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fevereiro 19, 2009
«DESENCAMADO» BEM-QUERER

Lorenzo Sperlonga
Há quem os desminta. Quem avente sublimação de cama por consumar. Hipocrisia. Estratégia talvez – hoje não, amanhã sim. Rodeio emocional dos tímidos, inseguros, cobardes porque não? Há quem os diga falsos pela ausência de liberdade interior. Enredados em ditaduras convencionadas (desejadas?): o bem-parecer, a fidelidade conjugal ou equiparada. Eles, mais do que elas, ouvem sirenes de aviso quando o estatuto é divulgado. Mas tem de ser assim? Porque das maiorias desconfio, ainda mais quando a pessoalidade da experiência nega razões para quixotescos duelos de argumentos, dispenso embates e continuo liberta. Sem feridas na contabilidade dos sucessos reais.
Um homem e uma mulher que se afirmam (julgam, concedo) amigos. O laço asséptico existe? Jamais! A pulsão erótica pode existir compatível com «desencamado» bem-querer. Dispensar toques e beijos. Viver da fala com falo entre parêntesis. E, porém, há um corpo, um rosto, olhares e tiques, lábios que se distendem, rir solto ou entreaberto. Há cheiro, mãos e cabelo. O porquê dum casaco ou duma tristeza rebelde ao disfarce. Do alheamento ou da intensidade da presença. E esta sim! – hoje é, amanhã talvez.
Quando uma mulher quer de um homem olhar outro que o género permite, pode ocorrer ausência de nexo nos vaivéns sensuais. Decisivos são os agrados na partilha dos pensares que aproximam esta daquele e menos doutrem. E porque a amizade é afecto, lembro do “Sinto muito” o excerto: "o verdadeiro milagre do amor, não é poder curar doenças insanáveis, mas adorar para além das palavras, quem é diferente, mais frágil, e muito nosso". Nuno Lobo Antunes
Publicado por Teresa C. às fevereiro 19, 2009 06:52 PM
Comentários
agradecido sem lisonja, que de aprender é feito o humano crescimento
será ainda assim possível, face à bondade da elucidação, ao acerto da exemplificação e à mestria da conclusiva citação, relativizar respeitosamente o "sem mas nem acrescentos" que seria, digo, é, merecido desfecho e primordial galanteio?
aproveitando quem sabe, terço fundas dúvidas mais que autênticos argumentos, se é que existem, se é que importam: inviabilizamos a possibilidade de amizade - estrita amizade, nem um sopro adiante - entre um homem e uma mulher? sem dúvida que não, de tão geral !
sem dúvida que por vezes basta um gostar mais dou outro do que o outro possa imaginar ou pretender e aí teremos outras possíveis evoluções, dispensemos cátedra em quid tão havido, filmado e visto
tal só quando entre ambos desponta o desejo? também não?
vejamos: se a seta de Cupido é biunívoca e actual, estamos conversados, tudo leva a crer que também sim!
isto com ou sem "pecado" - e entendamo-nos, abençoado seja o pecado, se for o caso, pois há vida sob a (9ª?) esfera dos anjos
agora não tem que ser assim, pelo menos não tem que ser definitivo, com ou sem consumâncias, pois linhos, sedas, algodões nada podem contra a humana e genuína força da amizade verdadeira e sã
olhemos os casais desavindos em que a amizade (pós-)perdura
olhemos quem se eleva aos inebriantes apelos e tudo sustem em relacionamento amigo seja em que ponto for do tacto, do cheiro e da voz, da cumplicidade e da saudade, da partilha física e espiritual, das conversas abertas e tácitas, dos entendimentos entendidos e subentendidos, da realização de projectos comuns, da construção conjunta de vivências de surpresa e alegria, de caminhar a par, de olhar a par, entrecruzadamente ou diferente, mas de frente
olhemos, quiça, a chama perene que alimenta - para sempre - quem se aproxima de consciência incólume em eterno equilíbrio entre formas várias de afectuosa expressão de nobres sentimentos, a a poder de ternura pura e dura, de fascínio instante, de respeito mútuo, pois então
e agora a líbido: presente desde tenra infância, mais cedo que o ideal passa de invencível a civilizadamente gerível, com e sem banhos frios ou patês e bacalhoas (uau) à luz de normativos individuais, sociais ou (?) universais, sempre subsumíveis a tempos e modas, que a todos irremediavelmente polinizam em variável grau
ou seja, a alma pode ser grande, sempre!
claro que há campo aberto a todos os sentimentos para aquém e além do sexo
é lá caso para extirpar o charme do sexo, consumado ténue, intensa ou nemporissomente?
se de gente somos feitos... e boa !!!
de todo o modo, T., é bem vindo o aviso, como cantava bonito o Vinicius:
«São demais os perigos dessa vida/
Para quem tem paixão, ...//
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher//»
precioso, pois é?
quanto ao parágrafo final, a que se poderá atribuir sentido específico, lembremos Madre Teresa de Calcutá, cuidando ternamente do mais andrajoso mendigo, superando a repulsa com a sua humanidade e respondendo ao perplexo beneficiário: abeiro-me e dou-me porque te amo!
Publicado por: António às fevereiro 20, 2009 01:36 AM
António - esmagou-me! E mais não tenho para dizer.
Publicado por: Teresa C. às fevereiro 20, 2009 02:46 AM
castidade alguma vez isenta de pecado?
a descoberta, o chamamento, o rubor que antecede, antevê ou antecipa a incandescência são já cinza?
jus ao brocardo gaulês: toujours plat, jamais tonique?
meditemos!
e ao caminho !!
... pois, sem caminha!!!
Publicado por: ora et labora às fevereiro 20, 2009 03:30 PM