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março 31, 2009

CARTAS ANÓNIMAS, COBARDIA EM LETRAS

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Isabel Samaras

Cartas anónimas. Perversidades sem assinatura. Recortes de queixumes. Cobardias de quem rosto frente a rosto nada diz e nelas se refugia. Outrora seladas no envelope, hoje enviadas por e-mail – fica por detectar a grafia e o discurso articulado pouca ou nenhuma luz faz sobre o remetente. Aliás, cuidados prévios com objectivo mesmo. Vão parar a juízes, ao Ministério público, à porteira cobiça jornalística – vender quando o mundo económico e financeiro se contrai é dinheiro em caixa que os espíritos predadores não desprezam a troco da ética e da moral. Entram lucros, saem notícias. Assim está ordenado o mundo de vizinhos coscuvilheiros que não arredam pé dos arautos apeados em forma de jornais, rádios e «têvês». Mais é notícia a cobardia presente do que verdades e utopias, quais idas novelas de cordel suspensas nas feiras por molas da roupa em cordéis.

Anteontem havia «tios» e «padrinhos», agora também somente englobados no amplo telhado da corrupção. Realidade igual. Diferente a designação enganosa – pelo rótulo é avilte o que persiste aceitável e conhecido e prática comum. Sejam públicas as figuras denunciadas, o caminho ínvio tem garantido êxito e lucros e ficam baças hombridades particulares. O boato dá chorudos ganhos e, nas intestinas lutas pelo poder, tenta arredar competidores. Maquiavelismo que Maquiavel deixaria pasmado pelas consequências. Quando perorou sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser, fundou o pensamento e a ciência política moderna. Má sina do homem que ao pensar o tempo em que foi ignorava futuros perversos que do, dele, nome de baptismo construiriam adjectivo sinónimo de esperteza ou de astúcia. Maldade porque sim.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às 04:19 PM | Comentários (0)

março 30, 2009

TIRAS PRESAS AOS SALTOS

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Andrew Rendall

(...)Do sorriso que a si dirigia, depois aos outros por mor dele, afinal egoísta quando amável a diziam, fazia ritual pagão e crente. A harmonia com a Terra era sua desde o nascer no granito que a tradição familiar requereu. O nome herdado de avós e daquelas que as precederam no histórico retratado em deslavados pretos e brancos de estúdio. Lábios, se entreabertos numa alegria fátua ou real jamais saberia, salvo o da bisavó, mulher dor que a morte abraçara, passados, havia pouco, os trinta. Olhares postos na objectiva e na luz do magnésio flash. Para sempre cristalizados até o sol esbater o tudo e o nada do negro cândido. As pérolas, que na caixa dos tesouros arrecadados guardava, eram subtil e visível entremeio das rendas ocultas debruando o cetim da combinação, ao tempo camisa. O enxoval da recém-nascidA, bordado à mão por tias e bisas, mais tinha que prendas de fadas do lar e da família: nele estava escrito futuro. Predestinado o crescer da menina, o estar, a profissão, o casamento de estado na terra daqueles que tendo um olho são reis, o útero fértil, a prole consequência como novas raízes da árvore minguada pelos preconceitos que, secando amores, às cerejas proibiam sémen vertidos por galhos novos. E as mulheres envelheciam sem rugas, elegantes, generosas, cáusticas algumas, retratadas pela Irene Lisboa. Obra proscrita dos armários biblioteca que leria já mulher feita mais pelo membro que a desflorara do que pela inocência dos vinte anos.(...)

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 02:29 PM | Comentários (0)

março 29, 2009

LENTOS POR FALTA DE ESTROGÉNIO

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Ken Martin

Retomo a “Sabedoria de Mulher” publicada ontem. Porque na Assembleia da República, na sexta última, os deputados demoraram vinte minutos a distinguirem maiúsculas de minúsculas ao acederem à verificação electrónica do quórum, é evidente o número insuficiente de mulheres presentes. Práticas, atentas, subtis, a quota feminina que outrora rejeitei é indispensável. Nem que mais não seja ocuparão lugares, no presente, distribuídos a homens incompetentes. Não memorizar password, confundir letra grande com pequena, é coisa de homem com memória cheia que entope os meandros cerebrais.

Estando provado que o estrogénio feminino é responsável pelo menor número de acidentes envolvendo mulheres, convém pensar as mulheres habituadas a dispensar atenção a várias tarefas simultâneas. Li: “Cientistas da Universidade de Bradford (Inglaterra) descobriram que o estrogénio proporciona maior flexibilidade mental para, entre outras coisas, percepcionar as alterações no trânsito. Segundo o estudo, as mulheres têm mais agilidade ao volante porque conseguem desviar a atenção de um objecto ou de uma situação de forma mais rápida que os homens, o que contribui para reduzir o número de acidentes. Ao longo do processo de análise, os voluntários foram sujeitos a testes de avaliação de memória, atenção, planeamento e controlo motor. Não só no acto de conduzir, mas também na leitura, os cientistas provaram que as mulheres são capazes de desviar a atenção mais rapidamente e defendem, por isso, que o sexo feminino está mais habilitado a desempenhar tarefas que exijam flexibilidade mental.”

Por ser masculina a maioria deputada na Assembleia da República, foi concluída a necessidade de alterar o sistema informático de modo a aceitar grandes e pequenas nas letras de acesso. Ridícula a conclusão da falência do sistema! Mais mulheres ocupassem assentos e, em vez da vintena de minutos embrulhados, um suspiro bastaria para o quórum electrónico ser verificado.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho

Publicado por Teresa C. às 03:40 PM | Comentários (3)

março 28, 2009

SABEDORIA DE MULHER

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Elvgreen

Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus bens pessoais em caixas e malas. No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram os bens pessoais. No terceiro dia, ela se sentou pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e deliciou-se com uns camarões, caviar e uma garrafa de Chardonnay. De seguida, em cada uma das divisões colocou nas cavidades dos varões das cortinas pedaços de casca de camarão, besuntados com caviar. Limpou a cozinha e saiu.

Quando o marido retornou com a nova namorada, tudo estava um brinco nos primeiros dias. Pouco a pouco, a casa começou a feder. Tentaram tudo: lavaram, arejaram a casa, verificaram todas as aberturas de ventilação, não contivessem ratos mortos. Os tapetes foram limpos com vapor. Desodorizantes de ar e ambiente espalhados pela casa. A empresa de desinfecção introduziu gás tóxico nas canalizações. Durante alguns dias, o casal teve de sair de casa e, no regresso, o cheiro nauseabundo persistia.

Os amigos deixaram de os visitar. Os funcionários das empresas de consertos recusavam-se a trabalhar na casa. A empregada demitiu-se. Finalmente, decidiram mudar de casa. Um mês depois, apesar de terem reduzido para metade o valor da casa, não existiam compradores. A notícia correu. Finalmente, foram obrigados a contrair um elevado empréstimo para comprar outra habitação.

A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas. Ele contou-lhe o martírio da casa podre. Ela escutou pacientemente e disse das muitas saudades da casa antiga e estar disposta a reduzir a parte que lhe caberia do acordo de separação dos bens, em troca da casa. Convencido de que a ex não fazia ideia do fedor, ele acordou num preço cerca de 1/10 do real valor se ela assinasse os papéis naquele mesmo dia. Assim foi. Menos de uma hora depois, o acordo estava consumado.

Uma semana depois, o homem e a namorada assistiam, com um sorriso malicioso, aos homens da mudança levando os respectivos pertences para a nova casa. Os varões das cortinas também.

Nota - Texto adaptado de outro seleccionado pelo belíssimo gosto e humor do António Eça de Queiroz que hoje publica no PNET Homem a crónica semanal.

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 12:08 PM | Comentários (0)

março 27, 2009

FACES, “FACE”, “VISITA”

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George Betty

Mudar de história, de rumo, de corpo, de palco. Trocar de face e fato. Vestir personagem em alta no mercado do desejo individual e alheio. Ver, por dentro, cair o pano, atrás dele mudar de serviçal para dama, de miserável para senhorio. Fascínio comum que, parcialmente, no Teatro D. Maria II é possível. Para a “Visita” entram espectadores curiosos por conhecerem as entranhas do espaço catedral do teatro português. Guiados pelo Ponto, caminham nos corredores ocultos. São interpelados por actrizes com vestidos rasando as tábuas, um Almeida Garrett espera-os no Salão Nobre, mais à frente recordam a amargura do incêndio de 1964 pela voz da Amélia Rey Colaço e do marido, Robles Monteiro. Quem entrou espectador, termina no palco da Sala Garrett aplaudido pelos actores, os tais das muitas faces, em cada uma ser diferente, sendo o mesmo.

Neste Dia Mundial do Teatro, é apresentado o projecto “FACE”. Até 2019, serão cartografados rostos portugueses com o objectivo de através deles mapear emoções, verdade, dor, alegria, falsidade. Construir registo capaz de desmentir o dito “quem vê caras, não vê corações”. A face expõe a pessoa; basta saber ler o que nela está escrito. Os investigadores responsáveis por este estudo pioneiro acreditam que a doença e o crime estão à vista. Dos sinais contará o compêndio das faces.

CAFÉ DA MANHÃ
Vera Mar
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 11:44 AM | Comentários (2)

março 26, 2009

“BEIJO” NAS UNHAS

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Barndog

A mentira e a verdade nasceram no mesmo instante. Gémeas bivitelinas, cada uma com placenta e parecer distintos. Cresceram próximas na distância da helicóide do DNA. Afastadas pela matriz primordial. Quando por falta de sucesso, a verdade se aproximou da mentira nasceu a História, dizem. Com ela as cedências, o faz-de-conta, as hipocrisias sociais, os jogos subterrâneos da (in)consciência. Tão fácil integrá-los nos gestos e quereres quotidianos! Confrontá-los, renegá-los, dói como chaga purulenta. Quem sente chegado o momento do não quando o sim é recomendado pelo bom senso, sabe do prurido e do ardor. Da inquirição implacável que o próprio ao próprio impõe. Aguando os olhos as lágrimas, porque raras merecendo lugar prisioneiro das memórias, no caso, a mulher sofre. Vê cinza nas horas pela frente. Não fora o trabalho/paixão, os afectos presentes, a utopia e os ideais traduzidos em cubos perfeitos que não sentem do cinzel a falta e constituem horizonte, a mulher quebrava a postura firme. Num canto, encolhida, talvez lambesse silêncios instalados que não previra quando a ilusão fora antes e desgosto após. Por rejeitar fazer das desgraças cama, enfiou o mini-vestido, pernas esguias ao léu sob o vidro das meias cor de pele com liga, decote fundo em branco, preto, cinza e amarelo sol. Verniz nos saltos que os dedos dos pés expunham e debruavam. O “Beijo” verniz nas unhas. Primavera no olhar. Saiu.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 07:15 PM | Comentários (4)

março 25, 2009

ANDA QUIETO O SOL

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Bruno Di Maio

O Sol anda quieto. Superfície limpa como há muito não era vista pelos astrónomos que observam sem detença a estrela mais próxima. Enganadora, parece ultrapassar em brilho e tamanho Sírius, a mais brilhante do céu nocturno. Poderosa, sustenta a vida na Terra, conserva as órbitas de uma dúzia de planetas, quatro deles anões, de satélites, asteróides e cometas. Pedagógica, desvenda o conhecimento de outras estrelas que, pela distância, vemos como pintas de luz

A fotosfera solar, agora tão serena, contraria a aparência comum de líquido fervente repleto de bolhas, na verdade grânulos com meio milhão de quilómetros de diâmetro. Os ciclos de humores atmosféricos reflectem a tradição oral que dá por certa bonança depois de tempestade, esta posterior à acalmia precedente. Venha aí tempestade solar, e as rajadas de vento da estrela podem alterar o equilíbrio dos campos terrestres, afundar a energia eléctrica, ensandecer o clima, os satélites de comunicações e, por via deles, os instrumentos de navegação.

Não bastava a crise maior das crises e a depressão geral, tinha a provada quietude do Sol de acrescer tormenta aos espíritos! Anima a certeza da maldade das borrascas ser o antes da luminosa beleza das auroras boreais e austrais. No Sol, na Terra, nas desordens humanas.

CAFÉ DA MANHÃ

Paula Capaz
António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 11:13 AM | Comentários (0)

março 24, 2009

PORQUE A REALIDADE É MAIS DO QUE FUTEBOL


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Deborah Poynton

O noticiário, passageiro sonoro do automóvel conduzido até ao ganha-pão, é antecedido por novas do futebol. Abre com mais do mesmo. E quem não quer fica a saber que a Universidade Técnica de Lisboa fez de José Mourinho doutor. Talvez remedeio de frustração antiga: ter sido despedido do Benfica quando já se sentia um grande treinador, mesmo antes de o ser. Lucílio Baptista, agora ameaçado de morte, assumiu publicamente o erro traduzido no penalti do jogo que deixou na Luz a Taça da Liga. O Sporting abandonou a Liga de Clubes que, apavorada, reuniu de emergência. O Benfica afirmou que uma cabala se agiganta com o objectivo de condicionar a arbitragem até ao fim do campeonato e resulta de uma malvada aliança entre leões e dragões.

O que interessa das noticias matinais chega ao mesmo tempo que o automóvel ao estacionamento. E o condutor sai ignorando a denúncia feita pelas Misericórdias das crescentes dificuldades dos pais para manterem em dia as mensalidades escolares das crianças. Soube do futebol e desconhece que cada vez maior número de famílias retiram os idosos dos lares, não para que seja mais fofo o cobertor entretecido com ternura, cuidados e afecto, mas para somar ao rendimento familiar as pensões de reforma.

Quando o dia termina e de novo é procurada a companhia informada da rádio, com sorte talvez seja recuperada fracção do não ouvido que importava. Ou não, pelo tamanho dos tentáculos e ventosas do futebol.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às 09:44 AM | Comentários (4)

março 23, 2009

FALSA A DATA, REAL A EPOPEIA

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Colleen Ross

Porque falso este lembrete no calendário, outra data do aniversário da PNET guardo na memória. Fui iniciada na rede, não em círculos fechados da Opus Dei, Maçonaria ou Rosas-Cruzes, em Novembro de 2008. Dos maçons não desdenho, antes lhes reservo apreço pela espiritualidade e tolerância, agrados meus. Instituições mais discretas do que secretas, lá fora às claras o que por cá é oculto, fruto de perseguições idas e muitos esconjuros. Mas é a rede PNET, sem triângulos e rituais iniciáticos, o falado.

Conhecer o segundo Minderico - a primeira é tão de Minde quanto ele, mulher amiga e prima do segundo numa curta lista de três - foi marco. Há muito, ele comentava o “Sem Pénis Nem Inveja” com acerto e alegria. Nesse período épico, nicks eram nomes de guerra que entreteciam laços disjuntivos e amigos pela via das teclas, fala e rosto a rosto por haver. O Minderico observava-me, vim a saber. Depreendia-me jogo de cintura - outros meneios da mesma, até hoje, ocultos na rede como deve ser porque misturar trabalho com conhaque é cocktail danoso. Mas houve afecto, apreço, desde o primeiro encontro, aniversário outro servido por elo de família. As bruschettas, refeição e prenúncio, foram digeridas no amado Procópio entre a minha Margarita, limão muito como o barman sabe, e o que não lembro, mas houve. A esplanada/restaurante do Parque das Conchas foi cenário iluminado por sol de Outono, depois Inverno, Primavera de vontades e projectos.(...)

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 10:41 PM | Comentários (2)

março 22, 2009

AEROPORTO INTERNACIONAL E AERÓDROMO

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Andrew Potter e Alain Aslan

A última machadada na concepção sociológica do género em vez do sexo feminino e masculino foi dada pela neuro-psiquiatra, Louann Brizendine ao defender que as características femininas e masculinas estão definidas no cérebro desde o nascimento. “Os rapazes nascem «programados» para serem homens e as raparigas nascem «programadas» para serem mulheres. A testosterona exclui as ligações nos centros de comunicação do cérebro, enquanto o estrogénio aumenta essas conexões, além disso, as regiões do cérebro responsáveis pela linguagem e pela expressão de emoções são maiores nas mulheres.” Conclui que se as mulheres são faladoras, acusação frequente na boca de muitos homens, é a química hormonal a responsável. Nelas circulam substâncias geradas no cérebro lhes dão ao “desabafarem” uma sensação de prazer semelhante ao orgasmo.

No livro «The female brain» prova a diferença entre homens e mulheres em termos de comunicação verbal: “os homens usam 7 mil palavras ao dia, e as mulheres usam 20 mil. As mulheres têm uma «auto-estrada» de várias faixas dedicada a processar emoções, enquanto os homens têm apenas um «caminho».” Também a diferença no pensar sexo é explicado pela autora: “os homens têm um «aeroporto internacional», enquanto as mulheres se limitam a um «aeródromo».”

Quem goste de reflectir sobre as atávicas e mútuas incompreensões entre mulheres e homens tem suspiro de alívio. Afinal, a necessidade deles dispersarem sémen e a tagarelice delas são, em vez de construção social baseadas em preconceitos que a poeira dos tempos traz ao presente, frutos prosaicos das reacções químicas cerebrais.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às 11:05 AM | Comentários (2)

março 21, 2009

O AGENTE DA BET E O CHEFE

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Jan Bollaert

Que à minha natural inquietude seja perdoado o descanso quando o sábado dealba. Tarde, manso, lento. A noite de sexta, que há uma trindade de anos era a noite preferida da semana, foi desalojada pela quinta. Agora, conto três serões eleitos magníficos, diferentes no correr, sem que um tenha como predilecto. Continuam dias úteis, mas a isenção do horário prolongado que me pesa de segunda a quinta-feira faz do trabalho prazer esticado, fruído com deliciosa preguiça. Ao domingo, véspera do toque de clarim mal as seis fazem ângulo de 180º nos ponteiros que apontam madrugada indecente, o dia é rematado cedo demais pela necessidade antiga de oito horas bem dormidas. Uma perna distendida, a outra flectida quando os sentidos se aquietam e, também eles estafados, caem redondos no sono.

Ao sábado exponencio a alegria que me traz viva. Por isso, bastas vezes, remato as croniquetas com anedotário chegados por teclas amigas. A pompa da chegada de Bento XVI a Angola, quase escândalo pela riqueza não distribuída, pelas vidas que o vírus maldito ceifa e seriam prevenidas com preservativos, interpelou-me. Nem de propósito, recebi este registo:

“O Papa, terminada a sua visita a Angola, foi de limusina para o aeroporto. Como nunca tinha conduzido um carro daqueles, perguntou ao motorista se poderia conduzir por uns instantes. O motorista atrapalhado, lá disse:
- Bem... acho que sim! - e foi para o banco traseiro da limusina enquanto o Papa ia para o volante. Na estrada, acelerou até aos 180 km/hora... 220 km/hora... 250 km/hora...

De imediato, as luzes azuis da patrulha brigada de trânsito surgiram no espelho. O Papa lá encostou e o agente foi ao seu encontro. Quando se debruçou sobre
janela e viu de quem se tratava, disse:
- Por favor, aguarde um momento... Preciso ligar para a central.
O agente pegou no rádio e chamou o chefe, dizendo:
- Eu tenho uma pessoa muito importante que conduzia a mais de 250 km/hora na
estrada e preciso de saber o que fazer.
- É o presidente da assembleia ? - Perguntou o chefe.
- Não, é ainda mais importante.
- Não é o primeiro-ministro, é?
- Não, ainda mais importante!
- Quem é? Não é o JES , pois não?
O agente respondeu:
- Não! É ainda mais importante do que esse...
- Bem, mas então quem é esse VIP? - Gritou o chefe já sem paciência.
Responde o agente:
- Não tenho bem a certeza, mas deve ser Jesus Cristo, porque o motorista é o Papa!”

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 11:35 AM | Comentários (4)

março 20, 2009

MILHO VERMELHO

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Elvrgren

Fabulo falcões pousados no ombro de homens caçadores pertença da elite medieva. Hoje, mais prosaicos, rapinam pombos nas alargadas fronteiras dos aeroportos. Pombos como bombas-relógio que no descorar e aterrar são potenciais terroristas. Num prazo curto, cento e oitenta e dois choques entre aves e aviões na Portela. Parece facto de somenos. Não o é. O levanta e poisa das aeronaves constitui risco maior nos comboios aéreos. Colidem sem aviso e, engrenados nos motores, podem terminar em tragédia voo de prazer ou trabalho.

Os aeroportos conjugam falcões e sons inaudíveis para os humanos, como garantia de segurança no poisa e descola. A Portela não é lugar de embarque e chegada equiparada à estação do Oriente ou a Santa Apolónia. Asas em vez de carris, fazem diferença. Ar por chão completa-a.

A Câmara de Lisboa e a de Loures terão assentido no licenciamento de pombais próximos ou interiores ao limite mínimo da distância de quatro quilómetros das pistas. Sá Fernandes apressou o desmentido – não sabe, desculpa os pombos do Campo Grande e diluiu o perigo. O presidente da Câmara de Loures fez o mesmo. Decorrendo o rasteiro “disse que disse, mas não disse”, continuam a rosnar motores, giram hélices, aviões deslizam. Vidas dentro. Risco eminente. Pombos em bandos, veículos de mil doenças, cobrem a cidade de dejectos. O milho vermelho tem de ser crime?

CAFÉ DA MANHÃ

Vera Mar
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 03:03 PM | Comentários (0)

março 19, 2009

ANTES O CALOR DO INFERNO

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Michelangelo

Como revivo a tristeza que partilhei com a tia freira, quando, após fumo branco, o Cardeal Ratzinger foi eleito papa! Cento e quinze cardeais-eleitores escolheram o mais radical defensor da ortodoxia doutrinária. Não sei onde, salvei cópia. Reza assim: “Avanços ameaçados: A América Latina, onde vive a metade dos católicos, recebeu a escolha com uma ponta de amargura provinciana e preocupação livre de fronteiras: a opção conservadora ameaça avanços sociais e o ecumenismo, observam analistas e teólogos. Até no interior da Igreja encontra reservas. "Um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor", assim se definiu o papa Bento XVI, sucessor de João Paulo II. O novo ocupante do trono de São Pedro é um fiel seguidor da doutrina e severo guardião dos dogmas católicos. Contido, pouco carismático, tornará a Santa Sé mais monolítica, irredutível na actuação e impermeável aos temas da modernidade.”

Que esperar do ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o alemão Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, supostamente ao serviço dos irmãos em Cristo? Exactamente o que adiantou ao condenar o uso do preservativo. E um católico sente mágoa por ser governado por alguém assim. Castidade, com cinto ou sem ele, dias de santidade terrena, olhar cerrado perante o HIV e gestações indesejadas. A França rebelou-se. Angola segue os passos do escândalo.

«A homossexualidade não é normal», considerou D. José Saraiva Martins. Afirmação justificada com a Bíblia. E uma crente convicta, os "não praticantes" como arremedo do “nem me vou, nem me fico”, sente escândalo e vergonha dos regedores da fé dominante neste recanto oeste da Europa. Que Deus lhes perdoe e os salve! Esta escriba prefere o calor do Inferno ao gelo do Paraíso assim proclamado.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 10:11 PM | Comentários (1)

março 18, 2009

QUE NÃO ARDAM AS PÉROLAS

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Ralph Waterhouse

Das pérolas não prescindo mesmo se adormecidas na caixa dos adereços de vez em quando. Vestem a pele nua que mais não precisa do que a fiada. Rematam sedas, algodões ou lãs. Dão brilho ao dia que começa e à noite festa dos sentidos. Se herdadas, ocultam fragmentos de vidas mortas, talvez dores, talvez felicidades, precárias umas e outras. Compõem fiadas outras guardadas na caixa da memória onde alegram rostos de mulheres desbotados pelo tempo. Mães depois avós, bisavós, tias com úteros secos, corações amplos cujas fronteiras desdiziam dos corpos frágeis.

Na hora da sesta, a menina escapulia-se e entrava no quarto dos tesouros. Mimava o visto fazer, escondia os caracóis em écharpes, rolava nas mãos as pérolas, enfeitava dedos e pescoço, crescia nos saltos arrastados até ao espelho onde mirava o resultado. Numa tarde de horas mansas em que encenava a mulher futura, o sol mirrou num repente. Espreitou a montanha em frente. Nada, salvo o negro poisando nas oliveiras. Deslizou no telhado das traseiras, do muro para o jardim pendurada no ramo baixo da nogueira que às águas-furtadas disputava céu. E viu. Ardiam giestas e pinheiros plantados no chão que o granito entremeava. O horizonte de verdes era fogo. O rebate dos sinos acordou a casa. Consternação, horror, medo – quem garante que o pasto seco não conduz aqui as chamas? Enquanto a família e os caseiros organizava a prevenção, a tia Lucinda subiu ao quarto e arrecadou as pérolas no bolso do vestido com flores miúdas.

Da tragédia, a menina fez lembrança triste. A mulher retém-na. Ouve notícias de fogo posto e, de novo, sobe o terror. Porque têm que arder as matas da infância, porque não é feita limpeza preventiva, porque razão loucuras perversas delapidam patrimónios de alguns e de todos? Dizem as albufeiras cheias para o estio sério e para este falso. Mas vai ardendo o longe enquanto o fogo não lambe perto. Como outrora, como hoje.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 11:23 AM | Comentários (0)

março 17, 2009

ALMAS PORTUGUESAS

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Manuela Pinheiro

Em Lisboa, na Av. António Augusto de Aguiar, nº 19, a PNET Artes inaugura, em parceria com a empresa Conceito, uma exposição de Artes Plásticas. Estão representadas obras de, respeitando a ordem alfabética, Augusto Cid, Carlos Oliveira, Carlos Pé-Leve, Conceição Ramos, Ernani Oliveira, Manuela Pinheiro, Pinheiro de Sousa, Silva Palmeira e Saul. Telas e esculturas com suportes técnicos variados, preços díspares que satisfazem gostos e posses variadas.

No magnífico espaço ocupado pela Conceito e pertença da Fundação João de Deus, a exposição está patente ao público, de segunda a sexta, das 9h às 13h e das 14h às 18h. Após este horário, é possível a visita com marcação através do telefone 213581000.

No coração de Lisboa, a arte pictórica deixou o feudo galerista. Pelo amor à paleta e aos bronzes e alabastros, almas portuguesas vivem nas formas, nas texturas e gama cromática. É privilégio reter imagens dos nus em ocre, vermelho imperial e dourados, das maternidades, dos pincéis com skyline em fundo, do fado e dos cavalos, da mulher com renda na liga encimando tronco fundado em pedra, das oliveiras e horizontes fraccionados pela cor, materiais e talentos.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros

Publicado por Teresa C. às 09:01 PM | Comentários (3)

março 16, 2009

EX E JUÍZES

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Michel Gourdon

Tragédias anónimas não fazem cabeçalhos nem directos das televisões. Poupadas as parangonas para sumos com audiências de taberna que paguem salários e encham contas. Mulheres e homens sem rosto raramente são notícia. Mas existem dramas e a injustiça da Justiça que, entre gritos e silêncios domesticados no lar, outrora abrigo, os atingem.

Um tribunal de família demora a tomar decisão sobre o sim ou caldo para cima de quatro meses após a última audiência de um divórcio litigioso. Meio ano em casos certos. Dando corda ao realismo, três quartos do ano talvez. E quem não garante um ano inteiro de espera? No entretanto, há pessoas. Coabitam filhos, mãe, o pai e futuro ex da mulher, ou o inverso, em carne e no papel. Sentimentos (re)partidos. Ódios, amores, dependências e pendências. Pessoas alquebradas. Regressos atemorizados no final dos dias. Sem esperança ou ilusão os dias inúteis da semana que intervalam ofícios de sustento. E o ciclo da terra arrebenta nos troncos esquálidos, o sol interpela corpos e desejos que mais endurece os seres aprisionados no faz-de-conta aos olhos da sociedade e que o decretado ignora. Apetece sexo e vida cheia de sémen e da liquidez que o retém. Diálogo sem pudores ou desgraças como cenário impossível. O real feito ópera bufa pela oposição à legitimidade de quem, pela entrega e pão ganho, comprou bilhete inteiro para a viagem na Terra.(...)

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 07:28 PM | Comentários (3)

março 15, 2009

ESCRITOS NA PEDRA OU NO ADOBE

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Autor que não foi possível identificar

Vinte e Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Testemunhos escritos em pedra ou adobe na história mundial. Contam da lusa alma empreendedora e aventureira por muitos dita passado. Não é tal. Persiste e vem à tona sempre pela mesma razão: furar misérias. Entre elas as dos espíritos que ao leme não revolvem o chão pobre onde se geram vidas e sonhos. Também a da modorra soalheira deste povo coitado que veste negro e canta saudades. Que se arrasta, pena e somente deposita velas de fé no além da fronteira terra e oceano.

Na chegada ao lugar estranho, da matriz que o constitui elabora estar empenhado e criativo sem desbotar o tesouro desenrascado que herdou. Deixa na terra dos fados a preguiça e o desânimo. Leva no bolso a vontade de galgar dificuldades. Que ultrapassa com a agilidade sofrida de quem ao ruim está habituado.

Património da humanidade na forma de igrejas, conventos e fortalezas espalhadas em três continentes é obra grande. Desmerecê-la e dela não construir ensinamento que o orgulho de ser português levante é pecado colectivo que os confessionários não trocam por Ave Marias.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às 11:23 AM | Comentários (0)

março 14, 2009

O FADO DA PROCURA

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Carlos Diez

Vêm perguntas com o sol. Inquietações antigas. Prazeres de hoje subitamente luminosos. E a mulher que ao volante rola no dia e na distância de enganos, ouve a voz cheia de outra fêmea como ela. Porque é socialmente correcto falar de género em vez de sexo, o masculino e o feminino parecem enclausurados numa Torre do Tombo arquivo de papéis centenários. Fossem papiros e o romantismo dos registos pintaria a sépia o descolorido das fotografias de outras eras e gerações que nelas foram vida. E o passado regressa sem coberta de fantasma. O presente enriquece a paleta. E a mulher, que ao volante desliza no alcatrão e sentires, descobre-se bela e enleada em fios de prata. Lindezas para os demais ocultas. No piscar com pressa, deixa a faixa costumada e vai ao Tejo pela beira. No leitor, outra mulher lhe diz o roteiro. Cantarola e repete a faixa de harmonia com ela enquanto curva e vira e muda para faixas outras. Detém-se onde não supunha. A liberdade em dia. O sol no rosto.

“Mas porque é que a gente não se encontra
No Largo da Bica fui-te procurar
Campo de Cebolas e eu sem te encontrar
Eu fui mesmo até à casa do fado
Mas tu não estavas em nenhum lado

Mas porque é que a gente não se encontra
Mas porque é que a gente não se encontra

Já estou sem saber o que hei-de fazer
Se seguir em frente ai Madrededeus
Se voltar atrás ai Chiados meus
E o rio diz que tarde infeliz

Mas porque é que a gente não se encontra
Mas porque é que a gente não se encontra

Já estou farta disto farta de verdade
Vou beber a Bica sentar e pensar
Ver se esta saudade ai fica ou não fica
E talvez sem querer não forem lá ver

Sem te procurar te veja passar
Sem te procurar te veja passar”

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Bernardo

Publicado por Teresa C. às 10:19 AM | Comentários (0)

março 13, 2009

SIM OU NÃO, TANTO FAZ!

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Antonella Cinelli

Noite terna, noite mansa. Estio anunciado fora do tempo. Mini e seda com pele dentro. Esplanada de Lisboa na encruzilhada de doze andares, mais sobrado ou telhado ou cimento, multiplicados por quatro. Os anos sessenta, talvez antes, no crucifixo de avenidas, outrora de elite, hoje de idosos ou arrivistas. Árvores raquíticas por fronteira, postadas em cubos míseros se em Paris, Londres ou Nova Iorque. Na capital soalheira, as outras tremendo frios, que faria ali plantado o casal americano, meia idade, falando de grass e do, dela, flavor? Refastelados no plástico entrançado imitando palhinha que alumínios atendiam, olhavam luzes avulsas e estáticas. Como a mulher atrás sentada, moleskine na mesa, caneta na mão. A espera fruída até ao talo. Como de tudo que lhe apetecia, até o não.

Aquiescer e negar. Condescender e desejar. Diferenças que importam quando tudo se dilui no “deixa andar”, no “sim ou não, tanto faz!”. Confundir, facilidade, catalisar vidas e porquês. CFCs outros. Os CFCs não são tóxicos, não são inflamáveis, são inertes e bons condutores do calor. Poluentes atmosféricos e dos seres que entendem, que poderiam elaborar comportamentos e razões, assim quisessem crescer.

CAFÉ DA MANHÃ
Vera Mar
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 01:22 AM | Comentários (3)

março 12, 2009

FOLHA DE COCA NA MÃO

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Autor que não foi possível identificar

O preço das drogas ditas ilícitas está em baixa. O consumo aumenta. É passado 2008 e desmoronou-se a promessa de dele ser marco de um mundo limpo de subserviências escusadas. O comércio de heroína e coca cresceu mais do que o do petróleo. As dependências com ele.

O actual clima de repressão faliu nos objectivos. A guerra conta a droga, uma de muitas que no planeta fervem, limitou-se a aumentar a conflitualidade violenta entre cidadãos e povos. Ausência de qualquer promissor fruto à vista. As campanhas preventivas revelaram-se incapazes de lavar vícios e curiosidades. Comprar menos ou mais depende do dinheiro no bolso - abundam produtores, fornecedores e armazenistas. Não tarda, os mercados internacionais trocarão a batuta dos barris de referência por sacos de matéria-prima ou transformada que satisfaça a precisão de milhões.

Em Viena, cinquenta países estão reunidos para busca utópica: mundo limpo de drogas. Como se as farmácias não dispusessem nas prateleiras de outras a garantirem alienação, seja pela anestesia ou pela fervura cerebral! Pela primeira vez, "Evo Morales, folha de coca na mão," pode lograr o antes inimaginável: diálogo sério sobre a liberalização do comércio das drogas outras. Perdida está a guerra que não isentou as gentes comuns da condição de vítimas de crimes cometidos à conta do malvado negócio.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 12:18 PM | Comentários (1)

março 11, 2009

ROSÁRIO DAS VIDAS NEGRAS

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David R. Darrow

Dealbam com o dia ainda Inverno. Crianças ao colo ou pela mão. Sacos de plástico inchados ao penduro no braço. Mulheres afrontam o frio e colam-se à parede/muro que a nesga da porta liga ao interior. Tagarelam sem vontade, apenas porque estão. Porque há tempo a desfiar como contas do rosário das vidas negras rabejando o chão. A pele é curtida e morena pela raça, o trajar próprio da etnia - preto comprido nas mais velhas, cor esparsa nas crianças e nas mães que lhes arrastam o sono até à porta da prisão.

Na Marquês da Fronteira, a fortaleza caiada prende infractores da lei. Traficantes de droga, culpados de outros crimes à luz do Direito e da sociedade. Ciganos, muitos deles. Alguns dos cinquenta mil da comunidade cigana em Portugal. Olhada de soslaio pela sina que lêem e sofrem. Pela fama marginal vezes demais confirmada. Pelos cestos onde escondem luxos contrafeitos, olhar no comprador, outro na polícia. Vidas em fuga e habituadas à perseguição.

Pela ausência de soluções que promovam a porca miséria de alguns, persistem na margem negra das cidades. Em Coimbra, a experiência inovadora do Parque Nómada tem resultado. As famílias ciganas que o desejem são integradas num centro de estágio após um acordo que obriga a comportamentos sãos. E começa a pedagogia de formas de estar aceitáveis. Cumprido um ano de permanência, é feita uma avaliação traduzida nos pontos que o ajuste conquista. A casa chega por fim, sem que nela perpetuem desgraças antigas e seja retomado o caminho da exclusão.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 08:04 AM | Comentários (2)

março 10, 2009

NOS LENÇÓIS E NO CHÃO

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Silva Palmeira

Voltou à porta/janela. Ao horizonte de onde via, longe, o mundo. Ao «só» conquistado. Às gruas que também faziam paredes. As dela num amanhã talvez – insubmissa, era lá mulher para betão interposto aos acordares? Jamais o leite descafeinado da manhã tivera muros. Rádio, sim. Ligado, ainda sonâmbula, em simultâneo com a Nespresso. Um Nokia branco de cozinha. Devia estar suspenso no vão definido pelos arrumos superiores. Prezando a geometria linear, negara descompô-la. Para sempre – ela que na ciência aprendera a rejeitar «nuncas» e «sempres» arrogantes – apoiado no granito pintalgado de mica. Que brilhava à mistura com a brancura do quartzo. O feldspato compunha a paleta. E dizem o negro facilidade na pintura… A cor que todas as outras absorve é mais do que o «pintado» pelos críticos nas teclas. Debulham razões como quem descamisa milho. Sem rubro rei que faça a diferença na festa da colheita. Sem beijocar repenicado nas moçoilas, fugidio nos mancebos que deixaram de o ser. Não-saber construído e à venda para quem mais der no leilão do nome grande inscrito em letra de forma ou vozeado nos ecrãs.

Na doçura do que fora refúgio intermitente, pisca ao serviço da liberdade de mudar de faixa quando era urgência a outra margem, fizera casa. Casamento. Conjugalidade de mulher só e homens alguns. Poucos, muitos, os que filtrara e dela e nela fundaram fugas, imitações livres desenvolvidas em estilo polifónico. Ricos dias, dias ricos. Em qualquer momento, renovados. Aprendizagem do algoritmo da vida cheia. Boa. Serena. Revolta nas teclas, nos lençóis e no chão.

CAFÉ DA MANHÃ
Leonor Barros

Publicado por Teresa C. às 09:02 PM | Comentários (2)

março 09, 2009

TAC «MENTO-PÚBICA»

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Julie Bell

Eles, salvo entrados nos setenta dos muitos para cima, aparecem vestidos e dignos. Vinte a trinta anos mais novas, elas chegam de roupão. Gemem, arfam pelo oxigénio que juram não inspirar. Põem no caos a urgência. Rebelam-se contra a senha e exigem triagem no momento em que se abeiram do balcão. Reclamam acesso directo ao milagreiro com estetoscópio dependurado e vestido com bata branca. Os médicos maçaricos afligem-se: falta de ar, dor no peito, sintomas confundidos que podem denunciar logro ou enfarte ou asma em pico. Pelo sim, pelo não, não as teça o mafarrico, atam-lhes o laranja no pulso. Enquanto o altifalante não grita o nome respectivo, elas subvertem a espera dos silenciosos que, pela gravidade da maleita, nem forças reúnem para gemer. Desacomodam as gentes menos mal que fazem coro grego com os ais e se indignam com a indiferença cruel perante eminência de morte no linóleo.

Conduzidas ao médico que no banco, a duras penas, aprende a desconfiar do volume de som dos sintomas, são explícitas: “Há quatro anos que isto me aflige. Da outra vez que sofri do mesmo, um colega seu aliviou-me num instante.” - “Era amargo o remédio?” Que sim, que era, mas melhor que mão da Senhora de Fátima na testa. E surge o copo com coisa dentro. Num golo, bebe-a. Minutos passados, (...)

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 02:12 PM | Comentários (0)

março 08, 2009

CEREJA EM CONSERVA

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Autor que não foi possível identificar

De precariedade são feitos os dias que, por ora, deslizam. Emprego, consumos, amores, não escapam. Tempo fugido à desfilada. Tempo fast: fast-food, fast life. Se light ainda melhor. Evitam-se açúcares, atasca-se a vida de gorduras encimadas por cerejas de conserva. As sms como diálogo entre seres que evitam o frente-a-frente e a leitura de um olhar. Rápidas, rapidinhas, (des)alinham emoções e sentimentos instantâneos, prontos a servir. Nada de grave - passagem, evolução social. Enquanto isto…

Uma mulher é transferida pela empresa para trabalhar noutra cidade. O marido fica, ela vai. Passadas semanas, o respectivo recebe uma sms - “Por favor, envia urgentemente documentos para o divórcio. Encontrei o companheiro ideal que possui as mesmas características do novo 408 Sedan da Peugeot.”

Desesperado, o cônjuge corre a um concessionário da marca e pergunta quais as características do novo 408 Sedan. O vendedor informa-o: “É mais potente e bonito, mais comprido, mais largo, mais rápido no arranque e não bebe muito.”

Reage. Escreve uma sms rezando assim: “Mandei os papéis para o divórcio. Assina rápido! Encontrei uma companheira ideal que reúne todas as qualidades da nova HILUX da Toyota.”

Curiosa, a mulher vai a um concessionário Toyota e quer saber da tal HILUX. Palavras do vendedor: “É mais resistente, suporta mais carga, tem lubrificação garantida, carroçaria nova, redonda, bonita, confortável, air-bags generosos. Permite engate dianteiro e traseiro.”

Nota: Apontamento adaptado doutro, que mui agradeço, enviado pelo António Eça de Queiroz.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá

Publicado por Teresa C. às 10:50 PM | Comentários (4)

março 07, 2009

NO RANKING DAS «GORDAS»

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Stuart Codington Andrews

É refrescante ter notícia de factos que promovem o país no ranking da (a)normalidade europeia. Deixar vagos lugares na cauda das estatísticas aconchega os portugueses. E nem é desejado saber se por boas ou más razões. Subirmos, basta. Aliás, habituados a ler e ouvir somente as «gordas», o sumo da questão é lateral ao entendimento.

Na Assembleia da República, abunda anedotário que os deputados protagonizam. Pessoas como todas. Deslizes e infelicidades nos gestos e no falar são direitos que lhes assistem. Ontem, a propósito do alegado favorecimento da Martifer e da Bosch na instalação de painéis solares, José Eduardo Martins, PSD, não gostou de um aparte de Afonso Candal, deputado do PS. Este terá insinuado que aquele tem interesses na área em debate. Indo emotiva a picardia, o primeiro desafia o segundo a travarem razões fora do hemiciclo. Ficou por saber se o duelo proposto era de língua ou de punhos cerrados ou semelhante ao de espadachins desaguisados. Delírios que o sangue latino também esquenta.

Das coscuvilhices com foro de Estado, não se livrou Dias Loureiro acusado de «amizade» com o empresário libanês Abdul Rahman El-Assir, putativo testa-de-ferro do BPN. Armando Fonseca Pinto, inquirido em comissão e na qualidade de ex-administrador do banco, afirmou: “Havia uma cambada de irresponsáveis que não perceberam que podiam pôr em causa a credibilidade do banco e muita gente por via daquilo que fizeram”. Não se eximiu a citar nomes da cambada.

Não fossem os protagonistas das novelas parlamentares tão feios e carecidos de restyling, excepcionalmente, ligaria a televisão. Sentada à chinês no sofá ou no tapete, faria do petisco ao domicílio “Tubo de Ensaio” gerido pelo Bruno Nogueira.

CAFÉ DA MANHÃ
Nova Crónica de José Sacramento no PNET Artes:

(...) Coimbra e Aveiro são duas realidades culturais bem diferentes… Sabendo que Coimbra foi já a primeira Capital de Portugal, detentora de uma das mais antigas Universidades da Europa, principal e mais povoada cidade da região centro, apelidada de Cidade do Conhecimento; berço de movimentos filosóficos, artísticos e literários de vanguarda nacional, entre vários exemplos possíveis, seria de esperar, uma Cidade Culturalmente Activa: espectáculos de rua, concursos, exposições, tertúlias, teatro, música, dança, etc., em suma, que todo o tecido populacional fosse “contagiado” por esse espírito, natural de uma cidade com este curriculum. Na realidade, Coimbra “paralisou” neste contexto. (...)

Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às 02:29 PM | Comentários (0)

março 06, 2009

IRRITANTE DIREITO!

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Blas Gallego

Acho bem! O tal irritante direito à opinião. Vício. Porque opinar é fácil, a armadilha persiste. O bom e o mau. O gosto e o contragosto. Farta da permanente desculpabilização dos maestros da «coisa pública» quando as contas e a incúria vêm a lume, seja porque a ponte de Entre-os-Rios caiu ou dá prejuízo a empresa onde entram milhões dos contribuintes, rejubilei. Ingénua criatura!, ouço amiúde. Serei – preservo a inocência possível de quem não desiste do olhar confiante assestado nos outros. E não é frequente a desilusão. Prova bastante de existirem mais pessoas boas que ardilosas. Ou a fortuna me acautela e tenho a protecção reservada aos bêbados e às crianças – a uns e outros põe Deus a mão por baixo -, ou razão me assiste no acreditar.

Conhecedores associam corrupção aos subdesenvolvidos do mundo. Não contesto. Porém, é dado assente que lobbies e embalos existem em todos os povos de Norte a Sul do planeta – a vulnerabilidade moral dos homens faz parte da matriz que o ADN encaracola. Cá como em todo o lado, subornar é verbo habilmente conjugado.

O Conselho de Prevenção da Corrupção decidiu medir o actual estado da guerra anti-corruptores e corrompidos. Guilherme d'Oliveira Martins, Presidente do Tribunal de Contas, convocou quinhentos gestores públicos, sem contabilizar municípios. Que a culpa não morra virgem, é o fito. “Má gestão, pena à vista” surge como ordenamento novo e justo. Sendo curto o dinheiro dos portugueses, desbaratá-lo ou nele permitir assento a vendilhões do património comum é crime. Porque madraços e desleixados abundam, que sejam inquiridos os homens ao leme dos euros suados por todo um povo.

CAFÉ DA MANHÃ
Vera Mar
Carlos Amaral Dias

Publicado por Teresa C. às 10:25 PM | Comentários (3)

março 05, 2009

VÉNUS SEM CAMISA

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Alberto Vargas

Os dichotes sob a forma de forwards saltam como castanhas em braseiro quando é aberto o Outlook. Os delicodoces vão para o lixo, de alguns faço colecção da qual, oportunamente, me sirvo. O anedótico de um povo em muito se aproxima de inquestionável compêndio de História. Estou em crer que, gerações mortas, outras nascidas, nele vibrarão leituras de memórias colectivas complementares do Diário da República. Investigador sério não pode ignorá-lo. Se o fizer é distraído e tem falhanço à vista.

Um exemplo seguido do “Esta vale a pena. Desculpem o palavreado, mas...”

“O governo Sócrates é igual a camisa de Vénus.

Explicação: a camisa de Vénus permite inflação, impede produção,
destrói a próxima geração, protege um bando de car(v)alhos e ainda
transmite um sentimento de segurança, enquanto na verdade, alguém
está fodendo alguém.”

Remate: “Incontestável. Descrição perfeita.”

Quem esteja nos antípodas do posicionamento político não prescinde do sorriso pela magnífica construção do sofisma. Pela síntese assertiva não de um governo mas do povo que nele delegou o rumo. Seja substituído o "governo Sócrates" pelas palavras "povo português", e continua a fluir o riso. Somos danados para a ironia cínica. Votamos, «asneiramos» ou não, e, depois, preservamos na sátira das próprias opções. Rir dos outros é subtil e inconsciente forma de rir de quem somos. Saímos fiéis no retrato. Dele o gozo que a cada um cede um pouco.

CAFÉ DA MANHÃ
Madalena Palma
Rui Pelejão

Publicado por Teresa C. às 01:41 PM | Comentários (4)

março 04, 2009

A CONJUGAÇÃO DO TER

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Matthew Carlton

Poupar foi palavra e acto esquecido nas últimas décadas portuguesas. A reboque dos milhões que ao extremo ocidental do respectivo continente a Europa rica enviava, a Primavera económica floriu esperanças de vidas novas. Como frutos, ilusões de bem-estar traduzidas em consumo. Pela deficiência na política de habitação, o mercado de arrendamento definhou e a “casa própria” adquiriu contorno de regra social. A “segunda habitação” seguiu os passos da primeira. Os senhorios deixaram de ser quezilentos dados a farejar incumprimentos na cara do arrendatário. Em vez deles, o sorriso dos bancos – compre hoje, pague depois, passe para cá o depósito do ordenado e tome lá o cartão de crédito para comprar e pagar mais tarde ainda.

Nas gerações anteriores, a poupança era estimada pelas famílias. Em cada mês, o cinto das despesas mantinha-se apertado e sobravam tostões que em cima de outros enchiam o pé-de-meia. “Para uma aflição”, era dito. O “chapa ganha, chapa gasta” viria, depois dos cravos, a estar na moda.

Pelos gastos ociosos, pela deseducação económica nas famílias, pelos imaginários servidos à la carte e condimentados por beldades douradas entre palmeiras, pela atávica pobreza nacional, a bocarra dos credores engole o salário recém-chegado. As mal afamadas dívidas foram rebaptizadas – crédito suaviza a penúria real e perpetua o “faz de conta”. Até um dia. Até agora. Arruinadas as finanças individuais e colectivas, que os sonhos troquem a conjugação do ter pela do ser.

CAFÉ DA MANHÃ
Paula Capaz
António Costa Santos

Publicado por Teresa C. às 11:46 AM | Comentários (2)

março 03, 2009

DEPOIS DA PRAÇA DE ESPANHA

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Autor que não foi possível identificar

Depois da Praça de Espanha. A Comuna à direita. Em frente, o alcatrão para a outra margem. Jazz dentro e fora. 8: 01 am. Encarnado. Uma, semana e meia atrás? Talvez. Saltitava no empedrado. Embiocada em negro. Mochila cor-de-rosa alçada nos ombros. A Barbie na estampa. Um metro, nem tanto!, de criança. Túnica e calças negras sob o abafo pimkie. Pulando, evitava regatos de lama. Um homem, pai, à frente. Moreno na tez, preto no trajar. De raro em raro, torcia o pescoço e olhava a petiz. Ela, muda, estugando o passo para segui-lo.

Desde o semáforo que corta o rodado dos pneus para a de Berna, vira a pequena figura. Frágil. Em negro e rosa. Chegada a cor que dizem ser da esperança, persegue a visão. Vale o tráfego lento. Dá-lhe instantes para imprimir na retina a sopa cultural – bioco, preto, barbie, pimkie . A Mesquita logo acima, pensou enquanto o retrovisor diluía as figuras. Pai à frente, filha a passos anteriores aos dele. Comum seria a mão na mão. O afecto entrelaçado. Os metros desmentindo o nó de sangue.

Voltou ao “monte de sarilhos” avisados pelo Cardeal de Lisboa. Respondidos por “Yiossuf Adamgy, director da Al Furqán e autor do livro «Muçulmanos esclarecem o cardeal D. José Policarpo». Destinado a muçulmanos e não-muçulmanos, o livro coloca lado a lado o que dizem a Bíblia e o Corão sobre a natureza feminina, o papel da mulher, o casamento, o uso de véu, a poligamia e o incesto.
Reforçando a ideia de abertura e diálogo entre as duas religiões em Portugal, Yiossuf Adamgy escreve no livro que, de facto, o casamento pode vir a ser «um monte de sarilhos», seja para católicos seja para muçulmanos, «sobretudo quando não há tolerância, paciência e bom senso».”

Como em todos os casais que ombreiam culturas diversas. Sem explicar, porém, a distância negra da menina.

CAFÉ DA MANHÃ
Do querido Amigo Justo, mais um mimo. Obrigada.

Leonor Barros

Publicado por Teresa C. às 10:37 PM | Comentários (7)

março 02, 2009

CICIOS NO BANCO DE TRÁS

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Autor que não foi possível identificar

No tempo dos cicios, do esvaziar ardente no banco de trás, da flecha depois reerguida na luta do desejo que na carne se cumpre e vai além, era tempo de ideais. Paixões. De contestar normas, o definido pelos poderes da família vinculados pela obediência ou subversão às censuras em letra nos decretos e àquelas escritas com tinta invisível. A quem inaugurava abertura do espírito e do corpo importava saber dos pares na idade e no arrojo no estar. Horizonte adulto como sinónimo de conformação. Indesejado. O tédio e os desconchavos da família como buracos que o “nunca eu!” sublinhava a negro. Decisões inchadas de ignorância. O futuro embrulhado em arco-íris. O sangue latejando nas bocas que os sobressaltos do coração faziam girar. E havia entregas assustadas nos esconsos, na casa precariamente vazia se os pais diluíam a modorra do domingo cruzando a Linha, na cama emprestada pelo amigo, na areia que a toalha de praia descobria. Talvez fumo transgressor marcasse a (in)diferença, diluindo razões confusas. À ida, frutos imberbes. No regresso, julgados homem e mulher pela liquidez da gruta que sentira a rijeza complementar. (...)

CAFÉ DA MANHÃ
Teresa C.
Mauro Castro

Publicado por Teresa C. às 06:56 PM | Comentários (4)

março 01, 2009

O ELOGIO DA RESERVA

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Antonella Cinelli

Das vidas às escâncaras também é feito o presente. Despem-se intimidades nas publicações em papel, na múltipla televisão, nos monitores com olho/câmara por perto ou incorporado, nos falares. Nem o reduto onde cada um é quem de verdade é, o espaço domesticado, está a salvo. Abrir porta e janelas a visitas soalheiras é gosto. Desgosto se a consciência da destrinça entre o fundamental e o acessório cai no erro da dispersão. O sentimento de cedência sobrevém e inquieta quem não desiste dos porquês dos comportamentos onde resvala. Não que o choro pelo leite derramado seja modo de estar; porém, dos gostos e desgostos convém tomar notas. Deles constituir aprendizagens. Nos futuros possíveis, não arquivar experiências em gavetas sem fundos.

Deixar aberta a porta da generosidade é nascente de correnteza de gestos e agrados - que fiquem de lado desilusões menores e não asfixiem o melhor que do património humano consta. Estreita é a passagem para a promiscuidade. Para o espiolhar do ser que nos nadas é muito. Para a facilidade do retrato. Como se a pessoa fosse resumida a haveres e estares sociais. E nunca é passível de síntese apressada. Jamais, telegrama económico.

CAFÉ DA MANHÃ
Marta Botelho
João Moreira de Sá.

Publicado por Teresa C. às 09:41 AM | Comentários (0)