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março 28, 2009

SABEDORIA DE MULHER

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Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus bens pessoais em caixas e malas. No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram os bens pessoais. No terceiro dia, ela se sentou pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e deliciou-se com uns camarões, caviar e uma garrafa de Chardonnay. De seguida, em cada uma das divisões colocou nas cavidades dos varões das cortinas pedaços de casca de camarão, besuntados com caviar. Limpou a cozinha e saiu.

Quando o marido retornou com a nova namorada, tudo estava um brinco nos primeiros dias. Pouco a pouco, a casa começou a feder. Tentaram tudo: lavaram, arejaram a casa, verificaram todas as aberturas de ventilação, não contivessem ratos mortos. Os tapetes foram limpos com vapor. Desodorizantes de ar e ambiente espalhados pela casa. A empresa de desinfecção introduziu gás tóxico nas canalizações. Durante alguns dias, o casal teve de sair de casa e, no regresso, o cheiro nauseabundo persistia.

Os amigos deixaram de os visitar. Os funcionários das empresas de consertos recusavam-se a trabalhar na casa. A empregada demitiu-se. Finalmente, decidiram mudar de casa. Um mês depois, apesar de terem reduzido para metade o valor da casa, não existiam compradores. A notícia correu. Finalmente, foram obrigados a contrair um elevado empréstimo para comprar outra habitação.

A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas. Ele contou-lhe o martírio da casa podre. Ela escutou pacientemente e disse das muitas saudades da casa antiga e estar disposta a reduzir a parte que lhe caberia do acordo de separação dos bens, em troca da casa. Convencido de que a ex não fazia ideia do fedor, ele acordou num preço cerca de 1/10 do real valor se ela assinasse os papéis naquele mesmo dia. Assim foi. Menos de uma hora depois, o acordo estava consumado.

Uma semana depois, o homem e a namorada assistiam, com um sorriso malicioso, aos homens da mudança levando os respectivos pertences para a nova casa. Os varões das cortinas também.

Nota - Texto adaptado de outro seleccionado pelo belíssimo gosto e humor do António Eça de Queiroz que hoje publica no PNET Homem a crónica semanal.

CAFÉ DA MANHÃ
Célia Bernardo
António Eça de Queiroz

Publicado por Teresa C. às março 28, 2009 12:08 PM

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