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fevereiro 28, 2009
"SABARBIAN" INAUGURAL

Leight
“- Tens fígado?
- Já o vomitei há muito tempo.
- Tens pâncreas?
- Não. Está em vinha-d’alhos.”
De alhos e de graça e raciocínio e conteúdo que valem além do continente. De um muito que entre paredes de nocturnas soalheiras vem à tona. Quando o «ser» importa, que as normas sejam derrubadas, que o riso, com ou sem aditivos, sobressaia. Que a lógica fique embrulhada quando um homem de ciência explica às Letras, durante minutos em demasia, o fenómeno da difracção sem o ter enunciado antes. E a filósofa naquela do não te entendo mas a tamanho empolgamento deixo omissa a ignorância primeira e substancial. Ele, etílico e (de)fumado, vogando no paraíso da alegria sem freios.
Mais havia. O Pintor que não digeria tanta vibração cromática. Entre a perplexidade e o desgosto. A tela em fundo. As oliveiras esparsas em horizontes multiplicados. Verdes, texturas, ocres, cinzas, o encarnado e verde português. Ela de nariz colado à obra aprendendo e avaliando na subjectividade doutrem a sua. Leituras entrecortadas por profundidades implacáveis ou não fossem Pessoas as gentes.
Do sociólogo viriam questionamentos de quem à esgrima de conceitos – ciência, método ou falta dele – não recua. Serenidade. Olhar denso no pensar interlocutor. Rindo, depois, sem amarfanho. Pelo contexto, pela revelia da razão às tantas dormente na “Sabarbian” inaugural. E na palidez da noite, nos corpos dançando impossíveis de eras distantes, os chamamentos entreteceram melodia sem registos outros que às lembranças não pertençam.
Publicado por Teresa C. às 05:31 PM | Comentários (3)
fevereiro 27, 2009
RODOPIO ESTACIONÁRIO

Frenesi. Fantasia. Falácias com etiqueta pendurada. Saldos. Sonhos ao desbarato. Amanhã, oficialmente terminados, como soe acontecer nas vidas. Renascidos, qual fénix, assim a conjuntura os enquadre.
Os logistas afirmam terem recomposto balanços de lucros. Proventos inesperados pelos apertos que a crise, e dela o medo, manieta os portugueses. Mas não. Esvaziaram stocks de monos. Setenta por cento a menos desinquieta quem sabe do bolso furado e não chega às novidades de estação. Por isso veste o Outono /Inverno passado no que será futuro e nos frios de Primavera/Verão. Estações trocadas pelo cinto apertado do desemprego, das dificuldades, do haver que definha.
Saldos enterrados, promoções começadas. Movimento em roda que alicia ao gasto de trocos – para mais não dá o pó das sobras da conta bancária e do crédito limitado.
Publicado por Teresa C. às 11:24 AM | Comentários (0)
fevereiro 26, 2009
GORDURA NO PENSAR E NO VIVER
Milo Manara
Dizer sim ou não. Aceitar ou reflectir e concluir a recusa. Malquista. Malvista. Primária, rígida atitude do ser, mágoas encarquilhadas, defesas de ouriço de quem teme o advir.
No presente, mulher que não se abandone no precário enlace da curtição merece olhar de soslaio, classificações pendulares entre o complexa, esquiva, enigmática, frígida, lésbica porque não? E a mulher pasma. Não acredita. Julga ouvir vozes de aléns preconceituosos sem extremos por onde possa pegar e construir raciocínios lógicos.
Arribámos ao ponto da diferença ser defeito? Da lealdade do dizer “não estou apaixonada por ti e por isso não me entrego de alma e corpo feito” ser imperfeição? Que homens existem por aí? Quais as coordenadas da subjectividade dos valores os ordenam? Que “dor de corno” disfarçam, utilizando o vernáculo que todos sabemos e vezes demais, vindo a propósito, omitimos?
É tão fácil dizer sim! Mais do que rejeitar consciente. Ser pusilânime é actual e favorável modo de estar? Quem não cumpre os clichés é bicho estranho, mais parece. Desajustado. Ser do qual o siso aconselha afastamento. E a mulher que pasmou e se avaliou criticamente manda ao lugar «eme» tamanha enormidade.
Publicado por Teresa C. às 11:20 PM | Comentários (2)
fevereiro 25, 2009
NORMALIDADE E (ARCE)BISPOS

A Origem do Mundo - Gustave Courbet
Em Braga, a obra “Pornocracia”, na capa o sexo duma mulher, mereceu desvelo policial. Num ápice, surgiu auto e apreensão dos cinco exemplares por atentarem à paz das almas locais. Olha se crianças e impolutas gentes se quedavam perante a exuberância da pelagem e a fartura das coxas da despudorada mulher?!... Pornografia numa feira de livros em saldo competindo com feiras outras de turcos e enchidos sem desconto promocional é admissível? A polícia disse não. Apreendeu as razões do escândalo público e seguiu para a esquadra com a maldição escrita nos bolsos. Pouca sorte! A imagem que encapa o livro reproduz “A Origem do Mundo” do pintor Gustave Courbet, fundador do realismo oitocentista. Pornografia de antanho, só pode!
Cidade dos Três Sacro-Montes. Cidade Barroca. A Roma Portuguesa. Lugar das muitas praças e igrejas, de arcebispos, centro de estudos religiosos, das tripas partidas no feijão ou enfarinhadas, do Bacalhau do Pudim Abade de Priscos que do toucinho toma gordura e travo. Granito esculpido, liso, enrugado enquadra o coração do Minho província e católico. Conservador. Aos “bons costumes” obedece por fora. Sabe Deus o que vai dentro.
Publicado por Teresa C. às 10:56 AM | Comentários (6)
fevereiro 24, 2009
“PEDRO E A CRISE”

Autor que não foi possível identificar
“Ou estou enganado (o que sucede com notável frequência), ou a história de Portugal é decalcada da história de “Pedro e o Lobo”. Alteração: em vez do clássico, é “Pedro e a Crise”.
De acordo com especialistas, Portugal está numa profunda crise. Ao que parece, 2009 será complicado. 2008 já foi difícil. No final de 2006, o empresário Pedro Ferraz da Costa avisava no Diário de Notícias que 2007 não seria fácil. Verdade que não era difícil de prever tendo em conta que, em 2006, analistas detectavam o país numa crise funda.
Em Setembro de 2005, Marques Mendes, então presidente do PSD, desafiou o primeiro-ministro para ir ao Parlamento debater a crise económica. De acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal, entre 2004 e 2005, o nível de endividamento das famílias portuguesas aumentou de 78% para 84,2% do PIB. O problema de 2004 foi um prolongamento da grave crise de 2003, ano em que a economia portuguesa regrediu 0,8% e a ministra das Finanças voltou a pedir contenção.
Pior que 2003, só talvez 2002, que deixou, como herança, o maior défice orçamental da Europa, provavelmente em consequência da crise de 2001. Sequência prevísivel dos ataques terroristas aos Estados Unidos. No entanto, segundo o professor Abel M. Mateus, a economia portuguesa estava em crise antes do 11 de Setembro.
Retirando aqueles seis meses da década de 90 em que chegaram uns milhões valentes vindos da União Europeia, Portugal esteve em permanente crise. Por isso, acredito que a próxima seja cruel. Mas se uma qualquer crise quiser impressionar-nos terá, pela frente, trabalho sério. Crescimento zero, para nós, é amendoins. Pequenas recessões comem os portugueses ao pequeno-almoço. 2009 só assusta europeus que têm crescido acima dos 7 por cento. Quem não foi além dos 2%, não se preocupa.
É tempo de agradecer aos governos que tudo fizeram para não habituar mal o país. A todos os executivos que mantiveram Portugal em crise desde 1143 até hoje, agradeço. A eles devemos ser o povo da Europa melhor preparado para enfrentar a crise.”
Nota - Adaptação do texto amavelmente enviado pelo António Eça de Queiroz
Publicado por Teresa C. às 03:25 AM | Comentários (4)
fevereiro 23, 2009
NO ARREPIO DOS ÓSCARES E CARNAVAIS

Elizabeth Austin
Os discursos dos ganhadores são pico que as audiências da festa das festas de Wollywood não dispensam. Cada um tentando fugir à trivialidade classificativa: disparatados, lamechas, tediosos, cómicos e políticos. Kate Winslet, ganhadora do boneco para melhor actriz, optou por registo misto ao reproduzir o speech que aos oito anos ensaiara (...)
No Brasil, o samba move mundos e fundos, bundas e mamas, poderosos e pobretes, alegria e biliões de chopinhos. Das instituições cariocas, Copacana e Maracanã, o chopinho do fim de semana é uma delas. Já não é ofensa a música de Noel Rosa: “transformar o lar em botequim.” (...)
Na rádio, as graçolas revelam-se incompetentes para elevar o nível carnavalesco. É notícia a Picha aldeia. Ouvidos os habitantes. Incomodados pelo nome? Uns sim, outros não como é próprio das gentes. Mudar o nome? Cabra assim o fez pela vontade dos aldeãos e do concelho. (...)
Publicado por Teresa C. às 09:17 AM | Comentários (2)
fevereiro 22, 2009
SAP AO DOMICÍLIO

Richard Savage
Abeiradas as horas da luz de Edison, corpo melindrado por treino intensivo em máquinas implacáveis, apetece a casa. Qualquer proposta que do fito desvie a intenção e o facto não merece acolhimento favorável. A suavidade do sentimento de pertença ao útero fiel rejeita contrariedades que dele obriguem a galgar eixos e ruas, faróis em guarda, vestimenta e sons indesejados.
Sendo a «mania» conhecida pelos próximos, a recusa é aceite com a naturalidade imposta por sucessivas histórias rematadas com um “não, obrigada.” Teimosa, eu e eles, as sugestões dos desvios persistem e um sim chega inesperado. Consumada a saída do casulo, a larva goza a aventura, respira lugares e espíritos e toma de novo o gosto pelas luzes da cidade. Vez sem muitas vezes contadas.
Quem do outro respeita e partilha idiossincrasias, traz a saída para casa. SAP – Serviço Altamente Pantagruélico aqui lido num comentário – prestável, minucioso e atendido no momento, sobe na caixa metálica. Uma máscara de penas, um enfeite, arrojado «desvestir» e a noite desliza macia. Sem faróis, ruídos, ou corpos ocupados por espíritos insatisfeitos.
Publicado por Teresa C. às 02:36 PM | Comentários (2)
fevereiro 21, 2009
FICAM CANSADAS AS RUAS

Chris Achilleos
Entre carnavais tantos, penosamente arrastados no ano inteiro, chegado o sério, apetece o desembrulho da frase: “Carnavais há muitos, ó palerma!” Das sátiras e rebolados é o tempo. Dos carros alegóricos atafulhados de enfeites. Dos corpos seminus que o frio enregela. Dos eles que se fazem delas – quiçá manifesto desgosto por enchumaçarem o lugar de veras mamas – e daqueles bombos da festa pertencentes a todo um povo.
Arriscam portuguesas branquelas e brasileiras exportadas contrairem pneumonia a troco das nádegas ao léu sobrando das tangas. Meneiam ancas, enrodilham as pernas dependuradas em saltos. Purpurinas de mil tons disfarçam amarguras e rugas. Cartazes pindéricos, como estandartes puídos nas procissões, congregam descrentes no futuro.
Dos foliões falsos e fatelas, algumas ruas ficam cansadas. Desmantelada a festa sem graça e graças que espirrem risos, sobram detritos de gentiaga esfaimada por alegria séria.
Publicado por Teresa C. às 10:17 PM | Comentários (2)
fevereiro 20, 2009
“ESOTERISMO EM PESSOA E MAÇONARIA”

Jennifer Janesko
A Grande Alface anoitecida. Vívida para alguns que da luz natural finda esperam o melhor (cinquenta, não mais). Vinte anos de polícia científico – um "CSI, Crime Scene Investigation" do melhor. “Esoterismo em Pessoa e Maçonaria”, o mote. José Manuel Anes locutor e interlocutor. Prestes a acrescentar doutoramento em “Antropologia das Religiões.” Nos primórdios do currículo, licenciado em Química. Como, e sinto-me elevada pela coincidência, esta rabiscadora menor. Caminhos distintos. Notáveis, os dele. Apaixonados os de ambos. Anónimos os meus.
Antes, houvera repasto como cumpre em tertúlia digna do nome. Uma sopa abensonhada por sílabas, couve e feijão. Depois, a escolha entre prato de substância e filetes de ocasião. Da sobremesa não soube nem quis saber – o relento acolheu vício satisfeito entre a Estados Unidos e a Avenida de Roma. No entremeio, foram falados cães Serra da Estrela que dois hectares e meio acolhem em Palmela. A provocação foi minha: “Se não vieram do canil que sei, desconfio da pureza dos genes. Às tantas, tem psicopatas canídeos pelo múltiplo cruzamento dos genes como soe a quem ignora amor aos bichos e persegue lucro.” Que não, que eram fiáveis, conquanto não tivessem B.I.. Calei e entrei.
“Para negar Deus é preciso percorrer o caminho de Satã” ou, do Pessoa, o “Caminho da Serpente.” Jorge de Sena dele faria escrito: colecção de evocações esotéricas. Hino à liberdade e à lucidez. Na irregularidade do caminho pessoano, a afinidade à Maçonaria, viria no fim. Talvez iniciado nos ritos por Crowley, genial e louco, sito para além da moral e do dogma. Adicto ao êxtase, de toda a vida e morte. A magia sexual condimentada por químicos. A “Mulher Escarlate” que havia de escandalizar Lisboa e a Grande Ilha. O suicídio encenado com o José Ferreira Gomes. Isto e muito mais me embeveceu, ouvi e registei.
Do percurso da Maçonaria portuguesa, sobrelevo a Quinta da Regaleira dos meus amores. Propriedade, ao tempo de Fernando Pessoa, do Pedro dos Tostões. O mesmo que «namorado» durante um ano para financiar a «causa», foi pelo Pessoa descrito a Crowley: “O capitalista faliu!”
Os ritos e os falsos segredos da Maçonaria em Portugal são menoridades – miles away, o secretismo não existe. Importa saber que o Obama é maçon, como foram todos os presidentes dos Estados Unidos, excluindo Reagan, Bush I e Bush II. Que não fora o sentimento de pertença de Clinton à «causa», o processo da independência de Timor teria sido outro.
Podia transcrever do contador de histórias Mia Couto um pedaço do “Abensonhado”. Fico-me por miles away musicadas enquanto o «avental» não chega.
Publicado por Teresa C. às 02:41 AM | Comentários (2)
fevereiro 19, 2009
«DESENCAMADO» BEM-QUERER

Lorenzo Sperlonga
Há quem os desminta. Quem avente sublimação de cama por consumar. Hipocrisia. Estratégia talvez – hoje não, amanhã sim. Rodeio emocional dos tímidos, inseguros, cobardes porque não? Há quem os diga falsos pela ausência de liberdade interior. Enredados em ditaduras convencionadas (desejadas?): o bem-parecer, a fidelidade conjugal ou equiparada. Eles, mais do que elas, ouvem sirenes de aviso quando o estatuto é divulgado. Mas tem de ser assim? Porque das maiorias desconfio, ainda mais quando a pessoalidade da experiência nega razões para quixotescos duelos de argumentos, dispenso embates e continuo liberta. Sem feridas na contabilidade dos sucessos reais.
Um homem e uma mulher que se afirmam (julgam, concedo) amigos. O laço asséptico existe? Jamais! A pulsão erótica pode existir compatível com «desencamado» bem-querer. Dispensar toques e beijos. Viver da fala com falo entre parêntesis. E, porém, há um corpo, um rosto, olhares e tiques, lábios que se distendem, rir solto ou entreaberto. Há cheiro, mãos e cabelo. O porquê dum casaco ou duma tristeza rebelde ao disfarce. Do alheamento ou da intensidade da presença. E esta sim! – hoje é, amanhã talvez.
Quando uma mulher quer de um homem olhar outro que o género permite, pode ocorrer ausência de nexo nos vaivéns sensuais. Decisivos são os agrados na partilha dos pensares que aproximam esta daquele e menos doutrem. E porque a amizade é afecto, lembro do “Sinto muito” o excerto: "o verdadeiro milagre do amor, não é poder curar doenças insanáveis, mas adorar para além das palavras, quem é diferente, mais frágil, e muito nosso". Nuno Lobo Antunes
Publicado por Teresa C. às 06:52 PM | Comentários (3)
fevereiro 18, 2009
DAS VIDAS, O PORTÃO VERDE

Autor que não foi possível identificar
O portão verde é fim da rota do costume. Abre o parque de estacionamento reservado aos funcionários. Pela frente, nas previsíveis e sedutoras diferenças, dia igual aos outros. Enfia o casaco, tira a pasta, pendura a mala ao ombro. Caminha, apressada, rumo aos alegres “Bom dia!” e a curtos dedos de conversa - preâmbulo tranquilo da tensão de que retira prazer. Mas não. Lê tristeza nos rostos, que antecipara serenos. Agrupados em diálogos de mágoa.
Quis saber. Aproximou-se e nem precisou perguntar razão. “A filha da Ana está em coma profundo”. “Um acidente de automóvel lá pras bandas do interior.” Vinte e dois anos num corpo hesitando na travessia da ponte ténue que separa o respirar da quietude eterna. E viu, sem ver, a adolescente que conhecera, o rosto desfigurado da mãe e mulher e amiga e companheira de muitos anos de caminho profissional. No dia esperado anónimo, desapareceram sorrisos.
A precariedade sabida impõe-se à consciência quando a tragédia acontece. Na modorra quotidiana, são trocados por preocupações comezinhas os devidos hosannas pela graça da vida e dos afectos. Qual conforto, qual dinheiro-mais indispensáveis ao bem-estar? Suprimido o labor vital naqueles que amamos, conta o que foi dito e feito. Adiar a expressão dos afectos, escrevi ontem e repito, é acto frívolo.
Para quem o tempo conta é o momento de o adicionar aos favoritos e, podendo, por ali começar o dia informativo.
Publicado por Teresa C. às 09:57 AM | Comentários (3)
fevereiro 17, 2009
EXCLUÍDA A LIBIDO

Claude Théberge
Dispenso lugares comuns, pré-conceitos e conceitos obedientes aos estereótipos constantes dos mandamentos da “arte do bem viver social”. Tão saborosa é a cumplicidade amiga entre duas mulheres como a nascida com um homem que dá gosto incluir no restrito grupo dos colados pelo espírito. Cúmplices diferentes. Igualmente sedutores. Excluída a libido como universal UHU.
Nos registos que não albergam, ocultos ou explícitos, projectos românticos ou partilha de intimidades outras além da mais íntima de todas – o pensar e querer saber -, os gestos e a fala correm soltos. Oni soit qui mal y pense! Respire bem o cérebro e a alma brote leal, acumulo afectos/tesouros sem respeito pelo género. Lastimo quem não aproveita a riquíssima matéria prima dos pensares distintos das personas. Atributos sexuais estão fora das condições (restrições?) inerentes ao elo que dispensa a volúpia em lençóis comuns.
Por isso amo Pessoas. Por isso entrego e recebo alimento espiritual de quem um sorriso franco atende. Por isso, no trabalho, me maravilho com a D. Ester, a Susana, as Teresas, a Joana, a Celeste, com a frontal e genuína, Odete, com a sábia Baltina, com duas meninas-mulheres lindas – a Ana e a Lúcia –, com a Conceição Ramos. Afectos, também femininos, prezo e não refiro – por aqui, já foram inscritos. Dos Homens, recebo e retribuo a afabilidade do Luís Filipe, do Paulo, do Francisco, do Júlio, do Pedro, do Sapinho, do Manuel, do Domingos e dos queridos parceiros laboratoriais. Ordem aleatória. Jamais com eles e elas foi mantido contacto que ultrapassasse o horário laboral. Porém, sem todos, e alguns que calo para não estender o lençol, os dias úteis ficariam empobrecidos.
Porque amanhã não existe antes do acordar, perfilo-me entre aqueles que não prescindem de dizer agora o que não é garantido afirmar mais tarde.
Publicado por Teresa C. às 04:46 PM | Comentários (4)
fevereiro 16, 2009
EM VEZ DE SEXO, UM BACALHOA E PATÊS

Gennadiy Koufay
Para o colocar em su sitio, é preciso treino, paciência e cerrar os olhos ao partenaire. Talvez uma venda, a meia com liga rendada, a écharpe-nada em reserva para o após - o lenço de seda com franjas, amarrado num nó, substitui com vantagem qualquer acessório de provocação continuada. É do jogo sedutor, do tapa-desnuda que o sexo bom se alimenta. Com ou sem amor. Os feirantes dos bons costumes soem prevenir que sem afecto não «funciniuam». (...)
Publicado por Teresa C. às 07:19 PM | Comentários (0)
fevereiro 15, 2009
NO «D» ELE EXPLODIA

McGinnis
Ultimava os documentos adiados para o fim-de-semana. A ilusão do tempo alargado propiciava a calma que a corrida da semana diminuía. O branco e lima, a música em fio, a cor da das telas e das cerâmicas, as madeiras claras escreviam a palavra-mito e sentida que só ela lia: paz. Deste modo, o trabalho adquiria fruição própria do lazer. Por isso, e quando possível, o adiava.
No final da tarde, começaram as vozes. O prédio quieto também pelo isolamento sonoro dos vidros, portas e paredes, raramente falava. Mudo como convinha à privacidade do espaço compartimentado. Mas eram vozes principal. Talvez pela frincha da porta de entrada. Talvez porque iradas e esquecidas de acautelarem a intimidade.
Fechou o computador. Seleccionou as leggings, as botas com salto desafiador em verniz e camurça, a túnica justa terminada no peito por um «v» espraiado, a lingerie rendada. Preto seria. Enquanto cuidava do corpo, do rosto e atravessava a nuvem de perfume, persistiam os gritos vozeados. Tentou esquecê-los. Na noite insignificante de S. Valentim, apenas o prazer do dia, culminado pelo jantar e pela noite alta, contava.
Entre o cerrar à chave a casa e o vem do elevador, soube o dito e a origem do desassossego. No «D» ele explodia: “Não vou sair se estou triste e magoado. Faz o que entenderes. Comigo não contes. Aliás, para nunca mais nem para nada.” “Volta! Volta!” foram as palavras que ela chorou. Sentiu a alma pesar. Os desencontros das gentes, tantos deles ociosos, interpelavam-ma. Entrou no metal do elevador. Olhou-se ao espelho. Mirou o sorriso subitamente triste e forçado.
Publicado por Teresa C. às 08:52 AM | Comentários (2)
fevereiro 14, 2009
AQUILO QUE AO UMBIGO NÃO PERTENCE

Janice Northcutt
Já uma mulher não adormece sem ser chamada à pedra pela conjuntura internacional. E se ela tem mais com que se entreter do que importar problemas e duras realidades que às do país acrescente. Isto porque a ela os dias correm doces mas não esquece o mundo que ao umbigo não pertence.
O Afeganistão consome vidas como nenhum. Desde 1989, cem mil soviéticos e um milhão de afegãos morreram. De nada serviram as mortes e os lamentos dos vivos. Hoje, os talibãs combatem sozinhos sessenta mil militares da NATO. Do ópio fazem sustento e arma. Eficaz, ou não seja antevista solução diferente da negociada. Obama é actor principal dum filme que herdou. Produção internacional. Como actores secundários, os mojahedin e a Al-Qaeda.
Dos ânimos acicatados pelos ódios e mau-viver, nenhuma melhoria é esperada. A comunidade mundial que pense e analise e saia da respectiva pele para vestir a de um povo farto de desesperança e caixões.
Publicado por Teresa C. às 02:01 AM | Comentários (0)
fevereiro 13, 2009
A, B, C, D

Alain Dumas
A, B, C, D. Viajante, advogado, publicitário e investigador. Disperso, ardiloso, exagerado e contido segundo os estereótipos comuns. Rótulos baralhados. Contrários à sequência. Fosse jogo de entretém fazer coincidi-los com os personagens, a solução seria: ardiloso, exagerado, contido e disperso. Ela como pólo agregador de parte das horas de quatro homens. Cinco vidas.
Alturas chegavam em que o dia, fraccionado em momentos, englobava os quatro. A ordem do alfabeto sem correspondência com as partilhas acontecidas. Pelo trabalho, pela vontade deles, pelo acaso, ela sentia quatro olhares distintos e intensos, quatro aromas, o dobro em mãos faladoras. Três fatos e outras tantas gravatas – D fruía do luxo da informalidade no trajar.
Nos diferentes registos, ela movia-se com agilidade e prazer. Ouvia três “petit non” – o da infância, o mimalho, o «gazela». Este preferia. Um dos homens acertava ao não dispensar os dois nomes constantes da certidão de baptismo. E ela dissolvendo prazer na fala, nos gestos, no caloroso acolhimento que cada um lhe merecia. Ao pensar a aparente dispersão de afabilidade, para si desmenti-a. Sabia-se múltipla em interesses, faces e nas imagens que espelhos vários dela reflectiam. Um dos quatro dissera: “não existe homem que complete um poliedro com tantas faces.” “Engano!”, respondera. Qualquer ser humano possui muitos ângulos na matriz que os instantes revelam. O desafio vem daquele que a sabe ler e nas prioridades condiz. O resto? Diferenças-riqueza como fases da lua que fazem crescer a maré do sorriso.
Publicado por Teresa C. às 12:04 PM | Comentários (0)
fevereiro 12, 2009
ONDE SE FALA DE SOBREIROS, VACAS E «TÊVÊS»

Steven
Ai que o Sul apenas desanda! Em Setúbal, a Quercus não foi a tempo de evitar o abate de mais dos 1300 sobreiros que ocupavam o espaço destinado a urbanização na “zona nova” da cidade. O projecto «Nova Setúbal», com oito anos de idade, inclui centro comercial e apartamentos. Aproximadamente, 30 mil camas. O Governo assentiu ao abate. A Quercus piou tarde.
Nas regiões de Nisa, Castelo de Vide, Avis e Portalegre, centenas de vacas aparecem mortas sem razão aparente. Como causas, pastagens deficitárias, a chuva prolongada e rataria anormal. Os empresários agrícolas sofrem consequência da crise, desta vez, meteorológica. Não são os únicos. Os portugueses deprimem na proporção directa dos dias pingões e cinzentos. Antes da deita, engolem ansiolíticos que os anestesiem durante horas de sono induzido.
Mas o Sul continua em baixa/alta. Ali residem os maiores consumidores de televisão do país - quatro horas e meia por dia. Característica das classes desfavorecidas como é afirmado num estudo da Marktest. O número de «teledependentes» cresce em Portugal. Os idosos e as crianças até aos catorze anos deleitam-se com as «têvês» - no ano findo, três horas, 35 minutos e um segundo por cabeça. Aumento de quase três por cento em relação a 2007. Nas crianças, a dependência atinge oito por cento. Espectadoras solitárias, bastas vezes. Incompreensão, imagens e mensagens amalgamadas que confundem os egos infantes.
Publicado por Teresa C. às 10:25 PM | Comentários (2)
fevereiro 11, 2009
“CASAMENTO, ASPAS” SEM CREME

Larry Vincent
Desviar crentes, jovens em particular, de caminhos “perversos” que façam perigar “valores instituídos” preocupa os altos dignitários da Igreja Católica portuguesa. Com apuro, instruem os pastores para não permitirem o tresmalho dos rebanhos. Delimitam as pastagens para recolha de alimento que os faça crescer, saudáveis, em Cristo. Contra os pastos “contaminados” previnem os arrebanhados.
A sagrada instituição do casamento tem sido mira. Fantasmas são alevantados. Alertas que assustem católicos incautos contra lobos maus que enfiem, goela abaixo, os “bons costumes.” Enfiar no dedo aliança que um amor por homem muçulmano justifique foi dado como braseiro de infortúnios previsíveis que Alá fomenta. Cópulas fora do sacramento ou entre pessoas do mesmo sexo são pecados mortais. Por isto, os divorciados podem tomar assento numa igreja e orar; porém, comungar é escândalo que somente agrava a culpa pelo elo rompido.
“A Conferência Episcopal Portuguesa considera que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma ameaça à sociedade.” Não ser fiável quem se mete numa aventura que divide a sociedade. “Questão de vanguarda, nem destra nem canhota, todavia desfocada pelo caminho antropologicamente errado.” O jesuíta Manuel Morujão foi claro: entre pessoas do mesmo sexo não pode existir casamento ou constituição de família – arredada, portanto, a possibilidade de “adopção, aspas”, “casamento, aspas”, “família, aspas.”
Quando nos proclamados – sempre polémicos e subjectivos - “valores” é alicerçado muro de Berlim sem creme, tremo. Rapidamente sobrevém a esperança de o ver reduzido a cascalho.
Publicado por Teresa C. às 10:49 AM | Comentários (3)
fevereiro 10, 2009
UM COPO DE CIÊNCIA

Bryan Larsen
Admito a bondade do princípio que associa a uma qualidade um defeito, e vice-versa. Legitimado para o indivíduo, aplico-o ao povo. O nosso. Português. Somos madraços quando o trabalho é por conta e o tostão está certo, esforçados se de mais labor vierem proventos que o umbigo satisfaçam. Brejeiros e danados para a «brincadeira», sérios se é preciso ajudar. Desembaraçados no deitar mãos à obra que pague o pão, mais ainda se o embuste ou artifício garantir renda e afago no lombo. Não temos o nariz empinado dos franceses, mas na matreirice do olhar acumulamos pós-graduações. Mais carpimos por «nadas» do que por reais dramas. Todos o fazem - empresários, trabalhadores, cientistas, cidadãos comuns.
O estereótipo do investigador em ciência, distante, desalinhado, distraído, desorganizado, desabonado, tem os dias contados. Porque investigar é assunto sério e requer tecnologias dispendiosas, as verbas ou os patrocínios são fatalmente escassos. Ponto assente é buscar a ciência visibilidade que empolgue o mecenato. Deste não há em Portugal tradição significativa; nos Estados Unidos, ex-alunos bem sucedidos tomam a peito contribuir para a excelência da, outrora, sua escola.
Do nosso défice de elites não escapa a classe empresarial. Tendo o mecenato incentivos fiscais, o patrocínio das artes ou do desporto oferece-lhe retorno mais rápido do que o mecenato científico - a pesquisa em ciência é, por natureza, ronceira e o trajecto incerto. Se os nossos investigadores divulgassem ao cidadão comum, com a simplicidade possível, os respectivos projectos e conquistas, talvez o cenário mudasse. Porém, ainda resiste o pensamento da procura de financiamento para a investigação ser vertente menor, mercantilista, dizem. Engaiolar a ciência pode alheá-la das virais leis do mercado; todavia, castra-a e impede a revolução dos espíritos.
Experimentar é preciso desde a mais tenra idade. Em cada etapa do desenvolvimento mental devem ser estimuladas a curiosidade e a manipulação dos equipamentos laboratoriais. O ambiente doméstico contém muitos - um copo com água límpida descrito como mistério magnífico que é, encantará petizes, adolescentes e adultos.
A busca em ciência obriga a espírito humilde. Estrutura intelecto e personalidade.
Publicado por Teresa C. às 07:19 AM | Comentários (3)
fevereiro 09, 2009
VA.VÁ.DIANDO, FADO E INQUIETAÇÃO
A “Tertúlia do Fado e Inquietação” é rio autónomo e afluente do Vá.Vá.Diando. À beira-rio, no Espaço Tejo, as luzes da ponte que margens unem, são estrelas da noite inquieta por fados e fatuns. A canção Coimbrã preserva, traçada a preceito, a negra capa nos ombros. Desculpadas as palmas que substituem o clássico pigarrear na Serenata Monumental. Voz funda e requebrada emerge, intensa, da Patrícia Norton Brandão. Outras, a da Anabela Paixãoentre elas, igualmente perturbadoras. À solta, a fala do Vítor Ramalho desinquietando o pós-pandrial. E das velas dos candelabros que centram as mesas surge luz cúmplice com a interioridade que os olhares denunciam. O Tejo, rio e demanda, como cenário-testemunha. (…)
Publicado por Teresa C. às 05:20 PM | Comentários (0)
fevereiro 08, 2009
O PLANETA AGOSTINI EM MARCHA

Autor que não foi possível identificar
O MIC do Manuel Alegre - Movimento de Intervenção e Cidadania - reuniu com o Bloco do Louçã. Este, por sua vez, não desdenha a candidatura de Helena Roseta para Presidente da Autarquia de Lisboa. No vaivém das movimentações políticas, a perplexidade é sentimento demodé. De tantas serem, quem pender queixo boquiaberto está, definitivamente, out. Faz parte dos marginais, a crer nas revistas-guru que descrevem o exemplar life and style. Extra terrestre que ao planeta Terra não se acomoda. Mal comparado, lembra a historieta da respeitável esposa que o marido, chegado a casa, encontra de olhos em alvo e sorriso beatífico no rosto. “Que aconteceu?”, terá inquirido perante o quadro inusitado. Responde ela: “O impossível! Acabei de fazer amor com um extraterrestre.” O homem, pasmo, articula “Como assim?”. A esposa ainda em êxtase: “Tocou a campainha e disse vir do planeta Agostini. Bom demais!”
E uma mulher, ignorante da boa(?) prática das astúcias políticas, fantasia a Helena Roseta em campanha eleitoral à frente de uma procissão de gentes com lenços árabes ao pescoço. Góticos atrás do desfile. «Betocas» rebeldes transportando os andores-cartazes com as palavras de ordem costumadas. O José Sá Fernandes rezando imprecações. O Louçã de braço dado com a candidata enfarpelada com um modelito da Isilda Pelicano que para honrar a cliente troca os chiffons e sedas selvagens por um tweed esfiapado nas pontas. Flautas andinas comandando o ritmo da passeata. O Homem e a Mulher Aranha à frente da multidão ululante.
Publicado por Teresa C. às 10:02 AM | Comentários (0)
fevereiro 07, 2009
DA SENHORA DONA, A CULPA

Georgia Peach
Por cá, a superfície frontal fria, vinda de longe, faz nevar acima dos 800 metros. Sol adiado para quando domingo findar. Nalgumas partes do país, nem é do frio a queixa. A chuva, implacável, interrompe soalheiras tímidas. Traz sombrias as gentes. Ora, não está inscrito no ADN dos latinos a abstinência solar. Dados à quentura das emoções e dos corpos, a fisiologia ressente-se. Num ápice contamina a psique.
Os portugueses andam pardos de tanta cinza na rua e poças no chão. Curvam a cabeça e enfiam o pescoço na gabardine. Depois, os noticiários debitam despedimentos e rescisões de trabalho aos magotes. A Corticeira Amorim contribui com 190 trabalhadores. Acrescento aos milhares de famílias nacionais atingidas pelo viver no limiar da pobreza. Os colégios particulares, soube hoje em amena cavaqueira esticada até às tantas da manhã por começar, sofrem de indigestão provocada pelas mensalidades por pagar. Dos sinais, os primeiros foram as desistências nas actividades extra curriculares. A insolvência familiar, nas prioridades e na economia, obriga a dívidas e a cortar luxos pedagógicos. E quando a família denuncia ruptura no que aos petizes concerne, tudo vai mal na ditadura estalinista do tido por bem viver.
Fosse pela chuva ou pelo desânimo, num cabeleireiro do bairro, a cliente bradava contra a ignomínia da falta de dinheiro. Tempo houve, dizia, que todas as segundas não ia trabalhar sem unhas à francesa e cabelo impecáveis. Naquele dia, nem a base do verniz aceitou. Que não, que não merecia a pena. Que melhor era deixarem-lhas limadas e polidas, mas ao natural. Reconheceu que o regresso para Odivelas seria na camioneta pública. Que em casa o marido lhe enfeixava os nervos. E esta escriba menor olhando, de soslaio, as unhas que a deliciosa Talita pintava. Farta de resmoneios, pensou de si para o «eu»: ou a Senhora Dona sai, ou grito, ou o verniz sai esborratado. Saiu.
Publicado por Teresa C. às 08:02 AM | Comentários (1)
fevereiro 06, 2009
SEM LÁBIOS, “BÊJOTAÉSSE”

Andrew Valko
Desgostam-me virtualidades terminadas em “bj” ou “bjs”. Sinais deste tempo corrido escasso para os afectos. Quem não dispõe de paciência para escrever palavras inteiras melhor faria retirar os dedos das teclas. Por sms ou e-mail surgem letras e palavras encriptadas - «kapas», “fds”, “bjs” e “bj”. Abomino-as. Ou a escrita é direita, ou faço leitura simples: não interessa. As palavras mutiladas são atentado ao prazer da comunicação. Não estando reunidas condições para respeitar a língua falada, que os dedos se quedem e as teclas repousem. Simples!
O João Moreira de Sá defende que amplexo entre um homemn e uma mulher, vulgo abraço, pré-anuncia intimidade dos corpos anexados pelo afecto. Nem sempre. Um abraço é gesto amigo. Beijo aflorado. Mas um beijo… É diferente. São lábios significando lábios outros. Remetem para grutas profundas e íntimas: a boca do rosto, a boca do ventre. Pré-sexo. Imaginário fervente.
Como remate de um e-mail ou sms afável que surja o “cordialmente”. Os «is» que fiquem com as pintas omissas. Que reste claro o espírito de quem recebe ou enviou. Qual a finalidade do “bêjotaésse” se a pressa ou o elo para mais não dá?
Publicado por Teresa C. às 09:11 AM | Comentários (6)
fevereiro 05, 2009
MÚSICAS DOS (DES)AMORES

Larry Vincent
Desconhecia-as. Música é música cujo subliminar entende de modo diferente o espírito que a ouve. Desligada da intencionalidade de quem a enviou. Mas não, vim a entender. Pode acoplar emoções. Ser carta de (des)amor. Saberes alheios ensinaram-me que, as mais das vezes, a música recebida por e-mail não é inocente. O lyric” – a letra, o poema se de tal merecer o nome – funciona como sms que, à velocidade da luz, as telefónicas galgam através de microondas.
Porque aprender também é vício, trocar o falo pela fala seduz. A tensão erótica, por vezes, adormece quando um Ser dá à costa – a maravilha do outro embriaga o receptor–actor. E ouve e fala e revela e aceita interpelações.
Entre compromissos, dia meado, ocorre interlúdio propício a verbalizar “Tratado do Dito e do Feito”. De um par outro nasceu o original: Júlio Pomar e Lobo Antunes. Ambos homens. Antes, Pessoas. Sendo a partilha oriunda duma parceria homem-mulher, há eminência de leitura comezinha: indício de mancebia. Vil engano!... Menoridades que a pureza desdenha. Malícia ociosa. Havendo ruminações que sejam endereçadas sob forma de música que o espírito eleve. A intencionalidade será descuidada, o regalo preservado.
Publicado por Teresa C. às 10:22 PM | Comentários (4)
fevereiro 04, 2009
UM EM CADA TRÊS

Steve Hanks
Portugal é, depois da Itália, o país europeu com maior número de cesarianas. Valor que diminui abruptamente subindo dos países latinos para os do Norte. Razões entre outras: deficiências no sistema de saúde que cuida da grávida, depois parturiente.
Em cada três partos, um é instrumental. Fórceps ou cesariana funcionam vezes demais como prática económica de tempo e esforço clínico. Contrariam, assim, o acto natural de nascer. A mãe que pare o seu filho merece respeito. Que lhe seja prestada assistência qualificada e experiente. Que a pressa e a facilidade não substituam a importância de preservar a impressão digital de cada nascimento. Que a mãe não sofra as consequências da falta de tempo, cansaço e falta de treino dos recursos humanos que lhe retiram o filho do ventre. Uma cesariana diminui a qualidade de vida no pós-parto – envolve dores, tolhe os movimentos, dificulta a amamentação e a disponibilidade para atender ao recém-nascido. A recuperação mais demorada da mulher subtrai fracção ao prazer de ter parido e, finalmente, aconchegar nos braços a criança que durante meses amorosamente carregou.
A preocupante taxa de partos não-naturais foi atribuída à carência hospitalar de médicos obstetras e enfermeiras parteiras. Mais profissionais houvesse e as equipas poderiam rodar com a frequência exigida. O cansaço clínico não atropelaria a diversidade biológica. Sendo que no ano transacto apenas quarenta obstetras completaram a formação e que dos existentes grossa fatia espera a reforma, não existe, a curto prazo, esperança de remedeio. Entretanto, anestesias e suturas deixam marcas inúteis no corpo e na vida de muitas mulheres.
Publicado por Teresa C. às 11:39 AM | Comentários (4)
fevereiro 03, 2009
OFICIALEZA/POLITIEZA

Steve Bonner
A oficialeza – chamar-lhe-ia politieza – veio substituir as elites de antanho entumecidas por raízes profundas que na história assentam. Árvores genealógicas, donde pendem títulos nobiliárquicos transmitidos aos primogénitos, definham na justa medida das gerações nascidas. A revista “Hola!” – disponível em quiosques e cabeleireiros de bairro -, exemplar na submissão aos antepassados de quem, no presente, lhe serve de notícia, é prova da subtil alteração no necessário para reinar no ocidente frívolo.
Os políticos vigentes que assegurem governação política ou económica e tenham família disponível, lentamente desalojaram Dons e Doñas. Porque estes curam discrição - têm fartura de headlines -, ocultam, nem todos, concedo, a privacidade. Os emergentes na política precisam de montra e destaque que nas urnas assegurem votos. Por isso, tantos vendem barato a intimidade e asseguram alimento a páginas inteiras de fotografias retocadas. Entretêm ócios e tédios, o imaginário de crentes na redenção possível em Gata Borralheira, na passagem de malquisto sapo a príncipe. Depois, com o Photoshop, a beleza chega após meia dúzia de cliques.
O casal Bruni-Sarkozy, Michele – Obama, Sonsoles – Zapatero, vendem a imagem da politieza reinante. Por cá, Isabel – Duarte, Maria – Cavaco não chegam para aquecer o imaginário do povo. Admitisse José Sócrates possuir e ser possuído pela namorada linda e talentosa, outros ventos soprariam. A multidão de mulheres desalentadas pela crueza diária agradecia.
Publicado por Teresa C. às 09:36 PM | Comentários (0)
fevereiro 02, 2009
DO MARINHO PINTO AO AMOR FELIZ
Sam Shaker
O Pedro Mexia (re)buscou fait divers apetitoso na política internacional. Carla Bruni, a esplendorosa mulher do diminuto Sarkozy, declarou numa entrevista que “desde casada se sente menos mulher de esquerda”. Mais adiantou à televisão italiana: o marido ter-lhe-á explicado que ela “é demasiado complexa para ser de esquerda.” Quem a viu e quem a vê!(...)
Publicado por Teresa C. às 08:35 PM | Comentários (0)
fevereiro 01, 2009
ELA GOSTA DE SOPA

Autor que não foi possível identificar
Ela gosta de sopa. De cozido e caldo verde encimando o «top-muitas». É uma ingénua na noite pública lisboeta. Vagamente recorda sítios aonde ia até quase todos esquecer e trocar pelas casas dos amigos. Por um jantar doméstico vende a bom preço o palato – pode ser empregada a fazê-lo, serviço de cattering da Casa da Comida, o que a anfitriã achar bem pôr na mesa, ou os pitéus da exímia Fernanda Rocha. Quantas iguarias cozinhadas pela amiga-irmã alarvemente consumiu noite alta, a casa em silêncio, um espumante por companhia... E não é bulímica - antes lingrinhas com falta de apetite.
A mulher, de raro em raro e quase sempre no Procópio, chegada a um adro calcetado com uma forma de bronze à porta, pergunta qual o autor da escultura. Metro e meio andado – mal dera tempo à resposta -, aberta a porta do automóvel, vê um K bem esgalhado. Inicial dos «Kapas» da noite. Somente conhecia um – o da Kapital (mais na esplanada do que na confusão dos corpos). O dislate da pergunta-sem-resposta, alegremente, esquecera.
Dançou, sorriu, rejubilou, riu. O corpo, que desde o «Tê» algarvio não mais maneara ao som da música, obedeceu ao ritmo que o ventre sentia. Viu o casal jovem que, desafiando a intempérie, atravessou, dançando, restaurante e sala. Não os perdeu de vista mal os lobrigou - ela com o saco XXL pendurado no ombro, cachecol intervalando o cabelo comprido e loiro, ele com o agasalho encharcado. Como ela. Mas dançaram metros e metros no soalho de madeira até encontrarem poiso. E a ela outra, a ignorante da noite da Grande Alface, sentiu fora e dentro – como se alguma vez a houvera esquecido! - a infinita sedução da vida.
A noite longa tem culpados: a querida amiga Manuela Pinheiro, o Maestro Vitorino de Almeida, a Eduarda e o Lauro António. Obrigada pela noite de chuva que luziu com lua-cheia.
Publicado por Teresa C. às 07:55 AM | Comentários (2)
