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fevereiro 15, 2009

NO «D» ELE EXPLODIA

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McGinnis

Ultimava os documentos adiados para o fim-de-semana. A ilusão do tempo alargado propiciava a calma que a corrida da semana diminuía. O branco e lima, a música em fio, a cor da das telas e das cerâmicas, as madeiras claras escreviam a palavra-mito e sentida que só ela lia: paz. Deste modo, o trabalho adquiria fruição própria do lazer. Por isso, e quando possível, o adiava.

No final da tarde, começaram as vozes. O prédio quieto também pelo isolamento sonoro dos vidros, portas e paredes, raramente falava. Mudo como convinha à privacidade do espaço compartimentado. Mas eram vozes principal. Talvez pela frincha da porta de entrada. Talvez porque iradas e esquecidas de acautelarem a intimidade.

Fechou o computador. Seleccionou as leggings, as botas com salto desafiador em verniz e camurça, a túnica justa terminada no peito por um «v» espraiado, a lingerie rendada. Preto seria. Enquanto cuidava do corpo, do rosto e atravessava a nuvem de perfume, persistiam os gritos vozeados. Tentou esquecê-los. Na noite insignificante de S. Valentim, apenas o prazer do dia, culminado pelo jantar e pela noite alta, contava.

Entre o cerrar à chave a casa e o vem do elevador, soube o dito e a origem do desassossego. No «D» ele explodia: “Não vou sair se estou triste e magoado. Faz o que entenderes. Comigo não contes. Aliás, para nunca mais nem para nada.” “Volta! Volta!” foram as palavras que ela chorou. Sentiu a alma pesar. Os desencontros das gentes, tantos deles ociosos, interpelavam-ma. Entrou no metal do elevador. Olhou-se ao espelho. Mirou o sorriso subitamente triste e forçado.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às fevereiro 15, 2009 08:52 AM

Comentários

deverasmente, pois !

se não é lei, ou ao menos regra, certo é que o mundo é feito de desentendimentos e desamores muito mais que de acordos e harmonia...

exprimir as divergências, parte a parte, de preferência de modo civilizado se bem que nem sempre discretamente, é sinal de vitalidade e franqueza, pressupostos base para repudiar ódios calados mas crescentes e devastadores em diferido

quando nos apercebemos dos desentendimentos alheios lembramos os nossos, assustamo-nos, perante a potencialidade de nos bater à porta - e muitas vezes envergonhamo-nos quando assistimos presencialmente a desentendimentos, mais ainda se de alguém próximo ou afim

de um lado e de outro, pura humanidade, afinal

logo passa, sendo que o perfume sedutor e o decote generoso (como a mini saia que nos revela uma Catarina Portas ainda ingenuazinha, tão querida, benza-a Deus...) podem ajudar a gerar o ambiente propício ao elevar e descontrair do estado de espírito

oxalá mal abra o elevador!!!

Publicado por: António às fevereiro 16, 2009 01:13 AM

Endenteu-me. Gostei me ver ao espelho que aprimorou, através de si, a imagem que vi e li.

Publicado por: Teresa C. às fevereiro 16, 2009 05:00 PM

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