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maio 17, 2009
FALTA CARA E UM BRACINHO
Antes do texto diário, há que divulgar a inauguração da Exposição "De 1958 a 2009" do Pintor Silva Palmeira, pelas 17h, na Câmara Municipal de Alcanena.
Belíssima forma de terminar a tarde de Domingo.

João Cutileiro
«Falta cara e um bracinho» à estátua do Marquês em Vila Real de Santo António. «O cabelo parece uma esfregona». «É uma estatueta feia». Opiniões dos populares que acordaram, surpresos, para a escultura, oito metros de altura e outras tantas toneladas, prantada na Avenida da República. Alguém perguntou:
_ Então só tem caracóis? Onde está a cara?
_ Talvez num dia de vendaval os caracóis lhe destapem o rosto.
Malfeitoria ao Marquês que dizia a cidade tão bem situada que Espanha estava a um tiro de canhão?
Apetece reproduzir diálogo lido não sei onde (péssimo hábito de não registar fontes).
“Dona Luthgarda de Caires (a estátua) já vive à beira do Guadiana desde Setembro de 2005. Não se pode dizer que tenha sido um período feliz para ela, arcando sozinha com a responsabilidade de vigiar a longa via de comunicação da “vila” – a nossa Avenida da República. A sua única companhia fiel são os motoristas de táxis que têm o seu “espaço de atendimento” a poucos metros dela e os muitos turistas que se fazem fotografar, alguns mais atrevidos, apalpando-lhe despudoradamente as suas anafadas mamas de mármore branco.
Luth ficou radiante quando soube que o Marquês de Pombal vinha para junto dela, perpetuado numa escultura marmórea do conceituado escultor João Cutileiro e com a sua colocação inicialmente prevista para Estrada Norte (na zona da Barquinha). Ela nunca simpatizara muito com o Marquês, pelo que se dizia ter feito aos Távora, mas quis sossegar a sua inquietude pensando, que ao fim de tantos anos, talvez ele tivesse acalmado e deixado para traz o seu despótico feitio.
No entanto, depois de retirado o tapume que havia resguardado dos olhos indiscretos as obras de adaptação da fonte central, para receber condignamente o Marquês, ela via chegado o tão desejado momento com alguma apreensão, porquanto o Marquês ainda não se tinha dignado olhar para ela nem uma única vez.
_ Não sei o que ele terá metido na cabeça. Provavelmente julga-se mais do que eu!? É certo que foi o fundador da terra onde nasci e que foi “parido” por um escultor de prestígio, mas eu já aqui estou há muito tempo e além disso sou uma senhora!
Luth não via a hora que os intermináveis discursos acabassem e as individualidades civis, militares e religiosas, e o muito público que se havia concentrado junto da estátua para assistir à sua inauguração, se fossem embora, para poder usufruir de alguma intimidade com tão ilustre vizinho, que iria quebrar a sua longa solidão, repartindo com ela a beira-rio, durante todo o tempo que os “nossos” políticos quisessem.
Tinha tantas perguntas para lhe fazer. Quantas questões relativas à sua/nossa Terra.
“- Então senhor marquês, está satisfeito com o local escolhido para viver em Vila Real?
- Dona Luthgarda, não me trate por marquês, por favor. Trate-me por Batão.
- Nesse caso o Batão vai-me tratar por Luth, está bem?
- Combinado.
- Diga-me lá então: Está satisfeito com este local onde vai viver na “vila”?
- Estou. É uma boa solução, melhor do que olhar para o Esteiro da Carrasqueira, e põe fim a uma fonte, que, segundo me disseram, passava a maioria dos dias sem deitar água. Mas, respondendo à sua questão, preferia ficar virado para o rio.
- Também eu teria preferido. Mas, pelo menos assim, o Batão poderá acompanhar a evolução e o progresso da “vila” que fundou.
- A Luth disse bem: A evolução! A nossa “vila” está a ficar linda! Mas vossemecê já viu no que transformaram os “meus paços do concelho”? É indiscutível que o edifício necessitava urgente intervenção, mas o que resta do estilo que leva o meu nome? O tecto de zinco lembra-me as favelas cariocas, as janelas parecem as vigias de um oceanário, por onde pode aparecer a todo o momento um cardume de lulas das Malvinas, de trombeiros de Madagáscar, ou de xarrocos da Polinésia e as portas de aço inoxidável lembram as do Fed (Federal Reserve Bank of USA). Dizem-me que os seus Criadores se inspiraram no Centro Pompidou de Paris e no Museu Guggenheim de Bilbau.
- Caro Batão, eu também acho a solução horrível! E o relógio… que lhe parece?
- Do relógio nem quero falar. Olhe Lute, quando eu vivia no Terreiro do Paço, recebi uma vez um embaixador de Castela e a propósito de uma decisão que o monarca castelhano havia tomado, com a qual o embaixador não concordava, este usou uma expressão que nunca mais esqueci e que se adapta bem a esta obra: Es una chapuza!
- Oh Batão, há uma coisa que me intriga e como a mim, a muitos cidadãos e talvez vossemecê me saiba responder: A partir de hoje e perante este conceito contemporâneo do “estilo pombalino”, um cidadão poderá ser impedido de remodelar um seu imóvel, até aqui “espartilhado” pelos intransigentes e fundamentalistas defensores do estilo pombalino genuíno?
- Não sei responder-lhe. Haverá que auscultar a SRU. Mas falemos de coisas mais alegres. Vamos beber um copo a qualquer lado?
- Com muito prazer. Vai-me fazer bem, depois de estar tantos anos sem sair daqui.
E com ar coquete, perguntou ao marquês:
- O Batão reparou que estou com traje de soiré?
- Então não repararei. E digo-lhe mais, fá-la muito mais esbelta.
- Que galante, marquês! Perdão! Batão!
E encostando o leque à face num gesto sensual e intrigante, estendeu a mão ao marquês, sussurrando-lhe:
- Vamos Batão?!
Radiante de felicidade e com um suspiro que lhe saiu do fundo do alvo mármore estremocense, o marquês disse:
- Vamos Luth. A noite é nossa”
Publicado por Teresa C. às maio 17, 2009 01:38 AM
Comentários
para diálogo citado de cor, está bem interiorizado, dir-se-ia apropriado, mesmo, ali´s de uma genuinidade a pedir meças a autor ou ortonomia de gabarito - como o mármore proveniente dos "olivais" de Vila Viçosa, ou de local inominado, a que fica tão bem baptizá-lo de Estremoz, sempre é outro pedigree
a propósito (que importa de quê?) convirá reconhecer que o estilo pirilau faz ao imaginário que nos foi imposto do Marquês de Viena o mesmo que o dito fez aos de Távora, se bem que nesse caso haveria razões mesmo que da esfera da irracionalidade
e o que é a arte senão a irracionalidade a tomar conta? ou damos a mão a D. Lutinha e arre de charrete pela República onde um Marquês assenta como na Liberdade!
;->>>
Publicado por: António às maio 17, 2009 02:24 AM
Dona Luta,
Com esta crise filha da putativa descaradez dos tubarões do pilim,
tem que me ver sem a cara exigência de dar a cara,
pois morreria de ver guenza... pre firo estar assim.
E o que aqui me traz,
não, não foi o deixar atrás o meu bom mau feitio: endureci e já não dobro,
fico aqui a ver se cobro, dias a fio,
aos espanhóis.
Desafio, cara encoberta,
que não me reconhecem, pela certa
passei a marquês de Cara-Cóis!
Ridendo castigat mores ;-)
Publicado por: zeka às maio 17, 2009 03:36 AM
Zeka e António - que graças congreguei para ter comentadores assim? A não-resposta, que para mim tenho, em nada interfere com a alegria de vos saber e ler.
Publicado por: Teresa C. às maio 17, 2009 02:34 PM
uma salva a Silva Palmeira, em boa hora a preceito entrevisto na Conceito!
outra para quem apoia assim!!
a cereja no domingo!!!
Publicado por: António às maio 17, 2009 11:12 PM
António - o Silva Palmeira é Pintor maior. Merece reconhecimento nacional. Infelizmente não cuida de lobbies e não se mostra, excepto em Paris e poucos sítios mais.
Publicado por: Teresa C. às maio 21, 2009 03:47 PM
