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março 14, 2009
O FADO DA PROCURA

Carlos Diez
Vêm perguntas com o sol. Inquietações antigas. Prazeres de hoje subitamente luminosos. E a mulher que ao volante rola no dia e na distância de enganos, ouve a voz cheia de outra fêmea como ela. Porque é socialmente correcto falar de género em vez de sexo, o masculino e o feminino parecem enclausurados numa Torre do Tombo arquivo de papéis centenários. Fossem papiros e o romantismo dos registos pintaria a sépia o descolorido das fotografias de outras eras e gerações que nelas foram vida. E o passado regressa sem coberta de fantasma. O presente enriquece a paleta. E a mulher, que ao volante desliza no alcatrão e sentires, descobre-se bela e enleada em fios de prata. Lindezas para os demais ocultas. No piscar com pressa, deixa a faixa costumada e vai ao Tejo pela beira. No leitor, outra mulher lhe diz o roteiro. Cantarola e repete a faixa de harmonia com ela enquanto curva e vira e muda para faixas outras. Detém-se onde não supunha. A liberdade em dia. O sol no rosto.
“Mas porque é que a gente não se encontra
No Largo da Bica fui-te procurar
Campo de Cebolas e eu sem te encontrar
Eu fui mesmo até à casa do fado
Mas tu não estavas em nenhum lado
Mas porque é que a gente não se encontra
Mas porque é que a gente não se encontra
Já estou sem saber o que hei-de fazer
Se seguir em frente ai Madrededeus
Se voltar atrás ai Chiados meus
E o rio diz que tarde infeliz
Mas porque é que a gente não se encontra
Mas porque é que a gente não se encontra
Já estou farta disto farta de verdade
Vou beber a Bica sentar e pensar
Ver se esta saudade ai fica ou não fica
E talvez sem querer não forem lá ver
Sem te procurar te veja passar
Sem te procurar te veja passar”
Publicado por Teresa C. às março 14, 2009 10:19 AM