível do vinho branco gelado esteve omissa a causa.

Um sorriso, conhecido de anteriores eventos, sobressaiu. Homem lindo pela irregularidade dos traços. Voz quente. Olhar diferente do lembrado – irreverente, falador à revelia do discurso social, íntimo pela fundura. E da fala silenciada ambos ficaram presos. Deixados a sós por instantes eternos, foi pedido o número do telefone dela. Que não, que o indagasse, que lutasse por obtê-lo. Lutou, indagou e obteve. A tarde foi diálogo escrito.

Noite descida já os sentidos e os corpos a distância misturava. Vai e vem-te ebuliente entre sussurros, desvairados gritos e o vernáculo consentido que a insanidade pedia. O desejo nas teclas, a voz como estuário do rio em êxtase. Um de muitos, pensou ela, pelo «k» substituto do «q».

No dia novo, ela pensava no tudo-nada acontecido. Que dele pretendia, afinal? O doce sabor da ilusão da conquista. Que dela mais quisesse do que gruta e vagidos. Que não lhe possuísse o corpo sem dela conhecer o espírito. E o pseudo-café, sugerido para a nova noite caída, foi adiado; nunca pela surpresa - a essa anuiria -, mas pela sugestão de serventia que os corpos constituíam.

CAFÉ DA MANHÃ
Vera Mar
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às janeiro 16, 2009 05:21 PM

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