« ESCRITOS NA PEDRA OU NO ADOBE | Entrada | ALMAS PORTUGUESAS »

março 16, 2009

EX E JUÍZES

Michel Gourdon 7pic 1.jpg
Michel Gourdon

Tragédias anónimas não fazem cabeçalhos nem directos das televisões. Poupadas as parangonas para sumos com audiências de taberna que paguem salários e encham contas. Mulheres e homens sem rosto raramente são notícia. Mas existem dramas e a injustiça da Justiça que, entre gritos e silêncios domesticados no lar, outrora abrigo, os atingem.

Um tribunal de família demora a tomar decisão sobre o sim ou caldo para cima de quatro meses após a última audiência de um divórcio litigioso. Meio ano em casos certos. Dando corda ao realismo, três quartos do ano talvez. E quem não garante um ano inteiro de espera? No entretanto, há pessoas. Coabitam filhos, mãe, o pai e futuro ex da mulher, ou o inverso, em carne e no papel. Sentimentos (re)partidos. Ódios, amores, dependências e pendências. Pessoas alquebradas. Regressos atemorizados no final dos dias. Sem esperança ou ilusão os dias inúteis da semana que intervalam ofícios de sustento. E o ciclo da terra arrebenta nos troncos esquálidos, o sol interpela corpos e desejos que mais endurece os seres aprisionados no faz-de-conta aos olhos da sociedade e que o decretado ignora. Apetece sexo e vida cheia de sémen e da liquidez que o retém. Diálogo sem pudores ou desgraças como cenário impossível. O real feito ópera bufa pela oposição à legitimidade de quem, pela entrega e pão ganho, comprou bilhete inteiro para a viagem na Terra.(...)

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às março 16, 2009 07:28 PM

Comentários

o tema é capaz, bom de ver, mesmo se a vida escorre dentro e fora dos tribunais segundo leis mais veras que as fortes leis

mesmo se nos condicionamos a uma regulação alheia de que necessitamos para desempatar consciências ou para armar o aparato interno com que enfrentam os passos seguintes da vida que não pára, queira ou não queira o papão

mesmo se tarda, e o pior é a espera, a mola de decifração do que realmente queremos, além aspiração, além desejo, além sonho, mas o que queremos mesmo pesados os trabalhos e a íngreme vereda por onde havemos de carregar as afeições desfeitas, as memórias que apressamos esquecer, a deslegitimação, afinal, de quanto fomos, aliás, somos

já os tribunais, pois bem, só aquele sentido de rotina e processo e alínea que impregna oficiantes e quem deles se abeira, é que tem que ser por requerimento, autos conclusos - caraças, e o caso parado dois anos por falta de ... conta?

resta a cada um confiar em si próprio ou acertar nas contas do Destino, que faz de gente e aceita culpas, sempre aliviando um bocadinho

ao amargo, é juntar água, alguma cor e boa companhia, oferecer sem reclamar, servir à temperatura da lua, à hora da maré vaza para mais areal a caminhar e, como nem todos temos um Álvaro de Campos à mão para não pensar, ao menos aproveitar o sentir e deixar contagiar o leme e a nau, que o bom porto há-de chegar...

Publicado por: António às março 17, 2009 08:39 AM

António - a um texto magnífico qualquer acrescento é blasfemo.

Publicado por: Teresa C. às março 23, 2009 10:09 PM

Publicado por: cydhynqdhw às outubro 22, 2009 10:49 AM

Comente




Recordar-me?